quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Trekking Langtang-Gosainkund-Helambu (Nepal) - out/18

Vale do Rio Langtang com as montanhas Penthang Karpo Ri, Langshisha Ri e Gangchenpo
Início: Syabrubesi
Final: Sundarijal
Duração: 13 dias
Maior altitude: 4651m no Passo Laurebina La (se não considerarmos o pico Tsergo Ri, que é uma caminhada opcional)
Menor altitude: 1377m em Sundarijal
Dificuldade: alta. Muita subida e muita descida quase todos os dias, com desníveis de até 1100m diários. Por ultrapassar os 3000m de altitude é necessário fazer aclimatação. O Passo Laurebina La, de 4651m, impõe uma dificuldade a mais.
Permissões: TIMS Card (Rs 2000 = US$ 17,36), entrada do Parque Nacional Langtang (Rs 3400 = US$ 29,51) e entrada do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun (Rs 1035 = US$ 8,98)

Obs.: antes de ler este relato sugiro a leitura do meu "Pequeno guia de trekking independente no Nepal" para ter as informações básicas para as caminhadas naquele país.

Os trekkings Langtang, Gosainkund e Helambu podem ser feitos separadamente com duração de 7, 8 e 6 dias, respectivamente, variando esse tempo de acordo com o ritmo e as caminhadas de bate-volta que se queira agregar à trilha principal. Porém, para quem dispõe de mais tempo, o melhor mesmo é combinar os três num único roteiro já que estão naturalmente interligados. E foi o que eu fiz na minha primeira experiência em trilhas no Nepal. Com as trilhas de bate-volta que fiz o roteiro totalizou 13 dias.

Ao longo do relato colocarei o nome das vilas com as variações de escrita mais frequentes e também pelos diferentes nomes que constam nos mapas e nas placas.

No percurso desse trekking há muitas fontes de água, como riachos no meio da trilha e torneiras ou bicas nas vilas. Não cito todas no relato porque são muitas. A água deve sempre ser tratada, conforme explico no "Pequeno guia de trekking independente no Nepal".

As operadoras de celular que funcionam em alguns dos povoados durante os três trekkings são:
. de Syabrubesi a Lama Hotel: NCell
. de Lama Hotel a Kyanjin Gompa: Sky
. Sing Gompa: NCell, NTC/Namaste
. Gosainkund: nenhuma funciona
. Ghopte: NCell, NTC/Namaste
. Tharepati: NCell, NTC/Namaste
Essas informações obtive com os moradores, eu mesmo não testei nenhuma operadora.

Todos os preços abaixo estão na moeda do Nepal (rupia nepalesa) e convertidos para dólar pela média dos câmbios que encontrei em Kathmandu entre outubro e dezembro de 2018 (US$ 1 = Rs 115,20).

Para mostrar a variação de preço das refeições em cada povoado ao longo do trekking coloco ao final de cada dia o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente.

Rio Langtang e as montanhas Tsergo Ri e Gangchenpo ao fundo
Trekking Langtang

Início: Syabrubesi
Final: entre Pairo e Domen eu saí da rota Langtang e passei para o trekking Gosainkund
Duração: 8 dias
Maior altitude: 3856m em Kyanjin Gompa (se não considerarmos as trilhas opcionais a partir de Kyanjin Gompa)
Menor altitude: 1417m na ponte suspensa sobre o Rio Bhote Koshi
Dificuldade: média (para quem está acostumado a caminhadas longas com mochila cargueira)
Permissões: TIMS Card e entrada do Parque Nacional Langtang

O trekking Langtang percorre em três dias o trajeto entre Syabrubesi (Syafrubesi) e Kyanjin Gompa (Kyanjin Gumba), saindo dos 1445m e chegando aos 3856m de altitude. Todo o percurso é feito pelo vale do Rio Langtang, que corre encaixado entre montanhas e picos nevados. No primeiro dia e meio a caminhada se dá por dentro de uma linda e exuberante floresta, depois a visão se amplia no trajeto a céu aberto com incrível visual das montanhas. A vila de Langtang foi quase toda destruída durante o terremoto de abril de 2015 por uma avalanche causada pelo desprendimento de uma geleira do pico Langtang Lirung, mas a parte mais alta da vila continua existindo e os familiares das vítimas seguem tocando a vida.

06/10/18 - ônibus de Kathmandu a Syabrubesi (Syafrubesi)

No dia anterior (05/10) eu havia tentado ir a um local chamado Macha Pokhari em Kathmandu para saber horários e preços de ônibus para Syabrubesi, mas não tinha conseguido encontrar o tal lugar. Essa parada de ônibus fica junto ao anel viário da cidade, um lugar mais caótico, sujo e empoeirado que o padrão do resto da cidade. Perguntei para algumas pessoas mas ninguém me entendia. Depois descobri que era mais longe do que eu pensava, já próximo do Terminal Gongabu.

Nesse dia resolvi pegar um táxi às 6h da manhã e o motorista ia se virar para encontrar o lugar de saída do ônibus. Ele também perguntou para algumas pessoas e finalmente entrei no ônibus para Syabrubesi, que partiu em seguida, às 6h25. Não existe um terminal em Macha Pokhari, o ônibus que tomei estava parado na rua mesmo (coordenadas 27.73568ºN 85.30517ºL). Havia alguns poucos estrangeiros (dois espanhóis e um indiano) e o ônibus, apesar de pequeno, não saiu lotado. Porém durante a longa viagem até Syabrubesi ele lotou e esvaziou diversas vezes. Mas uma coisa eu preciso enfatizar: essa viagem é HORRÍVEL. Assim, em maiúsculas mesmo. São apenas 126km que o ônibus faz em 8 horas e 45 minutos (!!!) pois a "estrada" (eles chamam aquilo de estrada) é um caminho de buracos, pedras e muita poeira, com lama às vezes. O caminho é estreito e beira abismos em muitos trechos, o que garante a emoção já que a qualquer momento a sua viagem pelo Nepal pode terminar no fundo de um rio centenas de metros abaixo. São quase 9 horas pulando e chacoalhando dentro desse ônibus, às vezes batendo a cabeça no teto e o ombro no vidro. Mas a "linda" trilha sonora nepalesa está garantida e no último volume.

O ônibus é pequeno e não tem banheiro. São feitas algumas paradas para todos se aliviarem, às vezes no mato da beira da estrada mesmo. A parada para almoço foi às 10h e mais tarde houve outra parada para comer.

Em dois checkpoints em Dhunche (por volta de 14h15) eu e os outros estrangeiros tivemos que descer para mostrar as permissões. O indiano não as tinha e teve que pagar ali na hora. No primeiro checkpoint também quiseram revistar as mochilas, mas no meu caso não pediram para tirar tudo de dentro, apenas algumas coisas, examinaram e liberaram. Procedimento ridículo sem a menor eficácia, só para cumprir ordens mesmo. No segundo checkpoint só anotaram os nossos dados num livro.

Às 15h14 saltei desse ônibus em Syabrubesi remontando meu esqueleto e jurando nunca mais entrar nele. A volta não poderia ser por ali em hipótese alguma.

A vila de Syabrubesi tem diversas hospedagens, perguntei o preço em algumas e optei pelo Hotel Lhasa, onde paguei Rs300 (US$2,60) pelo quarto com banheiro compartilhado. Ainda não foi possível entrar no esquema "quarto de graça se jantar e tomar café no local". Não recomendo esse hotel pois a dona não foi nada simpática e quase me deixou sem janta. O banheiro já era no estilo oriental: uma peça de louça no chão com um buraco no meio e lugares para colocar os pés nas laterais. Esse pelo menos tinha descarga de caixa acoplada, não era preciso usar a caneca com água. Havia lavatório para escovar os dentes.

A vila tem como atrativo uma fonte de águas termais junto ao Rio Bhote Koshi, fui conhecer mas só havia água em um dos tanques (de cimento) e estava ocupado por várias pessoas naquele momento. O lugar é um pouco sujo também.

Altitude em Syabrubesi: 1445m
Preço do dal bhat: Rs 300
Preço do veg chowmein: Rs 250

Rio Langtang encachoeirado
1º DIA - 07/10/18 - de Syabrubesi a Lama Hotel (Changdam)

Duração: 6h (descontada a parada)
Maior altitude: 2473m
Menor altitude: 1417m
Resumo: nesse dia iniciei a caminhada pelo vale do Rio Langtang ainda num trecho rico em vegetação e matas. Apesar de caminhar sempre junto ao rio, sem subir pelas encostas, o desnível foi bastante grande (1056m de subida).

Finalmente chegou o grande dia de colocar o pé numa trilha no Nepal. Fiquei até emocionado pois foi um momento muito esperado e planejado em todos os detalhes.

Saí do lodge às 8h14 e continuei pela rua principal no sentido norte (mesmo sentido da chegada no dia anterior). Ao passar pelo checkpoint tive de mostrar as permissões. Passei direto pela trilha que desce para as águas termais e na bifurcação na saída da vila desci à direita. Não cruzei a primeira ponte, continuei em frente e entrei na trilha à direita seguindo a placa de Langtang. Atravessei a ponte suspensa sobre o Rio Bhote Koshi, adornada com bandeirinhas de oração budista, e fui para a esquerda e logo em seguida direita. Ao cruzar a vila seguinte (Old Syabrubesi) entro no vale do Rio Langtang (Langtang Khola), o qual seguirei até Kyanjin Gompa (e depois ainda até o campo-base Langshisha Kharka).

Não cruzei a ponte à direita logo após a vila de Old Syabrubesi, segui em frente. Uma placa ali indica um caminho mais curto para Thulo Syafru à direita, cruzando a ponte. Thulo Syafru é a vila pela qual eu passaria 7 dias depois já no trekking Gosainkund.

Seguindo pelo vale verdejante do Rio Langtang passei às 9h42 pela vila de Tibetan Camp (Tiwari) com ao menos dois lodges. A trilha terminou numa ponte suspensa que cruzei para chegar a uma estrada de terra do outro lado do Rio Langtang. Fui para a esquerda (a direita estava interditada por obras) e na bifurcação seguinte, 700m após a ponte, continuei pela estrada à esquerda, desprezando a trilha à direita. Porém estava errado e cheguei ao fim da estrada, num local sem saída. Voltei e peguei a trilha, agora à esquerda. Aí começaram as subidas, inclusive com escadarias rústicas de pedra.

Às 10h33 cheguei à minúscula Domen, cuja ponte metálica de acesso estava parcialmente destruída, causando alguma tensão na travessia. O lugar se resume a 4 ou 5 casas e tem um lodge. Logo após, a subida continua. Às 10h48 cheguei a um local estratégico, a bifurcação entre os trekkings Langtang e Gosainkund, marcado por um mapa amarelo pintado num muro de concreto. Nesse momento segui para a esquerda, descendo, mas na volta, no oitavo dia de caminhada, tomaria o outro lado da bifurcação, numa subida bem longa para Thulo Syafru.

