terça-feira, 5 de maio de 2009

Monte Roraima - relato e pequeno guia (Bra/Ven) - mar/09


As fotos estão distribuídas em nove álbuns, um para cada dia da viagem, em http://lrafael.multiply.com/photos.

Antes de mais nada, gostaria de enfatizar:
A EXPEDIÇÃO AO MONTE RORAIMA NÃO É UMA VIAGEM CARA!

Começo meu relato dessa forma para chamar a atenção dos trilheiros que sonham com essa viagem, mas desistem diante dos altos custos das agências brasileiras.

As agências da cidade venezuelana de Santa Elena de Uairen cobram por volta de R$90 por dia de trekking com tudo incluído (guia, carregadores/cozinheiros, comida, equipamento de cozinha, barraca, saco de dormir e isolante). Para o pacote padrão de seis dias o custo total portanto é de R$540. É possível baixar bastante esse valor optando por um pacote com menos "mordomia" ou obter descontos se você levar seu próprio equipamento, conforme será explicado mais abaixo em detalhes.

O maior custo é o da passagem aérea até Boa Vista (capital de Roraima), mas isso também pode ser reduzido com a compra bastante antecipada ou aproveitando promoções ou ainda com milhas acumuladas. No nosso caso gastamos R$1.018 nas passagens aéreas em seis vezes sem juros. Na época, comprar o trecho São Paulo-Manaus separado do Manaus-Boa Vista saiu mais barato do que o bilhete São Paulo-Boa Vista (com escala em Manaus).

Bem, espero que com esses custos razoáveis (ou pelo menos não proibitivos) o sonho de conquistar o Roraima se torne realidade para muitos e que esse meu relato seja lido e aproveitado por muito mais trilheiros.

COMO FOI A NOSSA VIAGEM
O CONVITE

A Casa de Macunaima, Mãe de Todas as Águas, Grande Verde-Azulado. O Monte Roraima era um sonho guardado há muitos anos, mais exatamente desde 1995, quando uma matéria da revista Caminhos da Terra me deixou muito impressionado. As formações rochosas fantásticas, os enormes platôs de pedra, a formação antiquíssima dos tepuis, a fauna e a flora únicas, o isolamento e a dificuldade de acesso, tudo me deixou fascinado.

Em dezembro de 2008 surgiu um convite totalmente inesperado de alguém até então desconhecido, o Alexandre. Tratei de responder prontamente que estava muito interessado. Daí em diante formou-se o grupo de cinco pessoas que levou o projeto adiante: eu, Alexandre, Renata, Ana Paula e Gabriel.

OS PREPARATIVOS

Foram meses pesquisando custos, melhor época para ir, equipamentos necessários, grau de dificuldade, documentação, agências (brasileiras e venezuelanas), etc, numa troca intensa de e-mails. Lemos muitos relatos, conhecemos virtualmente diversas pessoas que tinham ido e pedimos todo tipo de informação a elas.

Todas essas informações disponibilizo aqui como uma espécie de guia para os futuros aventureiros.

Após muitos e-mails e até telefonemas para as agências de Santa Elena, decidimos pela Mystic Tours por ter o menor custo e fornecer uma documentação bastante completa e minuciosa sobre o trekking, o que nos inspirou mais confiança e até uma forma de contestar possíveis falhas no serviço.

Todo esse trabalho no planejamento se deveu a alguns relatos e depoimentos de pessoas que foram surpreendidas com um péssimo serviço, inclusive chegando ao ponto de ter de racionar a comida fornecida.

PEQUENO GUIA
COMO É O TREKKING DO MONTE RORAIMA

 
O Monte Roraima tem 34km2 de área e fica exatamente na fronteira entre o Brasil, a Venezuela e a Guiana, com um marco de concreto em seu topo registrando a tríplice fronteira. A maior parte da montanha está em território venezuelano (85%), 10% na Guiana e apenas 5% em solo brasileiro. O acesso ao topo foi descoberto em 1884 na parede sudoeste, a partir da Venezuela, e por ser o único caminho por trilha, sem necessidade de técnicas de escalada e nem cordas, passou a ser utilizado por todas as expedições. Fora isso, há os passeios panorâmicos de helicóptero e pelo menos duas vias de escalada (Scorpion Wall e Cutting the Line).

O Roraima e as outras montanhas em forma de mesa (topo chapado) que se formaram na região são chamados de tepuis. Cerca de 30 deles estão dentro da área de proteção do Parque Nacional Canaima, um dos mais extensos do mundo, com 30 mil km2 (do tamanho da Bélgica), controlado pelo Inparques, instituto ligado ao Ministério do Meio-Ambiente. Por estar dentro de uma reserva, a ascensão ao Roraima é obrigatoriamente acompanhada de um guia indígena local.
O trekking padrão oferecido por todas as agências dura seis dias, sendo três dias para a subida, um dia no topo e dois dias para descer. Na subida caminha-se dois dias pela savana para só no terceiro dia subir efetivamente a montanha.
Contratar o serviço de uma agência é obrigatório? Não, porém você vai precisar contratar um guia indígena e é recomendável ter alguma indicação para evitar possíveis transtornos pelo caminho.

No nosso caso preferimos fechar com uma agência de Santa Elena porque os custos são muito mais baixos do que qualquer agência brasileira e porque teríamos um pouco mais de garantia de um serviço mais profissional. Na troca de e-mails pudemos sentir o grau de profissionalismo de cada uma delas.

Além do mais, contratar um guia fora das agências não é garantia de pagar menos, como pude comprovar em relatos que li. É preciso estar por dentro dos pacotes e preços das agências e saber negociar com o guia.

Segundo o fórum do Mochileiros (www.mochileiros.com/roraima-f151.html), a contratação de um guia independente pode ser feita na própria aldeia Paraitepuy, onde está o quiosque-portaria do parque. Ali os preços das diárias de guias e carregadores parecem ser realmente mais baixos, porém ninguém publicou no fórum o preço real e nem mesmo o relato de uma expedição com essa logística.

Se a opção for dispensar os serviços da agência e procurar um guia na aldeia, é preciso levar em conta o custo do deslocamento de Santa Elena até lá (93km, sendo 27km de terra), o qual é feito somente em carro 4x4, cujo frete é mais caro. E fechar com o motorista o dia e hora (e preço) do resgate ao final do trekking.

POR QUE FIZEMOS O TREKKING EM OITO DIAS

Nas nossas pesquisas, descobrimos que um dia no topo seria suficiente para conhecer apenas alguns atrativos e mesmo assim num ritmo muito acelerado para quem esperou tanto tempo para chegar até ali. Fora isso, o tempo, que é bastante instável por lá, podia ficar de mau-humor justo naquele único dia no topo e a frustração seria completa.

Por isso, negociamos com a agência essa alteração de seis para oito dias, algo que bem poucas pessoas fazem. Na verdade, pensamos em outras alterações como subir em dois dias, acampar na aldeia Paraitepuy para iniciar a caminhada mais cedo, pernoitar no acampamento Militar, entre outras, porém a única que foi adiante foi essa dos oito dias.
 

Essa alteração nos daria a oportunidade de conhecer o distante Lago Gladys, lugar a que poucos chegam, já bem próximo da extremidade norte do Roraima, a chamada Proa, numa comparação da montanha com um imenso navio.

No trekking de seis dias, os acampamentos são feitos, pela ordem:
1ª noite: acampamento do Rio Tek ou do Rio Kukenan, dependendo da logística (o acampamento do Rio Kukenan é evitado por ter uma quantidade maior de puri-puris, um minúsculo e voraz mosquito da savana venezuelana)
2ª noite: acampamento Base, já no pé do Roraima
3ª noite: algum hotel do topo. "Hotel" é como eles chamam os abrigos rochosos onde é possível se proteger da chuva e parcialmente do vento (como faziam os homens da pré-história). São oito opções de hotéis próximos à Rampa de ascensão ao topo.
4ª noite: o mesmo hotel
5ª noite: acampamento do Rio Tek ou do Rio Kukenan, dependendo da logística

No nosso caso, alteramos o roteiro da 4ª noite em diante:
4ª noite: Hotel Coati, em território brasileiro
5ª noite: Hotel Coati
6ª noite: o mesmo hotel da 3ª noite
7ª noite: acampamento do Rio Tek ou do Rio Kukenan

CATEGORIAS DE PACOTE OFERECIDAS PELA AGÊNCIA MYSTIC TOURS

Minha intenção aqui não é influenciar ninguém a contratar os serviços da Mystic Tours, mesmo porque não simpatizei com o Roberto Marrero, embora ele tenha cumprido tudo o que nos prometeu. Quero apenas mostrar que há várias alternativas de serviços e de preços e que é possível negociar isso com a agência escolhida, seja ela qual for.

Os preços abaixo são todos para o trekking padrão de seis dias.

1. programa tudo incluído
Inclui: guia, comida, equipamento de cozinha, saco de dormir, isolante, barraca, carregadores/cozinheiros e o transporte Santa Elena-Paraitepuy em 4x4
O cliente carrega sua própria mochila com o saco de dormir e o isolante fornecidos, além dos itens pessoais
preço para cinco ou mais pessoas: BsF 1250 por pessoa (R$543 ou R$90 por dia)
preço para quatro pessoas: BsF 1350 por pessoa (R$587 ou R$98 por dia)

2. programa tudo incluído sem carregador
Inclui: guia/cozinheiro, comida, equipamento de cozinha, saco de dormir, isolante, barraca e o transporte Santa Elena-Paraitepuy em 4x4
O cliente carrega sua própria mochila, com o saco de dormir, o isolante, a barraca e a comida fornecidos, além dos itens pessoais
preço para cinco ou mais pessoas: BsF 950 por pessoa (R$413 ou R$69 por dia)
preço para quatro pessoas: BsF 1050 por pessoa (R$457 ou R$76 por dia)

3. programa só transporte e guia
Inclui: guia (não cozinheiro) e o transporte Santa Elena-Paraitepuy em 4x4
O cliente carrega sua própria mochila, com o saco de dormir, isolante, barraca, comida, equipamento de cozinha e itens pessoais. Nada disso é fornecido. O saco de dormir, o isolante e a barraca podem ser alugados.
preço para cinco ou mais pessoas: BsF 550 por pessoa (R$239 ou R$40 por dia)
preço para quatro pessoas: BsF 650 por pessoa (R$283 ou R$47 por dia)

Nos dois primeiros programas, a Mystic dá descontos caso se leve a própria barraca (BsF 30), saco de dormir (BsF 25) e isolante (BsF 15).

