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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Circuito pela Cordilheira Huayhuash (Peru) - ago/15

ImageNevados Yerupajá e Yerupajá Chico

Para informações sobre a viagem do Brasil a Huaraz e sobre o período de aclimatação que fiz, leia o meu relato em http://trekkingnamontanha.blogspot.com.br/2015/09/lagunas-69-churup-willcacocha-e-aguak.html.

Depois de testar a minha adaptação à altitude em três caminhadas de uma dia acima de 4400m, e ter por sorte uma excelente aclimatação, era hora de encarar o meu grande objetivo nessa viagem ao Peru: o Circuito Huayhuash em 8 dias.

Nas agências de Huaraz esse trekking é proposto para 8 dias (ou mais, se o cliente quiser e puder bancar), mas na realidade caminha-se 6 dias e meio, com o primeiro dia todo tomado pelo deslocamento até o primeiro acampamento, bem distante de Huaraz (quase 4h de viagem), e o último dia resumido a 4h30 de caminhada apenas, com o deslocamento de volta no restante do dia.

O trajeto é todo ao redor da Cordilheira Huayhuash, ao sul da Cordilheira Blanca, nas imediações da cidade de Chiquian. O sentido mais comum é o horário, com início no acampamento Cuartelwain e o final variando entre as localidades de Pocpa e Llamac. Encontramos porém grupos fazendo no sentido anti-horário.

Eu paguei 700 soles (US$ 222) por esse trekking pela agência Monttrek, de Huaraz. Os integrantes do meu grupo pagaram preços entre 450 e 650 soles através de outras agências ou pelo hostel onde estavam hospedados. No fim o serviço foi todo prestado pela agência Enjoy Huayhuash.

Estava incluído no preço o guia, o assistente e o arrieiro (condutor da tropa de animais). Todos eles cozinhavam e havia cinco refeições/lanches por dia. Também as barracas, isolantes, sacos de dormir, a tenda-cozinha e a tenda-refeitório, tudo carregado por uma tropa de cinco burros e duas mulas, além de um cavalo de emergência. O deslocamento de/para Huaraz também estava incluído.

ImageLaguna Gangrajanca com nevados Jirishanca e Jirishanca Chico

SOBRE O FRIO E AS ROUPAS

Nos oito dias de trekking tivemos dias bastante ensolarados. O sol é muito forte, um protetor solar é indispensável, porém o ar é sempre frio, o que se percebe quando sopra o vento ou quando caminhamos na sombra. Durante o dia portanto eu caminhava sempre com calça de tactel e segunda-pele de manga longa de lã de merino lightweight, no mínimo. Às vezes vestia um fleece fino ainda. Alguns colegas suportavam melhor o ar frio e caminhavam de manga curta.

No começo do dia muitas vezes caminhávamos um longo tempo pela sombra, dentro de um vale, e o frio da manhã era intenso. Nessas condições eu saía do acampamento com as duas blusas de fleece que tinha usado para dormir, uma mais fina e outra mais grossa (Polartec), além da segunda-pele de manga longa de lã de merino. Ainda gorro e luvas de fleece.

No fim do dia, quando o sol sumia atrás das montanhas, a temperatura despencava muito rapidamente. Eu vestia sobre a segunda-pele as duas blusas de fleece e mais uma jaqueta impermeável/respirável para reter o calor. Para as pernas levei uma calça segunda-pele de lã de merino midweight para colocar sob a calça de tactel, mas não foi suficiente, sempre sentia muito frio nas pernas. Tentava reter o calor com uma calça impermeável/respirável. Além disso gorro e luvas de fleece.

Durante a madrugada, a temperatura sempre caía abaixo de zero, o que podia ser conferido na quantidade maior ou menor de cristais de gelo na parte externa da barraca todas as manhãs. Eu levei um saco de dormir Marmot Alpha, de pluma de ganso, de especificação: conforto 2,6ºC, limite -2,8ºC e extremo -19ºC. Em algumas noites ele não foi suficiente, principalmente nas pernas, e tive de usar além dele um Deuter Orbit +5 de especificação: conforto 9ºC, limite 5ºC e extremo -9ºC. Aí sim dormia bem aquecido.

ImageAcampamento Cuartelwain. À esquerda: Jirishanca, Ninashanca, Rondoy e Rasac

30/07/15 - 1º DIA: DE HUARAZ AO ACAMPAMENTO CUARTELWAIN

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/CircuitoHuayhuash1DiaPeruJul15.

Às 8h15 a van passou no hostel para me apanhar. Fui o primeiro a entrar, mas logo comecei a conhecer meus companheiros de (longa) caminhada: Annie (americana de 55 anos), Joel (suíço de 37 anos), Antônio (Tony, espanhol de 56 anos), Robert (inglês de 27 anos), Ofri (israelense de 25 anos), Or (israelense de 26 anos) e Yoav (israelense de 28 anos).

Saindo de Huaraz no sentido sul a primeira parada foi no povoado de Catac para comprar guloseimas de última hora e usar os baños (banheiros). Em seguida uma longa viagem passando pela cidade de Chiquian, onde trocamos o asfalto pelas poeirentas e pedregosas estradas de terra, depois Llamac e uma parada em Pocpa. Ali conhecemos o nosso guia Teo e seu assistente Henry, e seguimos de van até o acampamento Cuartelwain.

Em Llamac e Pocpa pagamos as primeiras taxas de "protección", num total de 30 soles. Na verdade, é um pedágio que as comunidades cobram ao longo de todo o percurso do circuito, o que totaliza 195 soles. Nosso guia Teo recolheria na manhã seguinte o valor restante de 165 soles de cada um para tornar mais ágil o pagamento durante a caminhada. Lembrando que toda essa área pertence a particulares, não faz parte de nenhum parque nacional.

Em Cuartelwain, às 14h10, as barracas e tendas foram rapidamente montadas. Altitude de 4172m. Tivemos nosso primeiro contato visual com as montanhas nevadas de Huayhuash, porém ainda bem discretas diante do que estava por vir. Quando o sol desapareceu atrás das montanhas, tivemos nossa primeira amostra do que seria o frio dentro dos vales. E muito mais depois, durante a noite e madrugada.

O jantar sempre tinha sopa como entrada, todos os dias uma sopa diferente. O prato principal nessa primeira noite foi peixe frito, supostamente truta. Eu, evitando comer carne durante o trekking, fiquei no ovo frito mesmo. Depois chá bem quente e dormir para se preparar para o início da caminhada.

As refeições foram todas fartas e com possibilidade de repetir quando quisesse. A enorme porção de arroz que vinha no prato era um tormento para os colegas europeus, não acostumados a isso, mas para mim, brasileiro, era uma quantidade que podia dar conta. Só sentia falta de um pouco de feijão para acompanhar tamanha quantidade de arroz.

Uma novidade para mim nesse trekking (muito diferente do Monte Roraima) foi a existência de banheiros em todos os acampamentos, uns muito bons (e até limpos) e outros sem condições de uso. Em Cuartelwain havia uma casinha com quatro portas, mas apenas duas estavam abertas. Lá dentro vaso sanitário com caixa de descarga acoplada. Um luxo!

ImageNevados Siulá e Yerupajá

ACLIMATAÇÃO: COMO MEU ORGANISMO REAGIU À ALTITUDE

Planejei essa viagem reservando quatro dias de aclimatação à altitude antes de iniciar o Circuito Huayhuash. Seriam quatro trekkings de um dia com altitudes de até 4600m retornando a Huaraz para dormir. O relato dessas caminhadas está em http://trekkingnamontanha.blogspot.com.br/2015/09/lagunas-69-churup-willcacocha-e-aguak.html.

Como seria minha primeira experiência de caminhada acima dos 3000m estava preparado para tudo, inclusive a possibilidade de meu organismo reagir de forma muito negativa nesses quatro dias e eu nem tentar fazer o circuito. Logo na primeira noite em Huaraz comecei a minha dieta de mate de coca para ajudar na aclimatação. Não sei se foi bom, tem gente que diz que é placebo, mas sei que felizmente tive uma excelente aclimatação durante os quatro dias, sentindo apenas um pouco de dor de cabeça no primeiro dia, na Laguna 69.

Por recomendação médica, não utilizei os medicamentos Diamox e Decadron, que supostamente ajudam na aclimatação. Durante a caminhada, continuei tomando o mate de coca duas vezes por dia, feito da infusão da própria folha, que eu mastigava depois.

O problema que eu tive durante o circuito, que começou leve nos primeiros dias e depois foi piorando, foi com relação ao sono. Dormia das 20h até por volta de 0h30 ou 1h da madrugada e acordava com o nariz tampado. Dali em diante não dormia direito ou não conseguia dormir mais, mesmo assuando o nariz várias vezes para desobstrui-lo. Ao deitar o nariz entupia de novo e não conseguia pegar no sono. A noite maldormida tinha consequências no dia seguinte já que não estava suficientemente descansado para enfrentar o dia puxado de caminhada.

