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domingo, 4 de outubro de 2015

Travessia Pq Est do Rio Preto-Pq Est do Pico do Itambé (Serra do Espinhaço-MG) - mai/15

ImagemCachoeira do Crioulo

Quando subi o Pico do Itambé pela primeira vez em 2012 (http://trekkingnamontanha.blogspot.com.br/2012/08/relato-circuito-pelo-pico-do-itambe_3694.html) a intenção era continuar a caminhada até o Rio Preto, realizando assim a travessia dos dois parques vizinhos. Mas o Parque Estadual do Rio Preto estava fechado para reformas e não me foi dada a autorização. O projeto ficou na gaveta por três anos e este foi o momento oportuno de realizá-lo.

A travessia entre os dois parques rasga todo o PE do Rio Preto no sentido norte-sul acompanhando o curso do Rio Preto até suas nascentes, que são protegidas por essa unidade de conservação. No meu roteiro, ao deixar a bacia do Rio Preto (e consequentemente o PE do Rio Preto) na direção sul, cruzei o pequeno bairro da Bica d'Água. Em seguida entrei na área do PE do Pico do Itambé, onde subi o pico pela face oeste e desci pela leste, visitando as cachoeiras a caminho de Santo Antônio do Itambé. A caminhada terminou no povoado de Capivari, após percorrer a Trilha dos Tropeiros.

ANTES DA TRAVESSIA: CONHECENDO O LINDO PARQUE ESTADUAL DO RIO PRETO

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/ParqueEstadualDoRioPretoSerraDoEspinhacoMGMai15.

Deixei São Gonçalo do Rio Preto às 7h50 no táxi do Edmundo e, após 13km de estrada de terra em condições razoáveis, estávamos na portaria do Parque Estadual do Rio Preto às 8h19. Identifiquei-me para o funcionário e confirmei que iria acampar e fazer a travessia para o Parque Estadual do Pico do Itambé, tudo devidamente agendado por e-mail e confirmado pelo Tonhão, chefe do parque. Continuei no táxi mais 4,6km até o centro de visitantes, onde o Edmundo me deixou às 8h39. Assisti à palestra sobre o parque e resolvi pegar a saída das 10h para as cachoeiras para ver se aparecia mais alguém. Enquanto isso fui montar minha barraca na área de camping, a 350m dali. Havia cerca de dez outras barracas, mas todos estavam arrumando as coisas para ir embora pois era domingo, final de feriado prolongado. Ali comecei a me surpreender com a ótima estrutura do parque, por exemplo os banheiros adaptados para deficientes físicos, inclusive o chuveiro, algo que eu nunca tinha visto nem em camping particular. Além disso, são limpíssimos, têm sabonete líquido e papel higiênico. O caminho para a Prainha, a 150m do camping, também é acessível a deficientes. Aliás, foi o meu primeiro passeio, aproveitando os minutos que faltavam para a saída das cachoeiras. Um lugar encantador, a primeira das muitas praias de areia branquíssima que eu conheceria nas caminhadas ao longo do Rio Preto.

Da Prainha voltei ao camping e peguei um atalho de 450m para o restaurante, de onde saem os passeios monitorados. Lá chegando, conheci pessoalmente o Tonhão, que me disse que destacaria um funcionário para me acompanhar no dia seguinte até a casa da Chapada. Apesar de eu ter o caminho marcado no gps, ele não quis que eu fosse sozinho. Agradeci e lhe dei os parabéns pelo belo parque que gerencia. 

Não apareceu mais ninguém para a caminhada das cachoeiras e saí sozinho com o monitor Valdir. A caminhada até a Cachoeira do Crioulo, a mais distante, é espetacular, pois caminha-se pela encosta da margem esquerda do Córrego das Éguas, bem acima dele, com linda vista do vale e das serras ao redor, inclusive com três mirantes de madeira onde se pode sentar e admirar a paisagem. O Morro Dois Irmãos, o Morro do Alecrim e o Morro da Serraria se destacam. Às 11h38 cruzamos o Córrego das Éguas e descemos em 10 minutos à Cachoeira do Crioulo, belíssima, com um grande poço de águas negras contrastando com a areia branca que o rodeia e acompanha o rio. Pausa para o lanche e às 12h25 retomamos a caminhada, agora mais difícil, sempre pela margem do rio. Apesar de um pouco mais difícil e demorada, a volta pelo rio reserva alguns recantos incrivelmente bonitos. 

ImagemPoço do Veado

Cruzamos o rio por um tronco e continuamos pelas lajes inclinadas, com alguns pontos mais delicados, possíveis de se escorregar. Pegamos um trecho de trilha e descemos de volta às lajes do rio por uma escada rústica. Cruzamo-lo de novo num salto e chegamos ao alto da Cachoeira Deitada às 13h. Mais 20 minutos caminhando pelas lajes e descemos à Cachoeira Sempre-Viva, na minha opinião não tão impactante e encantadora quanto a do Crioulo mas muito bonita também, despencando diretamente nas grandes lajes abaixo, sem poço. Permanecemos apenas 7 minutos e às 13h27 deixamos o local descendo por outra escada de madeira e continuando pela margem direita. Atravessamos o rio algumas vezes de maneira fácil mas às 14h07, na Forquilha, precisamos tirar as botas para cruzar o Córrego das Éguas, que encontra o Rio Preto 50m abaixo, por isso o nome do local. Aliás outro lugar paradisíaco que merecia mais tempo para ser curtido. A trilha entrou na mata e 420m depois pegamos uma saída à direita para visitar o Poço de Areia. Reencontramos a trilha da ida numa bifurcação pouco antes de um riacho e chegamos ao restaurante às 15h05.

Como iria sair no dia seguinte cedo para a Chapada, corri para conhecer um outro grande atrativo próximo, o Poço do Veado. Fui sem o monitor. Do restaurante peguei a estradinha principal, passei pelo centro de visitantes (a 300m) e fui para a direita na bifurcação, como se fosse voltar à portaria do parque. Uns 40m depois da ponte sobre o Córrego das Boleiras entrei às 15h23 na trilha à direita, com placa mostrando a extensão (4,6km, mas no meu gps deu 6km ida e volta sem contar as saídas para os atrativos) e os atrativos da Trilha do Cerrado, todas ao longo do Rio Preto, sendo o Poço do Veado o primeiro deles. A trilha é larga e bem batida e com 950m uma placa indica a descida para o poço, que fica a 120m. Há um mirante de madeira na descida.

Até ali muita gente vai, inclusive cruzei com várias pessoas voltando. Mas a partir dali a trilha fica mais estreita e aparentemente menos pessoas se "arriscam". Eu não poderia deixar de explorar o local por completo (só depois vi que a placa do início diz que é obrigatório o acompanhamento de um condutor nessa Trilha do Cerrado). 

O próximo atrativo sinalizado com placa foi o Rio Lento, apenas um remanso do Rio Preto a 540m da bifurcação do Poço do Veado. Mais 360m e chego a um outro local muito bonito e agradável, o Vau Bravo, onde a mansidão do rio se transforma em bonitas corredeiras. Continuando, cerca de 160m após a trilha entrar na mata uma outra sai à direita sem placa. É o caminho para o Poço de Pedra, onde entrei também. Ao sair da mata é melhor caminhar para a direita pelo leito seco e depois passar entre as pedras para chegar ao poço, que é gigante. Voltando à trilha principal há uma bifurcação 280m depois também não sinalizada. À direita se volta ao rio num local sem nada de especial. À esquerda, em mais 520m alcanço a placa que indica à direita o Vau das Éguas, com poção e pequenas cachoeiras. O que impressiona ali é ver a que nível o Rio Preto chega em época de chuva, como mostram os galhos e gravetos espalhados pela margem. 

A trilha principal continua, meio fechada, mas já eram 16h42 e não havia mais tempo para explorações. Retornei pelo mesmo caminho e às 17h47 estava de volta à estrada.

A noite foi tranquila com o camping todo só para mim e não cheguei a ver ou ouvir o lobo-guará que faz visitas regulares ao local.

Altitude de 773m no camping.
Nesse dia caminhei 22km.
A maior altitude do dia foi 970m.

ImagemMorro Dois Irmãos

1º DIA DA TRAVESSIA: DA SEDE DO PARQUE ESTADUAL DO RIO PRETO À CASA DA CHAPADA

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/TravessiaPqEstDoRioPretoPqEstDoPicoDoItambeSerraDoEspinhacoMGMai151Dia.