A trilha desce bastante e se aproxima do Rio Langtang. Se aproxima tanto que é preciso andar por um caminho estreito construído com pedras entre a encosta íngreme e o rio. Dali se avista logo acima a vila de Pairo (ou Landslide ou Hot Spring), pela qual passei às 11h07. Há opções de refeição e hospedagem. A trilha continua pela sombra deliciosa da floresta com muitas fontes de água (parei por 15 minutos numa delas para um lanche) e alcança a vila de Bamboo às 12h25, também com lodges e refeição. Ao cruzar a vila é melhor tomar a trilha da direita na bifurcação para se manter na trilha principal ao entrar na mata que segue. Cruzei uma ponte de troncos e pedras e às 13h18 uma grande ponte suspensa à esquerda sobre o Rio Langtang. O rio neste ponto é encachoeirado e tem blocos enormes de pedra. Uma casa ao lado da ponte suspensa vende artesanato e algumas guloseimas.

Passei pela vila de Rimche às 14h12 e ali entronca um caminho alternativo que vem de Syabrubesi via Sherpagaon. Rimche tem três lodges com restaurantes. Porém Lama Hotel (Changdam) está a apenas 20 minutos e tem muito mais opções. Cheguei a Lama Hotel às 14h32 e parei para almoçar no Tibet Guest House. Pretendia continuar a caminhada, mas o tempo mudou, começou a chover fraco e a temperatura despencou. Conversei com a simpática garota do lodge e ela me convenceu a dormir ali, principalmente porque seria de graça desde que eu fizesse as refeições.

O banheiro era no estilo oriental e ao lado dos quartos, e a ducha era com energia solar (pediam para deixar uma gorjeta pelo uso da ducha). Assim como em todos os outros lodges desse trekking, o refeitório tinha um aquecedor que é aceso no finalzinho da tarde. Ali todos se reúnem para jantar, conversar e trocar informações. Nessa noite fiz amizade com um casal francês que já havia viajado bastante pela Índia e conhecia inclusive o Himalaia indiano, um lugar onde eu nunca havia pensado em trilhar mas que me despertou a curiosidade.

Altitude em Lama Hotel: 2473m
Preço do dal bhat: Rs 600 (o dobro do preço de Syabrubesi já no primeiro povoado)
Preço do veg chowmein: Rs 450

Vale do Rio Langtang
2º DIA - 08/10/18 - de Lama Hotel (Changdam) a Langtang

Duração: 5h25 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 3483m
Menor altitude: 2473m
Resumo: nesse dia continuei a caminhada pelo vale do Rio Langtang ainda por dentro da floresta para em seguida sair a céu aberto com visão dos nevados na cabeceira do vale. Apesar de caminhar sempre junto ao rio, sem subir pelas encostas, o desnível foi bastante grande (1010m de subida).

Saí do lodge às 8h40 e continuei subindo pela trilha principal no sentido nordeste. A trilha se aproximou bastante do Rio Langtang novamente e às 10h04 passei pela vila de River Side (Gumnachowk) com um lodge de frente para o rio. Mais 10 minutos e passei pelo lodge de Woodland (Chunama). Às 10h43 uma ponte metálica à direita da trilha causou alguma dúvida mas o caminho era em frente mesmo, não pela ponte. Atravessei uma encosta com um grande deslizamento bem junto ao Rio Langtang, cruzei uma pequena ponte metálica e saí definitivamente da floresta às 11h24, tendo de agora em diante o belo visual dos picos nevados à frente. A nota triste foi ver a destruição em Ghoda Tabela causada pelos terremotos de 2015. Às 11h38 cheguei aos dois lodges que restaram no vilarejo e parei por 40 minutos para descansar, ver o movimento de trilheiros e carregadores e comer alguma coisa. Já se avista também a marca deixada na encosta da montanha pela enorme avalanche que destruiu a vila de Langtang.

A altitude aqui já ultrapassa os 3000m e é preciso seguir a recomendação de não dormir mais que 500m acima da noite anterior e se possível fazer caminhadas de bate-volta a um local mais alto para ajudar na aclimatação.

Às 13h04 alcancei a vila de Thangsyap (com lodges) e às 14h17 o povoado de Langtang Gumba, também com hospedagem e almoço. E às 14h38 cheguei ao local da enorme avalanche, uma paisagem aterradora por saber que há uma grande parte da vila de Langtang embaixo de todas aquelas pedras, com muitas pessoas soterradas. O que restou da vila de Langtang está logo depois. Cheguei a ela às 15h e enquanto fotografava a stupa na entrada do lugar o casal francês que conheci em Lama Hotel apareceu com uma moradora. Ela era dona de um lodge na parte mais alta e tinha ido esperá-los na trilha para oferecer hospedagem. É bastante comum os donos de lodges fazerem isso, oferecerem hospedagem, almoço, chá para os trilheiros que passam. Acabei indo para o mesmo lugar, Friendly Family Guest House. A dona, Sra Dawa, quase não falava nada de inglês mas era muito simpática e atenciosa. O quarto, com banheiro privativo (foi o único com banheiro privativo de todos os trekkings que fiz no Nepal), saiu de graça com as refeições feitas ali. A ducha quente também não teve custo adicional.

Altitude em Langtang: 3483m
Preço do dal bhat: Rs 600
Preço do veg chowmein: Rs 450

Muro de pedras mani na trilha e ao fundo o pico Gangchenpo
3º DIA - 09/10/18 - de Langtang a Kyanjin Gompa (Kyanjin Gumba)

Duração: 2h40
Maior altitude: 3856m
Menor altitude: 3483m
Resumo: nesse dia continuei a caminhada pelo vale do Rio Langtang já acima dos 3000m de altitude subindo até a vila de Kyanjin Gompa, que usarei como base para três caminhadas de um dia

Logo cedo desci ao centro da vila para tirar mais fotos e vi que atrás da stupa um mural tem gravados os nomes dos 175 moradores e dos 41 trilheiros que morreram em Langtang pelo terremoto e avalanche de abril de 2015.

Deixei a vila às 9h48 continuando pelo caminho principal no sentido leste. O caminho se divide em dois por 300m (!!!) com um impressionante muro de pedras mani no meio. A tradição budista manda que se caminhe no lado esquerdo dos muros de pedras mani, assim como deve-se circundar as stupas sempre no sentido horário. Os muros de pedras mani são arranjos feitos com pedras planas em que foi esculpido o mantra "Om Mani Padme Hum". Encontrei muitos muros como esse em minhas caminhadas pelo Nepal mas esse de Langtang foi sem dúvida o maior e mais marcante.

No conjunto de montanhas nevadas à frente (leste), no fundo do vale, já se avistam o Tsergo Ri à esquerda e o Gangchenpo à direita. Alcancei a vila de Mundu às 10h11 e depois Sindhum às 10h26, com seus lodges e restaurantes. E mais muros de pedras mani na sequência. Me aproximo do Rio Langtang novamente e às 11h48 chego a um grande bloco de pedra com uma stupa em cima. À direita há uma ponte mas uma placa aponta Kyanjin Gompa 30 minutos à esquerda. Porém o caminho mais curto é à direita pela ponte mesmo, isso eu só descobri na volta. Subi à esquerda, passei pela stupa maior para fotografar, pelas casas de uma usina hidrelétrica e em seguida uma grande ponte suspensa. Alcancei a vila de Kyanjin Gompa às 12h38 e me surpreendi com a arquitetura de prédios de 3 ou 4 andares.

Já tinha uma indicação de onde me hospedar pois de manhã conheci um parente da Sra Dawa, um rapaz chamado Nawang, que me ofereceu hospedagem e me ensinou como chegar ao seu lodge em Kyanjin Gompa. A vila é até grande em comparação com as outras e as ruas são um emaranhado de becos, mas consegui encontrar o Lodge Ghangchempo mesmo sem placa (é um dos últimos, na saída para Tsergo Ri). Negociei com o Nawang a estadia de quatro noites sem pagamento do quarto, apenas das refeições.

Depois do almoço, por volta de 14h, fui conhecer os lagos Tsona, que ficam do outro lado do Rio Langtang. Tomei uma trilha saindo para o sul da vila, bem na direção do rio, que corre bem abaixo. Cruzei-o por uma ponte metálica e fui encontrando os lagos um a um. São cinco pequenos lagos que refletem as montanhas nevadas, um lugar singelo e bonito. Na volta à vila fui comprar um pedaço de queijo de iaque diretamente na "loja da fábrica". Esse queijo não é muito barato (Rs 1700 o quilo = US$ 14,76) e lembra bastante um queijo parmesão de Minas Gerais pouco curado.

Em Kyanjin Gompa, assim como nos outros vilarejos, cada morador tem um pedaço de terra onde cultiva alguns legumes para suprir a demanda do restaurante. Porém itens como ovos têm que vir de Syabrubesi nas costas de carregadores por dois dias (as galinhas não sobrevivem ao inverno).

O lodge tinha um banheiro em cada andar e todos no estilo oriental, mas novos e limpíssimos. A ducha quente ficava no 1º andar e era gratuita. O quarto tinha tomada (as tomadas no Nepal costumam ter interruptor!?) para recarregar as baterias.

Altitude em Kyanjin Gompa: 3856m
Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 2ºC
Preço do dal bhat: Rs 650
Preço do veg chowmein: Rs 450

Bandeirinhas de oração budistas em Langshisha Kharka e as montanhas Urkinmang e Gangchenpo
4º DIA - 10/10/18 - de Kyanjin Gompa a Langshisha Kharka

Duração: 4h50 (ida) e 3h40 (volta bem mais rápida sem tantas paradas para fotos)
Maior altitude: 4138m
Menor altitude: 3823m
Resumo: nesse dia fiz uma subida suave e de pouco desnível (242m) pelo vale do Rio Langtang até o campo-base Langshisha Kharka

Esse foi o primeiro dia de "passeio" a partir de Kyanjin Gompa, quer dizer, o primeiro dia em que troquei a cargueira por uma mochila de ataque. Como eu já estava a 3856m de altitude iniciei a série de caminhadas com uma de altitude mais moderada, que seria o campo-base chamado Langshisha Kharka, local de acampamento para escaladas à montanha Langshisha Ri. Esse lugar é mais isolado, não há vilarejos ou lodges em todo o percurso e se não houver expedições o campo-base deverá estar completamente deserto pois poucos trilheiros vão até lá. Deve-se levar lanche e água (ou tratar a água encontrada no caminho).

Saí do lodge às 7h40 e tomei a direção sudeste. Em 6 minutos fui à direita na bifurcação com placa apontando Langshisa Kharka (à esquerda apontava Chergori, outra forma de escrever Tsergo Ri, que seria o meu destino dois dias depois). Às 8h22 tive de cruzar um deslizamento de pedras que vem das montanhas ao norte (esquerda) e também o ribeirão que desce junto. Para não tirar as botas gastei algum tempo procurando um local mais acima onde pudesse saltar pelas pedras. Logo após esse deslizamento há uma trilha que sobe a encosta à esquerda mas essa leva ao pico Tsergo Ri também. Em lugar de subir eu desci por uma trilha junto ao deslizamento até alcançar uma outra trilha bem marcada. Dali em diante bastou seguir essa trilha junto ao Rio Langtang com bela paisagem de campos e vales onde pastam muitos iaques. Limitando esse grande vale altas montanhas nevadas ao sul e ao norte. Para trás se destaca o grande Langtang Lirung, de 7230m de altitude, responsável pela destruição da vila de Langtang. À sua direita o Kimshung, de 6781m.