ImageCarnicero, Siulá, Yerupajá e Yerupajá Chico

31/07/15 - 2º DIA: DE CUARTELWAIN À LAGUNA CARHUACOCHA

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/CircuitoHuayhuash2DiaPeruJul15.

Nossa rotina pela manhã seria igual todos os dias: às 6h30 todos tinham que estar na tenda-refeitório tomando o desayuno, com as respectivas barracas vazias e as mochilas cargueiras entregues ao arrieiro. Às 7h todos com as mochilas de ataque nas costas para iniciar a caminhada, faça o frio que fizer. E como fazia! Às vezes arrumava a mochila sem sentir os dedos das mãos. Um pacotinho com o lanche de trilha do dia era entregue a cada um antes de iniciar a caminhada.

Nesse dia nosso guia Teo não foi tão rígido e começamos a andar às 7h17. Adentramos o vale gelado no sentido nordeste por 22 minutos e começamos a subida da encosta à nossa direita em direção ao primeiro passo do dia, o Cacananpunta. A subida foi longa e cansativa, quase toda feita na sombra e no frio. Eu mantive o meu passo devagar-e-sempre: devagar para não sentir falta de ar e chegar a uma respiração estável, e sempre pois não fazia paradas para não ter de iniciar o trabalho de respiração de novo.

Alguns colegas consideraram esse passo um dos mais difíceis, alguns já ficaram bem para trás. Vencido o desnível de 508m, cheguei ao Passo Cacananpunta às 9h. Altitude de 4680m. Parada para se aquecer ao sol e contemplar o imenso vale à nossa frente, o qual iríamos contornar pela direita. Às 9h36 começamos a descida do passo, toda em ziguezagues também. Cruzamos com um ou mais grupos que estavam fazendo a caminhada no sentido anti-horário. Às 9h52 a longa descida teve fim próximo a uma cruz fincada em homenagem ao alpinista polonês Radoslaw Koscinski, que morreu explorando as nascentes do Rio Amazonas-Maranhão na Cordilheira Huayhuash em 1998. Por incrível que pareça estamos na bacia do Rio Amazonas!

Seguimos pela encosta direita do grande vale avistado do passo até alcançar uma placa de boas vindas ao "melhor trekking do mundo". Nesse ponto a trilha quebra de leste para sul e temos a primeira empolgante visão dos nevados da Cordilheira Huayhuash: Jirishanca Chico, Yerupajá, Jirishanca, Rondoy e Ninashanca. Parada para fotos, claro, já que o dia estava espetacular!

Às 11h alcançamos o posto de "protección" de Janca (pronuncia-se ranca). Há inclusive um portão de ferro para intimidar quem porventura não queira pagar o pedágio. Nosso guia Teo já havia recolhido o valor total dos pedágios de cada um e o pagamento então ocorreu sob sua responsabilidade. Assim, todos aproveitamos para descansar um pouco e mastigar algum lanche.

ImageJirishanca Chico, Yerupajá, Jirishanca, Rondoy e Ninashanca

Liberada a nossa passagem, cruzamos o Rio Janca e começamos a longa e suave subida para o Passo Carhuac ao sul. Infelizmente não estava no nosso percurso a Laguna Mitucocha. No meio da subida paramos para o almoço, às 11h44. Tony, nosso amigo espanhol, já dava sinais de cansaço e reclamava de uma dor no joelho. Findo o almoço, às 12h35 continuamos a lenta subida ao Passo Carhuac, aonde cheguei às 13h30. Altitude de 4628m. No passo e na descida que se seguiu, à nossa direita vão surgindo mais próximos os altos e majestosos picos nevados da cordilheira, até que às 14h50 temos de um mirante à direita da trilha a estonteante visão da Laguna Carhuacocha aos pés dos principais picos da cordilheira. Entre eles o Yerupajá Grande, 6634m de altitude, segunda montanha mais alta do Peru (só perde para o Huascarán, 6768m). Após alguns minutos de admiração da magnífica paisagem, bastou descer pela face norte da laguna até o acampamento, aonde cheguei às 15h20. Altitude de 4196m.

Nosso acampamento estava montado na parte alta da face norte, próximo a uma fonte de água e dos banheiros. Tínhamos apenas um grupo vizinho. Porém nas margens da lagoa, bem abaixo de nós, havia diversos outros grupos acampados. A visão dali para a cordilheira era ainda mais ampla e pudemos identificar, além do Yerupajá Grande, o Siulá (6344m), o Yerupajá Chico (6121m), o Jirishanca (6094m) e o Jirishanca Chico (5445m).

Todos os acampamentos do trekking foram em lugares de grande beleza, sempre com visão dos nevados da Cordilheira Huayhuash, mas na minha opinião os mais bonitos foram este de Carhuacocha e o Incahuayin, junto às lagunas Jahuacocha e Solteracocha, no sétimo dia de caminhada.

O jantar foi arroz com frango ensopado, mas para mim batatas. Depois sempre tinha um chá bem quente para espantar o frio, ou pelo menos tentar.

O banheiro ali era um buraco no chão com os lugares certos para colocar os pés, e ao lado um reservatório de água com uma vasilha para dar a "descarga". Casinha com duas portas.

Nesse dia caminhamos 16,8km.

A ÁGUA DURANTE O TREKKING

A questão da água para beber nesse trekking foi mais complicada do que eu imaginava. Em alguns dias havia água abundante, já em outros havia pouca água corrente ao longo do trajeto. Mas o problema é que sempre havia vacas, ovelhas, cavalos, além das pessoas que estavam passando ou que eram fixas. Com isso, tratar ou ferver a água era algo imprescindível. Eu não levei produtos para purificar a água pois não uso isso durante as travessias no Brasil. E não me agradava a idéia de usá-los durante oito dias seguidos. A solução foi aproveitar a água fervida (ou apenas esquentada, não sei) todos os dias para o chá e encher as minhas duas garrafinhas de 500ml para consumir ao longo do dia. Alguns colegas usavam Micropur Classic para tratar a água, disseram que é ótimo, porém deve-se esperar duas horas antes de bebê-la.

ImageYerupajá e Yerupajá Chico

01/08/15 - 3º DIA: DA LAGUNA CARHUACOCHA AO ACAMPAMENTO HUAYHUASH

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/CircuitoHuayhuash3DiaPeruAgo15.

O frio desta noite foi intenso e pela manhã uma camada mais grossa de cristais de gelo cobria as barracas e todo o gramado. Mas a fonte de água não chegou a congelar. Felizmente estávamos no alto e logo o sol começou a nos aquecer.

Nesse dia começamos a caminhar às 7h16. Descemos até a extremidade leste da laguna, passamos pelos outros acampamentos, Teo pagou a nossa "protección" e contornamos a Laguna Carhuacocha por toda a face sul até entrar para um vale à esquerda (sul).

Pouco antes de atingir a Laguna Siulá fizemos uma pausa às 9h11 para quem quisesse subir ao mirante da Laguna Gangrajanca, alguns metros acima à direita. Quase todos subiram pois a vista vale todo o esforço. Essas duas lagunas fazem parte de um conjunto de três (com a Quesillococha, mais acima) que são um dos cartões postais de Huayhuash, de tão belas e fotografadas que são.

De volta à trilha principal, cruzamos às 10h04 o riacho que brota da Laguna Siulá e prosseguimos pela sua esquerda. Ali conhecemos um casal francês que estava fazendo um caminho alternativo e sem guia ou mulas, carregando todo o peso da comida e equipamentos nas costas. Estavam muito bem aclimatados e em ótima condição física!

Em determinado ponto às margens da Laguna Siulá a trilha quebra para a esquerda e se dirige para o Passo Siulá, 526m acima. Começamos a subida de verdade às 10h34. Essa foi bem cansativa também, na base do devagar-e-sempre, e por sorte o mirante das três lagunas está no meio dela para quebrar a ascensão em duas fases, com um bom descanso no mirante às 11h06 fotografando as belíssimas lagunas com os nevados ao fundo: Siulá, Yerupajá, Yerupajá Chico, Jirishanca e Jirishanca Chico.

Ali conheci o meu xará Rafael, de Porto Alegre, que estava fazendo um percurso um pouco diferente do nosso, com um guia particular. Conversamos pouco ali pois o meu grupo já estava de saída.

ImageMirante das 3 lagunas: Quesillococha, Siulá e Gangrajanca. Ao fundo nevados Jirishanca e Jirishanca Chico

Retomamos a subida às 11h38, cruzamos um vale mais plano e em seguida a subida final com muitas pedras soltas. Cheguei ao Passo Siulá às 12h23. Altitude de 4823m com a primeira visão dos nevados Carnicero (5960m) e Sarapo (6127m). Joel, nosso colega superativo, já estava voltando de um mirante acima do passo, e disse que valia a pena dar uma espiada. Continuei então pela crista à esquerda e fui até 4869m, num mirante que valeu mesmo o esforço extra. Além de uma outra laguna verde escondida entre as montanhas, tive a primeira visão dos nevados Trapecio (5644m) e Jurau (5650m).