QUANTO À COMIDA

Lemos diversos relatos de pessoas que tiveram problemas com a alimentação, principalmente pela quantidade insuficiente. Com receio de passar pelo mesmo problema, decidimos todos levar um excedente ao gosto de cada um. Por causa desse peso extra, resolvemos contratar um carregador pessoal.
 

O documento da Mystic falava em BsF 80 diários o custo do "porteador personal", porém no briefing o Roberto disse que esse preço havia subido para BsF 100, o que significava no nosso caso BsF 800, ou R$70 para cada um (pelos oito dias).

Aproveitamos para passar para esse carregador extra alguns itens pessoais, já que cada um deles pode levar até 15kg (esse limite na prática é completamente desrespeitado).

Felizmente, essa comida a mais foi apenas excesso de cuidado nosso pois as refeições eram fartas, variadas e saborosas.

QUAL A MELHOR ÉPOCA?

Com certeza é preferível viajar na época seca, que vai de dezembro a março. E isso ainda não é garantia de sol pois o tempo é bastante instável na área dos tepuis.

FAZ MUITO FRIO LÁ?

Fizemos o trekking no início de março e não pegamos muito frio durante a noite.

Durante o dia o sol é forte, mas no topo, quando da passagem de alguma nuvem, vem o frio e a umidade, o que obriga o uso de um anorak ou parka.

À noite, a temperatura não caía muito. Para nós algo como um fleece 100 e uma parka foram o bastante.

Para dormir, meu saco de dormir muito velho deu conta do recado perfeitamente. Dormia vestindo camiseta dryfit e o saco meio aberto, apenas quando esfriava de madrugada colocava o fleece ou fechava o saco. A Renata dormia com o fleece e o saco de dormir meio aberto. O Alexandre dormia de camiseta dryfit e com o saco de dormir fechado, só colocando o fleece quando esfriava de madrugada.

DÁ PRA TOMAR BANHO TODO DIA?

Sim, sempre há algum riacho próximo dos acampamentos, seja na savana ou no topo. Tudo depende da sua resistência à água fria, algumas vezes gelada mesmo.

É PRECISO CARREGAR MUITA ÁGUA DURANTE A CAMINHADA?

De modo algum. Para os índios Pemón da Venezuela, o Roraima é a Mãe de Todas as Águas. Você encontra água boa em todo o percurso, tanto na savana quanto no topo. Para os mais "cismados" ou de organismo mais sensível, um purificador de água pode ser usado, principalmente na água coletada muito próximo aos acampamentos.

UMA DÚVIDA ESCATOLÓGICA: COMO É O BANHEIRO DURANTE O TREKKING?

Esse é um assunto que faz muita gente travar só de pensar. Principalmente quando se fala num tal de shit tubo...

Mas vamos lá, o tema é desagradável mas precisa ser tratado.

Primeiro é melhor esclarecer logo o que é o shit tubo, apesar de não termos feito uso dele. É um pedaço de cano de PVC com tampas nas pontas, onde são "guardados" os saquinhos com os excrementos misturados com cal. Ou seja, é preciso fazer a obra de arte num saquinho plástico com um pouco de cal, jogar mais cal por cima, tirar o ar, amarrar bem e colocar no shit tubo. Um tubo é suficiente para várias pessoas numa caminhada de vários dias.

Pelo que soubemos, as agências têm tratamento diferente para essa questão. Há agências que obrigam o uso do shit tubo desde o primeiro dia, outras apenas no topo. Uma coisa é certa: não se pode deixar dejetos no topo do Roraima.

A Mystic orienta os guias a cavarem buracos nos acampamentos da savana e a disponibilizarem saquinhos e cal nos acampamentos do topo. Esses saquinhos são depois recolhidos e colocados num saco maior (essa agência não fornece o tubo), que é levado por um dos carregadores até o fim da expedição.

Para encerrar de uma vez esse assunto, é bom dizer que os acampamentos da savana (Rio Tek e acampamento Base) viraram verdadeiras pocilgas. Há fezes e papel higiênico em grande quantidade bem próximo de onde se acampa e se come. Defendo assim a idéia de que o shit tubo (ou algo do tipo) seja usado desde o momento em que se deixa a aldeia até o retorno a ela, a fim de evitar essa cena asquerosa.

OS BICHOS
 

Na savana tivemos contato com dois tipos de animais primordialmente: as cobras e os puri-puris.

O puri-puri é um inseto minúsculo mas muito voraz que ataca a qualquer hora do dia e em qualquer parte do caminho na savana, principalmente próximo aos rios e riachos. Sua picada causa ardor e coceira, para dizer o mínimo.

Como se proteger dele? A Renata seguiu as indicações de tomar vitamina B12 desde uma semana antes da viagem, mas não adiantou. Ela e os outros usaram Exposis preto, um repelente fortíssimo, mas mesmo assim os puri-puris fizeram um bom estrago. Eu devo ter algo no sangue que não agrada a esses bichos pois não tomei a vitamina, não passei repelente nenhum dia e mesmo assim levei apenas algumas picadas.

Sugeriram também usar repelente à base de óleo de citronela, mas ninguém levou e não pudemos testar a eficácia.

No topo, tivemos contato com outros animais: os sapinhos que não pulam e os indesejáveis escorpiões e aranhas.
 

Os sapinhos são a grande atração por seu tamanho reduzido e seu modo característico de "caminhar" se esticando todo em vez de saltar. Ao serem apanhados, fingem-se de mortos ficando imóveis por um certo tempo de barriga para cima. Uma das espécies tem a barriga amarela.

Quanto aos peçonhentos, é preciso tomar bastante cuidado com o lugar onde apoiar as mãos durante a caminhada pois tarântulas e caranguejeiras passeiam tranquilamente pelas árvores e rochas do topo do Roraima.

Já os escorpiões (e também algumas tarântulas) eram vistos todos os dias quando os carregadores erguiam as barracas para desmontá-las de manhã. O Marcos, nosso guia, disse que esses bichos são atraídos pelo calor do fundo da barraca durante a noite.

Fora esses animais, havia alguns passarinhos (tico-ticos ou uma espécie semelhante) nas proximidades dos acampamentos em busca de restos de comida. Na frente do Hotel Coati vimos um belo quati de pelo castanho-claro passeando solitário. Segundo o Marcos, o quati e uma espécie de rato são os únicos mamíferos no topo do Roraima.

ALGUNS ITENS ESSENCIAIS

. bota de trekking (já amaciada) é um item importante pois o cano alto ajuda a evitar torções, principalmente ao se caminhar nas pedras soltas da Rampa.
. mochila cargueira
. saco de dormir
. isolante (um modelo inflável é o ideal para o chão duro dos hotéis do topo)
. capa de chuva ou poncho (que cobre o corpo e a mochila)
. lanterna, de preferência de cabeça e com leds pois ilumina melhor e consome menos energia
. camisetas de dryfit (secam mais rápido)
. blusa de fleece (aquece bem e é bem leve)
. anorak ou parka impermeável
. meias grossas de trekking com 0% de algodão e de preferência com Coolmax para secagem mais rápida, como Quechua Forclaz 500 ou Solo Endurance, para citar as mais baratas
. sacos plásticos para proteger da chuva tudo o que estiver dentro da mochila
. repelente de inseto
. protetor solar
. chapéu ou boné
. cantil ou garrafas para água
. hidrosteril, Clorin ou outro purificador de água para os mais sensíveis
. passaporte
. certificado internacional de vacinação da febre amarela

QUE DOCUMENTAÇÃO É NECESSÁRIA?

Passaporte com validade de seis meses é item obrigatório.

O Brasil assinou em junho de 2008 um acordo que descarta a exigência de passaporte em viagens para a Venezuela, Equador, Peru e Colômbia, porém na prática é melhor ter o passaporte para evitar dores de cabeça e gorjetas aos guardas da fronteira e dos postos de controle.

O passaporte inclusive precisa estar sempre à mão. No passeio que fizemos à Gran Sabana fomos parados várias vezes e em duas delas precisamos mostrar os passaportes.

Além do passaporte, é obrigatório o certificado internacional de vacinação da febre amarela.

COMO OBTER O CERTIFICADO INTERNACIONAL DE VACINAÇÃO DA FEBRE AMARELA

Desde junho de 2008, não se realiza mais a vacinação da febre amarela nos aeroportos brasileiros. Para tomá-la em São Paulo é preciso ir a um posto de saúde municipal, terminais rodoviários Barra Funda e Tietê, Hospital das Clínicas, Hospital Emílio Ribas e Instituto Pasteur.

A vacina precisa ser tomada pelo menos dez dias antes da viagem e tem validade de dez anos. Há pessoas que apresentam reações à vacina, como febre baixa, dor de cabeça e dores musculares, como foi o caso do Gabriel.

Em São Paulo, consulte os endereços, horários e telefones dos locais de vacinação em www.cve.saude.sp.gov.br/htm/imuni/posto_fad1.htm.

O Hospital das Clínicas realiza a vacinação e emite o certificado internacional. Nos outros locais é emitido o Cartão Nacional de Vacinação, válido apenas no Brasil. Para obter o Certificado Internacional é preciso em seguida ir a um dos Centros de Orientações ao Viajante instalados nos portos e aeroportos (veja endereços em www.anvisa.gov.br/paf/viajantes/centro_orientacao.htm) e levar RG ou passaporte e o Cartão Nacional de Vacinação, todos originais. Se você preencher o cadastro em www.anvisa.gov.br/viajante, o atendimento será mais rápido.

Eu aproveitei para ir ao Instituto Pasteur (Av. Paulista, 393 - fone: (11) 3145-3145) e atualizar todas as minhas vacinas, como recomenda o site da Anvisa (www.anvisa.gov.br/paf/viajantes/antes_viajar.htm): "Outras vacinas são recomendadas como medida de prevenção do viajante que se desloca para qualquer país, como a tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) e a dT (difteria e tétano) e hepatite B, e no deslocamento para áreas endêmicas, a poliomielite, influenza e meningite meningocócica. A principal orientação da Anvisa é que o viajante esteja em dia com seu calendário vacinal do Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde".

QUE MOEDA LEVAR: REAL, DÓLAR OU BOLÍVAR?

Se você for somente ao Roraima e Gran Sabana, leve apenas reais pois trocar dólares em Santa Elena é um problema.
Se você for seguir para o Salto Angel, leve dólares pois trocar reais em Ciudad Bolívar é um problema.
E o bolívar? As casas de câmbio e bancos de São Paulo não trabalham com a moeda venezuelana.