Desmontei acampamento e às 7h48 encontrei o Valdir, que seria de novo meu guia, mas só até encontrar outro funcionário do parque que sairia da base da Chapada para nos encontrar. Saímos às 7h54 na direção das cachoeiras, como no dia anterior, porém na bifurcação após o riacho tomamos a esquerda. No Poço de Areia cruzamos o Rio Preto facilmente pelas pedras e começamos a longa subida, que iria durar o dia todo praticamente. Às 8h33 cruzamos a ponte sobre o Córrego da Embira (segundo a carta) e 12 minutos depois fomos à direita na bifurcação pois a esquerda leva ao aceiro que é o limite leste do parque. Às 8h56 uma trilha sai à direita e leva às Corredeiras do Rio Preto, que é um passeio monitorado que sai somente às 10h. Logo depois encontramos com o funcionário que saiu da Chapada para nos encontrar, o Jaime, que estava num cavalo. Dali o Valdir voltou. Cruzamos uma tronqueira e às 9h29 entroncou uma trilha que vem da cidade de Felício dos Santos, com placa sinalizando. No riacho 280m depois (Córrego da Lapa) consegui achar um ponto onde pudesse atravessar num pulo, sem ter que tirar as botas. A subida deu uma trégua e atravessamos um grande platô, mas no final dele mais subida pelas lajes até cruzar uma porteira e chegarmos às 9h56 à Lapa da Santa. De lapa mesmo não há nada, é apenas um grande bloco de rocha com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida a seus pés e inscrições rupestres pichadas. Paramos para descanso e às 10h20 prosseguimos. 

Às 11h02 outra lapa, a do Tropeiro, essa uma lapa mesmo, um abrigo rochoso, onde muita gente já morou na época de grandes colheitas de sempre-vivas. Ela fica 30m à esquerda da trilha. Mais 200m e cruzamos o Córrego Lapa do Tropeiro, continuando à direita na bifurcação. Às 11h29 a terceira e última lapa do caminho, a Lapa do Filó, a maior de todas, sob um enorme bloco rochoso. Nela há algumas pinturas rupestres em bom estado. Cruzamos um riacho pelas lajes (afluente do Rio Preto; o Rio Preto estranhamente aparece na carta topográfica do IBGE com o nome de Córrego Taioba) e nos aproximamos muito do Rio Preto, correndo a menos de 50m à nossa direita. Mais à frente avistamos uma casa, na verdade duas. Descemos um pouco, cruzei o riacho (outro afluente do Rio Preto) num salto e fomos na direção das casas pela trilha da direita. A primeira delas (12h16) eles chamam de Casa de Mozart, nome do antigo morador. A segunda, 300m à frente, era usada como base pelos guardas antes de eles se transferirem para uma casa mais próxima do limite sul do parque. Fizemos uma segunda pausa para descanso e comer alguma coisa. O sol resolveu mostrar a cara, e bem forte. Até ali o céu esteve encoberto, bom para caminhar mas ruim para as fotos. Quando as nuvens dissiparam pude ver e fotografar o Morro Dois Irmãos já bem mais próximo.

ImagemPlantas aquáticas num afluente do Rio Preto

Às 12h51 retomamos a caminhada pegando a trilha que sai na direção sudeste, logo cruzando um riacho (mais um afluente do Rio Preto) por uma pontezinha de madeira. Às 13h02 entroncou à esquerda a trilha que vem diretamente da Casa de Mozart. Com mais 11 minutos fomos à direita numa bifurcação mas é apenas uma variante que encontra a trilha principal de novo 60m depois. Apenas 15m depois, às 13h15, chegamos à bifurcação que leva ao Morro Dois Irmãos, onde o Jaime continuou em frente (direita) em direção à casa dos guardas e eu fui para a esquerda encontrar com o Miltinho e o Ereni, que me acompanhariam na subida da montanha. Encontrei-os poucos metros à frente e seguimos com uma visão já bem próxima e desafiadora do Dois Irmãos. Cruzamos dois riachos (também afluentes do Rio Preto) e pegamos um atalho pelo capim até o aceiro no limite do parque, onde uma longa cerca impede que o gado da fazenda ao lado entre. Deixei a cargueira escondida nas pedras e seguimos apenas 150m pelo aceiro na direção do pico, tomando logo uma trilha à esquerda como atalho. Mas logo abandonamos a trilha e subimos à direita pelo capim na direção da montanha, reencontrando o aceiro num ponto bem acima. Cruzamos a cerca às 14h34 e nos dirigimos por trilha à base à direita (leste) do pico, ponto mais fácil de subida pois é uma crista ascendente. A picada logo some e a subida do pico é feita sem trilha demarcada, porém sem dificuldade pois há caminho entre a vegetação. Atingimos o cume oeste do Morro Dois Irmãos às 15h, de 1830m de altitude, e de lá se vê que o cume leste é bem mais baixo, apesar de parecerem quase da mesma altura de longe. Dali é possível ver várias cidades, como Diamantina (a oeste), Felício dos Santos e São Gonçalo do Rio Preto (norte). Além das cidades, víamos o Morro Redondo, no limite do parque, e a 21,6km o Pico do Itambé, meu objetivo nessa travessia. A vista é magnífica! Iniciamos a descida às 15h27 e em 24 minutos estávamos de volta à cerca do aceiro. Pegamos o mesmo atalho sem trilha até o local onde deixamos a cargueira, andamos só mais 260m pelo aceiro na direção sul e o abandonamos para atalhar pelo capim na direção da casa dos guardas, que estava a sudoeste, aonde chegamos às 16h50. 

A casa tem dois quartos com duas camas cada um, cozinha equipada e banheiro com ducha aquecida pelo fogão a lenha. Eles passam a semana toda lá, revezando com a outra equipe de três guardas toda segunda-feira. Pensei em acampar no quintal mas como havia uma cama vaga, dormi nela com o saco de dormir. E não recusei a gentil oferta da janta farta e deliciosa preparada por eles.

Altitude de 1563m.
Nesse dia caminhei 23,2km.
A maior altitude do dia foi 1830m, no Morro Dois Irmãos

ImagemPico do Itambé e Serra da Bicha

2º DIA: DA CASA DA CHAPADA À BICA D'ÁGUA

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/TravessiaPqEstDoRioPretoPqEstDoPicoDoItambeSerraDoEspinhacoMGMai152Dia.

Deixei a casa dos guardas na Chapada às 7h44 e o Miltinho ainda fez questão de me acompanhar até a porteira que limita o parque. A neblina estava muito densa e não consegui ver o Morro Redondo mesmo passando ao seu lado. Nem mesmo avistar a nascente do Rio Preto, sinalizada por uma placa. Na porteira me despedi do Miltinho agradecendo a atenção toda e a disposição em me acompanhar na subida do Morro Dois Irmãos no dia anterior. A partir dali deixaria para trás a bacia do Rio Preto e caminharia basicamente na direção sul por uma crista descendente, com nascentes vertendo para leste e oeste, e nada de água na crista.

Caminhei pela estrada precária de terra descendo suavemente e quando a neblina dissipou parei para admirar a paisagem e visualizar o caminho até o Pico do Itambé, que demorou a sair de trás das nuvens. Mas eu não tinha pressa e esperei. Quando me dei conta tinha ficado ali 1 hora e 50 minutos, das 9h24 às 11h14! Continuei a descida pela estradinha sem entrar nos atalhos e às 11h58 surgiu uma fonte de água à direita que parecia um pequeno canal pois era muito reto. Aproveitei que ainda estava num local alto e abasteci os cantis. 

Às 12h09 alcancei uma porteira com um cruzeiro de madeira ao lado e a placa de uma tal Fazendinha Chapadocia para a esquerda. Mas continuo em frente, cruzo a porteira e vou para a direita, descendo ainda. Passo a caminhar por estrada de terra batida (até aqui era uma estrada estreita e bem precária). Uns 200m abaixo da porteira a água daquele canal onde abasteci atravessa a estrada. Passei por uma placa que sinaliza que a estrada que entronca à esquerda vem de uma localidade chamada Santa Cruz e em seguida cruzei uma porteira. Uns 90m depois, às 12h24, uma bifurcação que causou alguma dúvida e me tomou um bom tempo. Sabia pelo gps que para a direita chegaria ao bairro da Bica d'Água, porém dando uma volta enorme por estradinhas. Desconfiei que à esquerda poderia encontrar um atalho e, contando sempre com a minha sorte nessas horas, apareceu um senhor a cavalo que não só me ensinou o caminho como me levou ao início da trilha. Ele era tio do Miltinho! 

A propósito, o bairro aqui se chama Covão. Da bifurcação fomos então para a esquerda e esquerda pois o entroncamento ali forma um triângulo, como se tivesse uma "praça" central. Cerca de 900m abaixo passamos pela escola do bairro e 50m depois sai uma trilha para a direita. O homem repetiu as instruções sobre o caminho e seguiu pela estrada. Eu entrei na trilha às 13h16, cruzei uma tronqueira e entrei na sombra da mata. Na bifurcação com tronqueira à direita fui para a esquerda por uma trilha mais ruim, uma descida com pedras, e cruzei outra tronqueira. À direita, além da cerca, tenho os fundos da casa que se acessa pela direita na última bifurcação. O capim estava um pouco alto, sinal de trilha pouco usada. Outra tronqueira. Na bifurcação com porteira à direita fui em frente (esquerda), conforme as recomendações, e logo passei por uma tronqueira aberta. Após um outro trecho de capim alto, de novo dentro da mata, notei uma trilha saindo para a direita, mas continuei em frente pois logo depois essa mesma trilha entronca à direita, formando uma bifurcação, onde fui para a esquerda. 