De volta ao passo descemos menos de 200m para fazer o almoço pois no alto ventava muito. Às 13h38 retomamos a caminhada descendo o restante do passo. À nossa direita os impressionantes nevados Trapecio, Jurau, Carnicero, Siulá e Yerupajá. O grupo todo disparou na frente, ansiosos (não sei por quê) em chegar ao acampamento. Ficamos eu e o Tony para trás, junto com o Henry (assistente do guia), tentando identificar pelos mapas os nevados que podíamos avistar ao nosso lado. Sem nenhuma pressa, ainda paramos uns 20 minutos para descanso e fotos na Laguna Carnicero, às 14h47.

Cerca de 1km depois da laguna (às 15h32) uma outra trilha entroncou à esquerda, é a trilha pela qual vêm os burros e mulas já que a subida do Passo Siulá é mais arriscada para eles, podem cair e se machucar nas pedras. E também causar excesso de erosão na trilha íngreme. Cinco minutos depois já avistávamos do alto o acampamento Huayhuash. Foram mais 15 minutos de descida até ele. Cheguei às 16h. Altitude de 4357m. No fundo do vale (sul) tínhamos o Nevado Puscanturpa e a oeste o Jurau e Carnicero.

Nosso acampamento estava montado bem ao lado de um riacho de águas limpas e geladas. Nosso guia Teo pagou "protección" aqui também. Uma placa dá as boas vindas à comunidade de Tupac Amaru, porém ela fica a 5km dali por estrada.

Mais tarde reencontrei o Rafael de Porto Alegre e pudemos conversar mais. Soube que havia um grupo de quatro brasileiros também, mas não estavam ali no acampamento.

O jantar nesse dia foi arroz com lomo saltado. Para mim só o saltado, sem o lomo... risos. Tony, nosso amigo espanhol, perguntava a todos se estavam conseguindo dormir bem já que ele estava tendo bastante dificuldade.

O banheiro desse acampamento é requintado, tem vaso sanitário com caixa de descarga acoplada e ainda lavatório. Casinha com duas portas.

Nesse dia caminhamos 14,3km.

ImageTrapecio

02/08/15 - 4º DIA: DO ACAMPAMENTO HUAYHUASH A ÁGUAS CALIENTES

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/CircuitoHuayhuash4DiaPeruAgo15.

Esse foi o dia mais tranquilo do trekking, ou melhor seria dizer que foi o único dia tranquilo...

Deixamos o acampamento às 7h09 na direção sul subindo suavemente pela encosta esquerda de um grande vale. O sol já iluminava e aquecia quase todo o vale, porém boa parte da trilha ainda estava na sombra, então mantive as roupas mais quentes. Em trechos mais úmidos havia água congelada no chão, ou seja, a temperatura foi negativa novamente durante a madrugada. Subíamos tendo os nevados Jurau e Carnicero como sentinelas à nossa direita, um pouco distantes. Mais próximo estavam o belo Nevado Trapecio, que aqui tem forma piramidal, e o Nevado Puscanturpa. Às 8h10 o Oliver (nosso arrieiro) nos ultrapassou com a tropa.

Às 8h40 a trilha atravessa uma área de desmoronamento, com o caminho aberto entre grandes blocos de pedra, e às 9h05 chegamos ao Passo Portachuelo. Altitude de 4776m, com 419m de desnível desde o acampamento feito em duas horas, ou seja, um passo bem tranquilo comparado aos outros. Enquanto esperávamos os colegas para reagrupar, Robert e Annie subiram um morro próximo para ter uma visão mais panorâmica.

Às 9h33 continuamos escoltados pelo Puscanturpa à direita (oeste), porém a sudeste surge um outro conjunto de nevados apartado de Huayhuash, é a bela Cordilheira Raura, que ficará sob nosso olhar ainda até o dia seguinte. A descida do passo foi bem suave também, com a trilha apontando diretamente para o Nevado Millpo, bem distante.

Às 10h20 avistamos a grande Laguna Viconga, represa construída para gerar energia, segundo Teo. Em 20 minutos cheguei próximo às suas margens, porém a trilha passa bem acima da água. Pudemos caminhar pela trilha mais baixa, mas quando o nível da represa está mais alto é preciso tomar a direita numa bifurcação e caminhar pela trilha mais acima. A visão da laguna com o grande Nevado Leon Huacanan (da Cordilheira Raura) ao fundo é espetacular.

De uma forma ou de outra tivemos que subir e passar por um portão onde havia dois homens cobrando a "protección". Como eu estava sozinho, eles perguntaram o nome do meu guia e liberaram a passagem. Aproveitei para perguntar o nome dos nevados avistados: Cuyoc (5550m) e Puscanturpa (5442m) a noroeste e Pumarinri (5450m) a oeste (no dia seguinte passaríamos entre eles, no Passo Cuyoc).

ImageAcampamento Águas Calientes

Após o portão a descida é inclinada e em ziguezagues em direção ao grande vale por onde corre o rio que extravasa da represa e desce furiosamente a íngreme encosta. Ao final da descida uma grande e caudalosa cachoeira. Depois o rio serpenteia vale abaixo um pouco mais manso e passa bem ao lado do acampamento Águas Calientes, aonde chegamos ao meio-dia em ponto. Altitude de 4369m, o acampamento mais alto do trekking segundo o meu gps. O dia realmente hoje foi fácil demais, uma forma de descansar para o que viria pela frente. Nesse dia deu até tempo de os cozinheiros prepararem um almoço quente, arroz com hambúrguer (ovo para mim).

O grande atrativo aqui, além das montanhas e do bonito rio, como o próprio nome já diz, são as piscinas de água quente. São três, a menor sendo usada para o banho completo, com sabonete e xampu, porém não havia vazão de água nela e o aspecto não era muito bom. A maioria foi direto para a piscina do meio, de temperatura bem agradável. A outra piscina grande estava com a água quente demais e ninguém conseguiu ficar. Aproveitei um tanque ao lado para lavar as minhas roupas, as quais secaram num instante por causa do vento e do ar seco.

Nesse acampamento havia vários grupos também, inclusive um pessoal da Bélgica que estava num esquema de muita mordomia. A equipe deles montou um banheiro privativo para eles não terem que usar o do acampamento, que foi o pior de todos: duas cabines de madeira sem porta e com um buraco fétido no chão.

Passamos o resto do dia descansando e curtindo aquele bonito lugar, primeiro nas piscinas, depois conversando na beira do rio. Robert, o inglês, sacou o seu pequeno violão para algumas bonitas canções intimistas. Joel, o suíço desinquieto, subiu uma montanha ao sul do acampamento só para não enferrujar os músculos ficando parado. Tony aproveitou para descansar e dormir um pouco, já que não estava conseguindo dormir à noite. No jantar estava até mais falante.

Encontrei o grupo de quatro brasileiros, todos de São Paulo (se não estou enganado), e conversamos rapidamente. Eles estavam com um guia brasileiro e um arrieiro para levar a maior parte do peso.

À noite o jantar foi espaguete com (poucos) legumes. Chá quente e cama!

Nesse dia caminhamos 11,5km.

ImageNevados Rasac, Yerupajá, Sarapo, Siulá e Carnicero vistos do Mirador San Antonio

03/08/15 - 5º DIA: DE ÁGUAS CALIENTES A GUANACPATAY COM SUBIDA DO MIRADOR SAN ANTONIO

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/CircuitoHuayhuash5DiaPeruAgo15.

O acampamento Águas Calientes foi o ponto extremo sul do nosso percurso. Para completar a volta ao redor da Cordilheira Huayhuash iniciamos gradualmente o retorno para o norte.

Começamos a caminhada do dia às 7h14 retornando pelo mesmo caminho do dia anterior até a ponte sobre o rio que vem da represa. Ali mudamos o rumo e tomamos a trilha que sobe a encosta na direção norte. Apesar de o sol já iluminar e aquecer todo o vale, essa subida foi toda na sombra, com muito frio.

Uma dica que deixo aqui é a seguinte: ao fazer esse trekking com o tempo firme e estável como pegamos, o melhor é sair do acampamento com o mínimo de roupa grossa possível, mesmo aguentando um pouco de frio no começo da caminhada. Se possível apenas uma segunda-pele e um fleece mais fino. Depois que se atinge o sol, todas as roupas quentes vão para a mochila de ataque, fazendo peso e volume para se carregar pelo resto do dia, um pequeno incômodo na minha opinião. Mas o impermeável precisa ficar na mochila de ataque sempre, pois nunca se sabe quando o tempo vai mudar, e ficar molhado num lugar frio como esse é um pulo para uma hipotermia.

