domingo, 17 de maio de 2020

Cachoeira Velo de Novia e Laguna 5 Hermanos (Ushuaia, Argentina) - jan/20

Laguna 5 Hermanos
Início e final: estacionamento junto ao Camping Kawi Yoppen
Distância: 2,8km (só ida, do portal de Ushuaia ao estacionamento do camping) + 4,9km (só ida, do estacionamento à laguna)
Maior altitude: 804m na Laguna 5 Hermanos
Menor altitude: 92m na ponte do Rio Olívia
Dificuldade: média pois há um desnível de 388m bastante inclinado na chegada à Laguna 5 Hermanos 

Na paisagem montanhosa que emoldura a cidade de Ushuaia três picos próximos entre si se destacam: Monte Olívia, Cerro 5 Hermanos e Cerro Le Cloche, todos a leste da cidade. A caminhada desse dia deveria ser a subida do Cerro Le Cloche pela face sul e a descida pela face norte passando pela Laguna 5 Hermanos, porém não encontrei trilha no local indicado para subida do Cerro Le Cloche e mudei os planos. Fui conhecer a Cachoeira Velo de Novia e se houvesse tempo esticaria até a Laguna 5 Hermanos por outro caminho.

A Cachoeira Velo de Novia tem acesso bastante fácil para quem está de carro pois caminha-se apenas 780m (desnível de 97m) desde o estacionamento junto ao Camping Kawi Yoppen, na Ruta Nacional 3 (RN3). A Laguna 5 Hermanos já fica bem mais distante (4,2km após a cachoeira) e exige bem mais do caminhante pois o desnível de 388m é bastante inclinado.

22/01/2020 - Saí do hostel um pouco tarde, às 9h49. Os dias longos do verão no extremo sul do continente deixam a gente bem relaxado com relação ao horário das caminhadas. Os argentinos por exemplo muitas vezes iniciam as caminhadas no meio da tarde. Há luz do dia até depois das 21h30 nessa época (janeiro). 

Na Rua Gobernador Deloqui, no centro de Ushuaia, peguei o ônibus da linha B (poderia ser o da linha A também, porém na Avenida Maipu) e desci no ponto da Rua Pioneros Fueguinos pois queria explorar a trilha da face sul do Cerro Le Cloche. Como essa exploração não deu certo e mudei o destino para a Cachoeira Velo de Novia, o ideal é descer do ônibus no ponto final junto ao portal da cidade (saída para Rio Grande). Em frente ao ponto final fica o posto policial e ao passar por ele somos sempre "convidados" a entrar e registrar nome, documento e destino. Altitude de 80m. 

No portal poderia ter pedido carona mas a distância até o início da trilha da cachoeira é de apenas 2,8km e resolvi ir caminhando. A experiência foi proveitosa pois passei por um local com vários santuários, inclusive da Defunta Correa e do Gauchito Antonio Gil, dois personagens cultuados como santos na Argentina. O visual do Monte Olívia e do Cerro 5 Hermanos também compensava a monotonia da estrada.

Cachoeira Velo de Novia
Às 15h34 entrei numa rua de terra à direita da RN3 sem nenhuma placa indicando a cachoeira, a laguna ou o camping. A única placa ali apontava para a engarrafadora de água Anoka. Em apenas 170m cruzei a ponte sobre o Rio Olívia (menor altitude da trilha, 92m) e cheguei a um estacionamento e à entrada do Camping Kawi Yoppen. Uma placa à esquerda mostra o caminho para a Cachoeira Velo de Novia. A trilha inicialmente corre paralela ao Rio Olívia mas depois sobe e se afasta dele. Numa bifurcação na subida fui para a esquerda e cheguei às 15h50 próximo a uma queda secundária, mas era só um mirante sem acesso à água. Cuidado pois esse mirante é um local estreito e alto e é bom ver onde se pisa para não escorregar e despencar lá de cima. 

Parei para um lanche. Continuei pela trilha e encontrei a ramificação que vinha da direita na bifurcação anterior. Dali foram mais 6min até a queda principal. Para chegar à água deve-se descer uma encosta íngreme porém fácil. Já eram 16h15 e resolvi tentar primeiro a Laguna 5 Hermanos, na volta curtiria a cachoeira. Ali há restos de cabanas feitas de troncos finos características dos povos Yámana e Selk'nam. Subindo, uma trilha mais larga entroncou à direita. Cruzei uma ponte de tábuas tortas e fui à direita acompanhando o Arroyo Velo de Novia, que ali tem uma prainha de pedras.