Às 9h33 a visão dos picos nevados à frente (leste) se amplia e já visualizo o Langshisha Ri, uma montanha de dois cumes à esquerda do pico Gangchenpo. Às 10h55 encontro um grande deslizamento e fico em dúvida se devo caminhar junto ao rio ou acima do monte de pedras. Um grupo vindo no sentido contrário me dá a resposta: pelo alto. Às 11h42 cruzo uma ponte de troncos e a trilha sobe até um mirante incrível de onde se avista o campo-base Langshisha Kharka 1km à frente, bem ao lado do Rio Langtang. Ali a maior altitude do dia: 4138m. Na descida cruzei com os últimos integrantes de um grande grupo de escaladores que estava deixando o campo-base. Assim, encontrei-o completamente vazio às 12h30. Altitude de 4098m. Dali se avistam os picos Langshisha Ri a leste, Pemthang Karpo Ri a nordeste, Lingshing e Urkinmang a sudeste e Gangchenpo ao sul.

Às 13h18 iniciei o retorno exatamente pelo mesmo caminho e às 17h já estava de volta a Kyanjin Gompa (anoitece por volta de 17h45 nessa época).

Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 4,1ºC

Pico Naya Kanga visto do Kyanjin Ri
5º DIA - 11/10/18 - de Kyanjin Gompa a Kyanjin Ri

Duração: 2h (subida) e 1h40 (descida)
Maior altitude: 4610m
Menor altitude: 3856m
Resumo: nesse dia subi a montanha Kyanjin Ri num desnível de 754m

Nesse segundo dia de explorações a partir da vila de Kyanjin Gompa foi a vez de subir a montanha Kyanjin Ri, de 4610m de altitude. Saí do lodge às 7h10 no sentido norte, onde alguns trilheiros já subiam a íngreme encosta bem junto ao vilarejo. Na primeira bifurcação logo no início da subida preferi tomar a direita e subir no sentido leste. Na segunda bifurcação, já nos 3985m de altitude, fui para a esquerda (a direita também é possível, é um outro caminho de subida). Na bifurcação seguinte, a 4096m, fui para a esquerda de novo (a direita encontra o outro caminho de subida).

Aos poucos fui alcançando e ultrapassando diversos grupos mais lentos e às 8h20 atingi um primeiro cume com bandeirinhas de oração budista a 4300m de altitude. Mas a subida continua pela crista até os 4610m, aonde cheguei às 9h07. A visão é espetacular, de 360º, e se destacam as seguintes montanhas: ao norte Yubra e Kimshung, a nordeste Dagpache, a leste Yala Peak e Langshisha Ri, a sudeste Tsergo Ri e Gangchenpo, a sudoeste Naya Kanga, a noroeste Langtang Lirung. Dali foi possível avistar também diversas barracas no campo-base do Langtang Lirung.

Às 11h30 deixei o cume e iniciei a descida por outro caminho, uma trilha bem marcada que se avista lá do alto e que percorre ainda por algum tempo a crista da montanha para leste para em seguida descer diretamente para o sul e sudoeste na direção de Kyanjin Gompa. Às 12h41 cruzei a trilha que percorri na subida exatamente naquela bifurcação dos 4096m de altitude e continuei para oeste. Nos 3967m aproveitei um desvio à direita para ir até uma pequena stupa a 120m da trilha principal. Fiquei 10 minutos ali e às 13h23 estava de volta ao vilarejo. Após o almoço caminhei pelo lugar e fui conhecer o monastério budista, que estava fechado (o gompa do nome da vila significa monastério).

Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 9,2ºC

No cume do Tsergo Ri, de 4989m de altitude
6º DIA - 12/10/18 - de Kyanjin Gompa a Tsergo Ri

Duração: 4h de subida normalmente (consegui fazer em 2h54) e 3h15 de descida por um caminho mais longo
Maior altitude: 4989m
Menor altitude: 3856m
Resumo: nesse dia subi a montanha Tsergo Ri num desnível de 1133m

Nesse terceiro dia de explorações a partir da vila de Kyanjin Gompa foi a vez de encarar a montanha Tsergo Ri, de 4989m de altitude. Pela dificuldade da subida, prevista para levar cerca de 4 horas, saí do lodge bem cedo, às 5h48, no sentido sudeste como se fosse para Langshisha Kharka. Levava lanche e água, como sempre faço. Em 6 minutos fui à esquerda na bifurcação seguindo a placa que aponta Chergori (Tsergo Ri). Cruzei aquele grande deslizamento e o ribeirão pelas pedras e tomei a trilha bem marcada que sobe a encosta. Já havia um outro grupo iniciando a subida mas eles ficaram bem para trás e chegaram ao cume mais de uma hora depois de mim. Às 6h52, na cota dos 4098m, fui à esquerda numa bifurcação com as placas Yala Kharka (Yala Peak) à direita e Chergori à esquerda. A subida continuou forte e cruzei com algumas pessoas já descendo! Iniciaram a subida ainda no escuro. Cruzei um trecho mais chato de pula-pedras e veio a subida final ao cume, aonde cheguei às 8h42. Só havia três pessoas nesse momento. Levei pouco menos de 3h para subir, o que pode ser considerado bem rápido.

O cume tem vários mastros com bandeiras grandes e muitas bandeirinhas de oração budista. Dali a visão consegue ser ainda mais privilegiada do que no Kyanjin Ri. Destacam-se: Langtang Lirung a noroeste; Kimshung, Yubra e Dagpache ao norte; Yala Peak a nordeste; Pemthang Karpo Ri, Langshisha Ri, Loenpo Gang e Dorje Lhakpa a leste; Gangchenpo a sudeste; Naya Kanga a sudoeste.

Aos poucos os aventureiros foram chegando e às 12h22 iniciei a descida por um outro caminho, uma trilha bem visível no sentido sudeste por onde vi algumas pessoas descerem. O caminho é bem marcado também mas é muito mais longo. Começa com uma inclinação moderada mas depois se torna bem mais íngreme. Volta a ser menos inclinado quando percorre a encosta do Tsergo Ri, porém há várias trilhas paralelas em níveis diferentes da encosta - tentei escolher a mais larga e batida. Às 13h32 continuei a descida por uma crista bem inclinada e cheguei a uma bifurcação em T, onde a trilha é mais larga, e fui para a direita (a esquerda é o caminho para o Yala Peak). Às 14h03 passei por um conjunto de 6 ou 7 casas em ruínas dispostas em degraus na encosta da montanha que lembram um pouco uma paisagem dos Andes. Com mais 15 minutos passei por dois pontos de água, os únicos do dia. Às 14h38 fui à esquerda na bifurcação e em 15 minutos reencontrei o caminho que fiz na subida junto às placas Yala Kharka e Chergori. Às 15h39 estava de volta a Kyanjin Gompa.

Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 9,5ºC

Vila de Kyanjin Gompa e os picos Tsergo Ri e Gangchenpo
7º DIA - 13/10/18 - de Kyanjin Gompa a Lama Hotel (Changdam)

Duração: 7h (descontada a parada)
Maior altitude: 3856m
Menor altitude: 2473m
Resumo: nesse dia deixei a vila de Kyanjin Gompa e iniciei o retorno, descendo pelo vale do Rio Langtang, em direção à bifurcação entre Pairo e Domen que me levará (no dia seguinte) para o trekking Gosainkund. Nesse dia consegui chegar a Lama Hotel.

Depois de me despedir do Nawang, seus familiares e dos amigos que conheci nestes quatro ótimos dias que passei no lodge, saí às 9h tomando a mesma trilha da chegada. Logo após o morrote que marca a entrada da vila peguei na descida a trilha da esquerda para alcançar o grande bloco de pedra com uma stupa em cima através da ponte que evitei no terceiro dia. Com isso não passei pela usina hidrelétrica pela qual passei naquele dia e fiz um caminho mais curto. Não resistia à tentação de olhar a todo momento para trás para contemplar e fotografar os picos por onde caminhei nesses lindos últimos dias.

Passei por Langtang às 11h14, atravessei a grande avalanche de pedras, Thangsyap às 12h46, parei em Ghoda Tabela para comer das 13h25 às 14h10, reentrei na floresta às 14h26, passei por Woodland às 15h17, por River Side às 15h27 e Lama Hotel às 16h42. Fui até Rimche para tentar dormir lá e adiantar mais alguns minutos de caminhada porém os três lodges estavam lotados. Tive de voltar a Lama Hotel pois há bem mais opções e ali consegui um quarto no Friendly Guest House (negociei com o dono e só paguei as refeições). O banheiro ficava dentro da casa (ao lado dos quartos) e era no estilo oriental, porém velho e encardido. Para escovar os dentes e se lavar havia uma torneira no quintal.

Altitude em Lama Hotel: 2473m
Preço do dal bhat: Rs 550
Preço do veg chowmein: Rs 450

8º DIA - 14/10/18 - de Lama Hotel (Changdam) a Sing Gompa (Sing Gumba, Chandanbari)

Duração: 8h (descontadas as paradas)
Maior altitude: 3290m
Menor altitude: 1678m
Resumo: nesse dia retornei mais um pouco pelo vale do Rio Langtang para alcançar a bifurcação entre Pairo e Domen onde iniciei o trekking Gosainkund. Mas foi um dia bastante pesado que eu deveria ter quebrado em dois pois há muita descida (798m de desnível) e muita subida (1612m).

Deixei Lama Hotel às 7h24, cruzei a ponte suspensa sobre o Rio Langtang às 8h20, passei por Bamboo às 8h46, por Pairo às 9h39 (parei por 15 minutos) e cheguei à bifurcação para Thulo Syafru às 10h09, marcada como já disse por um mapa amarelo pintado num muro de concreto. Altitude de 1730m. Nesse momento segui para a esquerda, subindo, e passando do trekking Langtang para o trekking Gosainkund.

Lago Gosain Kund
Trekking Gosainkund

Início: entre Pairo e Domen eu saí da rota Langtang e passei para o trekking Gosainkund
Final: em Tharepati eu finalizei a rota Gosainkund e passei para o trekking Helambu
Duração: 4 dias
Maior altitude: 4651m no Passo Laurebina La
Menor altitude: 1730m (considerando o início deste trekking na bifurcação entre Pairo e Domen)
Dificuldade: alta. Muita subida, com desníveis de até 1100m por dia. Por ultrapassar os 3000m de altitude é necessário fazer aclimatação. O Passo Laurebina La, de 4651m, impõe uma dificuldade a mais.
Permissões: TIMS Card e entrada do Parque Nacional Langtang

O trekking Gosainkund percorre altitudes bem mais elevadas que o trekking Langtang (sem considerar os picos opcionais de Kyanjin Gompa). Por isso os grandes atrativos dessa caminhada são a visão espetacular do Himalaia e os belos lagos de montanha da vila de Gosainkund. Os lagos são sagrados para hindus e budistas e atraem milhares de peregrinos durante o festival Janai Purnima em agosto.