Nessa subida para o Passo Cuyoc nosso amigo Tony ficou muito para trás (na verdade não o vi mais, como contarei mais à frente). Após um primeiro e longo aclive, vem um trecho plano emoldurado pelos lindos nevados Cuyoc e Puscanturpa. Ali ultrapassamos os quatro brasileiros e foi a última vez que os vi também. No segundo aclive, pouco inclinado, vai se formando atrás de nós uma linda visão panorâmica da Cordilheira Raura, aquela que conhecemos no dia anterior no Passo Portachuelo. À direita, é surpreendente a grossura das camadas de neve sobre o Nevado Cuyoc, parece que a montanha está coberta por um espesso chantilly. Por ali, às 9h30, o Oliver nos ultrapassou com os burros e mulas.

Às 9h43 cheguei ao impressionante e árido Passo Cuyoc, o ponto mais alto do trekking, com 5034m no meu gps. Desnível de 665m desde o acampamento, porém sem muita dificuldade. A visão para todos os lados é de cair o queixo, tudo maravilhosamente iluminado por um dia de sol e céu azul sem uma nuvem sequer. Uma recompensa por todo o esforço para se chegar até ali. A paisagem era tão inspiradora que nosso amigo Robert sentou-se para desenhar as montanhas em seu caderno de viagens.

Para trás (sudeste) tínhamos uma visão ainda mais ampla da Cordilheira Raura, à direita (nordeste) a montanha de chantilly sobre o Nevado Cuyoc, ao sul o cume duplo do Pumarinri e à nossa frente (noroeste) a vista grandiosa de um imenso vale com os nevados da Cordilheira Huayhuash à direita: Rasac, Yerupajá, Sarapo, Siulá e Carnicero. Ali o nosso guia Teo nos apontou onde ficava o Mirador/Passo San Antonio, e já deu para ter uma idéia da dificuldade que seria subi-lo. O San Antonio não estava no nosso trajeto e sua subida era opcional.

A pior parte do Passo Cuyoc estava por vir: a sua descida. Uma pirambeira de pedras soltas num ziguezague que parecia não ter fim. Desci com cuidado para não torcer o pé nas pedras e levei 36 minutos para chegar ao vale. Apesar da dificuldade, alguns dispararam na frente.

No vale voltamos a ter visão do Nevado Trapecio, agora num outro ângulo. Às 11h03 paramos numa bifurcação. Quem fosse subir o San Antonio deveria descer a um outro vale à direita, quem não fosse subir seguiria em frente para o acampamento com Teo. Só Annie optou por não subir. Tony estava muito para trás, nem o vimos no passo, e Henry o acompanhava com o cavalo à disposição, se necessário. Seguimos portanto nós seis para o San Antonio sem guia.

ImagePasso Cuyoc. À esquerda: Ancocancha (Rosario), Caramarca e Tsacra Chico. À direita: Rasac, Yerupajá, Sarapo, Siulá e Carnicero

Eu parei um pouco na bifurcação para comer algo e me distanciei do pessoal. Atravessei o vale meio encharcado (que na época das chuvas deve virar uma lagoa) e alcancei o Or (um dos israelenses) no sopé da montanha onde se encontra o mirador, às 11h31. O sol já estava forte. Comecei a subir pela ladeira de pedras e meu coração disparou, sentindo uma ligeira falta de ar. Quase desisti ali mesmo, pensando se valia mesmo a pena subir até os 5000m de novo (estava a 4524m). Mas insisti e pensei em subir até o primeiro platô, um pasto com vacas, para ter uma visão melhor do caminho e avaliar. Ao chegar lá os outros estavam me esperando (menos Joel, que quis bater o recorde de um israelense que subiu em 34 minutos). Isso me animou a continuar, mesmo sem ver como seria o caminho até o topo. Desse platô subimos pela encosta esquerda do vale, primeiro por trilha depois por um leito pedregoso cujo córrego ainda tinha placas de gelo, mas sem ter que molhar a bota. Só no alto é que pudemos ver como ainda seria difícil a chegada ao mirador, com a trilha bastante inclinada. Continuamos pelo caminho bem marcado entre pedras até alcançar a subida final, que foi se tornando mais e mais íngreme até virar uma trilha em ziguezague, que era a forma de evitar escorregar para trás ao dar o passo.

Cheguei enfim ao Mirador San Antonio às 12h49, altitude de 5008m, ligeiramente mais baixo que o Passo Cuyoc pelo meu gps, porém isso varia por ser um altímetro barométrico, baseado na pressão atmosférica. E posso dizer que valeu a pena o esforço. É uma paisagem grandiosa, quase inacreditável, de tantos picos nevados e lagunas perdidas pelos vales abaixo deles. À direita temos o Rasac, Yerupajá, Sarapo, Siulá e Carnicero. À esquerda, Jullutahuarco, Caramarca e Tsacra Chico. Lagunas Jurau, Santa Rosa e Sarapococha nos vales. Para trás o Passo Cuyoc e ali no alto só o nosso grupo, depois chegaram alguns israelenses.

Iniciamos a descida às 13h47 pelo mesmo caminho. Ao chegarmos ao primeiro platô (onde eles me esperaram) o Henry nos aguardava com o almoço. Depois terminamos de descer ao vale por um outro caminho, já na direção do acampamento (oeste). O grupo dos belgas acampou nesse vale, segundo o Henry eles iam subir o San Antonio e descer para o outro lado.

Continuamos descendo na direção oeste, passamos por casas construídas de pura pedra, e chegamos ao acampamento Guanacpatay às 16h13. Altitude de 4316m. Esse acampamento fica bastante isolado dentro do vale, apenas com essas casas de pedra a uma certa distância.

Mal cheguei e já soube que o guia Teo havia descido para a vila de Huayllapa levando o Tony, que se sentia extremamente cansado e com dores de cabeça mais fortes. Ele infelizmente estava saindo do trekking. Desde o começo ele dizia que tinha problemas à noite, não conseguia dormir, ao pegar no sono dava um pulo e acordava. Isso o deixava cansado, ficando sempre bem para trás do grupo. Nas subidas tinha bastante dificuldade, desde o primeiro passo no primeiro dia. Aquela noite ele dormiria em Huayllapa, depois em Cajatambo e só chegaria de volta a Huaraz dois dias depois. As rotas de fuga desse trekking são bastante complicadas. Teo ainda retornou naquela mesma noite ao acampamento.

O jantar foi arroz, purê de batata e ovo frito (veg para todos nesse dia).

O banheiro tinha vaso sanitário com caixa acoplada, ainda com assento e tampa. Luxo total. Era uma casinha com duas portas. Se não me engano havia um lavatório ao lado.

Nesse dia caminhamos 17,8km.

ImageDiablo Mudo

04/08/15 - 6º DIA: DE GUANACPATAY A HUATIAC COM PARADA NA VILA DE HUAYLLAPA

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/CircuitoHuayhuash6DiaPeruAgo15.

Deixamos o acampamento Guanacpatay às 7h04 e caminhamos bastante tempo por dentro do vale, sempre na sombra, com muito frio. Às 7h53, ao final desse vale, tivemos finalmente o calor do sol e uma bonita vista de outros vales bem mais abaixo, porém era o início de uma descida quase vertical onde foi preciso ir devagar e com cuidado. Logo vimos que estávamos descendo a encosta ao lado de uma grande cachoeira! E o fim da descida vertiginosa foi às margens do riacho que vinha dela, o Rio Guanacpatay.

Pausa para curtir o sol. Numa outra encosta para dentro do vale do Rio Calinca uma nuvem de poeira sinalizava que nossa tropa vinha por um outro caminho, já que aquele nosso seria muito arriscado para os animais.

Às 8h43 continuamos descendo pelo vale do Rio Huayllapa (resultado da junção dos rios Calinca e Guanacpatay) tendo-o à nossa direita a princípio, depois à nossa esquerda ao cruzar uma ponte onde a nossa tropa de burros e mulas nos ultrapassou. Paramos todos num portão onde Teo fez o pagamento da "protección" para a comunidade de Huayllapa. Dali já avistávamos a pequena vila mais abaixo e logo chegamos a uma bifurcação: subindo à direita o caminho para o acampamento Huatiac, descendo em frente a vila. O guia perguntou quem queria descer à vila e todos aceitaram. A princípio eu e outros não gostamos da idéia pois queríamos nos manter "longe da civilização" pelo máximo de tempo possível, imaginando que iríamos encontrar ali carros buzinando e outras neuroses do tipo (trauma de Huaraz), porém na vila só andamos por vielas em que nem cabem carros, e o lugar é tão primitivo que valeu a pena conhecer.

Paramos às 10h09 na Bodega Sol de Yerupajá para tomar algo gelado enquanto alguns colegas aproveitavam para recarregar as baterias de algum aparelho eletrônico. No salão dos fundos há dois interessantes mapas topográficos bem grandes na parede.