Em janeiro de 2008, houve uma reforma monetária na Venezuela que cortou três zeros do bolívar, alterando seu nome para bolívar forte. O que se vê na prática em Santa Elena é uma mistura de preços nas duas moedas. Muitas pessoas ainda falam e escrevem nas placas os preços na moeda antiga (um cachorro-quente por 5000 bolívares, por exemplo), outras já incorporaram a moeda atual (diária do hotel por 90 bolívares fortes).

COMO SE COMUNICAR COM O BRASIL A PARTIR DE SANTA ELENA DE UAIREN
 

Por telefone: não conseguimos usar os telefones públicos da cidade para ligar para o Brasil, contudo é muito grande a oferta de telefones particulares para ligações internacionais, seja em lojas, mercados e até barraquinhas na calçada durante o dia. O custo é de BsF 1,50 (R$0,65) por minuto.

Pela internet: há diversas lan houses na cidade com acesso à internet e também serviço de gravação de fotos digitais em CDs e DVDs.

FUSO HORÁRIO

O presidente Hugo Chaves decidiu modificar o fuso horário do país, atrasando os relógios em 30 minutos para que os venezuelanos "aproveitem meia hora de luz solar". A mudança entrou em vigor em janeiro de 2008. Eu me recusei a seguir essa medida e todos os horários registrados aqui levam em consideração o fuso horário normal do país, que corresponde ao de Manaus e Boa Vista.

SITES DAS AGÊNCIAS DE SANTA ELENA DE UAIREN:

Mystic Tours: www.mystictours.com.ve
Backpacker Tours: www.backpacker-tours.com
Kamadac: www.kamadac.de
Ruta Salvaje: www.rutasalvaje.com
Turísticos Alvarez (na rodoviária): rstagransabana@hotmail.com
New Frontiers Adventures: www.newfrontiersadventures.com
Adventure Tours: www.adventuretours.com.ve
Mount Roraima International Tours: www.mountroraima.com
Aponwao Tours: www.aponwaotours.com

NOSSO TREKKING DIA A DIA

27 e 28/02/2009 - sex e sáb - DE SÃO PAULO A SANTA ELENA DE UAIREN (COM UMA RÁPIDA VISITA A MANAUS)

Eu, Renata, Alexandre e Gabriel embarcamos no vôo 8050 da TAM, às 23h55, em direção a Manaus, com chegada às 2h55. O vôo Manaus-Boa Vista partiria só às 12h20 (como disse, separamos os vôos por questão de custo), então nos deslocamos até o centro de Manaus (R$49 de táxi) e nos instalamos num hotel indicado pelo posto de informações turísticas do aeroporto (que funciona 24 horas), o Hotel Panair (R$30 a diária por pessoa em quarto duplo com WC e café). Entre o aeroporto e o centro há duas linhas de ônibus (linhas 306 e 813), porém não funcionam de madrugada.

No dia seguinte de manhã tivemos bastante tempo para conhecer o Teatro Amazonas, principal atrativo turístico da cidade. A visita monitorada custa R$10.

Voltamos ao aeroporto (R$49 de táxi) e pegamos o vôo 3544 da TAM, às 12h20, para Boa Vista, aonde chegamos às 13h35.

Nesse aeroporto gastamos um tempo para decidir o que fazer com o dinheiro que levávamos pois tínhamos informações de que os guardas da aduana venezuelana revistavam a bagagem e se apropriavam do que lhes interessasse, inclusive dinheiro em espécie (informação confirmada depois pela motorista de táxi de Santa Elena que nos levou de volta à fronteira quando do retorno ao Brasil). Após muita dúvida, saímos do aeroporto com uma pequena parte do dinheiro na carteira, outra parte nas bolsas de cintura e o restante dentro dos calçados.

Da rodoviária de Boa Vista sai um ônibus por dia da empresa Eucatur, às 7h30 da manhã, para Santa Elena de Uairen. Custo da passagem: R$20. Há também três ônibus diários da mesma empresa para Pacaraima, na fronteira (7h, 12h e 16h, ao preço de R$16,25). Porém o meio de transporte mais utilizado são os táxis-lotação, que cobram R$30 desde que completada a lotação. Nossa informação era de que esses táxis saíam da rodoviária de Boa Vista, porém ao chegar à tenebrosa rodoviária (internacional) nos disseram que eles nunca saíram de lá. O deslocamento do aeroporto até a rodoviária (R$25 de táxi) só serviu mesmo para encontrar a Ana Paula, que pegou um vôo da Gol para Boa Vista (com escala em Manaus) e chegou durante a madrugada. Pegamos ali outro táxi (R$10) e fomos até o ponto dos táxis-lotação para Santa Elena, que fica no caminho entre o aeroporto e a rodoviária.

Pegamos uma Zafira que lotou com nós cinco e as nossas mochilas e partimos imediatamente, às 15h13. Se tivéssemos o telefone do motorista, poderíamos ter combinado com ele de nos apanhar no próprio aeroporto, evitando esse deslocamento e custo. O motorista que nos levou foi o Rivaldo (fone 95-9115-3190).

A viagem pela BR 174 de Boa Vista até Pacaraima, a última cidade brasileira antes da fronteira, durou 2h10 (220km). A paisagem inicialmente é de cerrado - surpresa para quem imagina que Boa Vista esteja no meio da floresta amazônica -, inclusive pontilhada pelos imponentes buritis, árvore característica desse bioma. Num trecho aparecem muitos pés de acácia, árvore que dizem ser usada na produção do papel-moeda. A estrada está em boas condições de asfalto e os trechos ruins estavam sendo recapeados.

 

Em Pacaraima fica a aduana brasileira, onde registraram e carimbaram nossos passaportes. De volta ao táxi, passamos pelo marco simbólico da fronteira Brasil-Venezuela (com as respectivas bandeiras hasteadas) e chegamos à temida aduana venezuelana. Para nossa surpresa e alívio, apenas nossos passaportes foram novamente registrados e carimbados por um funcionário da burocracia. Nenhum guarda ou oficial nos abordou e ninguém pediu para sequer ver a bagagem, tampouco o certificado internacional de vacinação da febre amarela.

Seguimos viagem mais tranquilos, agora em território do Sr. Hugo Chaves, por mais 10km e chegamos a Santa Elena de Uairen às 18h15. Não foi difícil encontrar a agência Mystic Tours e muito próximo o Hotel Michelle, a agência/pousada/restaurante Backpacker (a preferida dos gringos), a agência/restaurante Kamadac e outras com as quais mantivemos contato, todas na mesma rua, a Calle Urdaneta.

Fomos recebidos pelo dono da Mystic, Roberto Marrero, que nos deu naquele dia mesmo a charla preparativa, uma explanação completa do trekking com a última oportunidade para tirar as dúvidas. Ele nos apresentou o Marcos, indígena guianense da etnia arikuna, como sendo o seu melhor guia. Pensamos que fosse mera conversa fiada, porém ao longo do trekking comprovamos que não era exagero. O Marcos mostrou-se extremamente atencioso, cuidadoso, bem-humorado e sempre pronto a dar todo e qualquer tipo de informação. Sua equipe, formada pelo Alex e pelo Fernado, também era bastante profissional.

Nesse briefing conhecemos o Rodrigo, a Fátima e o Enrico, todos do estado do Rio (Petrópolis), que iriam fazer o trekking de seis dias só com guia, carregando eles mesmos toda a comida e equipamentos. As mochilas estariam bem pesadas mas, como a Serra dos Órgãos é o quintal da casa deles, não estavam nem um pouco preocupados.

O pagamento do trekking foi feito nessa noite mesmo. Felizmente o Roberto aceitou o pagamento no ato pois os bancos de Santa Elena não têm agência ou escritório em São Paulo. Sobre o preço combinado de BsF 1670 (R$726) ele nos deu um desconto de BsF 70 (R$30) por termos levado nossas próprias barracas, isolantes e sacos de dormir. Mesmo as barracas sendo nossas, seriam levadas pelos carregadores.

Para efetuar o pagamento, precisamos antes cambiar reais por bolívares fortes. Na cidade há um câmbio paralelo muito forte, com diversas casas de câmbio e cambistas concentrados numa esquina do centro. Com o cambista na rua, as meninas conseguiram cotação de BsF 2,30 para cada real e na casa de câmbio eu e o Alexandre conseguimos BsF 2,35.

Para o pernoite em Santa Elena, hospedamo-nos no próprio Hotel Michelle por termos boas referências, pela proximidade com a agência e pelo preço muito camarada (BsF 90 o quarto para cinco pessoas, ou seja, R$7,80 para cada um, com WC e sem café). O jantar foi no restaurante Kamadac: uma lasanha muito bem servida por BsF 20 (R$8,70) e suco por BsF 5 (R$ 2,17).

01/03/2009 - dom - 1º DIA DO TREKKING

A caminhada começa na aldeia indígena Paraitepuy, a 87km de Santa Elena. A manhã do primeiro dia é preenchida com o deslocamento até essa aldeia, que só pode ser feito em carro 4x4 pois são 27km de estrada de terra com trechos em condições muito ruins.

Saímos de Santa Elena às 10h40 e chegamos à aldeia às 12h20. Na passagem pelo posto de controle policial em San Ignacio de Yuruani, os guardas viram que estávamos com o pessoal da agência e apenas olharam nossas caras, não chegaram a pedir os passaportes.

Chegando à aldeia, o Marcos providenciou logo o primeiro almoço. Como explanado pelo Roberto (dono da Mystic), os almoços seriam todos frios e baseados em salada, pão e queijo. Nos primeiros dias havia também presunto e frutas.
 

Assinamos o livro de visitantes e colocamos pé na trilha exatamente às 13h52, já estourado o limite de 13h30 imposto pelo Inparques. Aos poucos as casas da aldeia foram rareando e passamos a caminhar em meio à savana. A distância a ser percorrida até o acampamento do Rio Tek era de 12km, com um desnível de apenas 150m (negativos), porém o terreno não é plano. Há diversas colinas com alguns riachos que precisam ser atravessados, ora pulando as pedras, ora por uma estreita ponte de troncos com apoios para as mãos.

Essa área é denominada Gran Sabana e é constituída principalmente de capim rasteiro pontilhado por alguns arbustos. Árvores mais altas aparecem apenas nas matas ciliares dos riachos. Ao longe, já desde a aldeia, o Roraima e o Kukenan dominavam completamente a paisagem. Nosso objetivo era obviamente o Roraima, porém o Kukenan, bem ao lado, à esquerda, atraía nosso olhar o tempo todo por sua forma majestosa, parecendo mesmo ser mais alto que seu irmão mais famoso.

Logo nos primeiros minutos da caminhada o Alexandre teve uma indisposição intestinal, mas por sorte o Marcos conhecia um remédio para o problema na própria flora local. Tratou de cortar lascas de um arbusto e deu para o Alê mascar. O sabor era horrível mas o resultado foi certeiro.