ImagemCórrego Bica d'Água

Na bifurcação seguinte a trilha mais aberta desce à direita e leva ao Sumidouro (14h13), local em que o Ribeirão Soberbo corre por baixo das pedras e dele só se ouve o ruído. Porém os blocos de pedra são muito grandes e há gretas fundas entre eles. Um escorregão nas pedras poderia me causar sérios problemas. Achei mais seguro procurar outro local para atravessar o rio. Subi de volta à última bifurcação e fui para a direita (lado da esquerda quando vim), menos batida. Cruzei uma tronqueira e passei ao lado de um barulho de motosserra, mas não vi quem estava ali. Outra tronqueira marca o final da mata e o início de um campo de samambaias. Do outro lado do rio vejo vacas pastando e casas. A trilha bifurcou na descida e acompanhei a cerca, indo mais para a direita e logo voltando ao Ribeirão Soberbo. Se tivesse pego trilhas à esquerda em meio às samambaias acredito que teria cruzado o rio num ponto ainda mais fácil. Nesse ponto do rio em que cheguei tive que tirar as botas, mas estava bem raso, na altura da canela. Peguei a trilha na outra margem mas ela prometeu bem mais do que cumpriu pois após a tronqueira ela sumiu no capim alto do pasto. O segredo aqui é subir suavemente pelo pasto na direção oeste, desprezando trilhas à esquerda que somem logo, até um curral, depois uma casa à esquerda e finalmente a estrada, bastante precária, aonde cheguei às 15h27.

Devo ter economizado alguns km nesse caminho, mas a maior vantagem mesmo foi ter conhecido mais uma trilha em lugar de andar só por estradas. Desci para a esquerda, passei uma porteira abaixo e começou a longa subida. Essa estrada corta o pequeno bairro da Bica d'Água, de poucas casas espalhadas, e praticamente termina na casa do Seu Santo, morador antigo que dá apoio aos trilheiros e ciclistas durante a travessia com alimentação, banho quente, pernoite e aluguel de mula a quem necessitar.

Às 15h46 uma estradinha à esquerda parece levar a uma cachoeira no Rio Soberbo, mas não fui conferir. Mais 500m e alcanço uma parte alta da estrada com bonita visão das montanhas, inclusive o Pico do Itambé. Após diversas porteiras de madeira e de arame, às 16h58 cruzei uma ponte de madeira, logo depois outra porteira (aberta) e cheguei à casa do Seu Santo às 17h04. É uma casa bege e verde à direita com uma placa de "Bem-vindo à Bica d'Água" e uma sequência de quedas e poços no Córrego Bica d'Água em frente (Córrego Serra da Bicha consta na carta). Fica aos pés da acidentada e bonita Serra da Bicha. A estradinha termina ali, depois é trilha. Chamei e quem me atendeu foi a Dona Maria. Mas não demorou ao Seu Santo chegar a cavalo.

Sua casa é coberta de folhas de palmeira, algo que encanta os visitantes pelo visual mas que ele mesmo não gosta pois não dura muito tempo. A energia vem de placas solares então não dá para ter nada mais do que um mero liquidificador. Portanto essa noite foi recheada de muitas conversas ao pé do fogão a lenha, ele me contando muitos "causos" locais de moradores e visitantes. Ele não é funcionário do parque mas sabe sobre todos os trilheiros e ciclistas que estão fazendo a travessia pois os guardas de ambos os parques entram em contato para avisar, mais por questão de segurança do visitante.

Jantei com eles e novamente não montei a barraca, dormi num dos quartos da casa.

Altitude de 1068m.
Nesse dia caminhei 17,5km (descontados os erros e explorações).
A maior altitude do dia foi 1642m, na porteira do limite sul do PE do Rio Preto

ImagemVale do Córrego Bica d'Água

3º DIA: DA BICA D'ÁGUA AO PICO DO ITAMBÉ

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/TravessiaPqEstDoRioPretoPqEstDoPicoDoItambeSerraDoEspinhacoMGMai153Dia.

Amanheceu com céu encoberto e logo veio a chuva, o que me segurou um pouco na casa do Seu Santo e da Dona Maria, a qual logo cedo já estava na casa de farinha ralando um montão de mandioca. Eu não deixei o local sem passar pelo pé de mexerica e encher uma sacola... rsrs... para consumo imediato e "para viagem". 

Saí da casa do Seu Santo às 9h30 tomando a trilha em que se converte a estradinha por onde cheguei. Cruzei uma porteira e logo surgiu uma outra casa à direita, mas a Dona Maria disse que essas casas mais acima estão vazias pois todos se mudaram. Por 270m a trilha alargou como uma estrada, mas voltou a estreitar novamente. Cruzei dois riachos e duas tronqueiras e às 10h17 a paisagem à esquerda se abre para um pasto às margens do Córrego Bica d'Água, com vacas pastando. Mais 420m e aparece uma casa isolada à direita. Cruzei uma tronqueira aberta e a trilha me levou ao curral à direita. Esse local causa alguma dúvida pois há várias trilhas curtas próximas a um riacho e a continuação do caminho está camuflada pela vegetação. Não era necessário me aproximar do curral, simplesmente descer ao riacho quase sem trilha, atravessá-lo e subir a outra encosta tendendo para a esquerda. Mas antes disso a cobertura precária do curral me serviu de abrigo da chuva que voltou, logo depois de eu ter passado protetor solar por causa do sol ardido. Aproveitei também para ver de perto uma "casa" de folhas de palmeira que alguém construiu embaixo de uma enorme rocha, tal como nas lapas de antigamente vistas no Parque do Rio Preto. Para vê-la tive de cruzar uma cerca por uma tronqueira, à esquerda do ponto onde cheguei. Gastei ainda algum tempo ali procurando a tal da Cachoeira da Cortina, mas era preciso cruzar o Córrego Bica d'Água tirando as botas e não sabia a distância até ela. Como não conseguia avistá-la e não podia gastar muito tempo nisso resolvi prosseguir na travessia.

Cruzei o riacho próximo ao curral (e também uma tronqueira ao lado dele) às 11h39 e a trilha na outra encosta sobe até um ponto em que se vê a Cachoeira da Cortina lá embaixo. Foi aí que percebi como cheguei perto dela. Paciência... Ali no alto cruzei uma tronqueira, depois a trilha bifurcou (mas tanto faz o lado), atravessei um riacho e percebi que estava caminhando cercado de paredões por todos os lados, sinal de que as montanhas estavam próximas. Logo noto o Itambé me observando à esquerda. Após outra tronqueira cruzo um ribeirão de águas negras, com um incrível poço preto à direita. Segundo a carta esse é o próprio Córrego Serra da Bicha, chamado localmente de Córrego Bica d'Água. Todos os riachos que cruzei desde a casa do Seu Santo são afluentes dele.

ImagemPico do Itambé

A essa altura a chuva havia voltado. Às 12h39 alcanço uma porteira que me lança a um pasto, numa mudança brusca de vegetação e de ambiente. Logo surge a primeira casa, com curral na frente e ninguém para perguntar do caminho pois as trilhas de vaca estavam começando a me levar para diversos lugares errados, fugindo da rota. Não vi uma trilha a oeste da casa que me indicaram depois como sendo a ligação com o bairro do Poço Preto, a caminho de Capivari. Embaixo de chuva e sem ver essa trilha, resolvi seguir direto no rumo da trilha de subida do pico, a que vem do Poço Preto (roteiro que fiz em 2012). Para isso, ao passar pela casa, continuei para sudoeste até encontrar uma mata, que contornei pela direita. Após a tronqueira, no segundo riacho (afluentes do Córrego Serra da Bicha), resolvi subir o pasto sem trilha na direção sudoeste pois a trilha que encontrei não serviu (ela contornou o morro e sumiu logo). Nessa subida acabei encontrando um final de trilha que me levou a uma tronqueira e logo depois a uma casa com vários cachorros meio estressados, às 13h26. Ali encontrei o Lindomar, funcionário do Parque do Pico do Itambé, que me esperava pois a subida do Pico do Itambé estava agendada e confirmada. Descansei um pouco na sua casa (ao lado da casa dos cachorros) enquanto a roupa do corpo secava, assinei o termo de responsabilidade e às 14h34 retomei a caminhada, agora na companhia dele. Saímos da casa por uma trilha que em 400m interceptou a trilha de subida do pico que vem do Poço Preto. Comecei a ver as primeiras setas brancas de madeira para orientação, que não existiam em 2012.

