segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Kungsleden, a Trilha do Rei na Lapônia sueca (Suécia) - ago-set/19

Vista da montanha Skierfe
Início: Abisko
Final: Kvikkjokk
Distância: 182,4km (incluindo o desvio de 12,8km de ida e volta ao Skierfe)
Duração: 11 dias
Maior altitude: 1184m no Skierfe
Menor altitude: 330m no Refúgio Kvikkjokk Fjällstation
Dificuldade: fácil para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira. Os desníveis não são grandes, a maior subida tem desnível de 439m.

Kungsleden significa Trilha do Rei em sueco. Esse longo e tradicional caminho tem no total 414km e é dividido pela STF em cinco setores:
1. de Abisko a Nikkaluokta
2. de Nikkaluokta a Vakkotavare
3. de Saltoluokta a Kvikkjokk
4. de Kvikkjokk a Ammarnäs
5. de Ammarnäs a Hemavan

STF (Svenska Turistföreningen = Associação Sueca de Turismo) (www.swedishtouristassociation.com) é a organização sem fins lucrativos responsável pela manutenção das trilhas, passarelas, pontes e refúgios de montanha na Suécia. Foi criada em 1885! E a marcação da Kungsleden começou em 1899! Como estamos atrasados no Brasil em termos de montanhismo!!!

A Kungsleden é um caminho orientado de norte a sul situado em plena Lapônia sueca, no extremo norte do país, acima do Círculo Polar Ártico. A ponta norte da Kungsleden está na cidade de Abisko, distante 1300km de Estocolmo, o que demanda uma viagem de 20 horas de trem mais ônibus (ou avião mais ônibus). A Kungsleden não está dentro dos limites de um único parque nacional, mas atravessa três parques nacionais diferentes no trecho que eu percorri (de Abisko a Kvikkjokk): Parque Nacional Abisko, Parque Nacional Stora Sjöfallet e Parque Nacional Sarek.

A STF tem dois tipos de alojamento de montanha: refúgio (mountain cabin) e estação de montanha (mountain station, como Abisko, Saltoluokta e Kvikkjokk, que servem as três refeições). Há também os abrigos de emergência, que são casinhas com apenas um cômodo pequeno para se proteger da chuva mais forte ou vendaval.

Lago Alesjaure
Todos os refúgios da STF têm cozinha e refeitório que se pode utilizar desde que o visitante se hospede no refúgio (SEK 600 = US$ 64) ou acampe na área designada (SEK 300 = US$ 32) ou pague uma taxa de visita (day visit) (SEK 100 = US$ 10,69) ou seja membro da STF (SEK 295 = US$ 31,52 por 12 meses). Sem essas condições não se pode entrar no refúgio para descansar ou para se aquecer do frio, por exemplo. A entrada gratuita só é permitida para comprar comida no mercadinho do refúgio, se houver. A maioria dos refúgios que conheci na Kungsleden tem mercadinho com enlatados, macarrão, pão sueco (não há pão de forma ou outro tipo), queijo em bisnaga, feijão em caixinha, biscoitos, algumas bebidas, etc. Todos os refúgios que eu conheci têm anfitrião (ou vários funcionários se for maior) de 14/06 a 22/09 e o pagamento é feito diretamente a eles em dinheiro ou cartão de crédito (exceto em Pårte).

Ao sul do Refúgio Singi esses preços caem para: hospedagem SEK 500 (US$ 53,43) e camping SEK 250 (US$ 26,71).

Nos três setores do norte da Kungsleden (de Abisko a Kvikkjokk) é opcional levar barraca já que a distância entre os refúgios não é tão grande. Muita gente caminha apenas com uma mochila de ataque, dormindo nos refúgios, porém com um custo bastante alto. Na região central da trilha (entre Kvikkjokk e Ammarnäs) a distância entre os refúgios aumenta e a barraca passa a ser necessária.

Para quem está com barraca, em toda a Suécia vale na teoria a regra do "allemansrätt" ou Direito de Acesso Público, que diz que uma pessoa tem o direito de caminhar e acampar em qualquer lugar, exceto nas imediações de uma residência, em terras cultivadas e jardins particulares. Para mais informações sobre o "allemansrätt": www.swedishepa.se/Enjoying-nature/The-Right-of-Public-Access/This-is-allowed1

Na Kunsleden o que vale na prática é o seguinte: acampar perto do refúgio da STF custa SEK 300 ou SEK 250 (US$ 32 ou US$ 26,71) e dá direito de usar a cozinha, o refeitório, o banheiro e a sauna se houver. Acampar a mais de 200m ou 300m do refúgio é gratuito e dá direito de usar apenas o banheiro. Se você quiser acampar nas imediações do refúgio mas sem pagar a taxa é sempre bom perguntar ao anfitrião onde deve fazer isso (distância mínima) para não ser cobrado depois.

O uso do banheiro é livre para todos, mesmo para os que acampam de graça, o que é ambientalmente mais inteligente do que as regras restritivas de muitos dos refúgios da Noruega. O banheiro é do tipo seco, uma casinha separada, com uma bancada e o assento sobre ela. O assento e a tampa normalmente são de isopor. Costumam ter papel higiênico e alguns têm álcool para higiene das mãos. No Refúgio Kvikkjokk o banheiro é normal e interno.

Lago Langas
O maior problema do trekking na Suécia (assim como na Noruega) é o alto índice de chuva. Essa caminhada durou 11 dias mas na verdade eu fiquei 15 dias na trilha, os outros 4 dias parado esperando a chuva passar. Chuva que durava o dia inteiro. Mas não escapei dela, não. Caminhei muitos dias com chuva também. Dos meses de julho, agosto e setembro o guia Trekking the Kungsleden, de Mike Laing, informa que o mais chuvoso é julho e o menos chuvoso é setembro. Os refúgios costumam ter um cartaz com a previsão do tempo para o dia seguinte.

Outro incômodo são os insetos no pico do verão, por isso se recomenda levar um bom repelente (lá é vendido um chamado Mygga) ou um chapéu com rede que se encontra nas lojas. No finalzinho de agosto eu já não tive esse problema.

Por estar situada na Zona Polar Ártica, ou seja, ao norte do Círculo Polar Ártico, a melhor época para a Kungsleden é o verão, com temperaturas mais agradáveis (não tão frio ou um frio suportável) e ausência de neve pelo caminho. De 20/06 a 22/09 todos os refúgios estão abertos e todos os barcos a motor estão operando (essas datas mudam ligeiramente a cada ano, confira em www.swedishtouristassociation.com/our-accommodation-types/stay-stf-mountain-cabin e www.swedishtouristassociation.com/boats-in-the-mountains). Fora desse período se pode acampar ou usar a parte do refúgio que fica aberta fora de temporada, sem o anfitrião. Para cruzar os lagos fora desse período há a opção do barco a remo, mas eles só estão disponíveis quando os lagos descongelam completamente, o que acontece a partir de meados de junho.

Dos cinco setores em que a Kungsleden é dividida eu optei por percorrer os três mais ao norte apenas. Por quê? Achei que não valia a pena fazer a travessia inteira e colocar quase um mês de viagem numa única trilha, que poderia se tornar monótona. Acho que acertei nisso pois nos 11 dias que caminhei considerei a trilha monótona em muitos trechos, com apenas alguns lugares se destacando pela beleza.

Considero que a Kungsleden é uma trilha mais para se isolar e se afastar de tudo do que para curtir um visual incrível. Sim, há bastante gente na trilha no verão e há os refúgios muito bem equipados, mas também se pode acampar em qualquer lugar distante e permanecer longe de tudo o tempo que quiser já que não há cidades ou estradas num raio de muitos quilômetros. Para quem considerar a Kungsleden turística demais, a Lapônia tem trilhas mais aventureiras nos parques nacionais Padjelanta e Sarek, ambos muito próximos da Kungsleden.

Para quem optar por fazer a Kungsleden inteira, além de separar um mês de viagem para isso, precisa se precaver com a questão da comida e levar uma barraca já que os refúgios da região central da trilha (entre Kvikkjokk e Ammarnäs) são bem mais distantes entre si e quase não há mercadinhos. E também deve estar preparado para remar um pequeno barco numa travessia de 500m num dos lagos do caminho pois mesmo no verão não há barco motorizado nesse local.