Nesse ambiente da savana tivemos nosso primeiro contato com o famigerado puri-puri, um mosquito minúsculo e voraz que atacava em qualquer lugar e a qualquer hora do dia, principalmente próximo aos rios e riachos.

Outro "morador" que encontramos foi uma cobra de cor verde, bem no meio da trilha.

 

O tempo estava excelente. Apesar da grande quantidade de nuvens, o céu estava azul e o sol brilhava.

Chegamos ao acampamento do Rio Tek às 18h30. Cumprindo o que foi contratado, os carregadores montaram as nossas barracas enquanto o Marcos começava os preparativos do jantar. Não vou detalhar cada refeição para não ficar enfadonho, mas não posso deixar de mencionar que nessa noite jantamos um delicioso e farto espaguete à bolonhesa. O banho foi no próprio Rio Tek, de água um pouco fria mas agradável.

Nossos amigos do Rio também acamparam no mesmo local, porém prepararam seu próprio jantar. Além de nós cinco e eles três, havia apenas mais uma barraca de alguns gringos.

Nesse acampamento há alguns poucos moradores e uma estrutura mínima de apoio que consiste de uma choupana com dois "ambientes", uma parte sendo o local das refeições (com mesa e dois bancos compridos) e a outra a cozinha. Lá se vende cerveja em lata da marca Polar (em temperatura ambiente, obviamente), o que contribui para a enorme quantidade de latinhas jogadas ao longo da trilha.

02/03/2009 - seg - 2º DIA DO TREKKING

 
O dia amanheceu ainda mais bonito que ontem.

Como combinado, os carregadores desmontaram as nossas barracas e prepararam o café da manhã. Já nesse primeiro desjejum conhecemos o pão que estaria na maioria dos nossos cafés, o chamado donplin, com massa preparada e frita na hora.


Deixamos o acampamento do Rio Tek às 9h10 com destino ao acampamento Base, a 10km dali, já no pé do Roraima. Esse trecho já tem uma subida razoável pois sai dos 1050m do Rio Tek e chega aos 1870m no acampamento Base, totalizando 820m de desnível, felizmente diluídos ao longo de um dia inteiro praticamente.

Logo de início, encaramos a primeira das duas travessias de rios mais largos que há no percurso, a do Rio Tek. Como ele estava baixo e seu fundo é de pedras, atravessá-lo não foi complicado. Aprendemos uma técnica muito prática e eficiente para caminhar sobre pedras molhadas e lisas: calçar apenas meias. Eu usei nesses casos meias de algodão e a aderência foi muito boa.

 

Vinte minutos depois passamos por uma capela de pedra no alto de uma colina (onde também moram algumas poucas pessoas) e em seguida descemos para o Rio Kukenan, a segunda grande travessia de rio. Essa deu um pouco mais de trabalho pois o Kukenan é um rio bem mais largo e um pouco mais profundo que o Tek. As meias ajudaram bastante e também o apoio do bastão de caminhada. O Marcos também deu muita força levando todas as mochilas primeiro.

A travessia tanto do Tek quanto do Kukenan pode ter grau de dificuldade bem maior dependendo da época do ano e do volume de chuvas na cabeceira. Na época chuvosa (entre abril e outubro) pode ser preciso usar cordas para as travessias.

Do Rio Kukenan em diante foi uma subida por trilha em meio à savana que durou 1h25 até a parada para almoço às 12h15 no acampamento Militar. Esse local não possui nenhum tipo de estrutura, apenas partes planas do terreno onde podem ser armadas barracas e água próximo. Ali, ao lado das grandes pedras sombreadas por árvores, topamos com a segunda cobra da caminhada, uma cascavel. Uma chuva rápida nos obrigou a vestir as capas, para logo em seguida o sol voltar com toda a força.

Voltamos a caminhar às 14h e daí em diante foi a arrancada final para chegar ao acampamento Base. A parede do Roraima se agiganta tanto à nossa frente que a vontade é de subi-lo de uma vez e acabar com a ansiedade.

Chegamos ao acampamento Base às 16h30 e a enorme parede continuava a nos impressionar e seduzir, não cabendo no nosso campo de visão de tão próximo que estávamos e de tão extensa que é (6,4km). Tentávamos entender como seria a ascensão por aquela longa ladeira coberta de mata alta e fechada que chamam de La Rampa, à nossa esquerda, incrustada na parede de quase 500m de altura.

Esse acampamento tem uma estrutura ainda menor que o do Rio Tek, contando apenas com uma choupana decrépita que serve como cozinha e dormitório para os guias e carregadores. Há um riacho bem ao lado que fornece água para beber e cozinhar e um outro a cinco minutos dali que serve para banhos, desde que se enfrente a água que batizei de "água de degelo".

Os amigos do Rio (Fátima, Rodrigo e Enrico) também acamparam ali e tivemos animadas conversas com eles. Mais ninguém além de nós dormiu ali naquela noite.

03/03/2009 - ter - 3º DIA DO TREKKING

Chegou enfim o grande dia de subir o Roraima, o que significava enfrentar a longa e assustadora Rampa. O desnível é de 830m, o mesmo do dia anterior, porém por uma trilha muito íngreme junto à parede da montanha. Tínhamos relatos e depoimentos de pessoas que haviam sofrido muito nessa subida e até passado mal, portanto o preparo psicológico para esse dia foi ainda maior.

 
Deixamos o acampamento Base às 9h25, passamos pelo riacho "de degelo" e logo começou a subida. Primeiro por um caminho erodido bastante íngreme, parecendo mesmo barrancos, depois voltando a ser uma trilha, com mata densa dos dois lados. Aí apareceu a terceira serpiente da viagem, aparentemente venenosa, que fugiu e se embrenhou pelas folhas de uma bromélia.

A trilha segue sempre subindo e tem muitas pedras, ora fixas, formando degraus, ora soltas, exigindo maior cuidado. Às 11h25, pudemos enfim tocar a parede do Roraima, num local com uma pequena queda-d'água, onde paramos todos para descanso, inclusive o pessoal do Rio, que saíra na nossa frente.

Prosseguimos pela trilha em meio à mata fechada e alta, paramos um pouco num mirante, descemos alguns trechos bastante inclinados e no alto de uma ladeira topamos com a parte mais temida da subida, o Paso de las Lagrimas. Esse lugar é uma extensa rampa de pedras soltas que recebe água vinda do alto da montanha, daí o nome de lágrimas. Nesse dia eram pingos esparsos mas em outras ocasiões pode-se formar uma volumosa enxurrada, o que deve dificultar absurdamente a passagem.

O que me deixou mais apreensivo nesse momento foi não poder ver o fim da enorme rampa de pedras por conta da nuvem que a encobria parcialmente. Imaginei que ali no topo haveria diversos obstáculos, como enormes pedras lisas e escorregadias para se subir ou algo assim. Vestimos nossas capas e continuamos.


A subida do Paso de las Lagrimas é longa e exige atenção por causa das pedras, todas soltas e molhadas. Passado o trecho crítico, fizemos uma parada para retomar o fôlego e na arrancada seguinte já notamos a mudança da paisagem, com as rochas negras e de formato característico do topo nos dando as boas-vindas! Sucesso!
Afinal, a subida não foi tão difícil quanto eu imaginava, ou o meu preparo psicológico foi muito além do necessário...

Eram 14h10. Esperamos as meninas chegarem e comemoramos com emoção nossa bem-sucedida ascensão. O tempo estava bastante instável e apenas em alguns momentos conseguíamos ver o nosso destino, o Hotel Índio, abrigo onde acamparíamos nessa noite. Também não conseguíamos ver com nitidez as formações rochosas fantásticas, o que só aconteceria no dia seguinte, com dia limpo.

O Hotel Índio, aonde chegamos às 16h, é um abrigo na parede de um grande maciço de pedra e tem lugar para bem poucas barracas. Uma abertura ligeiramente mais funda na parede é usada como cozinha e refeitório.

Almoçamos, descansamos um pouco e fomos conhecer o primeiro atrativo do topo, um dos diversos vales com cristais (pensávamos que existisse apenas um). A retirada de cristais é proibida e ao final do trekking os guardas do parque revistam (mal e porcamente) as mochilas de todos. Se algum cristal for encontrado, o guia e a agência são punidos.

No caminho de retorno ao hotel encontramos o Rodrigo e a Fátima, que acamparam no Hotel Basílio, ali perto.

No jantar, o assunto em pauta foi o escorpião que o Gabriel encontrou em seu chinelo quando saía da barraca minutos antes. Daí em diante, pelos próximos três dias, aranhas e escorpiões passaram a fazer parte da nossa rotina.

O chão do Hotel Índio é de pedra coberto por uma fina camada de terra, o que torna bastante desconfortável dormir apenas sobre um isolante fino. O Alexandre e a Renata se saíram melhor pois levaram colchonete e isolante inflável, respectivamente. Esse desconforto se repetiria em todas as noites no topo, tanto no Hotel Índio quanto no Coati, fazendo com que o sono não fosse dos melhores. Nos acampamentos da savana (Rio Tek e Base) o chão não é tão duro pois é de terra parcialmente coberto por capim.

04/03/2009 - qua - 4º DIA DO TREKKING

Daqui em diante iniciamos nosso roteiro personalizado. Nosso objetivo nesse dia era conhecer os principais atrativos do topo, aqueles que todos visitam, e acampar no Hotel Coati, o único da porção brasileira do Roraima, a 13km do Hotel Índio.


Ao desmontar a minha barraca, mais um escorpião teve de abandonar o quentinho e procurar outro lugar para se abrigar.

Deixamos o Hotel Índio às 9h20 com um dia incrivelmente claro e de céu azul, uma benção! Assim começamos nossa longa caminhada por aquele enorme platô de pedra com formações rochosas escuras de formatos bizarros. Nesse primeiro contato visual com tantas imagens estranhas ao mesmo tempo, confesso que senti um certo atordoamento, como naqueles filmes de alucinação. Via bichos, rostos e seres estranhos por todos os lados. Passada essa euforia, me acostumei com as formações e passei a admirá-las com mais calma.

O cenário todo é realmente incrível. A impressão é de ter sido jogado num outro planeta ou ser o nosso próprio planeta presenciado num estágio muito primitivo. A ausência de sons reforça a sensação de estar num lugar ou num tempo realmente distante.

O topo não é exatamente plano e chapado como parece de longe. Há diversas subidas, descidas, altos maciços de pedra, vales com riachos, extensas e altas paredes de pedra.