Com apenas 380m de subida chegamos a uma porteira. O Lindomar me indicou um lugar próximo onde se encontra água e disse que iria ficar por ali. Eu continuei a subida, mas já avistava focos de chuva no horizonte. Cerca de 300m acima da porteira e 90m depois de uma placa "leve seu lixo", alcancei o ponto onde muita gente se perde. Fincaram no chão uma seta branca apontando para a direita exatamente onde se deve abandonar a trilha e subir a parede, mas sem dificuldade. O importante é não seguir em frente pela trilha pois não leva a lugar nenhum. Com 320m de subida chego à base do pico, onde se pode contemplar ele todo. Mas nessa hora a chuva me pegou. E estava frio, então o negócio era subir rápido para esquentar. Um totem e uma seta não deixam dúvida quanto ao caminho de aproximação do pico e às 15h43 começou a subida de verdade, mais inclinada, até com trechos de escalaminhada. Alcancei o primeiro buraco, bem estreito, e não quis tirar a capa e a cargueira para não ficar molhado de chuva, então me espremi todo e passei. Uns 70m depois o segundo buraco, ainda mais apertado, e arrisquei de novo ir de cargueira e tudo. Quase fiquei entalado, me contorci mais que lagartixa, mas consegui. Com mais uns 150m a subida suavizou, sinal de que atingi o platô que antecede o cume. Logo passei pela área de acampamento, alagada, de onde sai uma trilha à direita que leva a um ponto de água. Às 16h44 cheguei ao cume do Pico do Itambé, com neblina total, chuva e muito frio. Deixei a mochila na casa sem portas que há no topo e ainda tentei encontrar o ponto de água próximo ao acampamento, mas as trilhas terminavam no nada. Ela deve estar no fundo de algum buraco entre as rochas. Coletei água da chuva para beber. Com o acampamento alagado, só me restava montar a barraca dentro da casa, abrigado do vento gelado. À noite cheguei a ver as luzes de alguma cidade, quando a neblina se abriu um pouco.

Altitude de 2059m.
Nesse dia caminhei apenas 9km (descontados os erros e explorações), porém o desnível foi de 992m.

ImagemFlora abundante no Pico do Itambé

4º DIA: DO PICO DO ITAMBÉ À CACHOEIRA DA FUMAÇA

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/TravessiaPqEstDoRioPretoPqEstDoPicoDoItambeSerraDoEspinhacoMGMai154Dia.

O dia amanheceu quase tão ruim quanto o final do dia anterior, mas pelo menos a chuva forte havia passado, restando uma garoa. O Lindomar apareceu logo cedo para ver se estava tudo bem. 

O objetivo nesse dia era descer do pico pelo lado leste e dormir em Santo Antônio do Itambé. Esse é o caminho mais usado por quem sobe o Itambé, é mais longo mas menos íngreme que o lado oeste, por onde subi. Saí da casa às 9h08, passei pelo cruzeiro de concreto e comecei a descer. Descer com chuva foi bem pior do que subir pois as lajes de pedra estavam escorregadias, exigindo bastante cuidado. Muitas setas brancas orientam para não se tomar a direção errada nas lajes, principalmente no caso de neblina forte, como nesse dia. O Pico do Itambé tem formações rochosas bem interessantes, com formatos curiosos, além de diversas fendas profundas. Isso sem falar na flora, muito bonita e peculiar. Em alguns momentos o Itambé me lembra o Monte Roraima. Às 9h54 passei pela pedra do pato, uma das rochas de formato mais curioso, e às 10h19 cheguei à ponte do Rebentão, uma das fendas profundas. Depois atravessei um campo absurdamente florido, flores cor-de-rosa cujo nome ainda não descobri. Às 11h15 passei pelo riacho que, como alerta a placa, é a última água para quem sobe o pico (nascentes do Córrego da Serra). Mais 325m de descida e exploro rapidamente a Lapa do Morcego, à direita da trilha. É um abrigo natural sob um enorme bloco rochoso, assim como as lapas do Parque do Rio Preto. Segui pela trilha mais batida (ignorando as menores que foram surgindo) e às 12h21 alcancei a casa de taipa do sr Joaquim Moacir (antigo morador que foi retirado e indenizado). Há uma bica ao lado. Ali a trilha vira uma estradinha precária. 

Com 1,1km de estrada surge à esquerda a placa que marca o início da trilha para a Cachoeira do Rio Vermelho, distante 2,6km dali (segundo o meu gps). Minha idéia desta vez era conhecer as três cachoeiras do caminho de descida do pico, mas pelo horário (12h47) eu precisaria apertar o passo já que a portaria do parque fecha às 17h. Entrei rapidamente então e mudei totalmente minha direção de leste para norte. 

ImagemCachoeira da Água Santa

Essa trilha está bastante adaptada para facilitar o acesso à cachoeira. Há pontes, corrimãos e calçamento de pedra nas áreas alagadiças. Após uma tronqueira seguida de uma ponte deve-se subir à esquerda na bifurcação. Ao atingir o alto logo é possível avistar a cachoeira, enorme! E na encosta à sua direita a trilha que desce ao Rio Vermelho. Às 13h36 cheguei à parte alta dela, com uma ponte de concreto horrível que é vista até lá de baixo e enfeia a imagem da cachoeira. Cerca de 80m depois dessa ponte uma trilha sai à direita da principal e desce ao rio (como avistado na chegada). Uma vez no rio tive de varar alguns metros de arbustos para atingir um ponto de observação melhor, enquadrando a cachoeira inteira na câmera. Por incrível que pareça, até ali a neblina atrapalhou as fotos. 

Às 14h15 retornei pelo mesmo caminho e em 43 minutos estava de novo na estradinha do parque, que aliás continua bem ruim para carros, com pedras soltas e valetas nas partes inclinadas. Às 15h19 entrei à direita na trilha sinalizada da Cachoeira do Neném, a 700m. Em 10 minutos cheguei à sua garganta. Uma trilha à esquerda leva à escadaria de 54 degraus que dá acesso ao seu grande e escuro poço. Subindo de volta a escada e continuando ainda por essa trilha, na direção rio abaixo, chega-se a um interessante sumidouro, onde as águas do Córrego Água Santa desaparecem sob as pedras para reaparecer na forma de uma cachoeira poucos metros depois. 

Às 15h54 estava de volta à estrada e 27 minutos depois avisto Santo Antônio do Itambé, ainda bem distante. Depois passei pelo acesso a uma casa à direita, onde ainda há morador, próximo de uma antena de celular. Às 16h32 finalmente cheguei à trilha que leva à Cachoeira da Água Santa, à esquerda, e desci quase correndo os 550m em 11 minutos. A trilha termina no rio (Córrego Água Santa), com a cachoeira um pouco longe ainda, mas só dava tempo de ir até ali mesmo. A subida de volta foi dura! Na estrada foram só mais 3 minutos até a portaria, aonde cheguei às 16h56. Altitude de 851m, ou seja, desnível de 1207m desde o cume do Pico do Itambé. Os dois funcionários me esperavam e parei para um longo descanso. Um deles, o Reginaldo, me ofereceu hospedagem nos chalés da sua família, na Cachoeira da Fumaça. Ele é filho do sr Adair, que conheci na viagem anterior durante a travessia para Capivari, e que lamentavelmente faleceu no final do ano passado com apenas 48 anos.

Anoiteceu e não recusei a carona do Elias, o outro funcionário do parque, até próximo da casa do Reginaldo, onde fui recebido pela sua mãe, a Teresinha, que já preparava um delicioso jantar mineiro. O local se chama Recanto do Sossego.

Altitude de 796m.
Nesse dia caminhei 19,9km.

ImagemCachoeira da Fumaça

5º DIA: DA CACHOEIRA DA FUMAÇA À VILA DE CAPIVARI PELA TRILHA DOS TROPEIROS

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/TravessiaPqEstDoRioPretoPqEstDoPicoDoItambeSerraDoEspinhacoMGMai155Dia.

Pernoitar próximo à Cachoeira da Fumaça teve várias vantagens sobre dormir na cidade de Santo Antônio do Itambé. Primeiro, por estar na zona rural, no meio do mato mesmo, segundo por já me encontrar no caminho da Trilha dos Tropeiros, meu "passeio" de hoje, economizando 3,7km que caminharia por estrada desde a cidade. Isso sem contar a hospitalidade e simpatia da Teresinha e sua família.