8º DIA (cont.) - 14/10/18 - de Lama Hotel (Changdam) a Sing Gompa (Sing Gumba, Chandanbari)

Foi uma longa e constante subida do Rio Langtang até Thulo Syafru, somente quebrada pela descida até a ponte suspensa sobre o Rio Chopche (Chopche Khola). Essa ponte é longa, muito alta e não está nas melhores condições, o que causou um friozinho na barriga. Cruzei-a às 11h15 e parei por 35 minutos para descansar e tirar a roupa mais quente. Logo após a ponte uma trilha à esquerda parece ser o caminho mais óbvio, mas está errado. As setas vermelhas mandam descer à esquerda para passar por baixo da ponte, esse é o caminho. E a subida volta com tudo. Alcancei os primeiros lodges de Thulo Syafru às 12h32, mas a vila é bastante extensa e cercada de plantações em forma de terraço. Todos me ofereciam almoço e até hospedagem, mas eu passei direto. Subi até o final da vila e cheguei a uma estradinha de terra, onde fui para a esquerda. Apenas 60m depois duas placas brancas mal colocadas apontam Gosaikund à esquerda e Dhunche à direita. Pela posição em que estava a placa de Gosaikund fiquei em dúvida se era para seguir pela estrada à esquerda ou subir a escadaria de concreto com uma stupa no alto. A resposta estava na parede da casa logo acima, onde estava pintado "way to Gosainkund" apontando para o alto da escadaria. Subi, passei pela stupa e vi que logo acima ficava a clínica do povoado, informação importante a quem possa estar com algum problema de saúde durante o trekking. Logo após a stupa inicia a trilha que segue pela mata sempre subindo. Em tempo: a placa que aponta Dhunche à direita indica um caminho que retorna à estrada principal pela qual cheguei de ônibus a Syabrubesi - essa pode ser uma rota de fuga.

Passei por uma casa em construção às 13h23 e parei por 25 minutos para comer alguma coisa que levava na mochila. A trilha continua à esquerda e atrás da casa. Continuei subindo, passei por uma bica e às 14h02 uma bifurcação importante. Pintadas num muro branco de concreto duas setas indicam: à direita Sing Gompa e Dursagang, à esquerda Cholang Pati. Os dois caminhos levam às vilas de Cholang Pati e Gosainkund, então dois fatores devem ser levados em conta na escolha do trajeto: a rota à direita por Dursagang, Forpang Danda e Sing Gompa (Chandanbari) é 3,5km mais longa que a outra, mas tem muitas opções de lodges pelo caminho; a rota direta para Cholang Pati (esquerda) é bem mais curta, no entanto tem bem menos opções de hospedagem (segundo me disseram).

Eu segui as sugestões que me deram e fui para a direita, sempre subindo. Saí da mata, passei às 14h43 pela minúscula Dursagang, aparentemente com apenas dois lodges, e alcancei um grupo de três espanhóis e uma francesa (que também falava espanhol). A trilha entrou na floresta e subiu muito.

A francesa tinha pernas fortes e eu nunca conseguia alcançá-la. Às 15h20 passei por conjuntos de pedras mani muito antigas e cobertas de musgo no meio da mata e às 15h56 alcancei o único lodge de Forpang Danda, já fora da floresta e com visual magnífico das montanhas Langtang Lirung (nordeste) e Cordilheira Ganesh Himal (noroeste), porém um pouco prejudicado pelas nuvens que já se acumulavam naquele horário. Ali, numa parada de 20 minutos, pude conversar um pouco com os espanhóis e a francesa.

A partir de Forpang Danda a inclinação passa a ser menor. Segui no sentido sudoeste e sul por dentro de uma linda e extensa mata de rododendros que deve ficar repleta de flores nos meses de março e abril, um lindo espetáculo deve ser. O rododendro é a flor nacional do Nepal e aparece até como marca-d'água das cédulas de rupia. Passei por três pontos de água. Alcancei finalmente o povoado de Sing Gompa (Chandanbari) às 17h, bastante cansado pelo grande desnível que enfrentei desde o Rio Langtang (1612m). Hospedei-me no Sherpa Hotel com quarto gratuito, só pagando as refeições. Havia um grupo de 9 nepaleses passando o final de semana ali e fazendo barulho por 50. Tentei um banho (gratuito) mas como era final de tarde e o aquecimento era solar a água estava de morna a fria, o que foi um sofrimento. O banheiro ficava fora da casa e tinha vaso sanitário e lavatório, mas este não funcionava. Para escovar os dentes e se lavar era necessário usar uma torneira no quintal, bem na saída do esgoto da cozinha...

A partir de Sing Gompa há um caminho para Dhunche bem mais curto do que aquele de Thulo Syafru que pode servir como rota de fuga se necessário ou uma via de entrada para o trekking Gosainkund sem passar por Syabrubesi ou Thulo Syafru.

Altitude em Sing Gompa: 3290m
Preço do dal bhat: Rs 480
Preço do veg chowmein: Rs 400

Lago Bhairab Kund
9º DIA - 15/10/18 - de Sing Gompa (Sing Gumba, Chandanbari) a Gosainkund

Duração: 4h25 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 4428m
Menor altitude: 3290m
Resumo: nesse dia ultrapassei a linha das árvores e entrei novamente em um ambiente de alta montanha ao alcançar a vila de Gosainkund, num desnível positivo de 1138m

A temperatura mínima da noite foi abaixo de zero (não medi) pois o campo ao lado do lodge amanheceu coberto de gelo. Depois do café da manhã tentei comprar queijo de iaque na fábrica mas não consegui encontrar ninguém para me atender. Visitei o monastério budista (o gompa do nome da vila significa monastério) e às 8h57 deixei o povoado caminhando na direção de Cholang Pati (leste e sudeste). Já estava novamente acima dos 3000m de altitude, mas a aclimatação feita em Kyanjin Gompa me ajudou a não ter nenhum sintoma da altitude mesmo enfrentando um desnível de mais de 1100m num só dia (não recomendável).

A trilha sai da vila e sobe ampliando a visão dos picos nevados para trás e do enorme e profundo vale à direita. Atravesso dois trechos de florestas de rododendros e pinheiros e ao sair no aberto novamente a visão dos nevados é ainda mais ampla e espetacular. Passo pelos dois lodges da minúscula Cholang Pati às 10h30 (onde entronca a outra trilha que vem de Thulo Syafru) e continuo subindo. Aqui estou caminhando por uma crista de montanha acima dos 3600m e já vou deixando para trás a linha das árvores. Às 11h22 me deparo com gelo na trilha (mesmo sob o sol), o que não surpreende pois já estou de novo nos 3900m de altitude, chegando ao povoado de Laurebina ou Lauribina Yak (ainda não é o Passo Laurebina La, ao qual eu chegaria só no dia seguinte). Os três lodges ali devem ter de suas janelas a vista mais bonita de todo esse trekking! Aproveitei para descansar um pouco e curtir o esplêndido visual do Himalaia. Destacam-se na paisagem a montanha Langtang Lirung a nordeste e a Cordilheira Ganesh Himal a noroeste. Ainda subi um pouco mais até a estátua do Buda sentado em posição de lótus esculpido em pedra negra (basalto?) na altitude de 4228m, aonde cheguei às 12h40. Parece que havia um templo ali mas agora só há escombros ao redor da estátua. Parei para comer o lanche que trazia na mochila (comer lanche em alguns dias em vez de almoçar foi uma opção minha, quase sempre há um lodge no caminho para comer comida de verdade).

O caminho para Gosainkund continua e ainda sobe mais, porém agora deixa a crista e percorre a vertente sul da montanha, tão íngreme que em alguns trechos instalaram alambrados para evitar quedas e acidentes. Às 13h37 avisto o primeiro dos lagos, abaixo à direita, de nome Saraswati Kund, ainda pequeno em relação aos próximos mas com uma bonita cachoeira se formando a partir do seu vertedouro. Às 14h03 passo ao largo do segundo lago, este bem maior, de nome Bhairab Kund, e com mais 7 minutos chego ao povoado e ao terceiro lago, o próprio Gosain Kund. Percorri os 4 ou 5 lodges dali e optei pelo último (Hotel Lake Side) na esperança de ser um lodge mais vazio e silencioso e não ter de dividir o minúsculo quarto com outra pessoa, mas mesmo assim o dono me avisou que eu teria que dividir caso o lodge enchesse. Felizmente isso não aconteceu pois apenas uma alemã (com guia) e um francês (sozinho) se hospedaram ali. Por causa dessa condição acertamos o quarto sem custo, pagando apenas as refeições. O banheiro era no estilo oriental (havia um dentro da casa para a noite e outro fora da casa com cheiro horrível) e para escovar os dentes e se lavar havia uma torneira no quintal.

Aproveitei a tarde para circundar o lago Gosain Kund por uma trilha e depois subir aos mirantes adornados por bandeirinhas budistas atrás do povoado. A subida levou 28 minutos e a altitude do mirante mais alto é de 4635m, quase a altura do Passo Laurebina La que eu cruzaria no dia seguinte. Dali avistei diversos lagos menores encaixados em vários níveis acima dos lagos maiores. Na descida assisti a um belo pôr-do-sol (às 17h35).

Altitude em Gosainkund: 4428m
Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 3ºC
Preço do dal bhat: Rs 650
Preço do veg chowmein: Rs 430

Passo Laurebina La, de 4651m de altitude
10º DIA - 16/10/18 - de Gosainkund a Phedi

Duração: 4h
Maior altitude: 4651m
Menor altitude: 3771m
Resumo: nesse dia cruzei o Passo Laurebina La, de 4651m de altitude, ponto mais elevado dos três trekkings (sem considerar o pico Tsergo Ri, que é uma caminhada opcional), para em seguida iniciar a descida para a região de Helambu.

Saí do lodge às 8h40 e li numa placa na saída do povoado que há 17 lagos com nome nas proximidades, alguns bem pequenos, e outros 4 sem nome. Bem perto estava o pequeno santuário do deus Shiva. Continuei no sentido leste margeando o lago Gosain Kund e logo iniciei a subida. Havia gelo entre as pedras na subida, o que exigiu bastante cuidado. Passei por um primeiro lago à esquerda sem nome no mapa, depois pelo lago Ganesh Kund também à esquerda e alcancei o Passo Laurebina La às 10h22, com o lago Surya Kund à direita da trilha. Dos seus 4651m de altitude se avistam as cordilheiras Ganesh Himal, Manaslu e Annapurna a noroeste (mas a visão é até melhor na altura do lago Ganesh Kund). Já em dezembro deve haver neve nesse passo. Iniciei a descida às 10h33 e encontrei mais um pouco de gelo na trilha. Tentei visualizar algum caminho que subisse a montanha Surya Peak mas não encontrei. O dono do lodge me disse que não há trilha marcada e que é preciso caminhar por encostas de pedras soltas, sendo mais seguro ir com alguém que conheça.

Às 11h39 passei por uma casa de pedra isolada e na bifurcação 70m depois desci à direita. Aos poucos fui reencontrando a vegetação arbustiva de novo, para cima desse ponto havia no máximo vegetação rasteira.

Mas a neblina, que costuma dar as caras somente à tarde, hoje chegou antes do meio-dia para estragar todo o visual. E eu não fui até lá para caminhar sem curtir a paisagem. Somado a isso a descida íngreme de pedras estava me desgastando bastante. Ao chegar ao primeiro lodge de Phedi às 12h40 (há apenas dois lodges, mais nada) parei para resolver o que ia fazer. A francesa que falava espanhol havia parado ali pelo mesmo motivo, a falta de visual. Dei um tempo e a neblina não dava sinais de que ia embora. Resolvi ficar pois deu pra perceber que a paisagem dali era muito bonita e eu ia passar sem ver nada. Como não tinha nenhuma pressa podia deixar para prosseguir no dia seguinte. Negociei o preço do quarto ali no Hotel Dawababy e o dono fez por Rs100 (US$0,87). O restante do dia foi para descansar, conversar com a francesa (que estava viajando havia 8 meses, vindo do Sudeste Asiático) e aguardar tempo melhor no dia seguinte. Mais tarde chegou um grupo de seis franceses barulhentos e dois ingleses.