Paramos para almoço às 13h num bonito e verdejante vale, o do Rio Arabopo, onde Alexandre e Gabriel aproveitaram para um rápido banho. Nesse local tivemos a última oportunidade de encontrar o Rodrigo e a Fátima, que já voltavam do passeio de um dia pelo topo, comprovando o que eu disse sobre o ritmo acelerado do trekking de seis dias. O Enrico não teve muita sorte e passou o dia enfiado na barraca não se sentindo bem por causa do fígado.

Vale comentar aqui que apesar de eles terem contratado a mesma agência que nós, o guia deles era péssimo. Não falava, não explicava nada e nos primeiros dias mal conseguia andar por causa da tremenda ressaca.

 

Voltamos a caminhar às 14h30 e uma hora depois passamos por um maravilhoso vale em que as paredes rochosas se refletiam nos espelhos-d'água, poucos metros antes do Vale dos Cristais, esse o mais famoso e bonito de todos. Mais 20 minutos e chegamos ao Ponto Tríplice, marco da fronteira Venezuela-Brasil-Guiana, o que mereceu grande festa!
Prosseguimos caminhando, agora pela porção brasileira do Roraima, e às 17h30 chegamos ao Hotel Coati, já com o cair da noite.

O Hotel Coati é uma gruta com uma grande abertura posicionada na lateral de um extenso maciço rochoso. O espaço dentro dessa gruta é grande mas o chão é bastante inclinado, o que dificulta encontrar um bom lugar para as barracas. Nossas três couberam sem problema; o Marcos e os carregadores, como sempre, dormiram apenas enfiados no saco de dormir. O espaço exíguo não chega a ser um problema pois a chance de encontrar mais pessoas acampadas ali é bastante remota.

No fim de corredor de entrada, uma abertura no teto possibilitou a formação de um jardim dentro da gruta (batizado de Jardim de Inverno). A cozinha foi adaptada na parede bem no fundo, inclusive com uma "bancada" de pedra à disposição.

05/03/2009 - qui - 5º DIA DO TREKKING

Nesse dia permanecemos acampados no Hotel Coati para conhecer apenas com mochilas de ataque os atrativos mais ao norte, na direção da Proa, como o Lago Gladys e algumas surpresas que viriam pelo caminho.

Saímos do Coati às 8h25 e caminhamos durante um longo trecho por uma área de chão rochoso com muitos alagados, o que obrigava a saltar de pedra em pedra. Mais à frente, depois de 1h30 de caminhada, topamos com a primeira surpresa do dia, uma floresta de arbustos vermelhos chamados Bonnetia, que em contraste com o vale verde-claro de um rio ao fundo, formava realmente uma bela paisagem. Em seguida, um surpreendente riacho de águas cristalinas e fundo rochoso de cor ferrugem mereceu mais uma parada para fotos.

Em todo esse percurso, tínhamos à esquerda a visão dos intrigantes e maravilhosos Labirintos, um local bastante sedutor por suas formações rochosas incomuns e por ser um território quase inexplorado.

 

Passamos por um mirante que estava encoberto por nuvens e logo em seguida (às 11h20) o grande momento do dia, a chegada ao sagrado e lendário Lago Gladys, citado no livro O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle (Gladys era o nome de uma personagem da trama). Nas proximidades, restos do helicóptero da Globo que caiu em 1998 com o ator Danton Mello, acidente que vitimou um integrante da equipe.

O lago parece ter se formado a partir do desabamento do piso rochoso e até hoje há imensos blocos caídos à sua volta. Ficamos um bom tempo em total contemplação naquele lugar distante e palmilhado por poucos e privilegiados aventureiros.

Na volta, almoçamos à margem do riacho de águas cristalinas, às 13h15. Para quebrar a rotina, o Marcos preparou uma sopa bem quentinha em lugar do tradicional almoço frio.

Retornamos praticamente pelo mesmo caminho e num dado momento o Marcos nos propôs explorar um lugar novo, um mirante na borda que poderia ter uma ótima vista. Tomamos a direção leste e descemos até um platô. Dali seria possível avistar a Guiana à esquerda, a serra que marca a fronteira Guiana-Brasil e o Monte Roraiminha à direita. Tivemos apenas uma visão parcial de tudo isso por causa das nuvens mais abaixo, porém essas nuvens em composição com o céu azul proporcionaram um belíssimo cenário, motivo para mais fotos.

Voltamos ao percurso original e retornamos ao Hotel Coati pelo mesmo caminho, chegando às 17h. Eu e o Gabriel ainda fomos com o Marcos curtir o fim da tarde num outro mirante, bem próximo do hotel, com vista para o lado brasileiro da fronteira Brasil-Guiana e logo abaixo o Roraiminha, já sem nuvens.

Nesse dia caminhamos 18km (ida e volta).

06/03/2009 - sex - 6º DIA DO TREKKING

Após duas noites no Hotel Coati, partimos às 8h30 de volta ao Hotel Índio, onde havíamos acampado na primeira noite no topo, a 13km dali.

Esse foi o primeiro dia em que tivemos céu encoberto quase o tempo todo.

 

O retorno aconteceu pelo mesmo caminho do quarto dia até o Ponto Tríplice, que foi sobrevoado por um helicóptero exatamente no instante em que chegávamos (9h30). Dali saímos por um outro caminho (desviando do Vale dos Cristais) para conhecermos El Foso, uma cratera com um lago de água escura no fundo e galerias subterrâneas. A sorte estava mesmo conosco e o sol apareceu exatamente nessa hora (10h) para iluminar e colorir nossas fotos.

Com a ajuda do Marcos, descemos ao lago do Foso, percorrendo uma das galerias. Havia um trecho ruim de parede com pouco apoio para subir e descer e ao vê-la a Renata preferiu permanecer na parte alta.

Ficamos cerca de 1h10 na área do Foso e, retomando a caminhada, alcançamos o Vale do Rio Arabopo, o qual descemos até o ponto exato onde almoçamos no quarto dia. Breve parada para descanso. Dali em diante voltamos pelo mesmo caminho até o Hotel Índio, aonde chegamos às 15h30. Almoçamos, descansamos um pouco e fomos conhecer as Jacuzzi, que são piscinas naturais de cerca de 1m de profundidade no leito rochoso de um riacho e que têm formatos que lembram banheiras, daí o nome. O fundo e as margens do riacho são recobertos também por cristais. O sol nessa hora não deu as caras e o frio havia chegado, o que não impediu o Gabriel e o Marcos de tomarem banho nas famosas banheiras.

Ainda tivemos um tempinho para correr até o mirante chamado de Ventana, que oferece vista espetacular para a face oeste do Roraima, aquela coroada pelos Labirintos. Dali era possível avistar a parede inteira até a sua extremidade, a Proa. Isso enquanto o imenso véu de nuvens abaixo não subiu e engoliu tudo de vez.

07/03/2009 - sáb - 7º DIA DO TREKKING

Eu não queria que esse dia chegasse... Depois de três dias e meio caminhando pelo topo do Roraima já me sentia "em casa" no meio daquela paisagem de rochas escuras, morros de pedra e plantas de formato inusitado. O silêncio, o horizonte limitado às bordas da montanha, o enorme céu que tocava as formações rochosas - já havia incorporado tudo aquilo e deixar tudo para trás não seria fácil. Fora a sensação de não ter explorado tudo, de que havia muito ainda a descobrir.

Confesso que desci do Roraima muito emocionado, sem poder conter as lágrimas, com a certeza de que estava vivendo um momento muito marcante e de que tinha realizado a viagem mais incrível da minha vida.

Acordamos mais cedo nesse dia para termos tempo de conhecer um último atrativo no topo antes de iniciar a longa descida em direção ao Rio Tek.

 

Às 7h15, saímos para ir conhecer a Pedra Maverick, que tem esse nome pela semelhança com um carro quando vista lá de baixo, da savana. Após uma breve caminhada começamos a subi-la. Segundo várias fontes, o seu topo é o ponto mais alto do Roraima, com 2.875m (2.753m no altímetro da Renata). E é uma visão impressionante: para o sul a savana com suas colinas e todos os locais por onde passamos nos três primeiros dias de caminhada; para o norte as outras bordas do Roraima, inclusive a extensa parede oeste que termina na Proa.

De volta ao Hotel Índio, levantamos acampamento e partimos às 10h para a longa e cansativa jornada até o acampamento do Rio Tek, o que significava descer o que havíamos subido em dois dias (2º e 3º dias), ou seja, 1650m de desnível. Isso incluía, claro, a Rampa e o Paso de las Lagrimas.

O tempo estava bastante instável e o extraordinário céu azul que nos acompanhara na Pedra Maverick desapareceu por completo, dando lugar a uma espessa neblina. Nos despedimos das formações rochosas escuras características do Roraima em meio a esse ambiente de bruma, que reforçava o clima de mistério que encontramos no nosso primeiro contato com o topo da montanha.

 

Logo no início da descida, enfrentamos de novo o Paso de las Lagrimas, que exigiu atenção redobrada por suas pedras soltas e molhadas. Depois o restante da Rampa demandou toda a atenção para evitar quedas e escorregões em suas pedras, ora soltas, ora em forma de degraus. No final da Rampa novamente o trecho de trilha bastante íngreme e erodida.

Chegamos ao acampamento Base às 14h20 e paramos para descansar, relaxar um pouco a tensão da descida e almoçar. Partimos às 15h e continuamos descendo, agora com inclinação muito mais suave e voltando a caminhar em meio à savana. Do acampamento Base até o Rio Tek são 10km de distância.

O céu limpou novamente e o sol voltou a brilhar para fazer o Roraima resplandecer em toda sua beleza neste dia em que nos despedimos do seu topo.

A travessia do Rio Kukenan ocorreu da mesma forma que na ida, porém o Rio Tek pediu um pouco mais de cuidado pelo maior volume de água devido às chuvas na cabeceira.

Chegamos ao acampamento do Rio Tek às 18h50, já noite. Depois de vários dias praticamente isolados no topo foi um choque encontrar o acampamento cheio de barracas e de gringos, todos ainda no início do trekking. Havia também três brasileiros e entre eles, para surpresa de todos, uma amiga do Alexandre.

08/03/2009 - dom - 8º DIA DO TREKKING

Oitavo e último dia do trekking.

 






Deixamos o acampamento do Rio Tek às 9h05 e partimos para a última etapa da caminhada: chegar à aldeia Paraitepuy, onde tudo começou, a 12km dali.
O dia amanheceu bastante nublado e foi piorando com o passar das horas. Olhávamos para trás e em lugar dos tepuis víamos chuvas torrenciais, o que deve ter dificultado sobremaneira a caminhada do pessoal que encontramos no Rio Tek.