Sem ter idéia de quanto tempo levaria até a laguna caminhei de olho no relógio e se desse um horário-limite retornaria de onde estivesse. Portanto caminhei mais rápido e a trilha estava bem fácil, uma subida muito suave, porém sabia que teria de subir bastante pois a laguna fica a 804m de altitude. E eu estava ainda na faixa dos 400m. Apareceram os famosos lamaçais das trilhas de Ushuaia e isso atrasou um pouco o avanço. Há uma sinalização de círculos amarelos nas árvores. 

Às 17h09 saí do bosque e avistei na cabeceira do vale o Cerro 5 Hermanos, inconfundível. Cruzei um riacho que desce da encosta e em seguida passei por uma grande e impressionante área de deslizamento com as árvores todas deitadas. Reentrei no bosque e a trilha se divide em variantes. Às 17h21 cruzei uma ponte de troncos (com tronco-corrimão) sobre o Arroyo Velo de Novia, passando então para a encosta da margem esquerda dele, que é onde se encontra a laguna. Aí começou a subida. Altitude de 416m.

A subida inicialmente era dentro do bosque e não muito inclinada. Passei por uma cachoeira em que era possível coletar água e ali um casal argentino me deu alguma informação sobre o que teria pela frente. A inclinação foi ficando cada vez maior. Alcancei o limite das árvores nos 500m e continuei pela encosta recoberta de capim com a trilha em ziguezague muito íngreme. Havia uma sinalização de estacas amarelas. A cidade de Ushuaia apareceu no horizonte à direita (sudoeste). Do outro lado do vale o imponente Monte Olívia. O capim deu lugar a um caminho só de pedras. Cruzei com um grupo saindo da laguna e finalmente cheguei a ela às 18h11, dentro do meu horário-limite de segurança. Altitude de 804m.

Laguna muito bonita, cor verde-esmeralda e cercada de montanhas rochosas, mas envolta por uma faixa larga de neve! Por isso fazia muito frio ali e não aguentei ficar muito tempo. Muito legal poder ficar ao lado da laguna e visualizar Ushuaia lá embaixo, bem distante. 

Iniciei o retorno às 18h39 e ainda cruzei com algumas pessoas subindo. Desci pela encosta de capim, reentrei no bosque, passei pela cachoeira, cruzei a pontezinha do Arroyo Velo de Novia às 19h32. Na volta, depois do deslizamento e do riacho, é preciso atentar para uma bifurcação que passa despercebida na ida - nela deve-se tomar a direita (há uma fita amarrada na árvore para chamar a atenção) e entrar no bosque. Nos lamaçais levei um pequeno tombo. Cruzei a ponte de tábuas tortas e fui à direita na bifurcação tomando a trilha mais estreita. Às 20h39 estava de volta à Cachoeira Velo de Novia. Aí sim desci até a queda e pude até ficar atrás dela! Voltei ao estacionamento e só havia um carro, diminuindo muito a minha chance de carona para a cidade. Comecei a caminhar pelo acostamento da RN3 pedindo carona mas os carros passavam em velocidade e desencanei. Cheguei ao ponto final do ônibus no portal da cidade às 21h38 e tomei o primeiro para o centro. 

Queda secundária da Cachoeira Velo de Novia
Informações adicionais:

. para chegar ao início da trilha deve-se tomar o ônibus das linhas A ou B no centro de Ushuaia e saltar no ponto final no portal da cidade, em seguida pedir carona ou caminhar 2,8km pela Ruta Nacional 3 

. o valor da passagem em fev/20 era ARS24 (R$1,50) que deve ser pago obrigatoriamente com o cartão de transporte SUBE (o mesmo de Buenos Aires e Bariloche)

. uma opção mais confortável é o transporte privado (van) chamado Linea Regular que sai diariamente da esquina das ruas Maipu e Juana Fadul de hora em hora das 9h às 14h.

Rafael Santiago
janeiro/2020

Glaciar Vinciguerra e Paso de la Oveja (Ushuaia, Argentina) - jan/20

Laguna del Caminante
Início: Vale Andorra
Final: autódromo de Ushuaia
Distância: 36km
Duração: 3 dias
Maior altitude: 820m no Paso de la Oveja
Menor altitude: 140m próximo ao autódromo de Ushuaia
Dificuldade: média para quem está acostumado a longas travessias com mochila cargueira. Há subidas de até 574m e o Paso de la Oveja (820m) deve ser cruzado com tempo bom.