No trecho inicial, a Kungsleden tem seu trajeto compartilhado com dois outros caminhos de longa distância:

. Trekking Nordkalottleden: de Abisko a Sälka (59km). Essa trilha tem 800km e atravessa Noruega, Suécia e Finlândia

. Caminho Peregrino Dag Hammarskjöld: de Abisko a Singi (71km). Essa trilha tem 105km e vai de Abisko a Nikkaluokta. Por conta desse caminho de peregrinação existem os Meditationsplats, lugares de meditação com frases de autoria do escritor sueco Dag Hammarskjöld (daí o nome do caminho) gravadas em pedra

Não há problema de escassez de água nesse percurso de 11 dias que eu fiz e nem todos os riachos e fontes estão descritos no texto pois são muitos. Todas as distâncias informadas são dos trechos caminhados, excluídos os percursos feitos de barco.

Rio Abiskojokk (ou Abiskojåkka)
1º DIA - 28/08/19 - de Abisko ao Lago Abiskojaure

Distância: 9,6km
Maior altitude: 510m no Lago Abiskojaure
Menor altitude: 373m no início da trilha
Resumo: nesse primeiro dia de caminhada subi o vale do Rio Abiskojokk num desnível positivo (imperceptível) de 137m até o Lago Abiskojaure. Caminhei dentro da área do Parque Nacional Abisko.

No dia 27/08 deixei Estocolmo em direção à pequena cidade de Abisko, ao norte do Círculo Polar Ártico, em plena Lapônia sueca. São no total 20 horas de viagem por terra, numa combinação de trem mais ônibus (passagens em www.sj.se/en/home.html). Também é possível ir de avião a Kiruna e depois tomar um ônibus a Abisko.

Tomei o trem das 20h em Estocolmo. Vagão de segunda classe, de poltronas. Os vagões de primeira classe têm camas em forma de beliche retrátil. Desembarquei em Boden no dia seguinte (28/08) às 10h23 e tomei um trem bem menor até a cidade de Gällivare, onde peguei um ônibus para Abisko às 13h10. Todos esses trechos estavam incluídos numa única passagem, bastando mostrar o bilhete ao fiscal do trem ou motorista do ônibus. O ônibus fez uma parada na cidade de Kiruna e às 16h25 desembarquei em Abisko Turiststation, num ponto na beira da estrada E10. A cidade propriamente dita havia ficado 2,4km para trás, mas me interessava mesmo descer junto ao Refúgio Abisko Turiststation, onde inicia a Kungsleden.

Conheci o centro de visitantes do Parque Nacional Abisko, lanchei nas mesinhas em frente ao refúgio e voltei à margem da estrada, ao portal novo da Kungsleden. Às 17h06 dei início à longa travessia de 182,4km entrando num corredor de madeira com plaquinhas dando as distâncias até cada um dos refúgios da travessia toda. São 443km dali até Hemavan, o último deles (413,9km segundo o guia Trekking the Kungsleden, de Mike Laing). Altitude de 383m ali.

Cerca de 160m depois há um museu (Museu de Defesa da Fronteira) e uma tenda cônica típica do povo dessa região, meu primeiro contato com a cultura sami (ou lapões, como costumamos chamar). Uns 50m depois, numa bifurcação, desviei alguns metros à direita para ver o cânion formado pelo Rio Abiskojokk. A placa informa que são 14km dali ao Refúgio Abiskojaure (jaure = lago, em idioma sami). Seguindo à esquerda na bifurcação passei pelo túnel embaixo da rodovia, em seguida sob dois viadutos, já tomando o rumo sul. Fui à direita numa bifurcação com placa que aponta "Viste/Sami Camp 500m" à esquerda. Passo a seguir o Rio Abiskojokk (ou Abiskojåkka) pela margem direita verdadeira e logo aparecem as famosas passarelas de madeira que serão constantes ao longo de toda essa travessia. Elas servem mais ao propósito de preservação do solo e seu ecossistema do que propriamente ao conforto dos trilheiros... mas não deixa de ser um grande conforto!

Casa tradicional do povo sami
Às 17h28 cheguei a uma trilha mais larga e com mais sinalização, mostrando que é o caminho principal. Como comecei a trilha no corredor com as plaquinhas não passei pelo portal mais conhecido da Kungsleden. Se você quiser tirar a clássica foto iniciando a Kungsleden no portal mais antigo, em lugar de entrar no corredor com as plaquinhas cruze a rodovia, passe pelo túnel sob a linha férrea, vire à direita e depois à esquerda, onde fica o portal.

Tomei a trilha principal para a direita. A sinalização são pinturas vermelhas nas pedras e árvores (para o verão) e postes com um grande X vermelho no alto (para o inverno, quando a neve cobre tudo). Nesse trecho inicial, a trilha, bem larga, cruza uma mata de bétulas já amarelando com o final do verão. Às 17h55 cheguei ao primeiro Meditationsplats, que costumam ser lugares com uma vista privilegiada para contemplação. Têm sempre uma grande pedra arredondada com frases gravadas em sueco e num idioma sami (há mais de dez idiomas sami). As frases são do escritor sueco Dag Hammarskjöld.

Esse Meditationsplats está numa bifurcação em que fui em frente (direita), descendo. Cruzei o primeiro riacho da caminhada com bonita vista para as montanhas à esquerda (leste) e fui à esquerda na bifurcação. Logo apareceu uma clareira de acampamento mas ainda era muito cedo para parar. Fui à direita nas duas bifurcações sinalizadas e cruzei a primeira ponte suspensa da travessia às 18h32. Em 2 minutos cheguei ao acampamento Nissonjokk, com banheiros (até com papel). Um painel avisa que por ser área do Parque Nacional Abisko só é permitido acampar ali ou no Refúgio Abiskojaure. Continuando, às 19h03 atravessei outra ponte suspensa. Ao final dela uma bifurcação sem placa - fui à direita seguindo as passarelas de madeira. Entroncou uma trilha larga vindo da esquerda e em seguida fui à direita na bifurcação.

Às 19h49 passei por um banheiro isolado à esquerda da trilha. Fico admirado com esses recursos e essa preocupação ambiental, os suecos conseguem superar até os noruegueses nisso. Às 20h04 a trilha dá uma quebrada para a esquerda. Dois minutos depois avistei algumas casas fechadas à direita já às margens do Lago Abiskojaure, ao lado do qual passo a caminhar. Resolvi parar para acampar por ali pois o Refúgio Abiskojaure ainda estava 4km distante e o sol já havia se posto, porém estava ventando muito e eu tinha pouca água. Caminhei até o próximo riacho e voltei até as casas fechadas para acampar num lugar abrigado do vento forte. O sol se põe por volta de 19h30 nessa época, mas a noite cai lentamente.

Fiquei das 23h à meia-noite do lado de fora da barraca para tentar ver algum sinal da aurora boreal, mas nada! O céu estava um pouco claro. Parece que a melhor época é do final de setembro até março, mas algumas pessoas ao longo da travessia disseram ter visto.

Altitude de 498m.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 8,9ºC

Lago Alesjaure
2º DIA - 29/08/19 - do Lago Abiskojaure a Alesjaure

Distância: 24,5km
Maior altitude: 827m
Menor altitude: 491m no Refúgio Abiskojaure
Resumo: nesse dia saí do vale do Rio Abiskojokk (e do Parque Nacional Abisko) e subi a um grande platô com diversos lagos. Desnível de 317m nessa subida. Caminhei até a extremidade sul desse conjunto de lagos, onde está o Refúgio Alesjaure.

Comecei a caminhar às 9h13 e percorri toda a margem sudeste do Lago Abiskojaure até avistar o Refúgio Abiskojaure do outro lado. Ele está cerca de 300m fora da trilha principal mas fui conhecê-lo mesmo assim. Ao final do lago tomei a direita na bifurcação, cruzei a ponte suspensa e cheguei ao refúgio às 10h32. Altitude de 491m. Conversei um pouco com o anfitrião, que me disse que havia ali sauna e mercadinho, mas que o estoque de comida estava baixo. O uso do banheiro é gratuito, como em todos os refúgios, e tinha papel.

Saí de lá às 11h e retornei à trilha principal cruzando de volta a ponte suspensa. Depois dela o caminho gera um pouco de dúvida. Há um caminho largo em forma de passarela de madeira para a direita (oeste) mas não é por aí. Deve-se tomar uma trilha mais estreita em frente (sul) para retomar a principal. São 20km até Alesjaure, segundo a placa. A trilha sobe suavemente e às 11h44 alcancei uma placa de "bem-vindo ao Parque Nacional Abisko" virada para o outro lado, sinalizando que eu estava saindo dos limites do parque. Dali em diante o acampamento é permitido em qualquer lugar. Subi mais um pouco e cruzei às 11h57 uma ponte suspensa sobre o Rio Siellajohka (alguns metros antes há um outro banheiro isolado e uma área de acampamento). Subirei agora pelo vale desse rio.