Saímos às 10h46 e subimos de volta à bifurcação para Huatiac, tomando a trilha que sobe à esquerda. E como sobe! E que sol forte estava! Dos 3509m de altitude da vila subimos direto até os 4012m, onde paramos para o almoço às 12h05. Robert já estava passando mal com a subida constante sob o sol tão quente.

ImageRio Huayllapa

Toda essa subida foi feita ao longo do vale do Rio Milo, que desce das montanhas. No princípio tínhamos o rio bem próximo, até o cruzamos em determinado ponto, e vimos bonitos poços de água cristalina e pequenas quedas. A direção geral da caminhada, que era oeste (grosso modo) desde a descida do Mirador San Antonio, passou a ser norte, o que se manteria até o meio do dia seguinte.

Após a pausa do almoço, retomamos a subida às 12h54. Mais acima cruzei pelas pedras um afluente do rio principal do vale e curiosamente encontrei uma senhora com roupas típicas, muito coloridas, andando pela trilha num local em que parecia não haver casa ou morador nenhum. Sua casa devia estar bem mais acima, mas numa outra direção. Será que eu já estava tendo alucinações? Culpa do mate de coca... kkkkk

Subi ainda mais um pouco e quando já pensava em parar para descansar a trilha nivelou e já pude avistar o acampamento Huatiac para dentro de um grande vale, a Quebrada Huancho. Cheguei a ele às 13h51, cruzando o Rio Huancho pelas pedras. O Henry se desequilibrou nessas pedras e caiu na água. Teve de trocar rapidamente as roupas molhadas.

Altitude de 4309m, exatamente 800m de desnível desde a vila de Huayllapa. No fundo desse vale o famoso Diablo Mudo (5223m), que algumas pessoas escalam durante o trekking, desde que contratado previamente com a agência pois é preciso levar equipamento para neve. A leste o Nevado Jullutahuarco.

Depois do habitual chá com pipoca da tarde, colocamos as cadeiras fora da tenda-refeitório para conversar aquecidos pelo sol. Porém à medida que o sol ia se escondendo atrás da montanha íamos mudando o círculo de conversa para mais longe do acampamento em busca do calor do sol e fugindo do frio da sombra. Até que desistimos pois todo o vale ficou na sombra.

O jantar foi espaguete com molho de tomate, em grande quantidade. Annie reclamou da carência de proteína na nossa alimentação e eles fritaram um ovo para ela.

Tivemos apenas um grupo como vizinhos esta noite, e foi um pessoal que chegou bem mais tarde pois fizeram um caminho diferente, pelas montanhas.

O banheiro desse acampamento é uma casinha com duas portas com vaso sanitário e descarga acoplada, porém só um deles estava em condições de uso, o outro estava entupido com papéis.

Nesse dia caminhamos 13,9km.

ImageDiablo Mudo e Laguna Susucocha

05/08/15 - 7º DIA: DE HUATIAC AO ACAMPAMENTO INCAHUAYIN/JAHUACOCHA

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/CircuitoHuayhuash7DiaPeruAgo15.

Como ninguém do grupo ia escalar o Diablo Mudo, saímos todos juntos às 7h11.

Esse dia para mim foi bastante desgastante, em parte pelo cansaço acumulado dos últimos dois dias e em parte por ter tido uma noite muito ruim, sem conseguir dormir depois da 1h da madrugada. E por falta de sorte foi um dia pesado, principalmente por causa do Passo Yaucha.

A subida para o Passo Tapush não foi difícil, mas me cansei bastante mesmo assim. Grande parte dela foi feita pela sombra, com muito frio. Cheguei ao passo às 8h51. Altitude de 4770m, desnível de 461m desde Huatiac. Joel, o agitado, já estava no topo de uma montanha bem alta próxima, para espanto até do guia.

Iniciamos a descida às 9h24 e logo fomos ultrapassados pela nossa poeirenta tropa. A bela Laguna Susucocha, à nossa direita, rendeu boas fotos. Após a laguna, a descida se torna bem mais inclinada e com muitas pedras soltas, até alcançarmos no vale o acampamento Gashpapampa, sem nenhuma barraca, apenas uma placa dando as boas vindas e uma cabine metálica que deve ser o banheiro.

Às 10h11 nos deparamos com um imenso vale bem à frente. Nessa hora a direção da caminhada muda de norte para leste para adentrarmos o vale em direção às cabeceiras. É a Quebrada Angocancha. A boa surpresa são os bonitos bosques de queñuales, árvores que desprendem a casca como um papel. A má notícia é a visão do Passo Yaucha, muito acima de nós, fechando a cabeceira do vale. Da encosta sul (à direita) em que estávamos passamos para a encosta norte do vale atravessando o Rio Angocancha pelas pedras, onde Teo pagou mais uma "protección".

O grupo estava por ali descansando e se preparando para a difícil subida do passo. Eu, como vinha por último, mal cheguei e todos já partiram, não descansei. Aliás nesse dia eu substituí o Tony como companhia para o Henry na rabeira do grupo. Aproveitei para exercitar meu portunhol conversando com ele, fazer o quê?

E lá vamos nós para o Passo Yaucha! Segui no meu passo devagar-e-sempre mas tive que parar uma vez e sentar numa pedra para descansar um pouco. O Henry me oferecia o cavalo o tempo todo mas quem subiu montado nele foi mesmo o Or.

ImageNinashanca, Rondoy, Jirishanca, Yerupajá Chico e Yerupajá vistos do Passo Yaucha

Cheguei ao Passo Yaucha às 11h45, altitude de 4838m, e não sabia se sentava ou se continuava andando por inércia. Não foi fácil! Permaneci alguns minutos no topo e logo descemos um pouco para o almoço num gramado logo abaixo.

A visão da Cordilheira Huayuash era espetacular, com a face oeste das montanhas que vimos nos primeiros dias: Ninashanca, Rondoy, Jirishanca, Yerupajá Chico, Yerupajá, Rasac e Siulá.

Retomamos a caminhada às 12h38, agora descendo tudo o que subimos. Oh, vida besta! Risos. Voltamos à direção geral norte. Durante toda a descida a vista para os nevados da cordilheira era espetacular, com muitas paradas para fotos, o que me distanciou completamente do restante do grupo, sempre afoito para chegar ao acampamento (e passar o resto do dia fazendo nada). Lá atrás éramos eu, o Henry e o Pajarito (o cavalo de emergência).

Às 14h uma das mais lindas paisagens de todo o trekking, como já disse anteriormente: a vista do acampamento Incahuayin com as duas lagunas, Jahuacocha e Solteracocha, e os nevados Ninashanca, Rondoy e Jirishanca ao fundo. Momento sublime!

A descida foi por uma superpoeirenta trilha em ziguezague até o vale e depois uma breve caminhada por ele até o acampamento Incahuayin/Inka Wain (também chamado de Jahuacocha, pelo nome da laguna), aonde cheguei às 14h30. Altitude de 4082m, o acampamento mais baixo do trekking. Pela primeira vez tive de me deitar ao chegar para tentar dormir um pouco. Quase não fui à sessão de chá com pipoca da tarde. Mas fiz um esforço e fui tomar o chá com Joel, que já estava de volta de um passeio pelas duas lagunas e a tentativa de subir ainda a outra que ficava aos pés dos nevados. Haja energia!

Este acampamento estava relativamente cheio, com diversos grupos terminando ou iniciando o circuito. Algumas pessoas pescavam trutas no límpido e gelado rio. Reencontrei o Rafael gaúcho e contamos nossas aventuras e dificuldades durante o trekking, cujos trajetos foram bem diferentes.

Nosso último jantar foi sopa de entrada (como sempre) e um pratão de arroz, tomate, beterraba, batata frita e croquetes. De novo veg para todo mundo (e desespero da Annie, pela falta de proteína).

Esse acampamento tinha dois banheiros. O do nosso lado do rio era bem ruim: duas cabines de metal sem porta e com um buraco fétido no chão. Do outro lado do rio duas cabines de madeira com uma bancadinha para se sentar, uma delas com assento plástico. Bem melhor!

Nesse dia caminhamos 15,9km.

ImageYerupajá Chico, Yerupajá, Rasac, Tsacra Chico e Tsacra Grande

06/08/15 - 8º DIA: DE INCAHUAYIN/JAHUACOCHA A POCPA

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/CircuitoHuayhuash8DiaPeruAgo15.

Saímos do acampamento para o nosso último dia de caminhada um pouco mais cedo, às 6h51. Nossa direção era oposta às lagunas, como que saindo do vale. Cruzamos então a ponte do Rio Achin (que brota das lagunas) e fomos na direção oeste até o pé da encosta à direita, lado oposto ao que descemos no dia anterior. Tomamos a direita numa bifurcação logo após um portão e em seguida começamos a subir a íngreme encosta. Se tivéssemos ido para a esquerda, pela trilha mais larga, sairíamos em Llamac.