Essa travessia percorre o vale do Arroyo Grande (Vale Andorra) para subir à Laguna de los Témpanos e Glaciar Vinciguerra, um trekking popular em Ushuaia. Um pouco menos frequentada é a Laguna Encantada. Muita gente faz isso em um bate-e-volta de um dia. Para continuar pelo vale do Arroyo Grande até a Laguna del Caminante e Paso de la Oveja é necessário mais um dia. A descida do Paso de la Oveja pelo Cañadón de la Oveja completa a volta de três dias ao redor dos Montes Martial.

1º DIA - 19/01/20 - do Vale Andorra à Laguna Encantada

Distância: 10,3km
Maior altitude: 752m no Glaciar Vinciguerra
Menor altitude: 178m no Arroyo Grande
Resumo: nesse primeiro dia de caminhada percorri o vale do Arroyo Grande (Vale Andorra) e subi à Laguna de los Témpanos e Glaciar Vinciguerra num desnível de 574m. Em seguida desci de volta 414m até a bifurcação da trilha e subi mais 218m para acampar na Laguna Encantada.

Para chegar ao início da trilha deveria ir de ônibus (ou caminhar) até a entrada do Vale Andorra e de lá pedir carona. A opção de táxi ou remis eu descartei por estar sozinho e também pela facilidade de se conseguir carona nessa região. Conferi a distância do centro de Ushuaia até a entrada do Vale Andorra: 3,5km. Resolvi ir a pé. Subi pela Rua Juana Fadul até a Avenida Hernando de Magallanes (uma avenida larga, de duas pistas) e a tomei às 10h41 no sentido leste até uma rotatória. Ali segui a placa de Rio Grande, já deixando a cidade. Passei a caminhar pela rodovia (Ruta Nacional 3) mas com acostamento já que ainda é uma área urbanizada. Cheguei à entrada do Vale Andorra às 11h29. Poderia ter tomado o ônibus da linha B do centro até esse local.

Dali ainda seriam mais 4,2km de rípio até o início da trilha e lá fui eu me aventurar a pedir a primeira carona dessa viagem. Mas, como já era esperado, foi bem fácil e logo um carro parou. Eram três argentinos muito gente boa, missionários da igreja adventista que estavam fazendo um trabalho junto à comunidade do Vale Andorra. Fizeram questão de me levar até o final da estrada e me deixar no portão onde inicia a trilha. Me deram algumas revistas da igreja para eu ler depois...

Laguna de los Témpanos e Glaciar Vinciguerra
O início da trilha fica junto a um agrupamento de casas e tem uma placa indicando Camino de la Turbera. Havia muitos carros estacionados ao longo da rua de terra do pequeno bairro mostrando que muita gente estava na trilha. Cruzei o portão azul que marca o início da caminhada às 12h25. Altitude de 199m. O começo é uma estradinha ainda pois há sítios mais adiante. Pequenas flores amarelas adornam todo o caminho. Cerca de 420m depois, numa curva para a direita, abandonei a estrada e entrei na trilha à esquerda. Uma seta amarela indica o caminho. Mas logo começou a grande dificuldade das trilhas de Ushuaia: os terríveis lamaçais. Com 150m de trilha surgiu uma bifurcação: Glaciar Vinciguerra e Laguna de los Témpanos (témpano = iceberg) à direita e Laguna del Caminante à esquerda. Fui para a direita e logo a visão para a turbera se ampliou. É uma área extensa na parte mais baixa do vale. Ao fundo as montanhas que deveria subir para atingir as lagunas e o glaciar. 

Turbera (ou turbal) é uma área de turba (turfa em português), que é uma vegetação encharcada e esponjosa composta de musgos, juncos e gramíneas. É bem ruim de caminhar pois afunda e molha os pés, além de cansar bastante. A turba é recolhida para diversas finalidades: é usada como fertilizante e substrato no cultivo de plantas, como combustível doméstico mas de baixo poder calórico, para adsorção de metais pesados presentes em ambientes, no combate a derramamentos de petróleo, entre outras.