O dia estava cinzento, com céu encoberto, e logo após essa ponte começou a chover. Tive de parar para vestir a roupa impermeável e pôr capa na mochila, mas em seguida começou uma longa subida que me fez sentir calor com aquela roupa. A chuva passou logo. Foi só o trabalho de vestir a roupa para em seguida tirar de novo. E isso se repetiu durante os onze dias de caminhada: chuvisco, veste a roupa de chuva, para de chover, esquenta, tira a roupa de chuva.

A subida foi mesmo bem longa. O largo vale do Rio Kamajokk (ou Kamajåkka), com árvores, fica para trás e subo pelo vale do Rio Siellajohka agora. Quando a subida pareceu ter fim passei por outro Meditationsplats, parecido com o anterior, com a pedra arredondada com as inscrições. Mas ainda havia muito para subir, agora pela encosta da margem esquerda (verdadeira) de um outro rio, afluente do Siellajohka. As últimas árvores ficam para trás. A subida só teve fim às 13h46, num grande platô com um lago à esquerda e montanhas ao fundo (808m). À direita avisto a distância um acampamento sami, mas não parecia haver ninguém. Cruzo uma cerca por uma escada de madeira às 14h30 e 190m à frente passo por um ponto de água. Depois disso tive sorte: o tempo começou a melhorar e surgiu um bonito céu azul que os enormes lagos à minha esquerda refletiam. A paisagem mais bonita da travessia até aquele momento.

Refúgio Alesjaure
Às 16h55 alcancei a margem do Lago Alesjaure e ali há uma cabana e um pequeno píer onde para um barco que leva até o Refúgio Alesjaure em quatro horários por dia no verão por SEK 350 (US$ 37,40) por pessoa. O refúgio fica na outra extremidade do lago. É possível chamar o barco para uma viagem extra usando o walkie talkie disponível dentro de uma caixa (sim, ninguém rouba o aparelho). Mas não há necessidade nenhuma de tomar esse barco pois a trilha é tranquila até lá.

O caminho continua pela margem oeste do Lago Alesjaure e às 17h54 avisto na margem oposta um povoado sami. O refúgio já está próximo. Às 18h08 cruzo um rio mais largo pelas pedras e 12 minutos depois avisto o refúgio no final do lago. Já começam a aparecer as barracas montadas ao longo da trilha e eu procuro um lugar plano e abrigado do vento forte para armar a minha, sempre numa distância tal que não precise pagar a taxa de acampamento. Encontrei um bom lugar 350m antes do refúgio e tratei logo de me instalar ali antes que outro o fizesse, às 18h41. Havia um riacho bem perto. Depois fui conhecer o refúgio, que tem sauna, mercadinho e três casas para hospedagem, cada uma com sua cozinha e refeitório. Não há luz e água encanada. À noite acendem velas. A água para cozinhar e lavar a louça normalmente deve ser coletada com baldes no rio, mas como esse refúgio fica num lugar alto, longe das fontes de água, há contêineres de água disponíveis.

O anfitrião me disse que eu deveria ficar a pelo menos 300m do refúgio para não pagar a taxa de acampamento. A taxa para acampar ao lado dos refúgios é muito cara, SEK 300 (US$ 32), e o único recurso do refúgio que eu fazia questão de usar era o banheiro para não contaminar o ambiente. Os outros recursos como cozinha, refeitório e sala de estar para mim eram completamente dispensáveis. A disponibilidade de comida nos mercadinhos dos refúgios também foi fundamental para a realização dessa travessia.

Altitude de 807m no Refúgio Alesjaure.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 4,3ºC

Delta formado pelo Rio Alesätno (ou Aliseatnu)
3º DIA - 01/09/19 - de Alesjaure ao Passo Tjäktja

Distância: 16,5km
Maior altitude: 1140m no Passo Tjäktja
Menor altitude: 779m na ponte suspensa sobre o Rio Alesätno
Resumo: esse dia foi uma subida quase constante e sem dificuldade do Refúgio Alesjaure ao Passo Tjäktja, num desnível positivo de 361m

Os dias 30 e 31/08 foram de muita chuva. Esperei o tempo melhorar para dar continuidade à travessia. Na noite do dia 31 coloquei a cabeça para fora da barraca às 2h e vi fachos de luz branca no céu que apareciam e sumiam lentamente, mas durou pouco tempo. Isso foi o máximo que vi da aurora boreal, que quando fica mais intensa adquire várias cores.

O dia 01/09 amanheceu bonito. Ainda bem, pois não dava mais para ficar parado ali. Porém à tarde a coisa ia mudar radicalmente... Como fiquei dois dias além do previsto meu estoque de comida baixou. Não tinha certeza quanto ao abastecimento dos mercadinhos à frente então tratei de fazer uma comprinha no refúgio antes de voltar à trilha. Experimentei o queijo com carne de rena (em bisnaga) e gostei.

Deixei o acampamento às 10h52. Do refúgio se tem uma visão privilegiada para o Lago Alesjaure ao norte (de onde vim) e para o delta formado pelo Rio Alesätno (ou Aliseatnu) ao sul (para onde vou). Desci do refúgio no rumo sul, cruzei a ponte suspensa sobre o Rio Alesätno e o segui pela margem direita verdadeira. Grande parte do trajeto é sobre passarelas de madeira e o vento lateral era tão forte que queria me derrubar delas. Às 12h08 cruzei um riacho mais largo pelas pedras e 13 minutos depois cheguei a outro Meditationsplats. Um simpático casal sueco já bem idoso ao me ver fotografando a pedra arredondada com as inscrições fez questão de traduzir para mim o que estava escrito. A frase era realmente para parar e meditar: "mas do além, algo preenche meu ser com a possibilidade de sua origem".

Em seguida cruzei uma ponte suspensa e a água do rio era cinza turva de degelo dos nevados ao sul. Às 14h10, para cruzar um outro rio largo, tive de desviar vários metros para a esquerda. Subi mais e avistei o Refúgio Tjäktja (se pronuncia chékcha) à direita, após um rio. Seu acesso principal é por uma ponte suspensa mais à frente mas eu tomei um atalho na sua direção, tendo de cruzar o rio pelas pedras. Cheguei a ele às 15h05. Esse é um refúgio bem menor que os anteriores e com isso a recepção do anfitrião foi mais hospitaleira. Pudemos conversar um pouco e me abriguei do vento forte e gelado atrás da casa para tomar um lanche. Numa mesa entre as casas do refúgio havia uma jarra grande com suco de lingonberry para dar as boas-vindas. Gostei do sistema de lavagem das mãos com economia de água: você despeja um pouco da água do balde num copo fixo com um furo no fundo e lava as mãos no jato que sai.

Meditationsplats e a pedra redonda com as inscrições
O vento estava bem forte mas algumas pessoas estavam conseguindo montar suas barracas, que tinham que ser bastante resistentes e bem ancoradas. Ainda faltavam 12km para o Refúgio Sälka (se pronuncia sélka) e eu continuei às 16h08, saindo pelo acesso principal, pela ponte suspensa. Encontrei o casal idoso do Meditationsplats e eles me alertaram para a chuva que viria à noite. Iam pernoitar naquele refúgio.

Retomei a trilha principal para a direita e fui em direção ao Passo Tjäktja, a 3,4km dali. Porém a chuva da noite chegou bem antes do previsto. Era chuva com vento forte bem na minha cara. E o terreno foi se tornando cada vez mais pedregoso e ruim de andar, mas com passarela de madeira nos trechos piores. A subida final ao passo é uma ladeirinha simples. Resolvi parar no abrigo de emergência que há ali às 17h17 para esperar a ventania passar ou ao menos ficar mais fraca. E a pequena casinha estava lotada de gente esperando pelo mesmo. Ali do alto a visão para o sul não era nada animadora, tudo cinzento e escuro. A chuva às vezes dava uma trégua mas o vento não. Seria muito difícil montar uma barraca sozinho naquelas condições. E fomos ficando todos ali. A temperatura caiu bastante mas o aquecedor parecia estar com a saída entupida e toda a fumaça voltava para dentro do abrigo. Teve que ser apagado. Por fim resolvemos passar a noite no abrigo, eu, uma alemã caminhando sozinha e quatro belgas. Jantamos e nos ajeitamos como pudemos, alguns nos bancos, outros no chão. O banheiro ao lado foi o mais sujo (talvez o único realmente sujo) que encontrei nessa caminhada. Banheiros de abrigo de emergência são os únicos que não têm papel disponível, todos os outros costumam ter.