Essa chuva chegou a nos atingir, mas foi passageira, apenas para nos obrigar a vestir as capas e guardá-las úmidas logo em seguida. As meninas lá atrás nem chegaram a sentir a chuva, apenas uma garoa.

O tipo de terreno em que caminhamos e a vegetação ao redor já detalhei na descrição do primeiro dia.

Chegamos à aldeia Paraitepuy por volta de 13h, uns antes, outros depois, e comemoramos emocionados o total sucesso da nossa expedição. O Marcos ajudou na comemoração trazendo duas Pepsis geladinhas, um tesouro depois de oito dias tomando água de riachos. Trouxe também o almoço em marmitex lotadíssimos de comida.

Agilizamos a partida da aldeia pois parecia que as chuvas que castigavam os tepuis estavam se aproximando, o que complicaria muito nossa passagem pela estrada de terra em más condições.

No retorno a Santa Elena, paramos na Quebrada de Jaspe, uma cachoeira da Gran Sabana famosa não por seu tamanho mas pela coloração vermelha da pedra jaspe em que as águas rasas escorrem por muitos metros.

De volta à cidade, hospedamo-nos no Hotel Michelle novamente e fomos comemorar mais uma vez o êxito da nossa empreitada no restaurante Kamadac.

09/03/2009 - seg - GRAN SABANA

Para relaxar um pouco dos oito dias de trekking, fechamos com o Roberto da Mystic Tours um passeio de um dia pela Gran Sabana (há passeios de até três dias para lá) ao preço de BsF 150 (R$65). A Ana Paula não participou porque iria partir de Santa Elena nesse mesmo dia para retornar a São Paulo.

O programa do passeio de um dia é visitar algumas cachoeiras e mirantes com vista estratégica para diversos tepuis, tudo ao longo da rodovia nº 10, de asfalto em ótimas condições. Como o tempo estava encoberto, passamos direto pelos mirantes e fomos para as cachoeiras.

 

A primeira cachoeira que visitamos foi o Salto Arapená, no Rio Yuruani, local perigoso para banho. Em seguida paramos no Balneário Soroapé e aí sim pudemos nos refrescar e curtir um bom banho de cachoeira. Mais à frente, a Quebrada Pacheco também é convidativa para um banho porém preferimos a partir dali caminhar 20min até um poço de cor esmeralda chamado La Piscina, muito pouco frequentado, e nadar lá. A Renata não estava muito disposta e estava de chinelos, por isso preferiu permanecer na Quebrada Pacheco. Mais um pouco de estrada e chegamos à cachoeira mais alta do dia, o Salto Kamá, boa apenas para fotos. No retorno, paramos no mirante Piel del Abuelo (Pele do Avô, nome dado por causa das encostas "enrugadas" que se vêem) e na Poza Pacheco, um conjunto de poços de água esverdeada.

Todos os locais são bonitos porém a quantidade de lixo deixado pelos visitantes, principalmente latinhas de cerveja Polar, é revoltante.

Tanto na ida quanto na volta fomos parados nos dois postos de controle policial na estrada, sendo que na ida foi necessária a apresentação dos passaportes.

Nessa noite, a Renata e o Gabriel se despediram de mim e do Alexandre para irem para o Salto Angel. Passamos então para um quarto duplo no Hotel Michelle, ao preço de BsF 60 (R$13 para cada um).

10/03/2009 - ter - RETORNO AO BRASIL

Depois do café, eu e o Alexandre voltamos à casa de câmbio e trocamos quase todo o restante dos bolívares fortes por reais a uma cotação de BsF 2,45 para cada real.

Às 9h10 pegamos no ponto um táxi-lotação para Pacaraima (BsF 35 ou R$7,60 para cada um), a cidade brasileira junto à fronteira. Não há táxis venezuelanos direto de Santa Elena para Boa Vista por um motivo absurdo: o governo Chaves dificulta a obtenção de passaportes, o que impede que os cidadãos saiam legalmente do país. Por isso, os táxis brasileiros circulam livremente entre Boa Vista e Santa Elena, enquanto os venezuelanos só chegam até a fronteira.

Na fronteira, a motorista do táxi arranjou uma estratégia para nos livrar dos guardas da aduana venezuelana (e para ela não perder seu precioso tempo): pediu que saíssemos do carro ainda na fila e fôssemos ao escritório carimbar os passaportes enquanto ela passaria pelos guardas sozinha para não chamar a atenção. Deu certo. Ela confirmou que os guardas revistam tudo e se apossam do que lhes interessar.

Voltamos ao táxi alguns metros depois da aduana e seguimos até a aduana brasileira, onde os passaportes foram novamente carimbados. Ela nos deixou às 10h10 no ponto dos táxis-lotação para Boa Vista, à margem da rodovia. Ali esperamos completar a lotação de quatro pessoas e partimos (R$25 cada um).

Fomos direto para o aeroporto na tentativa de antecipar o vôo Boa Vista-Manaus para aquela mesma tarde, o que foi possível mediante o pagamento de uma taxa de R$100. Embarcamos às 14h15 e chegamos a Manaus às 15h30.

Daqui em diante começa uma outra viagem, cujo relato possivelmente venha a escrever um dia.

TELEFONES ÚTEIS

Hospedagem mais econômica em Manaus (preço do apartamento duplo com café):
Hotel Panair: R$69 (www.hotelpanair.com.br)
Hotel Dez de Julho: R$70 (www.hoteldezdejulho.com)
Hotel São Pedro: R$75 (Rua Rui Barbosa, 166 - centro - fone (92)3232-8664)Manaus Hostel (albergue): R$65 (banheiro coletivo); R$20 o dormitório (www.manaushostel.com.br)

Rodoviária Internacional de Boa Vista: (95)3623-2233

CUSTOS DA NOSSA VIAGEM




R$ BsF

passagens aéreas São Paulo-Manaus-Boa Vista 1.018,00
28/02/09 táxi aeroporto-centro de Manaus 49,00/4

Hotel Panair 60,00/2

visita monitorada Teatro Amazonas 10,00

táxi centro-aeroporto de Manaus 49,00/4

táxi aeroporto-rodoviária de Boa Vista 25,00/4

táxi rodoviária de Boa Vista-ponto da lotação 10,00/5

táxi Boa Vista-Santa Elena 30,00

trekking de oito dias
1600

Hotel Michelle (quarto para cinco)
90/5

jantar (lasanha e suco)
25
01/03/09 café da manhã
12

ligação para o Brasil
7,50

sabão azul biodegradável
3
08/03/09 gorjeta Marcos
70

carregador extra
800/5

ligação para o Brasil
7

Hotel Michelle (quarto para cinco)
90/5

jantar (pizza e suco)
27

mapa do Roraima
25

mapa da Gran Sabana
25
09/03/09 café da manhã
11

passeio Gran Sabana
150

jantar (lasanha e suco)
25

Hotel Michelle (quarto para dois)
60/2

lavanderia no Hotel Michelle
7
10/03/09 café da manhã (2 arepas e suco)
25

táxi Santa Elena-Pacaraima
35/2

táxi Pacaraima-Boa Vista 25,00





TOTAIS 1.145,75 2.263


BsF 2.263 = R$983,91

Portanto, o custo total foi de R$2.129,66

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Volta completa da Joatinga (RJ) - dez/08

As fotos estão em http://lrafael.multiply.com/photos/album/45/Volta_completa_da_Joatinga_RJ_-_dez08

A travessia da Joatinga, em Parati, é velha conhecida dos trilheiros em geral, com seu percurso tradicional iniciando na Praia do Pouso da Cajaíba e findando no condomínio Laranjeiras, percurso este vencido em dois ou três dias de acordo com o tempo disponível e a disposição do caminhante. Como eu dispunha de três dias inteiros, procurei uma forma de incrementar esse percurso já tão batido. As opções eram iniciar em algum ponto próximo a Parati-Mirim, bem antes do Pouso da Cajaíba, acrescentando algumas praias menos conhecidas ao primeiro dia, ou esticar o último dia e tentar voltar de Laranjeiras a Parati-Mirim pelo fundo do Saco do Mamanguá. Ou ainda fazer as duas coisas, estendendo bastante a caminhada e realizando o que se pode chamar de "volta completa da Joatinga". Sobre a primeira opção consegui informação precisa e detalhada, porém sobre a segunda apenas dados escassos, o que daria a esse trecho um delicioso sabor de aventura.

Antes de iniciar o relato propriamente dito, gostaria de registrar meu agradecimento ao Augusto e ao Ronald por seus valiosos relatos e informações, sem os quais a volta completa da Joatinga não teria sido sequer imaginada.

Gostaria também de avisar que este é um relato bastante detalhado, com bifurcações, pontos de água e tempos de percurso, o que pode ser tedioso de ler em casa. Porém o objetivo é dar segurança a quem estiver na trilha e se deparar com uma dúvida quanto ao caminho a seguir ou precisar desesperadamente molhar a garganta após uma longa subida. E também permitir que outros aventureiros possam repetir esse roteiro ou parte dele por conta própria, gastando bem pouco. Uma observação: bifurcações que claramente levam a casas foram omitidas para não sobrecarregar demais o texto.

O CONVITE
Ao postar o convite na lista do T&T, algumas pessoas se interessaram, trocamos mensagens e acabei fechando com o Robson e mais dois amigos dele, o Marcelo e o Rafael. Combinamos de começar mesmo em Parati-Mirim.

TODOS RUMO A PARATI
Eu saí de São Paulo na sexta-feira no ônibus da Reunidas das 23h, que atrasou 30 minutos. Robson, Marcelo e Rafa saíram de carro de Campinas bem mais cedo e chegaram a Parati no mesmo horário em que eu deixava o terminal rodoviário do Tietê. Eles passaram a noite em uma barraca na praia. Eu cheguei à sinistra rodoviária de Parati às 5h e logo eles foram me apanhar. Numa conversa rápida, decidimos ir de carro para Parati-Mirim, e não de ônibus, e possivelmente fazer a volta toda para pegar o carro ali no retorno (os horários de ônibus de Parati a Parati-Mirim estão no final deste relato).

1º DIA: 06/12/08 - SÁB - PRAIA DO ENGENHO A MARTIM DE SÁ
Na chegada a Parati-Mirim procuramos um barco que nos levasse ao outro lado do Saco do Mamanguá e por sorte estava chegando um naquele instante. Conversamos com o barqueiro, o José Nildo, que pediu R$50 para nos levar até a Praia de Caieiras. Oferecemos R$10 por pessoa, totalizando R$40 e ele aceitou sem discussão. Porém ele sugeriu que desembarcássemos na praia do Engenho pois seria mais fácil pegar a trilha. Foi preciso tirar os calçados pois o embarque é feito na praia mesmo, sem trapiche. Partimos às 7h20 e cruzamos a espetacular embocadura do Saco do Mamanguá, nosso fiorde tropical, com direito a amplas vistas, inclusive da Pedra do Frade, na Serra da Bocaina, tamanha a claridade do céu naquela manhã.