Mais um dia de céu encoberto e um pouco de garoa. Após o farto café fui rever a Cachoeira da Fumaça, linda, logo ali nos fundos, a 430m, no Ribeirão Areia. Que privilégio! Às 9h47 me despedi de todos da casa e peguei o atalho para a parte alta da cachoeira junto à placa do parque. Esse atalho dispensa ter de subir de volta à estrada principal e caminhar até o acesso à parte alta da Fumaça, num trajeto com 2,1km a mais. Peguei à esquerda nas duas bifurcações do caminho e às 9h58 cheguei a uma cerca, que cruzei por baixo. A trilha que acompanha a cerca vem da estrada acima e desce à cachoeira. Desci portanto à esquerda e após uma escadaria de madeira cheguei à parte alta da Cachoeira da Fumaça. Pausa para fotos. Às 10h06 subi de volta margeando a cerca até uma passagem que dá acesso à estrada, mas ainda não é a estrada principal. Uma placa sob uma mangueira enorme aponta para a parte alta da cachoeira. Subi 13 minutos até alcançar a estrada principal, com placa indicando a Trilha dos Tropeiros, e fui para a esquerda (à direita iria para Santo Antônio do Itambé). Logo fui alcançado pelo Reginaldo, que já estava em serviço, fazendo a ronda do parque de moto. Às 10h42 a estrada termina e vira uma trilha. Logo depois cruzo uma porteira e mais à frente me deparo com uma casa com morador, onde se deve descer pelo pasto para a esquerda (antes da tronqueira da casa) e atravessar outra porteira. Uns 400m após essa porteira, às 11h, chego ao novo portal da Trilha dos Tropeiros, com a mesma placa dando informações sobre a trilha: 11.993m de extensão, grau de dificuldade alto, tempo aproximado de 7 horas e obrigatório o acompanhamento de condutor. Apenas 40m depois do portal uma bifurcação que vale a pena observar pois se você tomar a direita vai ter que tirar as botas para cruzar as águas negras do Córrego Palmito, se for para a esquerda não (da vez passada, fui para a direita sem saber disso). Dessa vez desci à esquerda e atravessei o córrego pelas pedras. 

Logo depois dele começa uma subida que vai durar mais de uma hora, com pouca visão de paisagem por causa da mata. Logo no começo da subida notei a erosão que corrói a trilha a cada chuva. Mais acima apareceram as pedras molhadas e escorregadias, tornando o caminhar mais lento. Às 11h35 surge um ponto de água à direita da trilha, um riacho meio escondido. Mais à frente vou acabar cruzando-o, ainda subindo. É um afluente do Ribeirão Areia. Nesse momento a garoa voltou. Às 12h08 a trilha estabiliza um pouco depois de tanta subida, e às 12h17 começa a descida. A paisagem se abre à direita, mas a neblina não deixa ver quase nada. Atravesso uma curiosa e inusitada faixa de 140m de pura mata atlântica, com direito até a samambaiaçus. Logo depois, onde havia uma porteira, restando apenas os mourões da cerca, o caminho alarga e aparecem marcas de pneu de moto dos funcionários do parque. A paisagem abre um pouco mais, porém a neblina dificulta a visão. Ainda assim, consigo admirar uma extensa cachoeira que desce do morro rochoso à direita. Quando o panorama se abre ainda mais para serras à minha direita, desço até uma porteira que é o limite do parque, onde dois funcionários já me aguardavam, o Genésio e o Derlei, às 13h05. Parei para um dedo de prosa com eles e depois um lanche. 

ImagemTrecho de mata atlântica na Trilha dos Tropeiros

Prossegui a caminhada às 14h cruzando a porteira e imediatamente tomando a esquerda na bifurcação pois a direita me levaria a uma estrada. Desci pelo campo de capim baixo até cruzar uma porteira e a seguir o Córrego Capivari Pequeno pelas pedras. Subi a outra encosta, ultrapassei um trecho de mata onde a trilha dá uma guinada para a esquerda (sul) e consigo ver finalmente o Pico do Itambé, porém bastante encoberto por nuvens. A trilha atravessa um campo onde vacas pastavam e cruza um alagado, voltando a subir. Duas trilhas de vaca entroncam à esquerda, onde uma seta branca foi colocada para orientar quem faz a travessia ao contrário. Atinjo o ponto mais alto do dia (1372m) e às 15h41 cruzo uma porteira e começo a descer. Visualizo bem distante o Pico do Raio, meu destino no dia seguinte a caminho de Milho Verde. Começa um trecho da travessia que acho muito bonito: um enorme vale se abre à minha direita e a trilha tem visão panorâmica dele, contornando toda sua extremidade sudeste. Logo depois de uma tronqueira à esquerda (que não cruzo, apenas sigo em frente) vou à direita na bifurcação pois a esquerda se fecha logo. Já na bifurcação seguinte, às 16h35, tanto faz a direita ou esquerda pois se juntarão poucos metros à frente. Ali há muitas formações rochosas estranhas e curiosas também, e a trilha avança por um corredor entre elas. Na bifurcação seguinte tanto faz descer à direita ou à esquerda também, e a visão se abre à frente para a vila de Capivari, distante ainda 2,6km (em linha reta). 

Na descida, cruzo uma porteira e acompanho a cerca para a direita por cerca de 550m. Logo depois já vejo Capivari um pouco mais perto, descendo suavemente até a estrada, aonde chego às 17h15. Desço para a direita (conforme a seta branca indica) e atravesso um outro trecho com formações rochosas à beira da estrada, dos dois lados, estas bem altas. Às 17h40 passo pelas primeiras casas do povoado e em 3 minutos entronca uma estrada à direita, onde há um mata-burro e a estrada trifurca. Das três opções tomei a da direita, chegando às 17h50 ao "centro" da vila, onde procurei a casa do Renato pois ele tem receptivo familiar (www.turismosolidario.com.br). Podia ter ficado novamente na casa do Gonçalo e da Noeme, que me receberam muito bem da outra vez, mas quis conhecer e conviver um pouco com outra família. O Renato já foi funcionário do parque e é dono das terras onde fica a Cachoeira Tempo Perdido. Seu receptivo familiar é praticamente uma pousada, com os quartos independentes da casa e com banheiro privativo. O jantar ficou por conta de sua esposa Franciene, que mesmo de improviso, caprichou.

No dia seguinte fiz a travessia dali de Capivari a Milho Verde com um desvio para subir o Pico do Raio. Essa caminhada será relatada em breve.

Altitude de 1180m.
Nesse dia caminhei 15,1km. 
A maior altitude do dia foi 1372m.

Total da travessia: 84,7km

ImagemTrilha dos Tropeiros

Informações adicionais:

Horários do ônibus de São Gonçalo do Rio Preto (Pássaro Verde - http://gabrasil.com.br/site):
. Diamantina-São Gonçalo: 
seg e sex - 6h, 11h45, 14h45, 15h
ter, qua e qui - 6h, 11h45, 14h45
sáb - 6h, 11h45, 15h
dom - 6h, 15h, 16h
. São Gonçalo-Diamantina: 
seg e sex - 6h55, 7h25, 10h45, 17h55
ter e qui - 6h55, 10h45, 17h55
qua - 6h55, 10h45, 17h55
sáb - 7h25, 17h55
dom - 7h25, 10h45, 11h25, 17h55

Horário do ônibus de Capivari (Transfácil - 38-3541-4091):
. Serro-Capivari: seg a sex - 12h30 
. Capivari-Serro: seg a sex - 5h45
sáb, dom e feriado não há

O site oficial do Parque Estadual do Rio Preto é www.ief.mg.gov.br/areas-protegidas/196 e do Parque Estadual do Pico do Itambé é www.ief.mg.gov.br/areas-protegidas/206.

De São Gonçalo do Rio Preto à portaria do parque são 13km de estrada de terra, e dali mais 4,6km até o centro de visitantes, camping e restaurante.

Não há ônibus até a portaria do parque. O táxi custa R$70. Os contatos são: Edmundo - fone 38-9978-4551 e João - fone 38-9971-4456.

Em São Gonçalo do Rio Preto há vários hotéis e pousadas porém na noite que passei lá só a Pousada São Gonçalo estava funcionando. Fica na parte de cima de um sobrado onde há uma mercearia, e o dono de ambos é o Hermes. A diária é de R$30 com WC privativo e café da manhã.

Em São Gonçalo do Rio Preto e Capivari há o programa de receptivo familiar. Mais informações no site www.turismosolidario.com.br. Em Capivari o valor da diária é R$45 para hospedagem com café da manhã.

O Parque Estadual do Rio Preto funciona de terça-feira a domingo das 7h às 17h. Não abre às segundas-feiras (em feriados sim), mas quem está acampado ou hospedado dentro do parque pode fazer os passeios normalmente, inclusive com os condutores.

Os passeios curtos (Prainha, Poço do Veado, Poço de Areia e Forquilha) podem ser feitos sem condutor. Para as cachoeiras mais distantes (Crioulo, Sempre-Viva) e Corredeiras do Rio Preto é obrigatório o acompanhamento de um funcionário do parque e as saídas ocorrem às 9h, 10h e 11h (para as corredeiras somente às 10h).

O camping, o alojamento e a travessia do parque para a Chapada (limite sul) devem ser agendados com antecedência pelo telefone 38-9976-5621 ou e-mail antonio.almeida@meioambiente.mg.gov.br.

O Parque Estadual do Pico do Itambé funciona de quarta a segunda-feira das 8h às 17h. Para subir o Pico do Itambé é preciso solicitar autorização com pelo menos 24h de antecedência, seja com pernoite ou não, seja por Santo Antônio do Itambé ou por Capivari. O telefone é 33-3428-1372 e o e-mail é peitambe@meioambiente.mg.gov.br. Para fazer a travessia Santo Antônio do Itambé-Capivari pela Trilha dos Tropeiros também é necessário pedir autorização com 24h de antecedência. A única área de acampamento do parque fica no pico, por sinal bem pequena e com água de acesso meio complicado. 