Esse abrigo de emergência se chama Tjäktjapasset e no livro de registro vi a assinatura recente de dois brasileiros: um mineiro de BH e uma baiana de Salvador.

Assim como essa alemã, vi muitas outras mulheres fazendo a Kungsleden sozinhas, algo raro mesmo para a Escandinávia.

Altitude de 1140m.

Refúgio Sälka e vale do Rio Tjäktjajåkka
4º DIA - 02/09/19 - do Passo Tjäktja a Singi

Distância: 20,6km
Maior altitude: 1140m no Passo Tjäktja
Menor altitude: 710m no Refúgio Singi
Resumo: esse dia foi uma descida constante do Passo Tjäktja ao Refúgio Singi acompanhando o Rio Tjäktjajåkka, num desnível de 430m

Fui o último a sair do abrigo de emergência, às 8h35, e nem sinal da ventania da tarde anterior. Nesse dia a trilha toma o rumo sul quase sem variações. A descida do passo para o sul é mais empinada do que foi a subida pelo lado norte. Logo avisto o largo vale por onde caminharia todo o dia, com o Rio Tjäktjajåkka serpenteando e a trilha bem marcada em sua margem esquerda (na verdade vou acompanhar esse rio até ele desaguar no Lago Padje Kaitumjaure no dia seguinte). No meio da descida um Meditationsplats, mas parar ali para contemplar ou meditar seria pedir para virar picolé pois o frio estava pegando. Às 9h20 cruzei pelas pedras o primeiro riacho do dia.

Cheguei ao Refúgio Sälka às 11h31 e só o avistei quando estava bem próximo pois fica escondido pelos morrotes. Parei para comer mas o vento frio estava incomodando. O refúgio tem mercadinho e sauna. O mercadinho tinha mais variedade de comida do que o de Alesjaure e até itens de higiene pessoal. Comprei mais pão sueco por precaução (esse é o único tipo de pão vendido nos refúgios). O abastecimento durante a temporada de verão é feito por helicóptero... só em país rico mesmo! Mas o abastecimento mais completo é feito no inverno com snowmobiles.

Perguntei sobre acampamento ao anfitrião e ele disse que se pode acampar de graça depois da ponte seguinte (que fica a mais de 200m de distância). Dei continuidade à caminhada às 12h50 e tinha 12km até o Refúgio Singi, segundo a placa. Cruzei a ponte. Saí com blusa e corta-vento por causa do vento frio mas logo saiu o sol e tive de tirar o corta-vento. É assim, um tira-e-põe de roupa o tempo todo. Continuo para o sul pela margem esquerda do Rio Tjäktjajåkka e surgem bonitos lagos em ambos os lados da trilha. Às 13h28 avisto à direita o Pico Sälka e sua geleira.

Às 13h49 cruzei uma ponte suspensa e 4 minutos depois atravessei outra, essa uma das mais longas. Cruzei um portão numa cerca (!?) e 200m depois passei por um Meditationsplats. Às 14h12 placas apontam para a direita os refúgios Hukejaurestugan (17km) e Gautelishytta (31km, já na Noruega) - esse é o ponto onde a trilha Nordkalottleden se separa da Kungsleden. Nordkalottleden é um trekking de 800km entre Noruega, Suécia e Finlândia. De Abisko a Sälka os dois trekkings compartilham o mesmo caminho.

Vale do Rio Tjäktjajåkka
Mais à frente, avistei finalmente as primeiras renas dessa caminhada. Eram duas e cruzaram a trilha subindo a colina. Elas são muito ariscas e quando se sentem ameaçadas fogem para as partes mais altas. Às 14h46 pude ver à esquerda algumas montanhas com neve. As nuvens não deixavam visualizar seus topos, mas uma delas era o cume norte do Kebnekaise, montanha mais alta da Suécia (a segunda mais alta é o cume sul).

Às 15h06 cruzei outra ponte suspensa e 10 minutos depois parei para lanchar no abrigo de emergência Kuoperjåkka (Kebnekåtan), igual ao abrigo em que passei a noite, com banheiro ao lado. Às 16h35 uma bifurcação importante: à esquerda se vai ao Kebnekaise Fjällstation, refúgio que é base para a subida do Kebnekaise. Como essa subida não estava nos meus planos para essa travessia, segui para a direita. Às 16h58 avistei do alto um vilarejo sami (sem ninguém) e logo depois as casas do Refúgio Singi mais à esquerda, aonde cheguei às 17h36.

Ali tive a recepção mais calorosa de toda a caminhada. Os anfitrões eram um sueco muito simpático e atencioso, Jörgen, e sua esposa chilena, Sybil, extremamente simpática também. Fui recebido com o tradicional suco de lingonberry e depois me deram um pedaço de pão amassado (típico chileno) que estava saindo do forno. Esse refúgio não tem mercadinho nem sauna. Tem duas casas com quartos, cozinha e refeitório em cada uma. A água é coletada no riozinho que passa no meio delas. Tive de novo de procurar um lugar abrigado do vento para a barraca e a montei atrás de uma pedra grande. A temperatura medida pelo meu termômetro no final da tarde estava 8ºC mas o vento fazia a sensação térmica ser muito abaixo disso. Aproveitei para saborear o pão quentinho que ganhei de presente. Nesse dia também havia muitas pedras na trilha mas com passarela de madeira onde era só campo de pedras.

Em Singi o Caminho Peregrino Dag Hammarskjöld se separa da Kungsleden, tomando o rumo leste. Esse caminho tem 105km e vai de Abisko a Nikkaluokta. De Abisko a Singi as duas trilhas coincidem.

Altitude de 717m no Refúgio Singi.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 0ºC

Mata de bétulas amarelando às margens do Rio Tjäktjajåkka
5º DIA - 03/09/19 - de Singi a Teusajaure

Distância: 22km
Maior altitude: 788m no platô entre os refúgios Kaitumjaure e Teusajaure
Menor altitude: 499m no Refúgio Teusajaure
Resumo: nesse dia desci do Refúgio Singi ao Refúgio Kaitumjaure num desnível de 105m acompanhando o Rio Tjäktjajåkka. Em seguida atravessei um platô numa subida de 203m e descida de 289m ao Refúgio Teusajaure.

Logo cedo lebres corriam entre as casas do refúgio. Felizmente o vento gelado da tarde anterior cessou e o sol da manhã espantou o friozão. Conversei mais um pouco com os simpáticos anfitriões e deixei o local às 11h03. Seriam 13km diretamente para o sul até Kaitumjaure e depois, numa guinada para sudoeste, mais 9km até Teusajaure. Continuo acompanhando o Rio Tjäktjajåkka. No caminho uma garota solitária colhia berries e me mostrou algumas que eu não conhecia, dando o nome de cada uma. Foi aí que eu descobri qual era a lingonberry dos sucos dos refúgios. Às 13h05, após passar entre duas belas montanhas rochosas, o vale se abre e a trilha desce às margens do rio, que também se alarga. Mais abaixo ressurgem as árvores, que eu não via desde o segundo dia de caminhada.

Às 13h52 cruzei por uma ponte suspensa o Rio Tjäktjajåkka e a paisagem mudou bastante. Às margens do rio aparece uma linda mata de bétulas com as folhas amareladas pelo final do verão. Descendo avisto à esquerda (sudeste) o grande e verdíssimo Lago Padje Kaitumjaure e me despeço do Rio Tjäktjajåkka, que vinha acompanhando desde o Passo Tjäktja no dia anterior, pois ele deságua nesse lago. Alcanço o Refúgio Kaitumjaure às 14h54 e sou efusivamente recebido pela comunicativa Mônica, que me ofereceu suco (de lingonberry, claro), me explicou todo o meu futuro trajeto no mapa e me informou a respeito dos barcos que eu teria de tomar a partir de Teusajaure. Seriam quatro barcos até meu destino final, Kvikkjokk, num total de SEK 900 (US$ 96). A travessia estava começando a pesar no bolso...

Altitude de 612m nesse refúgio, que tem sauna e mercadinho, mas não tinha pão sueco nesse dia. Comprei uma lata de almôndegas que comi com pão sueco (que tinha na mochila) ali mesmo nas mesinhas de piquenique. Não era boa a almôndega mas a fome é o melhor tempero. A garota das berries fez seu lanche ali também. Ela era americana. Deixei o refúgio às 16h26 para mais 9km até Teusajaure, de agora em diante para sudoeste, me afastando do bonito lago.