Praia do Engenho
Descemos na pequena e encantadora Praia do Engenho às 7h50 e o José Nildo fez questão de nos acompanhar até o início da trilha. Começamos a caminhar às 8h10. Da praia subimos uma escadaria de concreto até chegar bem próximo a uma casa, quando cruzamos um quintal gramado à esquerda e alcançamos o início da trilha.
À medida que subíamos a visão do Saco do Mamanguá era cada vez mais extensa.
Às 8h36 encontramos uma bifurcação com uma placa "Cajaíba à direita". Logo em seguida um ponto de água e outra bifurcação, onde tomamos a direita também. Atingimos o topo do morro, a 440m de altitude (e de desnível), às 9h19. Na descida, após 25 minutos, há outro ponto de água.
Uma janela na mata nos descortinou toda a beleza da Praia Grande da Cajaíba, aonde chegamos exatamente às 10h15. No canto direito dessa praia há quiosques que servem comida e bebida. Fizemos um lanche rápido ali. Deixamos as cargueiras no último quiosque e subimos por uma trilha para conhecer a cachoeira, sinalizada por uma placa bem no final da areia, junto à trilha que leva à praia seguinte.
A cachoeira fica a 10 minutos da praia e nas duas bifurcações do caminho pegamos a esquerda, passando por uma casa branca em ruínas. Há um poço grande junto à primeira queda, mas é possível subir o rio e tomar uma ducha geladinha em outras quedas acima. Fomos até uma grande cachoeira que escorre pela parede inclinada de pedra. Todos entraram na água, exceto eu pois acabara de sair de um resfriado e a água estava bastante fria.
Deixamos a Praia Grande da Cajaíba às 12h22 e logo passamos por um pé de grumixama, frutinha muito saborosa, parecida no formato com uma cereja, porém preta e com sabor semelhante ao da jabuticaba. Infelizmente haviam passado antes de mim e devorado todas as que a mão podia alcançar.
Logo já é possível ver a Ilha Itaoca.
Às 12h40 pisamos na areia dourada da Praia de Itaoca, a qual foi cruzada em menos de 10 minutos. A trilha continua no final da areia, porém poucos metros depois uma placa de "cuidado cão bravo" nos obriga a subir para a direita na bifurcação. Mais um morro e do alto vê-se toda a extensão dessa praia e a Ilha Itaoca por outro ângulo.
Mais à frente fotografamos lá embaixo uma praia minúscula e deserta. Minutos depois a visão da praia de Calhaus choca um pouco pela grande quantidade de casas, número que parece exagerado para o tamanho diminuto da faixa de areia.
Chegamos a ela às 13h22, apenas a cruzamos e saímos por uma escadaria de concreto bem no final da areia. Essa escadaria leva a um caminho entre diversas casas e curiosamente os moradores pintaram setas amarelas nas pedras para orientar quem está só de passagem. Às 13h35 cruzamos um riacho de água não confiável e em mais um minuto pisamos na Praia de Itanema, que também foi cruzada em 5 minutos.
A essa altura o sol e o céu azul já tinham ido embora, dando lugar a uma cobertura de nuvens.
Para não perder o hábito, subimos mais um morro e do alto vislumbramos mais uma minúscula praia deserta de areias douradas. No alto do morro à esquerda, um cemitério abandonado é uma visão bastante insólita.

Praia do Pouso da Cajaba
Às 14h15 chegamos à famosa Praia do Pouso da Cajaíba, com muitas casas e barcos, ponto de partida, como já disse, do percurso mais tradicional da travessia da Joatinga.
Ali há uma pequena padaria que vende refrigerantes e aproveitamos para um segundo lanche.
Às 14h55 saímos do Pouso para encarar o segundo grande morro do dia, o que sobe 300 metros de desnível e leva à Praia Martim de Sá, nosso destino final nesse primeiro dia. Com quase 20 minutos de trilha passamos por uma água que corre por baixo de algumas pedras colocadas bem no caminho. Chegamos a pegar dessa água porém logo desconfiamos da sua qualidade pois descobrimos uma casa (isolada) um pouco acima. O melhor é desprezar essa água e pegar de uma fonte que fica 10 minutos depois, após uma bifurcação em que se deve seguir à esquerda.
Se água for um fator crítico nesse trecho, pode-se pegar água confiável nas últimas casas da praia do Pouso, no começo da trilha.
Às 16h24, após a descida, nos surpreendemos ao encontrar a Praia Martim de Sá toda cercada com arame farpado e com um portão que dá as boas-vindas aos trilheiros anunciando que o preço do camping é R$10 por pessoa. Bem estranho isso. Mais estranho é que não houve negociação nesse valor. A Teresa foi irredutível.
Bem, por esse preço se tem direito a montar a barraca num terreno bastante plano e utilizar a "cozinha" coberta com mesa, pias e dois fogões a lenha (bastante antiecológico), além dos sanitários (dois) e chuveiros gelados (dois, com portas improvisadas com plásticos). O PF de peixe custa R$10 e o de ovo custa R$7. Nesse dia só tinha de ovo e sem nenhum tipo de salada. Eu não carregava muita comida confiando nos PFs do caminho, porém preferi comer um lanche e aceitar o Miojo oferecido pelos meus amigos a pagar por um PF de arroz, feijão e ovo.
Quando fomos olhar a praia, o seu Maneco estava voltando da pescaria com alguns poucos peixes no fundo do balde.
Nessa noite conheci o Cristiano, a Débora e a Ester, que também são do T&T e responderam ao meu convite para essa travessia.
Mais tarde chegaram mais dois grupos (um deles inclusive se perdeu) e a noite no camping não foi tão silenciosa como se esperava.
Nós quatro fomos dormir cedo pois estávamos "pregados" da noite anterior maldormida e da caminhada de hoje.

2º DIA: 07/12/08 - DOM - MARTIM DE SÁ A PONTA NEGRA
No dia seguinte acordei antes das 7h para fotografar a praia com os primeiros raios do sol. Deixamos o camping às 9h05 e em alguns minutos cruzamos pelas pedras um riacho que os moradores chamam de cachoeira. Doze minutos depois dele há uma bica de água muito boa. Um pouco mais à frente uma placa na árvore indica o Pico do Miranda à direita, mas a trilha não era clara, talvez subindo o riacho que se atravessa também pelas pedras.


Mais alguns minutos e um rio mais largo aparece. A essa altura já havíamos alcançado o Cristiano e as meninas, que saíram pouco antes de nós. A travessia desse rio deu um pouco de trabalho e rendeu alguns escorregões. Eu preferi enfiar o pé na água com tênis e tudo a saltar as pedras lisas e cair. Às 9h44 chegamos a uma bifurcação, na qual seguimos para a esquerda. Dois minutos depois uma outra trilha desce à esquerda, mas continuamos em frente. Mais um riacho de água límpida.
Às 10h12 chegamos a um T. À esquerda a trilha leva ao Saco das Enchovas, porém prosseguimos para a direita e logo tivemos uma visão estonteante das penínsulas e morros pelos quais já havíamos passado. Mais um ponto de água 12 minutos depois. Um pouco à frente desprezamos outra trilha que descia à esquerda. Na próxima bifurcação fomos para a esquerda apesar de o caminho à direita ser bastante largo. Talvez seja o mesmo caminho que encontramos 3 minutos depois, vindo da direita, ainda mais largo.
Uma descida e caímos direto nas casas que ficam acima da Praia do Cairuçu, que apenas fotografamos do alto às 10h52.
Após uma boquinha rápida, partimos dali para enfrentar o trecho mais penoso do roteiro tradicional, a demorada subida (e depois a íngreme descida) que leva à Praia da Ponta Negra.
Saindo do Cairuçu às 11h, em poucos minutos se cruza um rio onde os moradores lavam a roupa, depois uma casa à direita e em seguida uma bifurcação: o caminho mais usado parece ser à esquerda, porém esse leva ao costão. O correto é o da direita, que logo penetra na mata e começa a subir.
Num determinado ponto dessa subida (para mim, 21 minutos depois da bifurcação) a trilha parece desaparecer sob folhas secas bem no meio de duas pedras. Na verdade, deve-se subir a pedra da esquerda para pegar a continuação da trilha.
A subida se torna cada vez mais íngreme, em alguns trechos se assemelha a uma escadaria de raízes, e água é encontrada em dois momentos.
Às 12h58 chegamos a uma grande pedra à direita que parece uma gruta, com espaço para muitas pessoas em pé. Parada para descanso, mais que merecido, necessário.
A pedra/gruta ainda não é o topo. Este é atingido em mais alguns minutos, quando o GPS marcou 570m de altitude. Mais 10 minutos e se entrevê no meio das árvores a Praia da Ponta Negra.


A descida é uma pirambeira, novamente parecendo uma escadaria de raízes, cujas árvores servem de apoio para não se despencar de uma vez. Há um bom ponto de água.
Às 15h, já findada a descida e muito próximo da praia, um simpático riacho nos convidou para um banho refrescante. Ficamos pouco mais de meia hora ali.
Na bifurcação seguinte fomos para a esquerda (à direita parecia subir para uma casa).
Chegamos à Praia da Ponta Negra às 15h56, porém pelo pior caminho. O labirinto de caminhos e casas nos confundiu e acabamos chegando à areia da praia tendo de entrar num riacho que é o esgoto da vila (o Rafa, que foi o último a cruzá-lo, é que teve a prova cabal disso - argh!). O melhor é atravessar esse riacho junto a uma ponte de concreto inacabada à esquerda da trilha, pulando as pedras, como os moradores fazem. Nesse caminho, mais à frente há um orelhão, que estava funcionando.
A praia faz jus ao nome, tem a água muito escura, cheia de ciscos. Os urubus são atraídos pela matéria orgânica e ficam perambulando pela areia.
Ficamos num camping próximo à praia e jantamos da nossa própria comida.