Nesse dia me sentia bem melhor, resultado da soneca da tarde anterior e da noite mais bem dormida. Durante a madrugada fez menos frio também.

Na subida da encosta uma nota muito triste. Paramos um pouco junto às pedras que foram colocadas no exato local onde um rapaz israelense de 24 anos havia morrido duas semanas antes em seu último dia de trekking. E o guia era o próprio Teo, que nos contou que o rapaz parecia não estar bem desde o primeiro dia, pedindo sempre o cavalo. Talvez tivesse algum problema de pulmão, uma bronquite ou algo assim. Era uma suposição.

Continuamos a subida e só alcançamos o sol às 8h25, todo esse tempo caminhamos pela sombra gelada. Olhando para trás temos a última visão espetacular nesse trekking recheado de tantas paisagens belíssimas. O sol inundando o vale e iluminando a grande cordilheira com as montanhas que foram os protagonistas desses nossos oito dias de aventura: Rondoy, Jirishanca, Yerupajá Chico, Yerupajá, Rasac, Tsacra Chico e Tsacra Grande.

Chegamos ao Passo Shulca, o último passo do trekking, às 8h55. Altitude de 4559m, desnível de 477m desde o acampamento. De lá do alto já era possível ver a pequena Pocpa, muito abaixo de nós, no fundo do vale do Rio Llamac.

Iniciamos a descida às 9h13 e parecia não ter fim nunca mais aquele ziguezague montanha abaixo. Não paramos nenhuma vez, os ligeirinhos como sempre sumiram na frente. Eu fiquei na retaguarda com Henry, logo atrás de Teo e Annie. As partes mais bonitas dessa descida são os densos bosques de queñuales.

Às 11h22 finalmente alcançamos a vila de Pocpa, onde no início do trekking fizemos uma parada para carregar a van e conhecemos nossos guias. Altitude de 3498m, simplesmente 1061m de descida! Ali um almoço nos esperava. Depois fotos do grupo todo, infelizmente sem o nosso amigo Tony, e zarpar para Huaraz. Annie ficou por lá pois ia continuar sua cicloviagem pelo Peru. A entrega da gorjeta para a nossa equipe ficou a cargo de cada um, de acordo com o valor que achasse justo.

Partimos logo depois do meio-dia, passamos novamente por Llamac, Chiquian, Catac e outros vilarejos até chegar a Huaraz às 15h48. A van deixou cada um em seu hostel e eu fiquei nas imediações da Plaza de Armas para procurar um hostel melhor e mais central do que o Santa Cruz Trek Hostel.

Nesse dia caminhamos 10,7km.
Total do Circuito Huayhuash: 100,9km.

ImageEu, Or, Yoav, Joel, Ofri, Robert, Oliver (arrieiro), Henry (guia). À frente: Annie e Teo (guia)

Informações adicionais:

Mapas em escala 1:70.000 do Ministério da Educação:
. de Cuartelwain ao Passo Cacananpunta: http://escale.minedu.gob.pe/documents/10156/1367926/ugel_bolognesi_2018.pdf

. do Passo Cacananpunta ao Passo Portachuelo: http://escale.minedu.gob.pe/documents/10156/1367933/ugel_lauricocha_2018.pdf

. do Passo Portachuelo ao Passo Tapush: http://escale.minedu.gob.pe/documents/10156/1367939/ugel_11_cajatambo_2018.pdf

. do Passo Tapush a Pocpa: http://escale.minedu.gob.pe/documents/10156/1367926/ugel_bolognesi_2018.pdf

Alguns sites de agências de Huaraz que fazem o trekking Huayhuash:
. www.monttrek.com.pe
. www.andeanskyexpedition.com
. www.galaxia-expeditions.com
. www.schelerhuayhuashtrek.com
. www.andesexplorerperu.com
. www.enjoyhuayhuash.com
. www.miradortourshuaraz.com
. www.k2-peru.com
. www.activeperu.com

Não vou indicar nenhuma agência pois penso que cada um deve procurar os serviços que estiverem dentro das suas expectativas e do seu orçamento. O nosso trekking foi perfeito, serviço muito bom, mas tem gente que prefere mais privacidade, caminhando num grupo bem reduzido ou mesmo somente com o guia e arrieiro. Outros preferem fazer em 9, 10 ou até 12 dias, com menos caminhada por dia e mais tempo para curtir os lugares. Vale a pena fazer contato com as agências acima e escolher o trekking que melhor se encaixar no que você procura

Sem querer assustar ou desanimar ninguém, acho bastante recomendável consultar um cardiologista ou clínico geral para exames básicos, principalmente de coração e pulmão, antes de partir para um trekking como esse. As condições lá são muito diferentes do que temos aqui no Brasil. A altitude, a baixa temperatura e o ar extremamente seco podem causar sérios problemas de saúde a quem esteja vulnerável ou agravar algum problema que já se tenha. Não custa nada se precaver. Em caso de uma emergência durante o trekking as condições de resgate são precárias e demoradas demais, e mesmo as rotas de fuga são bastante complicadas. Quem leu o relato até o final sabe por que estou falando isso. Pense seriamente nisso!

Rafael Santiago
agosto/2015

Percurso na imagem do Google Earth
Percurso do 2º dia na imagem do Google Earth
Percurso do 3º dia na imagem do Google Earth
Percurso do 4º dia na imagem do Google Earth (em amarelo)
Percurso do 5º dia na imagem do Google Earth (em amarelo)
Percurso do 6º dia na imagem do Google Earth (em amarelo)
Percurso do 7º dia na imagem do Google Earth (em amarelo)
Percurso do 8º dia na imagem do Google Earth (em amarelo)

sábado, 12 de setembro de 2015

Lagunas 69, Churup, Willcacocha e Aguak: quatro trekkings de aclimatação para Huayhuash (Peru) - jul/15

ImageA primeira das Lagunas Llanganuco, chamada de Chinancocha

A primeira dica muito importante que dou para quem for viajar ao Peru (ou qualquer outro país) é se informar a respeito dos feriados nacionais. Os feriados mais importantes no Peru são a Semana Santa e as Fiestas Patrias (28 e 29/07). Eu tive o azar de marcar férias e comprar as passagens aéreas exatamente na semana da pátria peruana, e isso me causou muito transtorno para conseguir passagens de ônibus, hospedagem e acabei pegando os preços todos em dobro. Huaraz tem uma oferta enorme de hospedagem, com centenas de hostels e hotéis de todos os preços, mas por incrível que pareça todos estavam lotados pelo feriado. Depois de enviar e-mail para 15 hostels um deles me respondeu dizendo que tinha uma vaga, mas para garanti-la tive de enviar o dinheiro pelo serviço Western Union, o que foi mais um transtorno na véspera da viagem. E o hostel ficava um pouco fora do centro (chama-se Santa Cruz Trek Hostel e não recomendo). Para conseguir uma passagem de ônibus Lima-Huaraz tive que entrar no site de todas as empresas a cada duas horas durante a semana toda para ver se aparecia uma poltrona vaga, até que por sorte apareceu uma e comprei imediatamente.

Se soubesse do feriado da semana da pátria jamais teria marcado essa viagem nesse período. Foi uma grande dor de cabeça!

ImagePlaza de Armas de Huaraz

DE SÃO PAULO A LIMA E HUARAZ

Peguei em São Paulo o voo das 3h50 da madrugada da Lan para Lima, chegando às 7h15, hora local (duas horas a menos que no Brasil). Peguei minha mochila cargueira na esteira e ao passar pelo raio-x tive de entregar as duas maçãs que estavam na mochila de ataque. Ainda bem que não tive de pagar multa, como dizem que acontece no Chile. Troquei um pouco de dólares por soles só para pagar o táxi pois a taxa no aeroporto é muito ruim (estava 3,00 soles por dólar) e ainda cobram comissão de 3%. Várias empresas oferecem táxi logo na saída e acabei pegando um com a Green mesmo. O preço é tabelado. Foram 50 soles dali até o terminal da empresa de ônibus Linea, a única com a qual consegui uma passagem para Huaraz após uma semana inteira de tentativas (veja nas informações adicionais ao final do relato o site de todas as empresas que fazem a linha Lima-Huaraz).

Eu cheguei a pesquisar uma forma de ir do aeroporto ao terminal da Linea por transporte público mas ninguém recomenda fazer isso por causa da falta de segurança nos arredores do aeroporto e da precariedade dos ônibus que circulam por ali. Observando o transporte público da cidade de Callao, onde fica o aeroporto, vi que seria mesmo uma aventura fazer esse trajeto de ônibus, pois eles são pequenos, muito velhos e superlotados.

Cheguei ao terminal da Linea no Paseo de La República (bairro La Victoria, próximo ao centro de Lima) às 8h30 e aguardei o embarque às 10h30. Foram 8h de viagem com uma parada para almoço. Na chegada a Huaraz peguei um táxi (4 soles) até o hostel pois era noite, o hostel fica fora do centro e não sabia se era seguro ir sozinho a pé.