Na frente desse lodge uma placa de mármore homenageia os mortos num acidente aéreo da empresa Thai ocorrido em 1992 nas proximidades.

O banheiro ficava fora da casa, ou seja, era preciso encarar o frio para ir ao banheiro durante a noite. Era no estilo oriental. Para escovar os dentes e se lavar havia uma torneira no quintal.

Altitude em Phedi: 3771m
Preço do dal bhat: Rs 600
Preço do veg chowmein: Rs 450

Lodge em Tharepati e alguns nevados da região de Kyanjin Gompa ao fundo
11º DIA - 17/10/18 - de Phedi a Tharepati

Duração: 5h (descontadas as paradas)
Maior altitude: 3771m
Menor altitude: 3310m
Resumo: nesse dia deixei o ambiente de alta montanha e voltei a caminhar abaixo da linha das árvores, descendo (e depois subindo) até a vila de Tharepati, com um ótimo mirante para as montanhas já percorridas

Felizmente valeu a pena a parada meio forçada em Phedi pois o dia amanheceu muito bonito. Só então pude ver a beleza e grandiosidade do lugar onde estava. Dali já é possível avistar os dois lodges de Tharepati e, mais próximo, o lodge isolado de Dhupi Chaur.

Saí do lodge às 8h03 seguindo as placas de Ghopte e o caminho era pela encosta íngreme da montanha com pouco desnível. Pinheiros baixos foram aparecendo a partir dos 3700m para me lembrar que eu estava reentrando no limite das árvores. Cruzei 4 pontos de água. Passei pelo Himalay Sherpa Hotel, isolado num local chamado Dhupi Chaur (Dupcheswor), às 10h32 e cheguei a Ghopte com neblina às 11h24. Há dois lodges ali. Descansei um pouco e segui. Durante a passagem por uma floresta de rododendros parei para comer uns biscoitos que trazia na mochila. Ao final dessa mata, às 12h26, encontrei uma casa em ruínas. Logo cruzo outra floresta de rododendros e pinheiros.

Às 13h22 avistei no alto à frente os dois lodges de Tharepati. Às 13h41 alcancei o povoado e me deparei com uma placa: à direita Kutumsang e Mangin Goth, à esquerda Melamchighyang e Helambu (porém não há um vilarejo com o nome Helambu, mas sim toda essa região onde eu estava entrando). Ambos os lados constam dos mapas como sendo do trekking Helambu, o qual descreve um grande arco com as extremidades voltadas para o sul. Se eu quisesse encerrar essa caminhada logo, tomaria a esquerda e desceria mais de 1000m (de desnível) em direção a Melamchighyang (Melanchigaon), onde poderia encontrar um ônibus para sair (ou talvez só em Timbu, 2000m abaixo). Mas o meu plano era fazer o trekking Helambu na sua maior extensão possível e por trilhas (não estradas), então o meu caminho seria para a direita.

Porém uma coisa me atrapalhava de novo: a neblina. Tharepati fica no alto de uma crista e possui um dos mais bonitos visuais de montanha de todo o meu percurso. E eu não estava vendo nada, de novo... O jeito era dormir ali e torcer para a neblina dissipar na manhã seguinte. Escolhi o Sumcho Top Lodge para me hospedar pela posição mais alta e panorâmica, mas a negociação do quarto foi um pouco tensa. O dono parecia estar embriagado e se irritou com o meu pedido de pagar somente pela alimentação. Ele pediu Rs500 (US$4,34) pelo quarto e não queria ceder. Eu agradeci e saí para ir para o outro lodge. Aí ele mandou o menino me chamar dizendo que aceitava. Mas não falou mais comigo e a sua esposa, antes muito "simpática", também passou a me tratar muito mal. Me arrependi de ter ficado. Se era para me tratar desse jeito não deveria ter aceitado a minha proposta.

Havia um grupo de 5 alemães e um casal francês ali, todos com seus guias e carregadores. Para nossa surpresa depois das 16h o tempo começou a abrir e pudemos tirar boas fotos das montanhas próximas e dos nevados da região de Kyanjin Gompa a nordeste: Gangchenpo, Urkinmang, Loenpo Gang e Dorje Lhakpa. Dali era possível avistar também os dois lodges de Phedi, o lodge isolado de Dhupi Chaur e ainda o Passo Laurebina La.

O banheiro aqui também era no estilo oriental e fora da casa, muito frio à noite.

Altitude em Tharepati: 3646m
Temperatura mínima durante a noite dentro do quarto: 2,2ºC
Preço do dal bhat: Rs 600
Preço do veg chowmein: Rs 450

Passo Laurebina La à direita da cadeia de montanhas vista de Tharepati
Trekking Helambu

Início: em Tharepati eu finalizei a rota Gosainkund e passei para o trekking Helambu
Final: Sundarijal
Duração: 2 dias
Maior altitude: 3646m em Tharepati
Menor altitude: 1377m em Sundarijal
Dificuldade: média a difícil pois há muita subida e descida por degraus de pedra na passagem pelo Parque Nacional Shivapuri Nagarjun
Permissões: TIMS Card e entrada do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun

O trekking Helambu, ao contrário dos outros dois, não é uma caminhada de alta montanha. A altitude é bem menor e a paisagem é basicamente de florestas nas partes mais altas e plantações em terraços nas partes mais baixas. A caminhada percorre muitos vilarejos e tem a desvantagem de ter muitos trechos em estrada. A travessia do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun exige o pagamento da entrada (Rs 1035 = US$ 8,98) e a trilha que cruza o parque tem uma infinidade de escadarias de pedra tanto subindo quanto descendo. Por causa dessas escadarias meu joelho esquerdo começou a doer e para o trekking seguinte (Everest) tive que comprar e começar a usar um bastão de caminhada.

12º DIA - 18/10/18 - de Tharepati a Golphu Bhanjyang

Duração: 6h30 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 3646m
Menor altitude: 2135m
Resumo: nesse primeiro dia do trekking Helambu desci um grande desnível (1511m) em direção sul para encontrar vilarejos ao longo de poeirentas estradas de terra

Felizmente o dia amanheceu lindo novamente e pude apreciar e tirar muitas fotos de toda a incrível paisagem de Tharepati.

Como eu era persona non grata naquele lodge tratei de tomar meu café e sair logo. Às 7h40 peguei a trilha bem em frente no sentido sul. Não é a mesma trilha por onde cheguei no dia anterior a partir da placa, é uma outra que entroncaria na principal uns 300m depois. Uma vez na trilha principal segui para a esquerda, no sentido sul que eu manteria o dia todo (com poucas variações). Mas fiquei ainda um bom tempo fotografando e só iniciei a caminhada realmente às 8h45. Às 9h53, num lugar chamado Dhobato, alcancei uma bifurcação com placas e segui à direita descendo na direção de Kutumsang. À esquerda iria para Timbu, onde provavelmente haveria ônibus, ou seja, é mais uma rota de fuga se houver necessidade. Às 10h31 passei por dois lodges em Magingoth/Mangin Goth (um parecia estar desativado) e subi até um terceiro lodge, 1km à frente, onde peguei água da torneira e tratei com Micropur. Na descida que se seguiu parei alguns minutos para comer alguma coisa que tinha na mochila. Às 11h50 tomei uma trilha à direita da principal e fui até um bonito mirante. Mas o que impressionou ali foi ver os escombros de uma grande casa de pedra que no gps consta como Red Panda Hotel.

Atravessei outra floresta de rododendros e às 12h10 a visão se amplia, já podendo visualizar a vila de Kutumsang na encosta de uma montanha ao sul. A descida se torna mais inclinada, com troncos de contenção e trechos de pedras soltas. Mas antes de chegar a Kutumsang fui parado às 13h26 em um checkpoint (Kutumsang Army Camp) para mostrar as permissões. Quiseram revistar a mochila... foi um transtorno porque tive de tirar tudo de dentro para eles examinarem e apalparem. Depois tive que refazer a mochila inteira. Esse local é um final de estrada, mas caminhei apenas 50m por ela e retomei a trilha sinalizada por uma placa. Às 13h46 passei por uma stupa grande logo abaixo à direita mas não fui até ela. Na bifurcação seguinte tanto faz o lado, mas parece que o esquerdo é mais usado. Às 14h alcancei a vila de Kutumsang e seus primeiros lodges, reencontrando a estrada de terra que abandonara 23 minutos antes. Ali fotografei outra stupa ainda mais bonita que a anterior. Uma grande placa verde logo abaixo apontava os caminhos: Chanawate à esquerda, Dupchugyang à direita e Golphu Bhanjyang em frente, este último o meu destino nesse dia. Após a placa subi pela estrada de terra cruzando a vila e tendo o primeiro contato com carros e motos depois de 12 dias.

Quando a estrada deixou a vila e começou a descer em direção a outro povoado achei que havia algo errado. Graças ao caminho gravado no gps encontrei a trilha para Golphu Bhanjyang saindo à esquerda da estrada, num local sem nenhuma placa ou indicação, exatamente na entrada do Hotel Mountain View. Entrei nela às 14h18 e parei num mirante à esquerda para comer alguma coisa. Às 15h18, junto a algumas ruínas, vou à esquerda numa bifurcação sem placa por ser a trilha mais larga. Com mais 7 minutos visualizo muito abaixo a vila de Golphu Bhanjyang. A trilha desembocou numa estrada de terra (continuação da anterior) às 15h51 onde há uma placa muito velha apontando os vilarejos próximos. Fui para a esquerda e Golphu Bhanjyang ainda estava bem abaixo. Numa curva da estrada tomei um atalho à esquerda e saí de novo nela já perto do povoado, onde efetivamente cheguei às 16h19. Ali mais carros e motos para minha decepção... não sabia que haveria tanta estrada nesse trajeto (algumas são bem recentes e não constam em nenhum mapa).

Dei uma olhada num lodge ali e a senhora pediu Rs300 (US$2,60) pelo quarto. O outro lodge (Himalaya New Lodge) parecia fechado. Resolvi tentar alguns lodges mais à frente, já além do povoado, para adiantar a caminhada e quem sabe terminar a travessia no dia seguinte. Mas me arrependi muito pois os lodges indicados no gps não existiam, fui me afastando cada vez mais e por uma subida muito cansativa. Quando finalmente encontrei um lodge funcionando, o Thodong Top, ele estava lotado. Voltei 1,9km até a vila de Golphu Bhanjyang e encontrei o Himalaya New Lodge aberto. Fui atendido por um simpático casal e o preço do quarto era o mesmo, Rs300 (US$2,60). Havia tomada (com interruptor) no quarto e pude recarregar as baterias. Banheiro novamente no estilo oriental e fora da casa, mas aqui já não fazia tanto frio à noite. Para escovar os dentes e se lavar havia uma torneira no quintal. Não havia ducha, o banho era de balde e custava Rs200 (US$1,74). Esse foi o primeiro lodge em que fui o único hóspede.