Às 12h45 me aproximei do Arroyo Grande e passei a caminhar pela sua margem direita verdadeira. Ali a menor altitude do dia, 178m. A visão para o fundo do enorme Vale Andorra era espetacular - trecho que eu percorreria no dia seguinte. Os lamaçais continuam. Alcancei às 13h07 uma ponte que cruza o Arroyo Grande e junto a ela uma placa informa que toda a área desse vale, bem como as montanhas ao norte e ao sul, foram declarados Sítio Ramsar em 2009 por sua importância ecológica (rsis.ramsar.org). Atravessei a ponte para a margem esquerda do rio e ali uma outra placa dá informações sobre o Sendero Glaciar Vinciguerra, inclusive altimetria e telefone de emergência, dados bastante importantes.

Passada a ponte a trilha se afasta do rio e se dirige às montanhas, entrando no bosque e começando a longa subida em direção às lagunas. Na altitude de 338m, às 13h38, alcancei a bifurcação que leva à direita à Laguna Encantada e à esquerda à Laguna de los Témpanos e Glaciar Vinciguerra. Continuei pela esquerda, mas voltaria ainda nesse dia a essa bifurcação para acampar na Laguna Encantada. Mesmo na subida inclinada havia lamaçais terríveis que tornavam lento o avanço. Às 15h saí do bosque, visualizei o caminho à frente e percebi que havia cumprido somente a primeira etapa da subida - a segunda etapa seria por uma moraina pedregosa e bastante inclinada, como as morainas costumam ser.

Laguna de los Témpanos
Mas antes da moraina um trecho plano, um platô verdejante onde seria até possível acampar se o solo não fosse tão encharcado. Essa é a várzea do Rio de Leche, que vem da laguna. Vencida a grande ladeira de pedras atingi enfim a Laguna de los Témpanos às 15h24. Um lindo e hipnotizante lago de cor esverdeada cercado de montanhas, neve e gelo. Altitude de 724m. Pela proximidade com a geleira o vento ali era cortante e busquei abrigo atrás de grandes blocos de pedra. Para conhecer de perto a geleira bastou seguir a trilha marcada que contorna a laguna pela direita. Ela não é branca ou azul, mas cinzenta pela grande quantidade de pedras que carrega. Numa de suas extremidades há uma gruta de gelo em que entrei rapidamente para fotografar as paredes de gelo em que se veem pequenas rochas suspensas, muito curioso! A visão da laguna por este ângulo também é espetacular. Altitude de 752m, a maior do dia.

Cheguei a ver cercadinhos de pedra próximos à laguna porém acampar ali seria passar a noite inteira exposto à ventania gelada e dormindo sobre pedras. 

Iniciei às 17h25 a descida pelo mesmo caminho e 80m após reentrar no bosque vi um local plano para acampar, não tão exposto ao vento e com água ao lado, o Rio de Leche. Mas já estava decidido a visitar a Laguna Encantada nesse dia e dormir lá. Alcancei a bifurcação às 19h13 (338m) e a tomei para a esquerda, subindo. Ao sair do bosque muita lama e muito vento. Torci para encontrar um lugar seco e abrigado para montar a barraca. Por sorte achei um lugar assim na extremidade sul da laguna, às 20h20. E ainda bem que as lengas eram baixas pois se fossem árvores altas eu ficaria preocupado de uma delas desabar sobre a barraca. 

Montado o acampamento fui conhecer a laguna. Caminhei pela margem esquerda até o pé de uma alta cachoeira. O vento fazia suas águas voarem para cima. Notei a presença de castores nessa laguna por haver dique e outras "construções" que eles fazem, mas não cheguei a vê-los. Recomendável pegar água da cachoeira e não da laguna.

À noite, enquanto jantava, o vento continuava bem forte e chegava a entortar as varetas para dentro da barraca. Felizmente ela aguentou firme.

Altitude de 556m.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: 3,9ºC

Laguna Encantada
2º DIA - 20/01/20 - da Laguna Encantada à Laguna del Caminante

Distância: 12,8km
Maior altitude: 637m próximo da Laguna del Caminante
Menor altitude: 184m no Arroyo Grande
Resumo: nesse dia desci da Laguna Encantada ao vale do Arroyo Grande (desnível de 372m), voltei a percorrer esse vale para oeste e subi à Laguna del Caminante para acampar, num desnível (igual) de 372m.