3º DIA: 08/12/08 - SEG - PONTA NEGRA A PARATI-MIRIM
Deixamos a Ponta Negra bem cedo.
Em 16 minutos se chega à "praia" seguinte, Galhetas, inteiramente tomada por pedras de todos os tamanhos, sem areia, e onde deságua o rio Galhetas, facilmente transposto saltando pelas pedras.
Passamos por mais dois pontos de água confiáveis.
Quase uma hora depois da Ponta Negra pisamos na areia da Praia de Antiguinhos, que possui um riozinho de água cristalina no canto direito, por onde se chega, num desvio de poucos metros à esquerda da trilha principal.
Saindo de Antiguinhos, em apenas 3 minutos se chega pela trilha principal à Praia de Antigos, uma extensão da anterior, da qual é separada por um costão. Paramos para fotos e saímos dela às 8h26.
Vencido o morro seguinte, tivemos a espetacular visão da Praia do Sono, que rendeu ótimas fotos também.
Descemos a ladeira bastante inclinada e tivemos de atravessar um riozinho molhando os pés para poder começar a caminhar pela areia. A Praia do Sono é um pouco extensa e levamos 23 minutos para cruzá-la de ponta a ponta, porém a trilha não continua no final da areia e sim atrás das casas (pode-se pegá-la atrás do último bar).
Ali um pulguento de pêlo preto simpatizou conosco e resolveu "aderir à nossa causa", dispondo-se a caminhar conosco o quanto fosse necessário.
Saímos dessa praia às 9h37, passamos por dois bons pontos de água e alcançamos a praça de Laranjeiras às 10h36. A Praia de Laranjeiras foi toda tomada por um luxuoso condomínio e o acesso é controlado. Nem chegamos a vê-la.
Aqui começou nossa aventura de voltar a Parati-Mirim por trilhas sobre as quais tínhamos bem pouca informação. Perguntamos numa vendinha um pouco à frente e o cara foi muito atencioso, porém ensinou tudo errado. Até paramos um pouco ali para mastigar algo e nos abastecer com bolachas, bananas, etc.
Na primeira bifurcação que encontramos foi por água abaixo toda a orientação que ele tinha nos dado. O jeito foi perguntar para todas as pessoas que encontramos, na verdade bem poucas.
O caminho é o seguinte: passada a praça (onde há um ponto de ônibus), deve-se continuar em frente até a rua terminar num T (11h). Toma-se a direita e logo surgem várias ruas. Passe direto pela primeira à esquerda e entre na segunda, imediatamente após o riozinho. É uma rua de terra que logo vira uma ladeira concretada bem íngreme. Lá no alto uma bifurcação à esquerda leva a uma casa.


Continuando à direita chega-se a uma porteira verde de ferro do lado direito, quando a rua faz uma curva para a esquerda.
Cruzamos essa porteira pela lateral e 5 minutos depois nos deparamos com placas de "propriedade particular". Mais à frente outras placas e um portão (11h22). Prosseguimos mesmo assim e continuamos descendo.
O cachorro nosso companheiro se metia no mato quando farejava alguma coisa e às vezes despencava de barrancos tão altos que parecia que não conseguiria mais subir, mas daí a pouco estava ele a caminhar junto a nós de novo.
Pegamos água numa mangueira mais à frente. Logo depois, a trilha faz uma curva para a esquerda e se dirige para a outra margem do Saco do Mamanguá, o qual ainda não pode ser visto por completo, apenas seus picos e morros mais altos. Mais um ponto de água e uma bifurcação importante, às 12h05: a trilha larga continua em frente em direção à Ponta da Foice, no fundo do Saco do Mamanguá, porém nosso caminho era subindo a trilha mais estreita à esquerda. Subida forte, porém curta. A bifurcação durante a subida é só um atalho (caminho normal em frente e atalho à direita). Às 12h15 nova bifurcação ao chegar a um riacho: à esquerda mais placas de "propriedade particular" e uma casa, porém deve-se ir para a direita, ultrapassando o citado riacho. Mais 10 minutos e se tem uma das visões mais espetaculares de toda a trilha: todo o Saco do Mamanguá a partir do fundo com seus morros e picos marcando o horizonte. A trilha desce, passa por alguns riachos e ao lado de um campinho de futebol e alcança a casa do seu Bil, onde paramos às 12h40 para descansar e ter um dedo de prosa. Ele disse que o lugar ali se chama Regato.
Às 13h12 voltamos a andar e ainda pegamos mais informações com os moradores, que até nos ofereceram um café. A dica que eles nos passaram foi a seguinte: na terceira cachoeira (leia-se riacho) haveria uma bifurcação - para a esquerda subiríamos o morro e chegaríamos à estrada de terra que vai da Rio-Santos a Parati-Mirim, exatamente num ponto de ônibus a 2km da rodovia (e teríamos de andar 6,5km pela estrada); para a direita continuaríamos margeando o Saco do Mamanguá até perto de Parati-Mirim, necessitando apenas transpor um morro bem menor. Parece que o segundo caminho é mais longo, porém decidimos por ele por ter uma paisagem privilegiada e não termos de caminhar na tediosa estrada de terra.
E assim fizemos. Passamos pelo primeiro riacho às 13h23 e dez minutos depois a trilha se divide em três. Seguimos para a esquerda, descendo, e encontramos o segundo riacho. Às 13h37 chegamos à tal bifurcação e fomos para a direita, atravessando o terceiro riacho, como foi explicado. Depois das casas é só seguir em frente, desprezando a larga descida à direita.
Às 13h48 passamos pela primeira praia do Saco do Mamanguá, chamada Curupira, onde há uma igreja e uma escola. Em frente à igreja, outro pé de grumixama - dessa vez matei a vontade.

A trilha continua bastante óbvia, passa por uma praia deserta cujo nome não descobri e diversos mirantes de onde se avistam as praias e povoados no outro lado do saco.
Às 14h24 passamos pelo Praia do Pontal margeando a água em vez de seguir pela trilha que dava direto numa casa.
Mais à frente uma bifurcação leva à direita a uma casa, então deve-se subir pela esquerda. Às 14h35 passamos pelo quintal gramado da casa que ocupa a minúscula Praia do Couto (ou Praia do Lopes), onde o Robson e o Marcelo pediram para usar a ducha fria a fim de amenizar um pouco o forte calor.
Continuando pela trilha passamos por um cano vertendo água que parecia boa.
Às 15h06, na bifurcação, descemos à direita em direção à Praia Grande, que nos surpreendeu com seu extenso gramado verdinho e belas casas.
Depois dela a pequena Praia da Paca (15h23).
Às 15h50 a trilha abandonou a costa e começou a se dirigir aos morros densamente cobertos de mata atlântica, prenunciando a fase final da nossa jornada. Às 16h chegamos a uma discreta bifurcação junto a algumas bananeiras: uma trilha estreita desce à direita, mas certamente nosso caminho era subindo à esquerda pela trilha mais larga. A subida foi puxada durante 23 minutos e a descida íngreme durou 17, terminando num T numa cerca. Mais alguns passos para a esquerda e já se vê a praia de Parati-Mirim lá embaixo. Tanto faz descer a escadaria de terra à direita, junto à cerca, ou seguir em frente e descer por outra escadaria de terra.
Botei meus pés na rua da praia de Parati-Mirim exatamente às 16h50 e comemorei a chegada, aliás todos comemoramos o sucesso da empreitada.
Mais algumas fotos do lugar, depois a foto oficial do grupo nas ruínas junto à igreja e fomos nos preparar para partir.
O cachorro que até alguns instantes atrás estava conosco desapareceu de repente, sem deixar notícia.
Fui com o pessoal de carona até Ubatuba, aonde chegamos às 19h20 e fomos informados de que o útimo ônibus da Litorânea havia partido às 19h. Não havia mais ônibus para cidade nenhuma. O jeito foi ir para Caraguá o mais rápido possível e tentar alcançar o das 20h30 (que aliás era o de Ubatuba das 19h). Conseguimos chegar à rodoviária às 20h27 e causei um pequeno atraso na saída do ônibus, que partiu às 20h39. A viagem foi muito rápida e às 23h já desembarcava no terminal rodoviário do Tietê, cansado mas muito feliz pelas paisagens incríveis que contemplei, pelas pessoas com quem conversei pelo caminho, pelos novos amigos que fiz e pelas aventuras que vivemos juntos.

Notas:
. repelente é um item importante nessa travessia pois os mosquitos atacam sem dó
. horários do ônibus circular de Parati a Parati-Mirim: seg a sáb - 5h30, 6h30, 8h, 9h30, 11h, 12h40, 16h, 17h30, 19h e 22h30; dom e feriados - 6h30, 9h30, 13h, 16h, 17h e 19h.
. o ônibus circular Parati-Laranjeiras é bem mais freqüente
. para saber os horários entre São Paulo e Parati pela Reunidas, consulte o site www.reunidaspaulista.com.br ou pelos telefones (11)3619-0910 e 0300-2103000. Às sextas-feiras há mais ônibus à noite.
. há um ônibus de Parati a Guaratinguetá (via Taubaté) às 17h da empresa São José
. o acesso a Parati-Mirim fica entre o km 586 e 585 da rodovia Rio-Santos, cerca de 10km antes  do trevo para Parati, para quem vai no sentido SP-Rio.
. a carta topográfica do IBGE está em ftp://geoftp.ibge.gov.br/mapas/topograficos/topo50/pdf/juatinga27714.pdf (50.7 MB)
. despesas:
R$41,10 - ônibus São Paulo-Parati (Reunidas)
R$40 - barco Parati-Mirim a Praia do Engenho (R$10 por pessoa)
R$10 - camping na Praia Martim de Sá
R$10 - PF de peixe e R$7 PF de ovo na Praia Martim de Sá
R$2 ou R$3 - refrigerante em lata, dependendo da praia
R$10 - camping na Praia da Ponta Negra
R$33 - ônibus Caraguá-São Paulo (Litorânea)


TrechoTempo de percursoPontos de água confiáveis
Praia do Engenho – Praia Grande da Cajaíba2h052
Praia Grande da Cajaíba – Praia de Itaoca18 min-
Praia de Itaoca – Praia de Calhaus33 min-
Praia de Calhaus – Praia de Itanema9 min-
Praia de Itanema – Praia do Pouso da Cajaíba33 min-
Praia do Pouso da Cajaíba – Praia Martim de Sá1h301
Praia Martim de Sá – Praia do Cairuçu1h484
Praia do Cairuçu – topo do morro (570m)2h2
topo do morro – Praia da Ponta Negra2h2
Praia da Ponta Negra – Praia de Galhetas16 min-
Praia de Galhetas – Praia de Antiguinhos30 min2
Praia de Antiguinhos – Praia de Antigos3 min-
Praia de Antigos – Praia do Sono27 min-
Praia do Sono – Praia de Laranjeiras1h2
Praia de Laranjeiras – Praia do Curupira2h502 e nas casas
Praia do Curupira – Parati-Mirim3h1 e nas casas