Desci até o Rio Kaitumjåkka e o atravessei por uma ponte suspensa às 16h52. Segui-o por sua margem direita verdadeira por cerca de 900m e no caminho cruzei uma inusitada porteira de varas. A trilha se afasta do rio e começo a subir a encosta, o que me levou a um extenso platô que atravessei ainda na direção sudoeste. A chuva me pegou nesse platô e tive de vestir toda a roupa impermeável. Muita pedra nesse trecho. Alcancei o topo do platô (788m) às 18h14 e em menos de 10 minutos iniciei a descida. Às 18h55 cruzo um rio e passo a acompanhá-lo. Quando a descida para Teusajaure se torna bastante inclinada esse rio forma bonitas cachoeiras. Ignorei o aviso de "Último ponto de acampamento gratuito. Taxa de acampamento a partir daqui" que vi na descida e cheguei ao Refúgio Teusajaure às 19h19. A chuva havia parado.

Esse refúgio fica às margens do Lago Teusajaure e tem sauna e mercadinho. Fui muito bem recebido novamente pelo anfitrião Roland mas tive de me afastar do refúgio para acampar sem pagar a taxa de SEK 250 (US$ 26,71) (ao sul de Singi vale uma outra tabela de preços, um pouco mais barata). As últimas cachoeiras da descida do platô são visíveis do refúgio e a água que bebemos vem delas, coletada atrás das casas. Reencontrei a Lílian, a americana das berries, e acampamos perto um do outro.

Altitude de 499m no Refúgio Teusajaure.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 6,6ºC

Barco para cruzar o Lago Teusajaure
6º DIA - 04/09/19 - de Teusajaure a Vakkotavare

Distância: 13km
Maior altitude: 938m no platô entre os refúgios Teusajaure e Vakkotavare
Menor altitude: 451m no Lago Akkajaure
Resumo: nesse dia cruzei um extenso platô num desnível positivo de 439m e negativo de 487m. Caminhei dentro da área do Parque Nacional Stora Sjöfallet.

Desmontei a barraca logo cedo, antes até de tomar o café, pois ameaçava chover de novo. Comprei mais pão sueco no mercadinho e às 9h estava no píer para tomar o barco para a outra margem do Lago Teusajaure. Além dos trilheiros que estavam no refúgio apareceu um grupo de 17 outros que acamparam lá no alto, antes da descida do platô. O barco comporta só 4 pessoas por vez e é conduzido pelo anfitrião do refúgio, o Roland, que teve de fazer várias viagens. Esse grupo de 17 pessoas era de Malta! A travessia dura apenas 2 minutos no barco a motor. Ela pode ser feita com barco a remo também, o próprio trilheiro remando, mas nesse caso pelo menos um barco precisa ficar ancorado em cada lado do lago. Isso significa que se você tiver o azar de encontrar apenas um barco a remo ancorado, terá de cruzar o lago três vezes para rebocar outro barco para o lado onde iniciou a travessia.

Ao cruzar o lago estava entrando na área do Parque Nacional Stora Sjöfallet, criado em 1909, um dos primeiros parques nacionais da Europa.

Do outro lado tomei o café da manhã e pus o pé na trilha às 9h41. O caminho começa no rumo oeste mas logo dá uma guinada para o sul e se mantém assim até Vakkotavare, distante 13km. Já inicia com uma subida pela mata. Em apenas 100m há uma trilha saindo para a esquerda com a placa "Raststuga 75m" (algo como abrigo de descanso). Fui xeretar e encontrei um abrigo de emergência de nome Dievssajávri. Estava menos limpo que os anteriores mas daria para passar a noite. Voltei à trilha principal e a retomei para a esquerda, subindo ainda. Essa subida foi suave mas constante até o topo de um extenso platô, a 5,4km dali. Logo no início, ao sair da floresta de bétulas avisto o Lago Teusajaure ficando para trás e a chuva chegando. Parei para vestir a capa de chuva, mas felizmente o vento levou a chuva pela extensão do lago, de oeste para leste, e eu estava me afastando para o sul. Parei para guardar a capa de chuva... de novo.

Às 11h alcancei uma bifurcação com uma lacônica placa "Bro" (= ponte, mas eu não sabia) apontando para a direita. O gps dava os dois caminhos como possíveis sendo o da esquerda mais curto - continuei subindo por esse lado. Logo a trilha desceu para cruzar um rio. O desvio à direita, por ter uma ponte, certamente era mais fácil, mas por ali também não foi complicado, bastando procurar o local com mais pedras para não ter de tirar as botas. Com esse atalho, passei quase todos os que estavam à minha frente. Subi até o ponto mais alto do grande platô (938m) e já iniciei a suave descida às 11h31. Cruzo um riacho. O caminho é bastante pedregoso também. A sudoeste avisto uma bela cadeia de montanhas nevadas com os cumes encobertos por nuvens. Uma delas é o Pico Sarektjåkkå, terceiro mais alto da Suécia depois dos cumes norte e sul do Kebnekaise.

Cachoeira na chegada a Vakkotavare
Nesse trecho de descida a Vakkotavare pelo platô foi onde vi o maior número de renas. Eram muitas, muitos grupos espalhados pelo extenso campo verdejante. Como eu tinha passado todos os outros e estava na dianteira, tive a oportunidade de vê-las mais de perto, ainda não assustadas com a presença de gente. Às 13h14 a paisagem muda. Visualizo o grande Lago Akkajaure à minha frente e até ele uma longa descida forrada por uma floresta de bétulas. Na descida cada vez mais íngreme me aproximo de um rio, que despenca em lindas cachoeiras à esquerda da trilha. Já dentro da mata cruzo o rio e sou o primeiro a chegar a Vakkotavare, às 13h49.

A primeira impressão não foi tão boa porque o refúgio fica na beira de uma rodovia... voltar à civilização depois de oito dias na montanha é sempre um choque, mas fui muito bem recebido pela simpática e sorridente Birgitta e seu marido Anders, porém sem suco dessa vez. O refúgio tem mercadinho mas não tem sauna e é o primeiro com essa configuração (todos os outros tinham sauna e mercadinho, ou nenhum dos dois). O rio das cachoeiras passa bem ao lado e é a principal fonte de água. A Lílian foi a segunda a chegar e se decepcionou ao saber que não havia ônibus à tarde para Kebnats, para a continuidade da travessia. A partir de 02/09 só circula o ônibus das 9h50 (não mais o das 14h35). Ela andou rápido à toa e agora teria que aguardar o ônibus do dia seguinte. Eu já tinha essa informação desde o Refúgio Kaitumjaure, dada pela Mônica. Esse ônibus vai de Ritsem a Gällivare e pode ser uma rota de fuga da Kungsleden, se necessário, pois em Gällivare há trem para Estocolmo.

Como sempre, acampar ao lado do refúgio implicava pagar uma taxa (SEK 250 = US$ 26,71), então o Anders nos indicou bons lugares para acampar de graça às margens do Lago Akkajaure, do outro lado da rodovia, protegidos do vento pela mata. Não tinha pão sueco no mercadinho, comprei feijão em caixinha.

Altitude de 459m no Refúgio Vakkotavare.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 3,7ºC

O Refúgio Saltoluokta tem os banheiros mais criativos
05/09/19 - de Vakkotavare a Saltoluokta

Esse foi um dia de deslocamento em ônibus e barco até o Refúgio Saltoluokta. Lá não dei continuidade à caminhada por causa da chuva incessante. Aliás ninguém continuou a caminhada por esse motivo.

Em Vakkotavare tive de novo de desmontar a barraca às pressas pois a chuva estava chegando. Corri para o refúgio com a barraca na mão e organizei a mochila na oficina do Anders pois não poderia entrar no refúgio sem pagar o day visit. Às 9h50 eu, a Lílian, o grupo de 17 pessoas de Malta e várias outros trilheiros pegamos o ônibus para Kebnats sob chuva fraca. Custo da passagem: SEK 95 (US$ 10,15). O ônibus tinha tomadas para recarregar o celular, mas não tinha wifi. O motorista fez uma parada no Hotel Stora Sjöfallet e pude usar o wifi aberto para dar notícias de que estava vivo. No mercadinho comprei pão sueco e queijo com camarão em bisnaga.

Descemos na beira da estrada ainda sob chuva em Kebnats às 11h15 e caminhamos 400m até o píer para pegar o barco das 11h20 para cruzar o Lago Langas. Como lotou foi preciso fazer uma segunda viagem, na qual fomos eu, a Lílian e 3 pessoas que ficaram do grupo de 17 de Malta. Custo do barco: SEK 200 (US$ 21,37), podendo pagar com cartão de crédito. Travessia de 11 minutos.