Altitude em Golphu Bhanjyang: 2135m
Preço do dal bhat: Rs 350
Preço do veg chowmein: Rs 250

Stupa perto de Golphu Bhanjyang
13º DIA - 19/10/18 - de Golphu Bhanjyang a Sundarijal

Duração: 9h20 (descontadas as paradas)
Maior altitude: 2464m
Menor altitude: 1377m
Resumo: nesse dia percorri muitas estradas na direção sul (sempre que possível fugindo delas pelas trilhas que encontrava), atravessei o Parque Nacional Shivapuri Nagarjun (com grande subida e depois descida por escadarias) e encerrei o trekking em Sundarijal

A intenção era me aproximar o máximo possível de Sundarijal para no dia seguinte finalizar a caminhada e tomar o ônibus de volta a Kathmandu. Mas acelerei bastante o passo e consegui alcançar Sundarijal nesse mesmo dia. Finalizei o trekking mas Kathmandu ficou para o dia seguinte, como contarei abaixo.

Também foi um dia bem diferente dos anteriores pois caminhei bastante por estradas e passei por muitos vilarejos com suas plantações em terraços. Alternaram-se trechos de estrada e trilha, com as trilhas sendo basicamente atalhos para poupar as muitas curvas das estradas. Em vários pontos tive de perguntar pelo melhor caminho aos moradores e aqui a descrição vai ficar bastante "carregada" por causa das inúmeras bifurcações.

Saí do lodge às 7h50 ainda na direção sul pela estrada, subi e fui à direita na bifurcação no alto, subindo mais. A parte alta de Golphu Bhanjyang tem casas bem humildes feitas inteiramente com folhas metálicas. O panorama foi se alargando e gastei um bom tempo tirando fotos das montanhas na direção do Passo Laurebina La (norte).

Mais acima, à esquerda, aparece uma casa de muro alto que deveria ser um lodge mas estava fechado. Passei junto ao muro do lado esquerdo dela e fui fotografar uma linda stupa que fica atrás. Às 8h38 subi à direita na bifurcação com placa seguindo a indicação de Chisopani (segundo a placa esse povoado se chama Thodong). Passei novamente pelo Hotel Thodong Top e, desprezando uma trilha à esquerda, continuei pela estrada, que ia ficando cada vez mais precária.

Às 9h37 surge uma trilha subindo à esquerda com uma placa quebrada no chão onde mal se consegue ler Chipling. Entrei nela mas é somente um atalho (maior altitude do dia: 2464m) que tem no percurso uma stupa, uma casa e uma escadaria que desce e reencontra a estrada, onde fui para a esquerda (sul). Alguns metros antes das primeiras casas de Chipling um deslizamento na estrada interrompe o tráfego para carros, apenas motos conseguem passar. Alcanço o centro do povoado às 10h19 e a partir dali as plantações em terraços passam a ser comuns ao longo do caminho, o que garante uma paisagem bastante verde.

Cruzei as poucas casas do lugar evitando os caminhos à direita e indo sempre para a esquerda. Caminhei cerca de 110m mais pela estradinha e fui à direita numa bifurcação, subindo. Nessa hora contei com a ajuda dos simpáticos moradores para encontrar o caminho por trilha pois não havia placa e as trilhas não eram evidentes. Se eu me mantivesse na estrada obviamente iria caminhar muito mais. Apenas 90m após a última bifurcação entrei numa trilha entre casas à esquerda (meio estranho pois parecia que eu ia entrar numa das casas), desci, tomei a esquerda numa rua com mais casas e apenas 30m depois tomei a trilha escondida descendo à direita, por indicação do pessoal local. Dali foi só descer bastante por entre plantações em terraços e trechos de mata. Encontrei alguns trilheiros subindo - fazer esse trekking ao contrário deve ser bastante cansativo por conta de tanta subida quase sem sombra. Nas bifurcações tomei a direita e depois a esquerda, caí na estrada de novo, fui para a esquerda fazendo a curva e logo entrei noutro atalho à esquerda que desembocou na mesma estrada numa trifurcação, num vilarejo chamado Thankuni Bhanjyang, onde há o lodge Lama Guest House. Na trifurcação, às 11h21, fui para a direita caminhando pela estrada.

Parei por 20 minutos para comer um lanche que levava na mochila e às 12h17 tomei um atalho por trilha à direita da estrada. Mas logo caí na estrada de novo e fui para a direita, cruzando a vila de Patibhanjyang. Ali vi várias pessoas com uma "massinha" vermelha na testa e não sabia o que era, depois descobri que estavam comemorando o festival Dasain (pronuncia-se dasái), o maior festival do Nepal, e que aquela massinha vermelha feita com grãos de arroz se chama tika. Após a vila, na bifurcação, tomei a estrada da esquerda, subindo. Com mais 130m entrei num caminho largo à esquerda que serve como atalho. Caminhei só 70m e subi na trilha bem íngreme à direita. Reencontrei a estrada numa curva fechada e fui para a esquerda, passando por algumas casas. Subi apenas 100m e entrei numa trilha à direita com uma escadaria de pedras. Subi pela sombra da mata e quando saí no aberto a paisagem era bem mais ampla e bonita.

Plantação em terraços na vila de Chipling
Subi até cruzar a estrada de novo e continuei pela trilha em frente subindo. Passei por uma casa às 13h06 e a trilha continuava à direita dela. Reencontro a estrada e a tomo para a esquerda, porém a abandono de novo em favor de uma trilha à esquerda ao alcançar uma matinha de pinheiros (poucos metros à frente pela estrada fica o Hotel Everest View Tower). Reencontro a estrada numa curva bem fechada e vou para a direita. Desprezo uma outra entrada para o hotel à direita (com placa) e subo a escadaria 20m à frente também à direita. A trilha dá uma guinada de 90º para a direita (oeste) e cruza a mesma estrada. Acabo saindo nela 90m à frente e vou para a esquerda. Essa estrada encontra outra mais larga numa curva fechada e subo à esquerda.

Alcanço a vila de Chisopani às 13h50 e após passar pelos dois primeiros lodges vou à esquerda na bifurcação. Após o lodge Dorje Lakpa vou à esquerda onde um prédio de 3 andares inclinado lembra a destruição causada pelos terremotos de 2015. Mais dois lodges, mais casas em ruínas e às 14h08 chego à portaria do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun, onde sou recebido pelo guarda-parque e pago a taxa de entrada de Rs 1035 (US$8,98). Não acho esse valor exorbitante mas não me conformo em pagar uma taxa de entrada como essa e encontrar um parque sujo, com lixo por toda parte, sem sinalização, com quiosques abandonados, etc. Aliás o governo nepalês é craque em cobrar taxas altas dos visitantes e oferecer muito pouco em troca, e isso vale para todos os parques por onde caminhei.

Ao sair da portaria às 14h23 abandonei a estrada (por um bom tempo, felizmente) e entrei no caminho descendo à direita que logo virou uma trilha. Fui à esquerda nas duas bifurcações e estava contente por voltar a caminhar por trilha e por pensar que agora seria só descida até Sundarijal. Porém havia me esquecido do passo em Borlang! Logo essa trilha começou a subir, subir... e por escadarias de pedra bastante cansativas. Por fim subi dos 2137m aos 2410m, tudo por escadarias, mas isso não significou uma bela paisagem para fotografar pois há muita vegetação obstruindo. O topo, aonde cheguei às 15h20, é marcado por bandeirinhas de oração budista. Cerca de 80m antes há uma bifurcação com uma placa indicando que ali é Borlang, com Sundarijal à esquerda, e à direita Shivapuri Peak (a 6,3km dali), Tinchule e Baghdwar (com um santuário).

Ali eu já estava fazendo cálculos de distância e tempo para saber se conseguiria chegar com luz do dia ao ponto final do ônibus em Sundarijal. A descida por infindáveis escadarias foi tão cansativa quanto a subida e foi aí que comecei a sentir o joelho esquerdo. Na volta a Kathmandu tive que comprar um bastão de caminhada para poupar os joelhos nas caminhadas seguintes. Às 16h15 passei por uma "fortaleza" à direita, que devia ser do exército, com arames farpados, torre de vigilância, etc. e um portal com uma placa escrita somente em nepalês. Mais 7 minutos e chego às primeiras casas de Mulkharka, num final de estrada, e o ponto do ônibus estava ainda 3,6km à frente. Acelerei o passo.

Às 16h30, onde há uma placa de Lumo Karmo, saio da estrada e desço pela escadaria à direita que serve como atalho. Ao reencontrar a estrada, cruzo-a e desço ainda por escadaria. Saindo na mesma estrada mais abaixo sigo por ela à esquerda e entro na primeira trilha à direita, 65m abaixo. Passo por uma escola, desço uma escadaria à direita e cruzo de novo a estrada junto ao Karma Guest House (onde perguntei sobre o melhor caminho). Continuando por trilha desci até uma barragem, aonde cheguei às 17h04. Cerca de 8 minutos depois passei por um posto do Parque Nacional Shivapuri Nagarjun mas não fui parado para mostrar o tíquete de entrada.

Passei por uma cachoeira bem alta do lado direito com quedas menores do lado esquerdo. Ainda descendo, passei a acompanhar uma tubulação à minha esquerda. Às 17h28 passei por uma guarita e pelo portal do parque nacional, mas não havia ninguém naquele horário. Alcancei enfim o largo de onde saem os ônibus às 17h39, perguntei sobre o ônibus para Kathmandu mas não me respondiam. Um vendedor de frutas é que me disse que o último sai às 17h. Como um táxi ficaria caro o jeito era dormir ali e ele me ajudou a encontrar um lugar. Parece que havia uma só opção, o Side View Hotel. Deve ter sido o pior lugar que fiquei no Nepal: quarto sujo, com restos do hóspede anterior, banheiro privativo porém sem água. Reclamei duas vezes sobre a água mas mesmo assim só tive por um curto período. Preço do muquifo: Rs900 chorado para Rs800 (US$6,94)! Se soubesse do horário do ônibus teria escolhido um lodge decente para ficar no caminho.

E assim encerrei essa caminhada incrível de 13 dias. No dia seguinte tomei às 6h45 o ônibus para Kathmandu. Os trekkings Langtang e Gosainkund na minha opinião foram muito mais bonitos e recompensadores que o Helambu, mas há quem faça somente este último.

Altitude em Sundarijal: 1377m

Informações adicionais:

Eu sempre faço o possível para conseguir as informações mais precisas sobre horários, preços, etc, porém no Nepal isso é bastante complicado pelo problema da comunicação e da falta de organização geral das coisas. Assim, coloco aqui as informações obtidas mas com essa ressalva.

Horários de ônibus:

. Kathmandu-Syabrubesi: 6h30, 7h30 e 8h (9h de viagem para apenas 126km)
Em Kathmandu os ônibus saem de um local chamado Macha Pokhari, uma rua próxima ao Terminal Gongabu, no anel viário da cidade
Preço: Rs600 (US$5,21)
Táxi do Thamel até Macha Pokhari: Rs350 (US$3,04)

. Sundarijal-Kathmandu:
roda entre 6h e 17h, não consegui saber a frequência (cerca de 1h de viagem)
Em Kathmandu desci próximo ao terminal do Ratna Park
Preço: Rs25 (US$0,22)


Rafael Santiago
dezembro/2018

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Pequeno guia de trekking independente no Nepal

Campo Base do Everest
Algumas dicas e orientações para planejar seu trekking solo no Nepal

MELHOR ÉPOCA

. Outubro e novembro são o pico da temporada de trekking no Nepal. As chuvas trazidas pelas monções terminam em setembro e o céu fica mais limpo nesse período seguinte. Porém espere por trilhas e lodges lotados nos trekkings do Everest e Annapurna, os mais populares. Em dezembro, já perto do inverno, é possível fazer caminhadas também mas é melhor escolher altitudes mais baixas como o trekking do campo base do Annapurna.