Ambos os parques são bastante monitorados e vigiados, e os funcionários se comunicam o tempo todo por rádio. No Rio Preto as trilhas longas são sempre acompanhadas de um condutor, no Itambé não, nem mesmo o pernoite no pico é mais acompanhado de um guarda. Mas independentemente disso eles sempre sabem onde você está e para onde está indo. Para quem não gosta de ser monitorado dessa forma, isso pode causar certo incômodo. Não é o meu caso. Apesar de costumar fazer trilhas sozinho e com roteiro próprio, não me incomodou essa situação. A beleza desses parques e da travessia em si compensa tudo.

Carta topográfica de Rio Vermelho: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/mapas/GEBIS%20-%20RJ/SE-23-Z-B-I.jpg

As denominações de rios e serras usadas aqui foram extraídas das cartas topográficas do IBGE e podem não coincidir com as denominações dadas pelos moradores da região, ou podem mesmo estar erradas. O Rio Preto, por exemplo, aparece na carta com o nome de Córrego Taioba.

Rafael Santiago
maio/2015
Percurso no PE do Rio Preto na carta topográfica (clique na imagem para ampliar)
Percurso no PE do Rio Preto na imagem do Google Earth
Percurso do 1º dia na carta topográfica
Percurso do 1º dia na imagem do Google Earth

Percurso do 2º dia na carta topográfica

Percurso do 2º dia na imagem do Google Earth

Percurso do 3º dia na carta topográfica
Percurso do 3º dia na imagem do Google Earth

Percurso do 4º e 5º dia na carta topográfica
Percurso do 4º e 5º dia na imagem do Google Earth

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Circuito pelo Pico do Itambé (Serra do Espinhaço-MG) - jun/12

Imagem
Pico do Itambé visto de Capivari

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/CircuitoPeloPicoDoItambeSerraDoEspinhacoMGJun12.

Subir o Pico do Itambé era um projeto já antigo. Ao descobrir que havia duas trilhas de acesso ao cume, a idéia de uma travessia foi imediata. E que tal voltar ao ponto de partida, a vila de Capivari, passando ao largo do pico por uma tal Trilha dos Tropeiros? Melhor ainda. Para fechar, só faltava mesmo chegar a Capivari a pé. Pronto, estava montada uma pernada de três dias que tinha como protagonista um dos pontos mais altos da Serra do Espinhaço. Na verdade, a idéia era esticar ainda bastante essa travessia para o norte, mas acabou não acontecendo, como contarei mais abaixo.

EM SÃO GONÇALO DO RIO DAS PEDRAS

Cheguei a São Gonçalo do Rio das Pedras, simpático vilarejo que é distrito do Serro, de ônibus às 14h de um sábado. Procurei um lugar para almoçar e me indicaram o bar da Dona Lucília. Foi um achado. O lugar é simplérrimo mas ela recebe com um grande sorriso e prepara parte da comida na hora de acordo com o gosto do freguês. Para acompanhar, fez para mim um delicioso suco com carambolas do seu quintal.

Para fazer a digestão, nada melhor que uma caminhadinha. E depois de andar 10,6km (ida e volta) até a Cachoeira da Grota Seca decidi passar a noite em São Gonçalo e começar a travessia só na manhã seguinte. Ali, assim como em outros povoados da região, há um tipo de hospedagem chamado receptivo familiar (iniciativa do Sebrae Minas) em que uma família recebe o visitante em sua casa e oferece refeições e café da manhã. O hóspede ocupa um dos quartos vagos e divide com a família o restante da casa (o banheiro inclusive). Como almocei no bar da Dona Lucília e ela tem receptivo familiar, resolvi passar a noite em sua casa.

1º DIA: DE SÃO GONÇALO DO RIO DAS PEDRAS A CAPIVARI

Após tomar um super café da manhã no bar da Dona Lucília, dei início à minha caminhada (sob o olhar de espanto dela por eu me aventurar sozinho) às 9h30 subindo a Rua Nova (é a rua do bar dela) e entrando à direita na Rua do Fogo (1092m de altitude). O caminho para Capivari é esse, sem ter como errar. Em poucos minutos as casas ficam para trás e às 10h a rua já virava uma trilha. Alguns trechos de areia fofa, mais chatos de caminhar, e às 10h36 cruzo uma porteira e começo a subir a Serrinha. A trilha bordeja pela esquerda o morro de pedra do qual vinha me aproximando havia algum tempo e alcança a casa do seu Zé e da Dona Maria pelos fundos, onde os cachorros dão o alarme da minha aproximação às 11h22. Fui calorosamente recebido pelo casal, gente simples da roça, e me sentei um pouco em sua sala para um dedo de prosa. Saindo de sua propriedade pela porteira principal às 11h43, não tomo a estrada de terra bem em frente e sim a trilha à esquerda. Depois de dois riachos e duas porteiras, já avisto o povoado de Capivari, mas não pretendo ir até lá e sim rumar direto ao pico. Às 12h39 alcanço uma estrada precária que me leva em pouco mais de 100m à esquerda a um rio um pouco largo, onde demorei algum tempo para encontrar um local de travessia sem precisar tirar as botas. Feito isso, peguei a continuação da estrada na outra margem e toquei para o norte, subindo bastante.

A nebulosidade não permitia saber ao certo onde estava o pico. Depois de dois colchetes, uma outra estradinha que aparece à esquerda deve levar à Cachoeira do Amaral, mas não fui conferir. Me mantive na estrada principal também na bifurcação seguinte e às 14h37 passei pela placa que marca o início da trilha para a Cachoeira do Tempo Perdido. Menos de 200m depois entrei à esquerda numa porteira azul e comecei a descer na direção de algumas casas, mas fui parado por um homem num jipe que me disse que ali era propriedade particular e não o caminho para o Pico do Itambé. Voltei de carona com ele à porteira e à estrada principal e continuei para a esquerda, tomando a esquerda novamente na bifurcação bem próxima (à direita eu desceria para Capivari). Daí a estrada desceu bastante e às 15h20 começaram a aparecer algumas formações rochosas diferentes num local chamado Serra da Bicha, referência às onças da região. Andei uns 800m tirando fotos dessas rochas, cruzei com um morador local com sua mula e em seguida ocorreu algo inesperado. Um rapaz numa moto me parou e perguntou se eu pretendia subir o pico. Respondi que sim e ele disse que sem uma autorização eu não poderia fazer isso. E que eu poderia conseguir a autorização em Capivari. Disse que não adiantava eu continuar pois iria ser barrado na guarita do parque. Diante disso, fui obrigado a voltar até aquela bifurcação que desce ao vilarejo e seguir para lá.

Cheguei a Capivari às 17h05 e procurei o Gonçalo, como orientou o rapaz da moto. Ele me disse que normalmente a subida é agendada com mais antecedência já que um ou dois guarda-parques são deslocados para o cume e que costuma ser acompanhada de um monitor. Mas fez contatos pelo rádio e se esforçou ao máximo para conseguir a autorização para eu subir no dia seguinte. Mostrei-lhe que tinha experiência em trekking e estava bem equipado e ele sentiu confiança em me deixar subir sozinho. Resolvi então fazer a travessia do pico em um dia, descendo à tarde para dormir em Santo Antônio do Itambé e retornando no dia seguinte a Capivari pela Trilha dos Tropeiros, que corre ao sul do pico. Porém combinamos de eu chegar à outra portaria do parque no máximo às 17h, que é o horário de fechamento. Como todos os funcionários se comunicam por rádio, eles iriam monitorar a minha travessia e se eu não aparecesse até esse horário alguém seria incumbido de sair à minha procura. Para facilitar, deixaria a cargueira com ele e subiria só com a mochila de ataque. Mais leve, caminharia mais rápido.

Tudo isso foi conversado na casa do Gonçalo, onde acabei me hospedando também já que ele está no programa de receptivo familiar. Aliás, logo que entrei a sua esposa Noêmi já foi me perguntando se eu queria jantar, antes mesmo de eu saber que ia me hospedar ali. Acomodei-me num dos dois quartos disponíveis para hóspedes e jantei fartamente. A Noêmi faz um suco delicioso de limão-cravo, hortelã e couve, tudo do quintal dela.

Mais tarde andei um pouco pelo povoado para fazer um reconhecimento, mas voltei logo pois ia acordar muito cedo no dia seguinte.

Outra coisa que conversei com o Gonçalo foi sobre a minha intenção de no retorno fazer a travessia dali de Capivari até o Parque Estadual do Rio Preto, 24km ao norte, e ele ficou de ver a autorização para eu entrar naquele parque. Esses dois parques (Pico do Itambé e Rio Preto) são bastante vigiados e já deu para perceber que andar por eles sem ser notado não é muito fácil. No caso do Pico do Itambé, quase todos os dias um funcionário é destacado para subir ao cume, mesmo que não haja visitantes. Na época mais seca, devido ao risco maior de incêndio, os funcionários se revezam 24 horas no cume para monitoramento de toda a área.