O Refúgio Saltoluokta é uma estação de montanha da STF. Ali você encontra um público totalmente diferente dos outros refúgios. A grande maioria vai para descansar no fim de semana ou participar de eventos ou simplesmente saborear a comida especial preparada pelos ótimos cozinheiros (o jantar é bem caro). Nesse dia estava acontecendo um grande evento e o refúgio estava lotado. Eu já estava desacostumado de tanta movimentação, mesmo assim fiz questão de almoçar pois já estava cansado de pão sueco e comida industrializada. Mas antes fui procurar um lugar distante do refúgio o suficiente para não pagar a taxa de acampamento de SEK 250 (US$ 26,71) e montei a barraca numa curta trégua que a chuva deu. O almoço era um buffet à vontade por um preço bem camarada, SEK 120 (US$ 12,82). Choveu o resto do dia.

Esse refúgio é muito antigo. O primeiro refúgio em Saltoluokta foi contruído em 1912! Atualmente tem sauna, mercadinho, loja de roupas e souvenirs. Mas por conta desse excesso de gente o atendimento é muito ruim, as garotas são estressadas e atendem com má vontade. Os banheiros (gratuitos mesmo em estação de montanha) são os mais criativos da Kungsleden, cada cabine decorada com um tema diferente.

Na travessia de barco de Kebnats a Saltoluokta eu saí dos limites do Parque Nacional Stora Sjöfallet, no qual havia entrado na travessia de barco em Teusajaure no dia anterior.

Altitude de 400m no Refúgio Saltoluokta.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 4,3ºC

Igreja sami em Saltoluokta
06/09/19 - Saltoluokta

Permaneci acampado em Saltoluokta porque o tempo ainda não estava bom, céu carregado, podia voltar a chover a qualquer momento. Confesso que pensei em parar a travessia nesse dia e ir embora. A combinação de dias cinzentos, chuvas repentinas e frequentes, paisagem sem nada de espetacular e bastante frio estava me tirando o ânimo de continuar. O gasto de SEK 600 (US$ 64) nos dois barcos seguintes também estava pesando contra. Conversei com outros trilheiros no refúgio sobre os planos de cada um, consultei o yr.no e resolvi continuar a travessia, mas só no dia seguinte. Isso porque a única razão de eu continuar era para subir a montanha Skierfe e eu queria estar lá com sol (ou pelo menos sem chuva). E o Yr previa tempo bom para daí a dois dias, justamente quando eu chegaria lá.

Almocei no refúgio e aproveitei o resto do dia para conhecer o vilarejo sami próximo dali, com sua singular igrejinha.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: -0,1ºC

Renas
7º DIA - 07/09/19 - de Saltoluokta a Svine

Distância: 19km
Maior altitude: 780m
Menor altitude: 400m no Refúgio Saltoluokta
Resumo: nesse dia subi do Refúgio Saltoluokta a um extenso vale num desnível de 380m. Caminhei por esse vale e desci 148m até o Lago Kaskajaure.

Às 6h35 da manhã estava 0ºC.

Deixei o acampamento às 10h33 e retomei a travessia no rumo sul, o qual manteria quase sem variações durante o dia todo. De Saltoluokta a Sitojaure são 19km, segundo as placas.

A trilha sai do refúgio por uma mata de bétulas e pinheiros. Segui as placas nas bifurcações e as marcas vermelhas pintadas nas pedras e árvores e subi até sair da sombra das árvores, local que já é um bonito mirante para o Lago Langas. Às 10h55 segui à esquerda numa bifurcação com placa e continuei subindo. A paisagem se amplia e fica cada vez mais bonita (num dia de sol). Às 11h22 fui à esquerda em outra bifurcação sinalizada. As árvores vão ficando mais espaçadas até que no alto não há mais, apenas vegetação baixa.

Avisto à direita montanhas nevadas distantes e, subindo mais um pouco, passo a caminhar por um largo vale. Altitude de 729m, desnível de 329m desde o refúgio. Cruzo alguns riachos e aparecem mais renas pastando. Às 13h29 chego a um abrigo de emergência chamado Autsutjvagge e um papel ali já dá o preço e os horários do barco de Sitojaure a Svine: 9h e 17h ao custo de SEK 400 (US$ 42,74). Esse barco é caro assim porque é particular, não é operado pela STF. Já havia caminhado 8km desde Saltoluokta e faltavam 11km para Sitojaure. Os banheiros ao lado estavam limpos.

O tempo estava bom, até com um sol tímido, mas lembrei da previsão de chuva para essa noite e toda a manhã seguinte, então achei melhor pegar o barco da tarde em lugar do barco da manhã seguinte (com chuva). Mas para alcançar o barco precisei acelerar o passo. A caminhada por esse vale foi absolutamente monótona e sem graça. Às 15h33 apareceram algumas lagoas à esquerda mas a essa altura o dia já estava todo cinzento. Às 16h04 fui à esquerda numa bifurcação e em 10 minutos já avistava o Lago Kaskajaure após uma longa e suave descida. Mas olhando para a direita não gostei do panorama: nuvens escuras sobre as montanhas nevadas me deixavam em dúvida se estava chovendo ou nevando naquela direção.

Continuei meu passo rápido, reentrei na mata de bétulas e às 16h38 fui à direita numa bifurcação que apontava Aktse, barco e refúgio nessa direção. Se quisesse acampar desse lado do lago (como era meu plano inicial) esse seria o local limite para não pagar a taxa. Essa bifurcação para a direita me levou em 400m diretamente ao vilarejo sami, de onde sai o barco. Como cheguei às 16h44, faltando apenas 16 minutos para a saída, não tive tempo de conhecer o Refúgio Sitojaure, acessível a partir dali ou da esquerda na bifurcação anterior. Esperando também o barco estavam um casal de Luxemburgo com quem conversei em Saltoluokta e um húngaro que cumprimentei na trilha à tarde. Disseram que o refúgio não tem mercadinho nem sauna. E ali na vila sami também não havia comida para vender. O pagamento de SEK 400 (US$ 42,74) do barco é só em dinheiro. O homem que nos levou era da etnia sami, alto e forte, de pouca (ou nenhuma) conversa.

Saímos no horário e em 14 minutos cruzamos o Lago Kaskajaure e o Lago Kåbtajaure (parece um lago só mas são dois ligados por uma parte mais estreita). Essa travessia é interessante porque o barco precisa seguir marcadores vermelhos fincados, navegando por um corredor cheio de curvas. O lago é raso e o barco pode encalhar se fizer um trajeto errado. Comporta 6 pessoas. O problema foi que eu não me precavi com corta-vento e tomei a ventania gelada toda no rosto e peito, o que me causou uma tosse que me acompanhou por mais de 40 dias. Durante a travessia sentimos pingos de chuva fraca e ao desembarcar em Svine resolvemos dormir no abrigo de emergência Svijnne. O húngaro quis montar sua barraca mas voltou correndo para o abrigo porque disse que viu/ouviu um animal rondando, talvez um alce. Depois vimos que era uma rena, mas ele dormiu no abrigo mesmo assim. Ao lado havia um banheiro só, mas por sorte estava limpo. A água para beber e cozinhar eles encontraram num riacho próximo pois não quisemos pegar a do lago.

Altitude de 636m.

Vista da montanha Skierfe
8º DIA - 08/09/19 - de Svine a Skierfe

Distância: 13,6km
Maior altitude: 1184m no Skierfe
Menor altitude: 636m no abrigo de emergência Svijnne
Resumo: nesse dia saí do Lago Kåbtajaure e atravessei um platô num desnível positivo de 325m. Na descida tomei a trilha para a montanha Skierfe, subindo mais 416m até seu cume.

Comecei a caminhar às 9h33, bem depois dos meus companheiros de abrigo e também depois da chegada do barco de Sitojaure trazendo os trilheiros que dormiram no refúgio. A previsão do yr.no quase acertou, o dia estava encoberto e cinzento, mas sem garoa.

Continuando a caminhada na direção sudoeste, a matinha de bétulas termina e passo por um ponto de água corrente, a 1,1km do abrigo. Logo vem uma subida mais íngreme por uma encosta de pedras desmoronadas (scree), mas sem dificuldade. No alto às 10h50 passo a caminhar por um outro platô com montanhas nevadas à direita, bem distantes. Mais renas pastando. Atingi o topo do platô às 11h05 (961m) e iniciei a descida com vista para enormes lagos. Às 11h32 avisto a pontinha da montanha Skierfe à direita (oeste). Meu plano era acampar nela (no cume ou na base) para curtir o visual à tarde e de manhã já que deveria ser o grande momento desse trekking. Descendo, às 11h41 cheguei a uma placa quase completamente apagada apontando Skierfe para a direita, e é para lá que eu fui. Altitude de 768m.