Tinha que jantar, mas desisti de ir ao centro a pé e arrisquei o restaurante em frente ao hostel, chamado San Remo. A comida é muito boa, o atendimento feito pelos próprios donos é excelente, e o preço é justo para quem mora em São Paulo e um pouco alto para os padrões de Huaraz. Foram 22 soles por um filé de frango caprichado com batatas douradas e salada variada. Wifi excelente.

No hostel comecei a minha dieta de mate de coca para ajudar na aclimatação. Não sei se foi bom, tem gente que diz que é placebo, mas sei que felizmente tive uma excelente aclimatação. Por recomendação médica, não utilizei os medicamentos Diamox e Decadron, que supostamente ajudam na aclimatação.

ImageLaguna 69

26/07/15 - 1º TREKKING DE ACLIMATAÇÃO: LAGUNA 69 (4603m)

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/Laguna69PqNacHuascaranPeruJul15.

Com muito pouca informação de como chegar à Laguna 69 de forma independente, e por ter chegado a Huaraz na noite anterior, contratei pelo hostel mesmo o serviço de uma agência para ir à Laguna 69 no dia seguinte. Como disse acima, por ser semana da pátria paguei 70 soles, quando o normal é de 30 a 40 soles.

Às 6h a van da agência Mony Tours passou no hostel para me pegar. Já havia algumas pessoas nela e no caminho subiram mais algumas. Pegamos a estrada sentido norte até a cidade de Yungay (onde completamos o grupo com mais 3 pessoas) e de lá estrada de terra serra acima. Paramos pouco depois das 8h30 para o café da manhã num Recreo Campestre. Logo chegamos à entrada do Parque Nacional Huascarán, onde pagamos 10 soles pela entrada de um dia (é possível comprar um bilhete de entrada válido por 21 dias por 65 soles). A partir daí entramos por um estreito vale entre altos paredões (uma quebrada) e temos nada menos do que os gigantes Huascarán (6768m) à nossa direita e Huandoy (6395m) à esquerda. O Huascarán é a montanha mais alta do Peru!

Subindo mais, a próxima parada (bem rápida, só para fotos) foi na primeira das Lagunas Llanganuco, chamada de Chinancocha, lagoa feminina em quechua (a seguinte se chama Orconcocha, lagoa masculina em quechua). As cores dessas lagunas são impressionantes, com vários tons de verde e de azul. Nas margens as interessantes árvores queñuales, que desprendem a casca como um papel.

Subindo mais um pouco com a van, a trilha para a Laguna 69 começa à esquerda da estrada de terra, na altitude de 3912m.

Não havia um guia coordenando o grupo, apenas um sujeito que nos acompanhou e achava que estava fazendo algum serviço de guia. Com isso as pessoas se dispersaram completamente durante o trekking (algumas chegaram à laguna quando todos já estavam voltando). E não há mesmo nenhuma necessidade de guia já que a trilha é bem marcada e até sinalizada em alguns pontos.

Começamos a caminhar às 10h12. A trilha desce até um grande vale, um local chamado Cebollapampa (3898m), onde havia algumas pessoas acampadas e até locais vendendo refrigerantes. Depois sobe suavemente pela Quebrada Yanapaccha (também chamada de Quebrada Demanda) em direção ao Nevado Chacraraju até que por volta de 11h vem a primeira subida mais forte. Ali o grupo se distanciou muito, com algumas pessoas mais aclimatadas disparando na frente e outras não aclimatadas e não acostumadas ao trekking ficando sentadas lá para trás. Por ser feriado nacional, muitos foram fazer esse trekking pensando ser um passeio qualquer, mas não é, a Laguna 69 fica a 4603m de altitude e o desnível desde Cebollapampa é de 705m. Por conta disso, vi muita gente passando mal, com enjoo, tontura e sangramento no nariz, consequências da não adaptação à altitude.

ImageHuascarán Norte (6654m) visto da trilha da Laguna 69

Nessa primeira subida encontrei uma fonte de água que parecia ser limpa e enchi meu cantil, consumindo-a sem nenhum tratamento (na volta fiz o mesmo). Não tive nenhum problema por causa disso.

A primeira ladeira termina aos 4384m numa linda laguna de cor verde com as bordas transparentes. Segue-se uma pequena descida para um outro grande vale. Para trás (sul) a visão do Huascarán e à esquerda (noroeste) o Nevado Pisco. Próximo a algumas ruínas de pedra começa a segunda (e última) ladeira, que vai dos 4410m aos 4603m. Ao final dessa subida caminha-se por uma trilha entre blocos de pedra e à frente a paisagem é de um paredão coroado pelos picos do Nevado Chacraraju (6108m) à direita (norte) e do Pisco (5752m) à esquerda (oeste). No fundo a lindíssima Laguna 69, de uma cor azul inacreditável, com águas glaciais límpidas e transparentes. Cheguei às 13h10.

Havia muitos e muitos grupos ali, com as pessoas se espalhando às margens da laguna, mas ninguém arriscou entrar nas águas geladas. Às 14h20 iniciei o retorno pelo mesmo caminho e às 17h30, depois de muitas fotos e até algumas curtas paradas para conversar com outras pessoas, estava de volta à van.

Porém tivemos que esperar até 18h10 para que todos do nosso grupo estivessem de volta. O sujeito que se passava por guia não colocou um horário limite para a subida à laguna e muita gente chegou lá quando todos já estavam descendo de volta. Uma verdadeira bagunça! Pegamos estrada de novo e, depois de quase 3 horas de viagem de volta, chegamos a Huaraz às 21h. Pelo horário, já estava um pouco tarde para ir jantar no centro, então comi de novo no restaurante San Remo, em frente ao hostel. O mesmo prato, 22 soles por um filé de frango caprichado com batatas douradas e salada. Ao fim da viagem vi que foi a melhor comida que provei na cidade. E mais mate de coca!

Como meu primeiro trekking de aclimatação para Huayhuash me senti muito bem e fiquei bem feliz com a minha fácil adaptação à altitude. Senti apenas um pouco de dor de cabeça na laguna, mas voltando aos 3090m de altitude de Huaraz isso logo passou.

Custo do trekking de hoje: 70 soles por ser semana da pátria. O preço normal é de 30 a 40 soles através das agências de Huaraz, o que deve ser mais barato do que fazer por transporte público.

ImageLaguna Churup

27/07/15 - 2º TREKKING DE ACLIMATAÇÃO: LAGUNA CHURUP (4458m)

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/LagunaChurupPqNacHuascaranPeruJul15.

Nesse dia começou a minha verdadeira aventura pela cidade pois dispensei os serviços caros e ruins das agências para fazer as caminhadas de forma independente.

Fui procurar a kombi (assim eles chamam as pequenas vans) que leva ao início da trilha para a Laguna Churup e a encontrei na Avenida Gamarra, estacionada em frente ao número 311, ao lado de um grifo (posto de gasolina). Cheguei ali às 6h20 mas a kombi só sai quando lota, entre 7h e 7h30. O seu destino normalmente é Llupa (pronuncia-se Iúpa), por 5 soles, mas se pelo menos cinco pessoas quiserem ir até Pitec (pagando mais 5 soles cada um) então eles esticam mais 11,6km até lá, deixando exatamente no início da trilha para a Laguna Churup.

Como ainda era cedo, a senhora quechua (cobradora da kombi) me levou ao "mercado" mais próximo para eu comprar pão e queijo para o lanche de trilha. Na verdade era uma feira de rua bem pequena e modesta, mas que tinha todas as interessantes características de uma autêntica feira da serra peruana, com bancas vendendo frutas, legumes, verduras, farinhas, feijões, etc. E ao lado um casal vendia lanches de queijo, ovo e ainda bebidas quentes feitas com quinoa e maca. Claro que aproveitei a oportunidade para mergulhar de cabeça no modo de vida deles, tomando o café da manhã ali na rua junto com os peruanos. Viajar para mim é isso!

De volta à kombi, com um saquinho com oito deliciosos pães e ainda um pedaço de queijo comprados no "mercado", esperamos completar a lotação. Parecia que mais ninguém ia aparecer, mas de uma hora para outra surgiu um grupo de cinco argentinos e vários outros turistas, inclusive um peruano muito comunicativo, o Juan, com quem fui conversando a viagem toda.

Uma informação importante é que há apenas duas ou três vans que saem de manhã do centro de Huaraz para Llupa ou Pitec e retornam à tarde. Não soube de outra opção de transporte público além desse. No caso de as vans irem até Pitec ficam lá esperando os turistas voltarem. Se não houver quórum para irem a Pitec é preciso caminhar 4,2km de Llupa a Pitec por trilha ou 11,6km pela estrada poeirenta.