. Março e abril são o segundo período mais procurado. A grande atração desses meses é caminhar pelas florestas de rododendros em época de floração, o que deve ser um lindo espetáculo.

HOSPEDAGEM E ALIMENTAÇÃO DURANTE O TREKKING

Não há nenhuma necessidade de levar barraca para a grande maioria dos trekkings no Nepal. Ao longo do caminho dezenas de lodges e guest houses oferecem hospedagem simples e alimentação completa (café da manhã, almoço e janta). Para os trilheiros independentes é usual negociar o preço do quarto desde que se façam as refeições (café da manhã e janta) no próprio lodge, que sempre tem refeitório. Na maioria das vezes o quarto acaba saindo de graça (dependendo da negociação) uma vez que a comida custa duas ou três vezes o preço pago nas cidades. E o preço aumenta junto com a altitude e a distância das cidades. Para mostrar a variação de preços das refeições em cada povoado ao longo dos trekkings vou colocar nos relatos, ao final de cada dia, o preço do dal bhat e do veg chowmein, dois pratos bastante pedidos. Como referência esses pratos em Kathmandu custam por volta de Rs 250 (US$2,17) e Rs 160 (US$1,39), respectivamente.

Em quase todos os vilarejos os moradores têm um pedaço de terra para trabalhar e cultivar os legumes e verduras para seu consumo e para suprir a demanda do restaurante. A dieta deles é basicamente vegetariana, inclusive pela dificuldade de armazenamento de qualquer tipo de carne. E para o trilheiro é bastante recomendável seguir essa dieta pensando no seguinte: os legumes são sempre frescos, a carne não. E ninguém quer ter uma infecção intestinal ou uma diarréia num lugar tão distante. 


Todos os lodges têm um caderno onde são anotados (pelo dono ou pelo hóspede) os pedidos para o jantar e café da manhã. Para o jantar costumam pedir que se anote até as 17h para eles se organizarem. Para o café da manhã geralmente pedem que se escreva o pedido no dia anterior, principalmente se houver necessidade de tomar o café muito cedo.

Mesmo havendo refeição em todas as vilas do caminho é preciso ter algum lanche de trilha para os dias em que se sobe alguma montanha mais demorada (como o Tsergo Ri) ou se atravessa um passo de montanha, algo que leva bastante tempo e onde a distância entre os vilarejos é grande.


CUSTOS DURANTE O TREKKING

Os custos durante as caminhadas dependem diretamente do que se consome nos lodges pois a comida é bastante cara em comparação com o preço pago nas cidades, ao passo que a hospedagem pode ser negociada. Se você for econômico e pedir veg chowmein no café da manhã (você acostuma...), veg fried rice no almoço e dal bhat na janta, o custo diário com comida vai ser de US$8 a US$20 (o preço aumenta com a distância). Se for possível negociar o quarto sem custo, o valor acima vai ser a sua despesa diária durante o trekking. Um café da manhã completo com pão, geléia, omelete e café/chá vai aumentar bastante essa despesa.

No meu trekking de 23 dias de Shivalaya ao Campo Base do Everest e Gokyo o custo total, seguindo o menu econômico acima e sempre barganhando o preço do quarto, foi de US$345. A média foi de US$15 por dia. Lembrando que eu não contratei nenhum serviço de guia ou carregador. Nessa conta entram apenas alimentação e hospedagem, não entram as permissões e as passagens de ônibus e avião. 


HOSPEDAGEM EM KATHMANDU

O bairro mais conveniente para se hospedar em Kathmandu é o Thamel pois concentra todos os serviços que um trilheiro necessita: hotéis para todos os bolsos e exigências, restaurantes variados, casas de câmbio, padarias, mercadinhos, livrarias, farmácias, lavanderias, agências de trekking, lojas de equipamentos e roupas técnicas, etc. Além disso muitos atrativos turísticos da cidade estão a curta distância a pé a partir do Thamel. Mas prepare-se para dividir as ruas estreitas e sem calçada com muitas motos e carros buzinando o tempo todo.


Sim, o Thamel é uma ilha da fantasia para turistas, repleta de lojinhas de todo tipo, e para ter a experiência de uma Kathmandu mais real vai ser preciso caminhar fora dali. Isso é verdade, mas o Thamel não deixa de ser o bairro mais conveniente para as necessidades de um viajante.  

Rua no Thamel
ROUPAS E FRIO

A temperatura interna durante a noite medida pelo meu termômetro chegou à mínima de -8,6ºC. Isso foi dentro do quarto em Gorak Shep. Normalmente ela está entre -3ºC e 3ºC à noite e de manhã dentro do quarto. Por isso é preciso ter um saco de dormir sempre na mochila pois o cobertor do lodge pode não ser suficiente. Eu levei um saco Marmot Helium (temperatura limite -9ºC) e usei em algumas noites apenas. Os quartos costumam ter duas camas com um cobertor bem grosso parecido com um edredom em cada uma. Como eu dormia sozinho no quarto podia pegar o outro cobertor e não precisava usar o saco de dormir.

Para vestir recomendável levar uma blusa grossa de fleece, uma jaqueta de pluma (a única blusa que realmente esquenta naquele frio todo) e uma jaqueta impermeável que serve como corta-vento durante as caminhadas. Para as pernas importante levar uma calça de fleece ou ceroula térmica pois com frio nas pernas não se consegue dormir. Uma calça impermeável serve como corta-vento e eu usei em vários dias mesmo caminhando sob o sol pois o vento é gelado. Uma faixa para o pescoço que possa ser esticada para a boca e nariz também é fundamental para não expor tanto a garganta ao vento frio. Mesmo com isso eu tive infecção na garganta, tive que ir ao médico em Kathmandu e tomar antibiótico por 3 dias.

Os lodges costumam ter um aquecedor no refeitório e esse é o único lugar para se refugiar do frio. Mas ele fica aceso somente do início da noite até os últimos hóspedes saírem do refeitório. Não é aceso de manhã, quando faz muito frio também (entre -3ºC e 3ºC, como disse). Para acender o aquecedor se usa lenha onde há árvores e esterco de iaque onde não há.

O QUE PODE SER COMPRADO EM KATHMANDU

Kathmandu tem ótimas livrarias onde se pode comprar mapas e guias de todos os trekkings do Nepal. E tem dezenas de lojas de equipamentos e roupas técnicas onde se deve pesquisar os preços pois variam muito de uma loja para outra. Há lojas de marcas famosas como The North Face e Mountain Hardwear que vendem produtos originais. Nas outras mil lojas vale o preço e não necessariamente a qualidade. Mas pelo que já li nos relatos é possível encontrar bons produtos a preços bem atrativos. Na hora da compra vale pechinchar também, e comprar vários itens na mesma loja (ao invés de um item em várias lojas) ajuda na negociação do valor total. Muitos itens podem ser alugados também.

MAPAS

Nas livrarias há mapas para todos os trekkings do Nepal, porém eu e outras pessoas encontramos muitos erros na marcação das altitudes, o que atrapalha um pouco o planejamento. Para ser mais prático, uma idéia é fotografar o mapa todo com o celular para ter acesso rápido a ele durante a caminhada sem ter que ficar dobrando e desdobrando o original toda hora.


Dal bhat
ACLIMATAÇÃO

O Mal Agudo da Montanha (em inglês AMS, Acute Mountain Sickness) é um problema muito sério que não deve ser ignorado. Durante a caminhada do Everest eu soube que um japonês morreu em Gorak Shep porque não queria descer mesmo se sentindo mal em consequência da altitude (matéria aqui). É preciso ficar atento aos sinais do corpo e a melhor solução sempre é descer. Aconteceu comigo também. Fiquei quatro noites praticamente sem dormir, apesar de não ter nenhum outro sintoma, e precisei baixar dos 5160m aos 3800m para poder dormir, me recuperar do cansaço e dar um tempo maior para o meu corpo se adaptar à altitude.

O Mal Agudo da Montanha atinge tanto atletas e esportistas de condição física perfeita quanto trilheiros de primeira viagem. E pode atingir também trilheiros já acostumados a caminhar na altitude. O processo de aclimatação é condição necessária para todos.

Os sintomas mais leves a partir dos 3000m de altitude são dor de cabeça, tontura, náusea, perda de apetite, falta de ar, cansaço, irritabilidade e dificuldade para dormir. Nesse caso o corpo está dando sinais que não devem ser ignorados e o melhor é parar de subir, subir mais devagar (dormindo mais noites na mesma altitude) ou descer se não houver melhora. Do contrário pode-se desenvolver os sintomas mais graves do AMS.

Os sintomas mais graves são perda de coordenação enquanto caminha e falta de ar mesmo em repouso. O primeiro sintoma pode levar a um edema cerebral e o segundo a um edema pulmonar. Nesse caso é preciso descer imediatamente.

As regras básicas para que o organismo se adapte gradativamente à altitude (leia-se: aclimatação) acima dos 3000m são:
. não dormir 500m acima do local onde se dormiu na noite anterior
. fazer caminhadas de bate-volta até uma altitude superior àquela em que vai dormir (walk high, sleep low)
. de preferência dormir duas (ou mais) noites na mesma altitude e fazer caminhadas a pontos mais altos durante o dia
. beber no mínimo 3 litros de água por dia

Por fim, a polêmica do Diamox. Alguns médicos são contra o uso desse medicamento para reduzir os sintomas da altitude, mas no Nepal quase todo mundo tem na mochila e até o médico em Kathmandu me receitou na consulta que fiz (sem eu pedir). Mas mesmo usando Diamox deve-se seguir as regras de aclimatação acima para não desenvolver os sintomas mais graves do mal de altitude. Muita gente faz uso mas não posso falar dos efeitos e benefícios porque não tomei. Quando tive quatro noites de insônia não tinha Diamox para testar se resolveria o meu problema. O que é consenso entre os médicos no caso de insônia é não tomar remédios para dormir. 