Para minha sorte (e graças ao meu minucioso planejamento baseado no Yr) o tempo melhorou e o sol apareceu. Parei para um lanche com vista para o Lago Laitaure e para a ponta do Skierfe. A trilha atravessa um trecho de cerca de 150m de muita lama, continua percorrendo a encosta e sobe. No caminho muitas moitinhas de blueberry (mirtilo), com frutos, mas são bem pequenos e pouco doces. No meio do blueberry (preto) há pezinhos de lingonberry (vermelho) também. Na subida o terreno se torna mais pedregoso e quase sem vegetação. No alto avisto uma belíssima cordilheira nevada a oeste e a encosta do Skierfe à esquerda dela. Mas antes desci um pouco, cruzei um riacho às 13h58 (peguei água para a noite pois é a única fonte de água corrente) e na base do Skierfe cruzei com os meus parceiros do abrigo já descendo para dormir em Aktse. Disseram que não havia lugar plano e sem pedras para acampar mais para cima então escondi a mochila e subi o Skierfe só com mochila de ataque.

Cheguei ao topo às 14h50. Foram só 16 minutos de subida desde a base mas como queria ficar bastante tempo no cume tirando fotos e curtindo o visual levei lanche e água. E todos os agasalhos pois, apesar do sol, estava bastante frio. Sem dúvida esse lugar valeu pelos cinco dias de caminhada a mais (mesmo sob chuva, como aconteceria depois) e pelo gasto extra com os barcos. O mirante é simplesmente espetacular. É uma visão aérea do Rio Rapa desaguando no Lago Laitaure em forma de delta, com canais que formam ilhas pontilhadas de lagoas e são delimitados por matas ciliares, tudo verdejante. Esse delta é o maior da Suécia. A noroeste, direção oposta ao lago, se destaca no horizonte a bela cordilheira de cumes nevados onde nasce o Rio Rapa.

No cume, lugar plano e livre de pedras para acampar é quase impossível. Além disso, completamente exposto ao vento. Na subida havia um ou outro lugar que daria para colocar uma barraca bem pequena, mas com pedras ao redor. Melhor mesmo foi ficar na base, onde é possível encontrar alguns lugares planos e com menos pedras.

O Skierfe se encontra na extremidade leste do Parque Nacional Sarek, mas não há nenhuma placa informando isso.

Altitude na base: 1051m
Altitude no cume: 1184m

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 2ºC

Base da montanha Skierfe
9º DIA - 09/09/19 - de Skierfe a Aktse

Distância: 7,6km
Maior altitude: 1184m no Skierfe
Menor altitude: 519m onde acampei, abaixo do Refúgio Aktse
Resumo: nesse dia desci da montanha Skierfe para o Refúgio Aktse num desnível de 665m

Desmontei acampamento e escondi a mochila para subir novamente o Skierfe e ver tudo lá do alto com outra luz pela posição diferente do sol. Esse dia eu reservei para isso, para relaxar e curtir a paisagem desse lugar especial. Assim como na tarde anterior, fiquei surpreso nesse dia também pelo tempo perfeito, sem nenhum sinal de chuva em todo o horizonte. Coisa rara!

Às 15h deixei o cume, peguei a mochila na base e iniciei o retorno à trilha principal pelo mesmo caminho. Peguei mais água no riacho próximo à base. A volta foi um pouco demorada pois parei muitas vezes para comer blueberries ao lado da trilha. Atravessei o lamaçal e alcancei a trilha principal às 18h06, descendo à direita. Entrei na floresta de bétulas e pinheiros e o único lugar plano para a barraca já estava ocupado. Até que cheguei à famosa placa "além deste ponto você deverá pagar a taxa de acampamento", 100m antes do Refúgio Aktse. Como os lugares ali eram ruins (inclinados) fui até o refúgio. Cheguei às 18h32.

O anfitrião que me recebeu ganhou o troféu de mau humor e estupidez. Me disse para acampar de graça naquelas clareiras inclinadas ou abaixo do refúgio bem longe. O refúgio tem sauna e mercadinho - aproveitei para comprar grão-de-bico em caixinha e pão sueco. Fiz o que ele mandou e acampei no início da mata de bétulas a caminho do ancoradouro do barco. Quando voltei para pegar água na bica do refúgio, ele fez questão de vir me dizer que eu estava proibido de entrar em qualquer dependência do refúgio pois eu não estava pagando para isso. Que sujeito ridículo! Na Suécia as pessoas baseiam as relações na confiança mútua, esse sujeito destoa disso e acha que o visitante é um esperto que só quer se aproveitar. Voltei para a minha barraca pois deu para ver que ali eu não era bem-recebido, pelo menos por esse anfitrião que está na profissão errada. De boas-vindas ali só mesmo o suquinho de lingonberry.

Altitude de 552m no Refúgio Aktse. Do refúgio ao píer de onde sai o barco para Laitaure a distância é de 1,1km.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: -1,1ºC

Lago Sjabatjakjaure, onde se encontra o Refúgio Pårte
10º DIA - 10/09/19 - de Aktse a Pårte

Distância: 20,4km
Maior altitude: 870m
Menor altitude: 493m perto do Refúgio Pårte
Resumo: nesse dia subi desde o Lago Laitaure um desnível de 368m, em seguida desci 373m até o Refúgio Pårte. Cruzei a extremidade sudeste do Parque Nacional Sarek, criado em 1910.

Acordei com chuva... e eu tinha de desmontar a barraca para pegar o barco das 9h para Laitaure, do outro lado do lago de mesmo nome. Às 8h30 estava 5ºC e chovia, que delícia... Arrumei a mochila dentro da barraca e já estava preparado para desmontá-la sob chuva quando por sorte ela deu uma trégua. Caminhei até o ancoradouro e era o mal-humorado quem ia pilotar o barco de 8 pessoas. Paguei na hora em dinheiro os SEK 200 (US$ 21,37). A travessia durou 9 minutos e não era possível ver o Skierfe, ocultado por densas e baixas nuvens. Esse dia todo foi cinzento e de nuvens carregadas, parecia que ia voltar a chover a qualquer momento.

Laitaure fica na margem sul do lago. Não é um vilarejo, mas tem um abrigo de emergência com banheiro próximo, depois de um portão de ferro. A trilha inicia após esse portão e corre através da floresta de bétulas e pinheiros que não permite visão da paisagem ao redor. Comecei a caminhar às 9h41. Altitude de 502m.

Em algum lugar por volta de 10h10 (a cerca de 2km do abrigo de emergência e do lago) eu entrei na área do Parque Nacional Sarek, mas não há nenhuma placa dando essa informação no local. Esse parque foi criado em 1910 e é um dos mais antigos da Europa. Porém cruzei apenas a extremidade sudeste dele e à tarde já sairia dos seus limites. Às 10h50 atravessei por uma ponte metálica o primeiro riacho do dia, com uma clareira de acampamento logo a seguir.

Subi bastante e ao sair do limite das árvores às 11h29 continuei sem visão por causa da neblina. Caminhei por uma encosta e cruzei com bastante gente fazendo no sentido contrário. Esse pessoal deve caminhar só dois dias até o Skierfe e voltar. Ao reentrar na mata passei por clareiras de acampamento e um abrigo de emergência (com banheiros) de nome Jågge às 12h14. Ao sair das árvores caminhei muito sem ter idéia de como é a paisagem por causa da neblina. Cruzei uma ponte suspensa bem grande e alta às 12h46 e atingi a maior altitude do dia às 13h13 (870m).

Reentrei definitivamente na mata de bétulas às 13h28 e na descida com muitas pedras molhadas (pela garoa) escorreguei e caí, mas nada sério. Apenas deu pra ver que o solado Contagrip da Salomon não é confiável para pedras molhadas. Depois de descer bastante as pedras foram diminuindo e pude andar mais rápido. Às 14h11 cruzei um rio por uma ponte suspensa de nome Gállakjåhkå. Tive de vestir a capa porque a chuva voltou.

Às 14h51 encontrei um painel de informação sobre o Parque Nacional Sarek ao lado de um rio. Eu já estava saindo da área do parque. Cruzei um último riacho e cheguei a Pårte (se pronuncia pôrte) às 15h15, sendo bem recebido pela idosa anfitriã.