Nesse dia, com as idas e vindas, caminhei 22,6km.

Altitude em São Gonçalo do Rio das Pedras: 1092m
Altitude em Capivari: 1178m

2º DIA: DE CAPIVARI A SANTO ANTÔNIO DO ITAMBÉ ATRAVÉS DO PICO DO ITAMBÉ

Imagem
Pico do Itambé visto de sua base

O Gonçalo conseguiu para mim uma carona no ônibus escolar que vai até um local chamado Poço Preto, o que me adiantou 6,5km de pernada. Ele passou bem cedo, às 6h, e me deixou no Poço Preto às 6h40 (1205m de altitude). Cruzei um riacho e uma porteira e comecei a longa caminhada do dia por uma trilha com algumas casas afastadas à direita. Vários riachos e porteiras depois, passo às 7h46 próximo a uma outra casa uns 100 metros à esquerda, logo depois de uma pequena cachoeira à direita. Essa travessia tem dois pontos críticos em que é muito fácil errar e o primeiro deles está uns 1000m depois dessa casa, onde a trilha segue bem marcada em frente, subindo, mas o caminho para o pico sai para a direita, entre os troncos fincados de uma antiga cerca. Entrando então à direita, o caminho segue bem largo entre a vegetação alta e voltam a aparecer as rochas de formato estranho. Na segunda porteira, às 8h42, topei com uma placa grande de madeira do Parque Estadual do Pico do Itambé, mas nada de guarita, como haviam me dito.

Logo depois dessa porteira, o ponto mais confuso da subida: o gps me mandava subir à direita porém era uma encosta de pedra vertical e eu não via caminho nenhum para subir. E a trilha continuava bem marcada (e até com variantes) para a frente. Para piorar, o pico continuava completamente encoberto e eu caminhava em meio à neblina. Resolvi seguir uma das trilhas em frente pois eram muito batidas e parecia ser o mais óbvio, ou até mesmo a única opção. Comecei a caminhar por um platô ao norte do pico quando às 9h15 finalmente a neblina resolveu se dissipar e pude ver o Itambé bem perto, uma longa parede rochosa que se estendia de leste a oeste. Imaginei que fosse contorná-lo pela outra extremidade para subir por algum caminho menos íngreme e continuei. Porém comecei a encontrar trilhas em várias direções que desapareciam ao se aproximarem do paredão. Fui e voltei várias vezes, tentando vários caminhos e perdendo muito tempo. Já passava das 10h30 e o horário limite para eu atingir o cume estava próximo pois ainda tinha uma longa caminhada de descida até Santo Antônio do Itambé, tendo de dar sinal de vida na portaria até as 17h. Como última alternativa, decidi procurar a trilha gravada no gps, aquela que supostamente começava na parede após a porteira. E encontrei-a na extremidade oeste (eu tinha ficado batendo cabeça lá do outro lado, na ponta leste) subindo diretamente para o pico, que nessa hora estava bem visível com o céu limpo. Inconformado com o erro e o tempo perdido, desci até a porteira para registrar o caminho correto e saber exatamente em que ponto da encosta de pedra eu deveria ter subido. Um totem ou uma placa ali ajudariam demais.

Ao subir de volta, agora com certeza de atingir o cume, encontrei um guarda-parque que desceu ao meu encontro quando viu que eu estava andando de um lado para o outro. Subimos juntos e a escalaminhada não foi fácil. A subida é forte, íngreme, com bastante trepa-pedra. Há ainda duas passagens bem estreitas no meio dos blocos de pedra em que é preciso tirar até a mochila de ataque. Mas finalmente o terreno nivela e começamos a caminhar por entre uma vegetação bastante diferente devido à altitude. E às 12h36 finalmente alcanço o cume do Itambé, a 2055m, onde duas casas antigas e em mau estado acomodam os funcionários que sobem frequentemente para observar focos de incêndio e monitorar os visitantes que acampam ali. O desnível desde o Poço Preto foi de 850m. A visão é espetacular: para o norte, era possível ver serras, picos e vales a perder de vista, já no quadrante sul a visão era parcial por causa da nebulosidade e não era possível avistar Santo Antônio do Itambé, meu destino final nesse dia. Mas conseguia ver a pequenina Capivari (apenas 490 habitantes!) quase 9km a sudoeste. As nuvens também eram um espetáculo por si só pois, como eu estava acima delas, eram como um mar branco com o céu estupidamente azul acima, tal qual a visão da janela de um avião.

Há também ali no topo um pequeno cruzeiro de concreto, próximo às casas. Várias plaquinhas brancas apontam uma fonte de água, mas não fui até ela.

A vontade era de ficar muito mais tempo, mas a descida seria bem mais longa que a subida. Assim, às 13h08 deixei o cume. O funcionário me falou da sinalização que há nesse lado do pico, que foi bastante útil pois mergulhei na densa neblina logo que comecei a descer. Ele ficou de plantão lá. Às 13h16 encontrei do lado esquerdo da trilha a "pedra do pato", que vinha procurando desde o topo. E às 13h30 a famosa ponte pênsil sobre uma enorme greta (chamada Rebentão), para minha surpresa novinha em folha.

A descida por essa face leste tem 13,2km (até Santo Antônio do Itambé) e é bem mais suave. A subida pela face oeste tem distância parecida (12,9km desde Capivari) e é tranquila só até atingir o paredão do pico, quando vira uma escalaminhada, como disse. Para subir com mochila cargueira, esse lado de Santo Antônio do Itambé é bem melhor, apesar do desnível de 1349m desde a cidade.

Muitas formações rochosas estranhas e curiosas e a vegetação bem própria desse microclima, muito diferente do cerrado lá embaixo, ainda são a paisagem ao redor durante a descida. Às 14h09, uma hora após deixar o cume, reapareceu a água. Mais 40 minutos de caminhada, outro ponto de água e um casebre com gado, mas parecia não haver ninguém no momento. Passei um colchete e mais abaixo a trilha se transformou numa estrada, às 15h03.

Esse lado do parque tem como atrativo algumas bonitas cachoeiras com acesso sinalizado a partir dessa estrada interna. Às 15h18 topei com a primeira, ou melhor, com a placa que indica a trilha para a primeira delas, a Cachoeira do Rio Vermelho, distante dali 2,8km, mas essa não tive tempo de conhecer. Nesse local, a direção geral que vinha sendo leste desde o pico, passa a ser sempre sul, sem variações. E a estradinha, pelo mau estado, só é apropriada para carro alto. Para quem tem um carro assim é possível entrar com ele no parque e ir até o casebre mencionado, onde a trilha inicia. Isso adianta 8,5km de subida desde Santo Antônio do Itambé.

Às 15h41 outra placa mostra o acesso à direita à Cachoeira do Neném. Como distava só 1km da estrada, fui correndo lá dar uma espiada. O lugar é muito bonito, a queda não é alta mas o poço é grande e bem escuro. Para evitar erosão na encosta, há uma escadaria de madeira até o poço. Do alto da escadaria há uma trilha que se enfia no mato e leva a um ponto do rio mais abaixo onde há um interessante sumidouro.

Voltei à estrada e continuei a descer. Logo tive a primeira visão da pequena Santo Antônio do Itambé, ainda um pouco distante. Às 16h56 passei pela placa da Cachoeira da Água Santa, só 638m à esquerda, mas como meu tempo estava se esgotando, não pude conhecê-la. Foram só mais 260m e às 16h59 alcancei a portaria, onde o funcionário já começava a ficar ansioso pela minha chegada. Felizmente correu tudo bem e não foi preciso deslocar ninguém por minha causa.

Descansei um pouco e às 17h09 descemos juntos o restante da estrada até a cidade (mais 2,7km). Ele me mostrou um atalho por uma trilha à esquerda da estrada que nos poupou uns 550m de caminhada. Às 17h25 parei para fotos da Ponte de Pedra e ele continuou. Fiquei menos de 10 minutos ali e segui. Logo começaram a aparecer as primeiras casas de um bairro e às 17h40 uma outra estrada sai para a direita, exatamente onde um conjunto de placas indica os atrativos da cidade. Descobri então que a Trilha dos Tropeiros (meu caminho de volta a Capivari) era por ali, assim como o Lajeado, o Lajedão e a Cachoeira da Fumaça. Cheguei ao centro da cidade às 17h55 e me hospedei na Pousada Pé da Serra, na rua da Igreja Matriz. Jantei no Restaurante Moinho Santo Antônio.

Nesse dia, com os perdidos na subida do pico e o desvio para a Cachoeira do Neném, caminhei 28,1km.