10h da manhã: 6,1ºC

De manhã caminhei pela laguna e voltei à cachoeira para fotos com sol. Não tinha pressa, parti somente às 13h em direção à Laguna del Caminante. Desci pelo mesmo caminho, passei pela bifurcação da Laguna de los Témpanos às 13h49 e cruzei a ponte do Arroyo Grande às 14h13 (menor altitude do dia, 184m). Para não ter de voltar à bifurcação citada no dia anterior decidi procurar um atalho para a trilha da Laguna del Caminante, porém isso demandava cruzar o turbal, que podia estar muito molhado. Cerca de 200m após a ponte do Arroyo Grande e logo que cruzei outra pontezinha tomei o rumo sul sem trilha. Ao me deparar com duas marcas paralelas no chão apontando para a cabeceira do vale (oeste) resolvi segui-las. Caminhei 400m pela turbera, que não estava tão encharcada, até que resolvi cruzar o bosque e alcançar de uma vez a trilha da Laguna del Caminante. Não havia trilha no bosque, procurei onde estava menos ruim para pisar, ao final tive de subir um trecho íngreme e às 14h49 alcancei enfim a trilha que procurava. Parei para um lanche à sombra das árvores e próximo de um riacho. Continuei às 15h18.

Às 15h49 uma seta manda quebrar para a direita. Uns 3min depois encontrei uma ponte feita a partir de um grande tronco, uma placa da administração de parques nacionais e uma trilha saindo para a direita. Estava entrando nos limites do Parque Nacional Tierra del Fuego. Fui olhar à direita e em apenas 50m havia uma grande clareira plana ótima para acampar. Mas cruzei a ponte-tronco e continuei. Daí em diante havia passarelas de tábuas, corrimãos e sinalização nas árvores. Às 16h10 cruzei uma ponte com corrimão e 11min depois a Puente El Viejo para a margem esquerda verdadeira de um riacho.

Às 17h25 atravessei uma clareira bem maior que a primeira e reentrei no bosque. Em 6min estava diante de uma área devastada por castores, muitas árvores caídas, as que ainda estavam em pé estavam mortas. Um cenário desolador. Isso no próprio Arroyo Grande, no único momento em que essa trilha se aproxima dele.

Às 18h11 cruzei o Arroio del Caminante (vem da laguna homônima) por uma ponte-tronco com corrimão de cabo fino (altitude de 265m) e começou a subida, que era mais íngreme e cansativa do que eu esperava. O Arroio del Caminante ficou à minha esquerda por algum tempo. Nele uma bonita cachoeira. Às 18h49 cruzei o Arroio del Caminante novamente e me afastei dele. Uns 10min depois atravessei mais uma ponte-tronco com corrimão junto a uma confluência de rios. Às 19h14 saí do bosque e encontrei uma bifurcação com placa: à direita Laguna del Caminante, à esquerda Cañadón de la Oveja. Segui para a direita na ilusão de que a subida havia terminado. Na verdade estava na encosta de uma montanha e era preciso subir bastante por ela para atingir o local de descida à laguna. Esse caminho pelo alto proporcionou uma visão maravilhosa da verdíssima laguna entre bosques e montanhas de pedra. 

Subi até os 637m (maior altitude do dia; 372m de desnível desde a ponte-tronco com corrimão de cabo fino) e desci 60m verticais até a margem da laguna por uma trilha íngreme e escorregadia, chegando às 20h. Na chegada há água corrente do riacho que vem da Laguna Superior e que se cruza por duas pontes em sequência. Havia mais três barracas e fiz amizade com um casal muito simpático de Buenos Aires, Juan Pablo e Marina. Eles fizeram uma fogueira (apesar do aviso de não fazer fogo) e ficamos conversando ao calor do fogo. A noite estava muito fria.

Altitude de 577m.

Temperatura mínima durante a noite fora da barraca: -1,3ºC

Laguna Superior
3º DIA - 21/01/20 - da Laguna del Caminante ao autódromo de Ushuaia

Distância: 12,9km
Maior altitude: 820m no Paso de la Oveja
Menor altitude: 140m próximo ao autódromo de Ushuaia
Resumo: nesse dia cruzei o Paso de la Oveja num desnível positivo de 243m desde a Laguna del Caminante. Em seguida percorri o vale chamado Cañadón de la Oveja até o final da travessia num desnível negativo de 680m.