Pårte não tem sauna nem mercadinho. Fica numa península do bonito Lago Sjabatjakjaure, ligeiramente fora da trilha. Para não pagar é preciso acampar fora da península, ao longo da trilha, e há várias clareiras já abertas, porém algumas inclinadas. Tratei de montar a barraca antes que a chuva chegasse, aproveitando um local plano e espaçoso que encontrei. Peguei água corrente no último riacho que havia cruzado (a 500m do refúgio e 180m de onde acampei) e logo começou a chover.

Altitude de 497m no Refúgio Pårte.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 10,1ºC

Passarelas de madeira por todo o caminho
11º DIA - 11/09/19 - de Pårte a Kvikkjokk

Distância: 15,6km
Maior altitude: 586m
Menor altitude: 330m no Refúgio Kvikkjokk Fjällstation
Resumo: esse dia foi em sua maior parte nivelado na faixa dos 500m a 580m de altitude. O único desnível significativo foi uma descida de 187m no final do dia.

A barraca amanheceu molhada da chuva da noite, mas felizmente saiu um solzinho tímido para ajudar a secá-la. Voltei ao refúgio para tirar algumas fotos do Lago Sjabatjakjaure, conversei um pouco mais com a anfitriã (faltam 12 dias para todos eles voltarem para casa) e pus o pé na trilha às 9h43. O caminho será o dia todo pela mata de bétulas e pinheiros, com pouca visão da paisagem ao redor. Mas as bétulas cada vez mais amarelas e as plantas rasteiras avermelhadas darão o colorido desse dia. Às 10h36 atravessei um rio mais largo por uma ponte de madeira. Às 11h07 cruzei um portão de ferro numa cerca e 4 minutos depois uma porteira de ripas, onde conversei com um casal francês que parou para um lanche.

Às 11h27 me deparei com o enorme Lago Stuor Dahta - a trilha vai para a esquerda e o margeia. Esse trecho é bem ruim de caminhar porque tem muitas pedras e estavam escorregadias pelos chuviscos ocasionais. Às 13h08 fui à esquerda numa bifurcação em que os dois lados levam a Kvikkjokk, mas o da direita é o caminho de inverno. Às 13h17 atravessei uma ponte grande de madeira e a trilha quebra para a direita. Volta e meia vinha uma chuva fraca e era preciso vestir a jaqueta impermeável, depois esquentava e tinha de parar de novo para tirá-la. Às 14h47 surgiu uma bifurcação sem placas, mas segui pela direita pois o caminho da esquerda pareceu ser o de inverno. O avanço se tornou mais rápido quando as passarelas de madeira ficaram mais longas. Às 15h23 a trilha teve fim numa estradinha de cascalho onde segui para a esquerda. Com mais 420m cheguei a um grande estacionamento à esquerda e mais 180m ao Refúgio Kvikkjokk Fjällstation, às 15h34.

Esse refúgio, assim como o Abisko Turiststation e o Saltoluokta, é uma estação de montanha com todo o conforto. Há um restaurante que serve as três refeições e ainda sanduíches, bolos e cafés. Há sauna e um mercadinho bastante variado. Pode-se utilizar uma cozinha reservada aos hóspedes. E para minha surpresa podia acampar em qualquer lugar sem pagar a taxa, usando os banheiros de dentro do refúgio pois não há banheiro fora. Me indicaram uma grande área de acampamento a 100m do refúgio, mas o terreno não era plano e ventava muito ali. Preferi voltar um pouco pela estradinha por onde cheguei e armar a barraca numa das muitas clareiras que havia. Mas antes usei o wifi do refúgio (SEK 50 = US$ 5,34 ilimitado) para comprar a passagem de ônibus+trem de volta a Estocolmo (o próximo wifi só iria encontrar na rodoviária de Jokkmokk, mas queria comprar a passagem com antecedência de pelo menos um dia). O ônibus para Jokkmokk só sairia às 5h20 do dia seguinte, então passei o resto do dia explorando os arredores. O Rio Kamajokk passa atrás do refúgio e forma cachoeiras e corredeiras muito bonitas.

Altitude de 330m no Refúgio Kvikkjokk Fjällstation.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 12ºC

Cachoeiras e corredeiras no Rio Kamajokk
12/09/19 - de Kvikkjokk a Jokkmokk e Estocolmo

Tive de acordar de madrugada para pegar o ônibus e estava chovendo. Arrumei a mochila dentro da barraca e já estava pronto para desmontá-la na chuva quando de repente parou. Embrulhei bem o sobreteto da barraca pois estava ensopado. Desci até a igreja do vilarejo, ponto final do ônibus, a 300m do refúgio, e lá reencontrei o casal de Luxemburgo. Quando comprei a passagem de trem para Estocolmo (www.sj.se/en/home.html) não consegui incluir esse primeiro ônibus, apenas o segundo (não sei por quê), então paguei esse ônibus avulso (SEK 197 = US$ 21). Tive de pagar com cartão de crédito, o motorista não aceitou dinheiro. Curioso é que não precisei digitar a senha do cartão, ele disse que até SEK 200 não há necessidade da senha.

Cheguei a Jokkmokk às 7h50 e tinha ainda que esperar até 15h10 para tomar outro ônibus para Älvsbyn. Usei o wifi da rodoviária para dar sinal de vida e quando a chuva parou saí para conhecer a cidade e comprar comida no supermercado (há dois mercados grandes). Às 15h10 tomei o segundo ônibus e desembarquei em Älvsbyn às 17h15. Esperei até 18h14 para pegar o trem para Estocolmo, chegando às 7h15 do dia seguinte à capital sueca.

Informações adicionais:

. para saber os preços de hospedagem e refeições nos refúgios da STF consulte os valores atualizados em www.swedishtouristassociation.com/our-accommodation-types/stay-stf-mountain-cabin e www.swedishtouristassociation.com/our-accommodation-types/stay-stf-mountain-station

. segundo o site www.swedishtouristassociation.com todos os refúgios por que eu passei nessa caminhada aceitam pagamento com cartão de crédito e débito, exceto Pårte

. mapa da Kungsleden com as trilhas e refúgios: www.swedishtouristassociation.com/app/uploads/sites/2/2016/06/kungsleden-stor.jpg

. barco de Teusajaure à margem sul do lago:
de 20/06 a 1/9 - 7h, 9h, 16h e 18h
de 2/9 a 22/9 - 9h e 16h
Preço: SEK 100 (US$ 10,69) para membros e SEK 150 (US$ 16) para não-membros da STF

. barco de Kebnats a Saltoluokta:
de 14/06 a 30/06 - 10h20 e 16h05
de 01/07 a 01/09 - 10h20, 11h20 e 16h05
de 02/09 a 22/09 - 11h20 e 15h35
Preço: SEK 140 (US$ 14,96) para membros e SEK 200 (US$ 21,37) para não-membros da STF

. barco de Sitojaure a Svine: 9h e 17h
Preço: SEK 400 (US$ 42,74)

. barco de Aktse a Laitaure:
de 20/06 a 22/09 - 9h e 17h
Preço: SEK 200 (US$ 21,37)

. para informações atualizadas sobre horários de barcos consulte www.swedishtouristassociation.com/boats-in-the-mountains

. para se tornar membro da STF: www.swedishtouristassociation.com/join-stf

. quase todas as travessias de barco podem ser feitas com barco a remo também, o próprio trilheiro remando, mas nesse caso pelo menos um barco precisa ficar ancorado em cada lado do lago. Isso significa que se você tiver o azar de encontrar apenas um barco a remo ancorado, terá de cruzar o lago três vezes para rebocar outro barco para o lado onde iniciou a travessia.

. ônibus Vakkotavare-Kebnats-Gällivare:
14/06 a 01/09 - 14h35
01/07 a 22/09 - 9h50
ou seja, somente de 01/07 a 01/09 há dois horários por dia
Preço: SEK 95 (US$ 10,15) de Vakkotavare a Kebnats

. ônibus de Kvikkjokk a Jokkmokk:
seg a sex - 5h20
sáb, dom e feriados - 14h (de 19/08 a 22/09)
Preço: SEK 197 (US$ 21), só com cartão

. trens na Suécia: www.sj.se/en/home.html

. nesse percurso há supermercado apenas em Abisko, distante 2,4km do início da trilha. A maioria dos refúgios tem mercadinho básico com preços de no mínimo o dobro do que nas cidades (justificado pela dificuldade do transporte). Os refúgios Abisko, Saltoluokta e Kvikkjokk servem refeições (café da manhã, almoço e jantar).

Rafael Santiago
agosto-setembro/2019

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