Altitude em Capivari: 1178m
Ponto mais alto da travessia: 2055m
Altitude em Santo Antônio do Itambé: 706m
Desnível do cume a Santo Antônio do Itambé: 1349m

3º DIA: DE SANTO ANTÔNIO DO ITAMBÉ DE VOLTA A CAPIVARI PELA TRILHA DOS TROPEIROS

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Parte alta da Cachoeira da Fumaça

Quando eu descobri a Trilha dos Tropeiros, não fazia idéia de que ela estaria dentro dos limites do Parque Estadual do Pico do Itambé. Foi o Gonçalo quem me deu essa informação e acrescentou que eu precisaria de uma autorização para percorrê-la. E que ele mesmo não poderia dar essa autorização porque eu iria começar por Santo Antônio do Itambé. Por isso, tive logo cedo de ir à sede do parque na Fazenda São João, a 2km da cidade, para pegá-la. Para me atrasar um pouco mais, peguei o caminho mais longo para chegar lá. O correto é pegar a rua à direita ao lado da Igreja Matriz (e não subir a rua sempre em frente, como eu fiz). Na volta, fiz o caminho certo e dei uma olhadinha na Cachoeira do 32, apenas um rio largo que costuma lotar nos finais de semana por ser praticamente dentro da cidade.

Com tudo isso e mais uma passagem pelo posto de saúde para tratar dois dedos infeccionados, acabei iniciando a caminhada às 11h30, muito tarde. Saí da cidade pelo mesmo caminho por onde cheguei no dia anterior e fui até o conjunto de placas da bifurcação que mencionei, onde fui para a esquerda. Andei apenas 1,1km pela estrada e já encontrei a placa do Lajeado à direita. Desci pela estradinha 450m para conhecer. Trata-se de um ribeirão que corre por lajes de pedra. Ao lado fica o Restaurante e Camping Rancho do Vale, mas o acesso ao local é livre. De volta à estrada, bastou andar mais 120m e topei às 12h15 com a placa do Lajedão, com acesso por uma porteira. O caminho é bem diferente, por uma trilha de 920m que desce em meio à mata alta. Ao chegar à cerca de um sítio basta subir e contorná-lo pela direita. O rio aqui também corre pelos lajedos porém é um recanto mais selvagem e bonito comparado ao Lajeado, que tem mais cara de balneário.

De volta à porteira e à estrada, continuei para a esquerda cerca de 700m e surge a placa que aponta a parte baixa da Cachoeira da Fumaça, inicialmente uma estradinha à esquerda que desceu forte até desembocar no sítio do seu Adair, onde fui recebido por duas mulheres que moíam e torravam uma grande quantidade de mandioca para fazer farinha. Dali bastou cruzar o terreno, caminhar pela trilha até o rio e subi-lo à direita pela margem para alcançar às 13h20 a bela cachoeira escondida no fundo dos paredões. Lugar muito bonito. O rio é o mesmo do Lajedão, o Ribeirão Areia, segundo a carta topográfica. De volta à casa, encontrei o seu Adair. Ele me pediu para assinar seu livro de visitas e me acompanhou por um atalho para chegar à parte alta da cachoeira, economizando o retorno à estrada e uma grande volta. A parte alta também é bem bonita, com pequenas quedas e a possibilidade de chegar até a garganta da cachoeira. Ali também foi instalada uma escadaria de madeira para conter a erosão da encosta íngreme. Para continuar a travessia, eu precisava voltar à estrada. Subi a escada e continuei reto até um pé de manga, passei um quebra-corpo e caí numa estradinha que bastou tocar para cima para alcançar a estrada principal às 14h22, onde mais placas indicam esse acesso à parte alta da Cachoeira da Fumaça. A estrada já estava quase no fim, bastou andar 800m à esquerda para ela virar uma trilha com uma porteira. Mais alguns metros e passo pelas últimas casas desse lado da travessia. Ali o caminho mais marcado sobe à direita, bem próximo das casas, mas o certo é descer pelo pasto à esquerda e cruzar outra porteira para encontrar a continuação da trilha bem abaixo. Uma placa do parque indica que a Trilha dos Tropeiros tem 11.993m de extensão, grau de dificuldade alto e tempo aproximado de 7 horas.

Às 15h05 me deparei com um rio raso e calmo porém largo e sem pedras para ajudar na travessia, o que me obrigou a tirar as botas. Poucos metros depois, uma bifurcação onde subi para a direita. Às 15h23 um ponto de água mais confiável que os rios pelos quais passei. Já estava a 1056m e logo a visão começou a se ampliar, podendo vislumbrar vales e montanhas próximos. Nesse ponto encontrei, ou melhor, fui encontrado por dois guarda-parques que já estavam à minha procura por causa do horário. É que restavam duas horas de luz apenas e muitos quilômetros ainda pela frente. Às 16h30 cruzamos a porteira que é o limite do parque e próximo dali eles me mostraram interessantes pinturas rupestres. Nessa porteira nos separamos, eles seguiram por uma trilha para o norte para pegar a moto, eu continuei pela Trilha dos Tropeiros para oeste, descendo a um riacho e subindo a encosta do outro lado. Aqui a visão do Pico do Itambé é magnífica! Foi motivo para muitas fotos. Ao final dessa subida, exatamente numa porteira às 17h12, atinjo o ponto mais alto da travessia: 1372m. Às 17h20 passei pela cabeceira de um imenso vale que se abriu à minha direita e foi ali que assisti e fotografei o por-do-sol. Com a luz natural se esvaindo apertei o passo. Foi uma pena passar correndo por um trecho com muitas formações rochosas com formatos curiosos, mas a luminosidade era mesmo muito baixa para fotos. Às 17h54 caí numa estrada e segui para a direita. Um dos guarda-parques me aguardava mais à frente nessa estrada, na escuridão. Às 18h12 começaram a aparecer as primeiras casas de Capivari. Mais 10 minutos e chego à casa do Gonçalo, que não estava pois havia levado um garoto acidentado ao pronto-socorro no Serro. A Noêmi preparou a janta para mim e fui dormir cedo, acabei não vendo o Gonçalo esta noite, mas já sabia que ele não tinha conseguido a autorização para eu entrar no Parque Estadual do Rio Preto porque a reforma lá ainda não terminou. Teria então de acionar o plano B.

Nesse dia caminhei 22,7km contando os desvios para visitar as cachoeiras e sem contar a caminhada até a sede do parque.

Altitude em Santo Antônio do Itambé: 706m
Ponto mais alto da travessia: 1372m
Altitude em Capivari: 1174m

No dia seguinte deixei Capivari no ônibus das 5h45 em direção ao Serro para imediatamente seguir para Diamantina e dar início à travessia pela antiga estrada de ferro Diamantina-Corinto (fiz o trecho Bandeirinha-Rodeador em 3 dias; o relato está em http://trekkingnamontanha.blogspot.com.br/2012/08/relato-travessia-diamantina-rodeador_4682.html).

Informações adicionais:

O site oficial do Parque Estadual do Pico do Itambé é www.ief.mg.gov.br/areas-protegidas/206.

O Parque Estadual do Pico do Itambé funciona de quarta a segunda-feira das 8h às 17h. Para subir o Pico do Itambé é preciso solicitar autorização com pelo menos 24h de antecedência, seja com pernoite ou não, seja por Santo Antônio do Itambé ou por Capivari. O telefone é 33-3428-1372 e o e-mail é peitambe@meioambiente.mg.gov.br. Para fazer a travessia Santo Antônio do Itambé-Capivari pela Trilha dos Tropeiros também é necessário pedir autorização com 24h de antecedência. A única área de acampamento do parque fica no pico, por sinal bem pequena e com água de acesso meio complicado.

Alguns gastos:
. almoço na Dona Lucília (São Gonçalo do Rio das Pedras) - R$10
. hospedagem e café da manhã na Dona Lucília (São Gonçalo do Rio das Pedras) - R$30
. janta na casa do Gonçalo (Capivari) - R$10
. hospedagem e café da manhã na casa do Gonçalo (Capivari) - R$30
. PF no restaurante Moinho Santo Antônio (Santo Antônio do Itambé) - R$9
. Pousada Pé da Serra com café da manhã (Santo Antônio do Itambé) - R$30

Horários do ônibus de São Gonçalo do Rio das Pedras (Transfácil - 38-3541-4091):
. Serro-São Gonçalo do Rio das Pedras:
seg a sex - 11h45, 16h30
sáb - 13h
dom e feriado - não há
. São Gonçalo do Rio das Pedras-Serro:
seg a sex - 6h, 13h
sáb - 6h
dom e feriado - não há
(tempo de viagem: 1h)

Horário do ônibus de Capivari (Transfácil - 38-3541-4091):
. Serro-Capivari: seg a sex - 12h30
. Capivari-Serro: seg a sex - 5h45
sáb, dom e feriado não há

Mais informações sobre o receptivo familiar/turismo solidário em Minas no site www.turismosolidario.com.br.

Carta topográfica de Rio Vermelho (http://biblioteca.ibge.gov.br/visualiza ... -Z-B-I.jpg)

Rafael Santiago
junho/2012