10h da manhã: 8,2ºC

Novamente sessão de fotos com sol pela manhã e nenhuma pressa de deixar aquele pequeno paraíso. Saí junto com o casal portenho às 12h20, subimos a trilha íngreme, mas logo nos separamos. Eles foram diretamente na direção do Paso de la Oveja e eu fui conhecer a Laguna Superior. Da Laguna del Caminante à Laguna Superior foram somente 26min mas há trechos de deslizamento que são íngremes e fáceis de escorregar, melhor ir sem a cargueira. A Laguna Superior é menor que a sua irmã mas igualmente linda, com as águas azuladas. Há também uma cachoeira despencando do lado esquerdo. Altitude de 637m.

Saí da Laguna Superior às 13h16, voltei pelo mesmo caminho até a placa da saída do bosque do dia anterior (altitude de 538m) e continuei para a direita (sudeste) às 14h para subir ao Paso de la Oveja. Dali ainda não conseguia ver o passo, apenas a enorme montanha que estava à sua esquerda, o Cerro Tonelli. Cruzei o campo florido e depois três vezes o riacho que vinha do passo. Só mais acima é que teve fim a lama e passei a caminhar num ambiente típico de alta montanha, sem nenhuma vegetação, só pedras. Aí comecei a visualizar o passo.

Alcancei o Paso de la Oveja às 15h02 numa altitude de 820m. Por sorte nesse momento quase não havia vento e a neve estava somente em manchas ao lado do caminho. Para o outro lado do passo se via uma extensa crista com bastante neve e a continuação da trilha descendo para um vale profundo, o Cañadón de la Oveja. Há água corrente procurando à direita. 

Cañadón de la Oveja
Comecei a descida do passo às 15h31 e alcancei Juan Pablo e Marina. Eles haviam parado porque procuravam o caminho que levasse a algumas cavernas de gelo, mas não sabiam nem onde elas ficavam. Eu estava com uma dor forte no joelho direito desde o dia anterior e não quis acompanhar Juan Pablo nessa exploração, fiquei com Marina cuidando das mochilas. Ele foi certeiro, encontrou a trilha e chegou às cavernas, porém não entrou pois disse que o gelo derretia rapidamente e despencavam pedras incrustadas nele, tornando o acesso perigoso. Tirou fotos da boca da caverna e retornou rapidamente. Dali em diante seguimos os três juntos.

Retomamos a caminhada às 16h28 pela encosta esquerda do profundo vale por uma trilha bem marcada entre pedras. Logo pudemos visualizar toda a extensão daquele enorme vale, o Cañadón de la Oveja, e ao fundo as águas azuis do Canal de Beagle. Não sei se pela dor no joelho mas esse trecho pela encosta me pareceu não terminar nunca. O vento começou a ficar bem forte e nas rajadas era preciso parar para se equilibrar e não despencar encosta abaixo. Às 16h57 uma discreta placa indicava que estávamos saindo dos limites do Parque Nacional Tierra del Fuego. Uns 150m depois a última água boa do dia. Às 18h03 a trilha quebrou para a direita e começou a descer em ziguezague a encosta para entrar no bosque às 18h27. Trocamos a caminhada pelas pedras pela caminhada pelo lamaçal de novo. Às 20h cruzamos uma cerca por uma escadinha e 25min depois outra cerca com escadinha. Continuamos pela trilha bem marcada e às 20h43 alcançamos uma estrada de terra nas proximidades do autódromo de Ushuaia. Altitude de 140m. Nesse mesmo local terminaria um outro trekking que fiz quase um mês depois, a Trilha dos Mirantes do Glaciar Martial (relato aqui). Ali em poucos minutos os pais do Juan chegaram de camionete para nos pegar. Se não tivesse essa carona poderia ter caminhado 1,9km até o ponto e tomado um ônibus da linha A ou B.