Máscara para enfrentar a poluição e poeira de Kathmandu
TRATAMENTO DA ÁGUA

A água mineral é vendida no Nepal em garrafas de 1 litro ou menores. Essa água, que custa Rs20 ou Rs30 em Kathmandu, chega a custar Rs450 em Gokyo. Além desse preço absurdo, o grande problema é a acumulação de garrafas pet nos lixões dos vilarejos e ao longo das trilhas. Comprar água mineral é a pior das soluções para matar a sede. O que fazer? Tratar a água de torneira dos vilarejos ou a água dos riachos, ambas abundantes e de fácil acesso em todos os trekkings. Há várias maneiras:

1. ferver a água
. vantagem: o gosto não é alterado, custo muito baixo
. desvantagem: não é tão prático e rápido, a água demora a ferver e a esfriar para colocar nas garrafas pet; quanto maior a altitude, menor a temperatura de ebulição da água, por isso é preciso ferver por mais de 5 minutos em altitudes mais elevadas

2. filtro Sawyer ou LifeStraw
. vantagem: o gosto não é alterado, muito mais prático que ferver
. desvantagem: filtra bactérias e protozoários, mas os vírus passam; não pode ficar exposto a temperaturas muito baixas

3. pastilha de cloro (Clorin) ou dióxido de cloro (Micropur)
. vantagem: muito mais prático que ferver
. desvantagem: o gosto é horrível, demora de 30 minutos a 4 horas para purificar completamente dependendo do tipo de pastilha

4. Steripen
. vantagem: método muito prático e rápido (leva apenas 90 segundos para purificar 1 litro de água), o gosto não é alterado
. desvantagem: custo alto, a água deve ser cristalina, dependência de um aparelho eletrônico (que dá bastante problema segundo as críticas no site amazon.com)

5. pastilha de iodo: não acho esse método recomendável pois não é eficaz contra o protozoário Cryptosporidium, não pode ser usado por um longo período (mais que 6 semanas) e não pode ser usado por pessoas com problema de tireóide

Minha experiência: eu não tenho Steripen, então usei os 3 primeiros métodos sempre combinando dois deles. Levei um fogareiro e comprei cartuchos de gás em Kathmandu. Toda noite eu filtrava a água, depois fervia e esperava esfriar durante a noite. Ou eu filtrava e usava a pastilha de dióxido de cloro (Micropur), mas isso apenas se eu não pudesse ferver pois o gosto final era de sabão. Levei um filtro Sawyer Squeeze e nos lodges onde a temperatura no quarto poderia ser abaixo de 0ºC eu dormia com ele junto ao corpo.

Conheci trilheiros que estavam tratando a água apenas com filtro Sawyer ou LifeStraw e não tiveram problema. Geralmente as pessoas usavam apenas um dos métodos que mencionei. É possível também comprar água fervida nos lodges, mas o custo ainda é alto.


Vaquinhas sagradas
TELEFONIA E INTERNET

Vou colocar em cada relato de trekking no Nepal o nome das operadoras de celular que funcionam na maioria dos vilarejos. As mais comuns são NCell (www.ncell.axiata.com), NTC/Namaste, Sky e Smart (www.smarttel.com.np). A NCell tem lojas próprias em Kathmandu onde se pode comprar o chip e fazer a carga pelos preços oficiais, bem mais baixos que nas lojas turísticas do Thamel. A loja que eu ia fica na Durbar Marg, mas há outra perto da Praça Durbar (segundo o site). Para comprar o chip é preciso levar passaporte, uma foto 3x4 e preencher um formulário na loja. Para fazer a recarga não necessita de nada disso. Eles mesmos configuram o celular, mas é bom conferir se o chip está funcionando antes de sair da loja. Eu paguei Rs 100 (US$ 0,87) pelo chip e Rs 355 (US$ 3,08) pelo pacote de 1,3 GB por 30 dias (há muitos outros pacotes). Para as outras operadoras não vi lojas próprias, mas segundo o site a Smart possui lojas (esta é uma operadora que funciona em pouquíssimos lugares).

Muitos lodges e cafés ao longo dos trekkings têm wifi mas é sempre pago e vale a mesma regra: o preço sobe junto com a altitude e distância das cidades. Para recarregar as baterias, alguns poucos lodges têm tomada no quarto, na maioria deles é preciso pagar pela carga.  Levar alguns power banks a mais é uma boa idéia para não gastar muito com recargas. Lembrando que o frio descarrega as baterias mais rápido do que o habitual, por isso eu costumava colocar o power bank dentro da blusa na hora de usá-lo para recarregar o celular.

No trekking do Everest há dois serviços de cartão pré-pago que dão acesso ao wifi dos lodges em diversas vilas:
1. Everest Link (www.everestlink.com.np) - custa Rs 1999 (US$ 17,35) por 10GB em um período de 30 dias (há outros pacotes); segundo o site funciona nas principais localidades ao norte de Lukla, inclusive no Kala Pattar e no Campo Base do Everest 
2. Nepal Airlink (www.nepalairlink.com.np) -
custa Rs 1260 (US$ 10,94) por um período de 30 dias (há outros pacotes); o site estava fora do ar quando publiquei esse relato mas pelo que pude entender a Nepal Airlink funciona apenas no trekking Shivalaya-Lukla e só no trecho entre as vilas de Junbesi e Kharte, e também em Phaplu.

Não cheguei a usar nenhum dos dois porque não sabia da existência e já tinha comprado o chip da NCell.

PERMISSÕES

A seguintes permissões podem ser obtidas no Tourist Service Center, próximo ao Ratna Park, em Kathmandu:

1. TIMS card - levar passaporte, 2 fotos 3x4 e preencher um formulário (importante: segundo a funcionária desde 16/11/2018 é obrigatório ter seguro-viagem para obter o TIMS card e deve-se fornecer o número da apólice no formulário). Valor: Rs2000 (US$17,36).
O TIMS card é necessário para todos os trekkings exceto para o Everest (desde outubro de 2017) e válido apenas para um trekking específico, ou seja, no meu caso tive de pagar o TIMS para Langtang e depois para o Annapurna, num total de Rs4000 (US$34,72). Para o Everest o TIMS card foi substituído em out/2017 por uma permissão local que pode ser obtida em Lukla ou Monjo (não em Kathmandu) pelo valor de Rs2000 (US$17,36) e sem foto.

2. permissão de entrada do Parque Nacional Langtang - levar somente passaporte. Valor: Rs3400 (US$29,51)

3. permissão ACAP para o Annapurna Conservation Area - levar passaporte, 2 fotos 3x4 e preencher um formulário. Valor: Rs3000 (US$26,04)

4. permissão de entrada do Parque Nacional Sagarmatha - eu obtive essa permissão em Monjo, durante o trekking do Everest, mas há um balcão no Tourist Service Center em Kathmandu que a emite. Pediram apenas passaporte, nenhuma foto.Valor: Rs3000 (US$26,04)

5. permissão de entrada do Gaurishankar Conservation Area - eu obtive essa permissão em Shivalaya, durante o trekking do Everest, mas há um balcão no Tourist Service Center em Kathmandu que a emite. Pediram apenas passaporte, nenhuma foto.Valor: Rs3000 (US$26,04)

Horário do Tourist Service Center em Kathmandu:
. balcão Annapurna, Manaslu e Gaurishankar: diário das 9 às 13h e das 14h às 15h
. balcão Everest e Langtang: de domingo a sexta-feira das 9h às 14h
. balcão TIMS card: não havia horário afixado
Esses horários mudam frequentemente.


Banheiro ao estilo "limpo" (os outros melhor não publicar)
BANHEIROS AO ESTILO OCIDENTAL E ORIENTAL

Durante todos os trekkings é mais comum encontrar o banheiro ao estilo oriental, quer dizer, uma peça de louça no chão com um buraco no meio e lugares para colocar os pés nas laterais. A descarga quase sempre é com um balde ou caneca que fica ao lado. Quando raramente se encontra um vaso sanitário, a descarga normalmente é com o balde ou caneca mesmo. Nos lodges de maior altitude é preciso ter cuidado com a água congelada de manhã no piso do banheiro e ao redor do buraco.

Papel higiênico deve ser comprado e levado sempre na mochila pois os nepaleses não usam e não se encontra em nenhum banheiro. Prefira comprar nas cidades pois nos lodges é bem mais caro.

BANHO

É possível tomar banho de ducha em muitos lodges durante os trekkings. Se não houver ducha eles preparam um banho de balde. Em ambos os casos é preciso pagar à parte e o preço aumenta à medida que se distancia mais das cidades. A água da ducha pode ser aquecida a gás ou por energia solar. Se for a gás o banho é ótimo, com a água bem quentinha. Se for com energia solar a água fica morna ou quase fria no fim da tarde ou em dias de céu encoberto.

VACINAS

Nenhuma vacina é obrigatória para entrar no Nepal porém é bastante recomendável tomar/atualizar as vacinas de febre tifóide e hepatite A pois a transmissão dessas doenças se dá por água e alimentos contaminados. Nenhuma das duas está disponível na rede pública no Brasil, é preciso pagar em um clínica particular.

Eu aproveitei para atualizar todas as outras vacinas recomendáveis: tétano, difteria, hepatite B, gripe, antirrábica e febre amarela.

VIAJANDO DE ÔNIBUS NO NEPAL

Os ônibus em que viajei no Nepal eram genericamente chamados de "local bus". Parece que há os tipos express, super express, mas não sei dizer a diferença. Todos eram muito lentos, apertados e sem banheiro. A dica que quero dar aqui é sempre pedir um assento no meio do ônibus. Os bancos do fundo pulam demais por conta das estradas de terra cheias de buracos e pedras. O último banco é muito mais desconfortável que qualquer outro - evite! Os bancos da frente não são muito convenientes porque é um entra-e-sai constante de pessoas, bagagens, sacos, etc. São feitas algumas paradas para banheiro durante as longas viagens, mas é bom não tomar muito líquido para não passar aperto. Em todas as viagens a mochila sempre ia comigo, o que era também um transtorno. 


Ônibus para Jiri e Shivalaya no terminal do Ratna Park
PEDINDO INFORMAÇÃO DURANTE O TREKKING

Não quero generalizar sobre esse assunto mas vou falar da minha experiência. Concluí que não é muito útil pedir informação aos nepaleses durante a caminhada. Ao necessitar de informação sobre o caminho o melhor é perguntar aos trilheiros, melhor ainda aos trilheiros independentes pois estes estudaram os mapas e sabem o nome das vilas de onde vieram e para onde estão indo. Trilheiros com guia muitas vezes não sabem nada também. Por que não perguntar aos nepaleses já que vivem ali? Em geral eles são bem confusos na explicação, alguns dão informação errada, muitos não entendem a pergunta e falam qualquer coisa. Geralmente eles sabem só o inglês necessário para falar sobre o quarto e a comida, ao serem questionados sobre as condições do caminho não entendem e não sabem explicar. Além disso, nepaleses têm a tendência de responder sim a tudo por cortesia (um não pode ser considerado indelicado), portanto não se deve perguntar: o caminho para a próxima vila é este? pois eles provavelmente vão responder sim. É melhor perguntar: qual é o caminho para a próxima vila? nesse caso eles não podem responder simplesmente sim. Depois confira a informação com outras pessoas, não confie na primeira informação que obtiver.

CALENDÁRIO

O Nepal usa um calendário diferente chamado Sambat. Neste ano de 2018 do calendário gregoriano eles estão no ano 2075. Em algumas situações eles podem usar a data do calendário Sambat em lugar do gregoriano. Comigo aconteceu de preencherem uma passagem de ônibus com essa data.

NAMASTÊ

O cumprimento habitual no Nepal é a palavra namastê. Questionei algumas pessoas sobre o significado dessa palavra e eles respondem que é somente um olá. Mas namastê tem um significado mais espiritual e literalmente quer dizer: Eu saúdo o divino dentro de você, Eu me curvo ao divino em você, O sagrado em mim reconhece o sagrado em você, O divino em mim se curva ao divino dentro de você, entre outros significados.

Rafael Santiago
dezembro/2018