Informações adicionais:

. para chegar ao início da travessia deve-se tomar o ônibus linha B (linha A não serve) no centro de Ushuaia e saltar na entrada do Vale Andorra. A partir daí pedir carona (hacer dedo, em espanhol)

. para sair no final da travessia deve-se caminhar 1,9km por estrada de terra até o ponto de ônibus e tomar qualquer uma das duas linhas (A ou B) para o centro de Ushuaia

. o valor da passagem em fev/20 era ARS24 (R$1,50) que deve ser pago obrigatoriamente com o cartão de transporte SUBE (o mesmo de Buenos Aires e Bariloche)

. apesar de num trecho da travessia se cruzar a área do Parque Nacional Tierra del Fuego não é cobrada nenhuma taxa de entrada e nem de acampamento

Rafael Santiago
janeiro/2020

Glaciar Martial (Ushuaia, Argentina) - jan/20

Ushuaia vista do Cerro Martial
Início: centro de Ushuaia
Final: centro de Ushuaia
Distância: 2,5km do centro de Ushuaia ao início da trilha no Hotel Altos Ushuaia; 6,3km do início da trilha no Hotel Altos Ushuaia à neve do glaciar
Maior altitude: 842m na neve do Glaciar Martial
Menor altitude: 0m no centro de informação turística; 127m no início da trilha no Hotel Altos Ushuaia
Dificuldade: fácil, apesar do desnível de 842m desde a cidade ou de 715m desde o Hotel Altos Ushuaia

O Glaciar Martial é a trilha mais próxima do centro de Ushuaia e a primeira trilha da maioria dos que visitam a cidade. Não se alcança a geleira propriamente dita, não se toca no gelo, mas é possível brincar na neve logo abaixo dela mesmo no verão. A maioria dos visitantes sobe de carro até um estacionamento a 323m de altitude e dali caminha 1h30 até tocar na neve. O caminho de carro sobe a montanha num longo ziguezague nada interessante para se fazer a pé. Eu descobri que além dessa estrada de asfalto há também algumas opções de trilha e lá fui explorá-las. 

Vale a pena dizer que as águas que vertem do Glaciar Martial são a principal fonte de abastecimento da cidade de Ushuaia.

18/01/2020 - Saí do hostel bem tarde, às 11h56. Os dias longos do verão no extremo sul do continente deixam a gente bem relaxado com relação ao horário das caminhadas. Os argentinos por exemplo muitas vezes iniciam as caminhadas no meio da tarde. Há luz do dia até depois das 21h30 nessa época (janeiro). 

Do centro de Ushuaia subi pela Rua Juana Fadul até a Avenida Hernando de Magallanes (uma avenida larga, de duas pistas) e a tomei para a esquerda (oeste). Andei 1,5km e virei à direita na Rua Aldo Motter às 12h17. Uma placa na esquina aponta a direção do glaciar. Na pequena Plazoleta Republica del Paraguay tomei a rua que sobe à esquerda em diagonal, continuação da Aldo Motter. Nessa esquina a placa não cita o glaciar mas outra placa subindo a Aldo Motter em diagonal sim. Cerca de 600m depois da plazoleta cheguei ao Hotel Altos Ushuaia. À direita do hotel inicia o Sendero del Glaciar Luis Martial com uma grande placa e um mapa mostrando a estrada sinuosa e a trilha-atalho. 

Arroyo Buena Esperanza
A trilha inicia bem larga dentro do bosque e já subindo. Entrei nela às 12h42. Altitude de 127m. A sinalização em cor amarela serve de orientação. Subi 400m e cruzei a estrada junto ao Hotel Las Hayas, continuei pela trilha e cruzei a estrada de novo. Uma placa ali me chamou a atenção para outras trilhas que levam a mirantes, percurso que eu exploraria um mês depois (relato aqui). Passei na frente do Hotel Los Acebos e retomei a trilha, agora já mais estreita. Alcancei uma pequena ponte de madeira sobre um profundo cânion mas não a cruzei, em vez disso tomei a trilha para a esquerda e me aproximei do rio que percorre o cânion, o Arroyo Buena Esperanza, que se origina no Glaciar Martial. A trilha se torna mais ruim nesse trecho junto ao rio, com troncos caídos. Apareceu uma saída para a esquerda mas não a tomei porque desembocava na estrada. Continuei dentro da mata e ainda junto ao rio pela sua margem direita verdadeira. 

Numa área mais aberta do bosque vi restos de fogueira apesar do aviso de proibição de acampar e fazer fogo. Apareceu outra saída para a esquerda que dava diretamente numa casa amarela, mas continuei no bosque. A partir daí a trilha se alargou e apareceram até passarelas de madeira em bom estado. Saí novamente no asfalto e aí tinha duas opções (na volta descobriria uma terceira opção, a da casa de chá): caminhar pela estrada apenas 360m e chegar ao estacionamento onde todos iniciam a caminhada ou tomar outra trilha que sai à direita da estrada e chega a um local já bem acima do estacionamento. Como sempre, optei pela trilha. 

Essa trilha da direita mantinha ainda a sinalização amarela e iniciava cruzando uma pequena ponte de troncos sobre o Arroyo Buena Esperanza. Eram 13h49. Uns 60m após essa ponte abandonei o caminho principal e subi à esquerda por uma trilha estreita mas com marcação amarela. Cruzei uma ponte improvisada de dois troncos e numa abertura da mata pude ver o Canal de Beagle para trás. O solo nesse local é de turfa (turba, em espanhol), encharcado e parecendo uma esponja ao pisar. A trilha terminou às 14h37 junto à estação terminal do teleférico que existia nessa montanha até 2014. Dali tomei outra trilha em forma de escadaria de pedras que me levou a um nível acima da trilha principal que vai do estacionamento ao glaciar. Mas logo os dois caminhos paralelos se juntaram. Foi então que saí do bosque e pude visualizar a montanha em que está pendurado o Glaciar Martial, com seus quatro circos principais, bem como a trilha em diagonal na encosta que leva até ele.

Cerro Martial
Avançando mais um pouco as últimas moitas de lenga ficam para trás, cruzo um riacho e inicio a subida da encosta por um caminho de pedras em ziguezague. A visão para o canal se amplia e é possível ver perfeitamente a península onde está o aeroporto de Ushuaia. Alcancei a neve às 15h20, numa altitude de 842m. Ali a visão se abre para a porção leste do Canal de Beagle com as montanhas da Ilha Navarino, território chileno, à direita. 

Iniciei a descida às 16h07 e decidi fazer o caminho do estacionamento para ver como era. Mas antes de chegar à estação final do teleférico resolvi percorrer o Sendero del Filo, apesar da placa de "cerrado". Caminhei 950m em 17min por essa trilha, que corta a encosta do Cerro Godoy, até um local em que há uma grande queda em direção a um vale. A montanha do outro lado do vale é o Cerro Roy. Uma placa indica o final da trilha. Valeu pelo visual mais amplo do canal e também desse grande vale aos pés de imponentes montanhas. Voltei ao ponto onde inicia essa trilha às 17h25 e continuei em direção ao estacionamento pelo caminho largo, uma estradinha mesmo, porém logo apareceu uma trilha à esquerda e preferi caminhar por ela, junto ao Arroyo Buena Esperanza. Mais abaixo ela estava fechada por uma tela e tive de voltar ao caminho largo. Passei pela antiga estação inicial do teleférico.

Ao chegar ao estacionamento às 17h56 me surpreendi com a quantidade de carros. Há um café ali. Altitude de 323m. Cruzei o estacionamento para a esquerda (sentido oposto ao da estrada de asfalto) à procura de uma outra trilha. Passei pela casa de chá La Cabaña e desci por uma estradinha ainda dentro da área particular mas me deparei com um portão fechado. Já estava vendo que teria que pular a cerca de madeira quando o portão se abriu automaticamente... Esse caminho pela casa de chá então é a terceira opção que eu teria naquele ponto da subida em que me deparei com duas opções. Do portão caminhei apenas 100m pelo asfalto e retomei a trilha por onde subi. Na bifurcação depois da casa amarela tomei a trilha da direita, muito enlameada no começo mas melhor do que o caminho junto ao rio com troncos caídos.

Cruzei a ponte sobre o cânion profundo passando a fazer um caminho diferente da ida, mas também com marcações amarelas. Desci pelo bosque até a altitude de 148m, quando quebrei para a direita. Notei nas árvores ali os fungos pão-de-índio. Quando jovens são redondos de cor amarela ou alaranjada, depois secam e concentrados formam uma espécie de inchaço no tronco. Têm esse nome porque eram usados como alimento pelos povos originários da Patagônia e Terra do Fogo.

A trilha se estreitou num trecho bastante íngreme e me aproximei do Arroyo Buena Esperanza de novo. Sem cruzá-lo desemboquei às 19h numa estradinha de terra e fui para a direita. Uns 80m depois alcancei um estacionamento que fica bem próximo ao Hotel Altos Ushuaia, onde iniciei a trilha de subida. Do estacionamento peguei a Rua Aldo Motter para a esquerda e refiz o mesmo trajeto até o centro de Ushuaia, chegando às 19h45 à Rua Juana Fadul.

Rafael Santiago
janeiro/2020