A viagem durou das 8h10 às 9h10 e subiu dos 3090m de Huaraz até os 3864m de Pitec. Paguei novamente 10 soles pela entrada no Parque Nacional Huascarán e começamos a caminhada às 9h23 encarando já de início uma longa subida. Logo o Juan e seu filho ficaram para trás mas não pude esperá-los pois precisava caminhar no meu ritmo e testar a minha adaptação à altitude. Nessa trilha a subida é constante, diferentemente da Laguna 69. Obviamente não tínhamos guia nesse dia, mas o caminho é todo bem batido, sem nenhuma dúvida. Às 11h a trilha estabiliza por alguns metros e desce um pouco na direção de uma cachoeira. Do seu lado esquerdo se encontra a sequência de três cabos de aço que auxiliam na subida de uma parte mais vertical, mas onde todos passam sem grandes problemas, apenas reclamando um pouco da dificuldade inesperada.

Após o terceiro cabo de aço são apenas 8 minutos até as margens da linda laguna, essa de cor verde transparente, aonde cheguei às 11h17 (nesse trecho enchi meu cantil num riacho de água aparentemente confiável e bebi sem tratá-la). Altitude de 4458m, desnível de 594m desde o início da caminhada. A Laguna Churup está encaixada também entre paredões de pedra, sendo que à esquerda do ponto de chegada (nordeste) se encontra o Nevado Churup (5495m), que pode ser visto da Plaza de Armas de Huaraz.

ImageLaguna Churup com o Nevado Churup ao fundo

Havia também vários grupos por ali e alguns malucos se dispuseram a entrar na água congelante. Fiz meu lanche, conversei com pessoas de várias partes do mundo e esperei o Juan e seu filho chegarem. Às 13h32 começamos o retorno pelo mesmo caminho e chegamos à van às 15h20. Demoramos porque o filho do Juan, de 15 anos, começou a passar mal na descida por causa da altitude. Apesar de estarmos baixando ele continuava ruim, tendo dificuldade para caminhar e parando para sentar diversas vezes.

Fomos os últimos do nosso grupo a chegar à van e quando chegamos, uma situação absurda: a cobradora nos disse que estava lotada! Ela não nos esperou e colocou várias outras pessoas no nosso lugar, gente que deve ter subido pela trilha desde Llupa. Havia um só lugar naquele aperto desgraçado da van e o Juan fez questão que eu fosse. Hesitei em deixá-los ali sem outra alternativa, mas entrei na van (10 soles). Fiz uma viagem terrível até Huaraz, num aperto horrível, sem poder me mexer um centímetro. E pensando como eles fariam para voltar à cidade, ainda com o rapaz passando mal. Infelizmente não peguei um contato dele para saber o fim da história. Acredito que tenha conseguido uma carona com um dos carros que estavam estacionados por ali.

Bem, fica então outra dica muito importante: se pegar a van de linha até Pitec, não seja o último a voltar da laguna pois você pode nem encontrar mais a van lá.

Nesse dia de aclimatação me senti ainda melhor, sem nenhuma dor de cabeça. O único cuidado é que é preciso caminhar lentamente pois um esforço a mais causa uma sensação bem ruim de falta de ar e faz disparar o coração.

Custo do trekking de hoje: 20 soles (que pode cair à metade se a van for até Llupa e você fizer o restante do caminho a Pitec por trilha, são 4,2km).

Tive ainda o resto do dia para finalmente caminhar pela cidade, conhecer um pouco mais de Huaraz, e jantar um lomo saltado por 8,50 soles num restaurante muito simples, mas com wifi perfeito para ligar para o Brasil via facebook. E mais mate de coca!

Não posso deixar de comentar que Huaraz é uma cidade muito feia, suja e bagunçada. Agora, muito pior que isso são as benditas buzinas. Cada motorista sai com o carro na rua com o pé no acelerador e a mão na buzina. É um inferno! Todos buzinam o tempo todo sem o menor sentido, sem nenhum motivo, só pela mania de tocar a buzina como pisam no acelerador. Já tinha notado essa mania na rápida passagem por Lima, mas Huaraz foi o pior lugar que conheci em termos de poluição sonora nas ruas.

ImageLaguna Willcacocha e Cordilheira Blanca ao fundo

28/07/15 - 3º TREKKING DE ACLIMATAÇÃO: LAGUNA WILLCACOCHA (3742m)

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/LagunaWillcacochaCordilheiraNegraPeruJul15.

Ao descer do meu quarto para a recepção do hostel pouco depois das 6h, encontro o dono explicando a um rapaz como chegar a algumas das famosas lagunas de forma independente e usando o transporte público. Começamos a conversar em portunhol até que ele perguntou de onde eu era. Dali em diante relaxamos e passamos a conversar em português pois ele era brasileiro também... risos.

Disse-lhe que ia para a Laguna Willcacocha naquele dia e ele se interessou. Caminhamos até o centro e na esquina das ruas Antonio Raymondi e Hualcan (ao lado do Mercado Central) pegamos a kombi (van) de número 10 (1 sol). Pedimos para descer na Puente Santa Cruz, na localidade de Chiwipampa, 9km ao sul de Huaraz. Começamos a caminhar às 7h52. Altitude de 3183m.

Em tempo: antes de partir para essa caminhada voltei ao "mercado" do beco da Avenida Antonio Raymondi para tomar meu desjejum de quinoa e pão com ovo, como no dia anterior.

Cruzamos a ponte sobre o Rio Santa e iniciamos a subida, que seria constante até atingirmos a laguna. Cerca de 180m após a ponte abandonamos a estrada de terra em favor de uma trilha larga que sobe à esquerda. Aos poucos o Rio Santa vai ficando bem abaixo de nós. Passamos por um pequeno cemitério à esquerda e logo chegamos ao primeiro conjunto de casas. Ali um pequeno erro (que outras pessoas também cometem): o certo é voltar à estradinha de terra, à direita, mas continuamos pelos caminhos mais estreitos do povoado para a esquerda até percebermos que não estávamos mais subindo. Perguntamos e voltamos à estradinha de terra, subindo e atravessando o "centro" do povoado de Santa Cruz.

O caminho principal para a Laguna Willcacocha é na verdade uma estrada de terra na qual sobem carros comuns e táxis. O caminho que nos foi ensinado é composto de atalhos em forma de trilha larga que cortam os longos ziguezagues da estrada, sendo bem mais curto e direto.

Logo após atravessar o "centro" do povoado de Santa Cruz, não vimos a entrada da trilha à direita e continuamos pela estrada. Por sorte esse era o menor dos ziguezagues e logo tínhamos a trilha bem nítida atravessando a estrada. Pegamo-la subindo à esquerda às 8h43 e em 22 minutos atravessamos a estrada pela última vez. Às 9h27, depois de passar por lindas e douradas plantações de trigo, chegamos à Laguna Willcacocha. Altitude de 3732m, com desnível de 549m desde a ponte sobre o Rio Santa.

ImageVale do Rio Santa e Cordilheira Blanca norte ao fundo

A laguna, comparada às anteriores, é pouco atrativa, apenas uma lagoa com gramado ao redor. Porém o grande atrativo do lugar é a vista espetacular da Cordilheira Blanca. Uma grande placa colocada no final da trilha dá o nome de cada montanha da cadeia, sendo o Huascarán o mais alto, com 6768m, bem ao norte. Relembrando que ele é a montanha mais alta do Peru. Na porção sul da cordilheira o destaque é o Nevado Huantsán, o mais alto, com 6369m. A cadeia montanhosa onde se encontra a Laguna Willcacocha é chamada de Cordilheira Negra, por não ter cumes nevados, em contraposição à Cordilheira Blanca.

Depois de muita contemplação (o dia estava espetacular!) e fotos, iniciamos a descida às 10h56 pelo mesmo caminho. Desta vez não perdemos a trilha que deixamos passar na subida. Às 12h05 estávamos de volta à Puente Santa Cruz e uma van que passava na rodovia parou sem que fizéssemos nenhum sinal (1 sol).

Nessa caminhada não encontrei nenhuma fonte de água. Havia várias outras pessoas na laguna que devem ter subido de carro (havia vários carros estacionados bem próximo). Na descida cruzamos com muitas pessoas subindo, porém naquele horário o sol já estava bem forte, tornando a subida bem desgastante.

Custo do trekking de hoje: 2 soles (teve uma agência de Huaraz que teve a cara de pau de me pedir 120 soles por essa caminhada).

Como ainda era cedo, fomos para o segundo passeio do dia: as ruínas de Wilcahuain (ou Willkawaín). Na esquina das ruas Cajamarca e 13 de Dezembro, no centro de Huaraz, pegamos a kombi (van) para Wilcahuain (1,50 sol). Saindo da cidade, a estrada de terra sobe muito, cruza povoados até chegar às ruínas, numa altitude de 3420m. O sítio arqueológico está dividido em dois, numa distância de 750m entre si. Saltamos da van no primeiro e pagamos 5 soles pela entrada. Visitamos as construções por fora e por dentro, com corredores e passagens estreitas e baixas, e o museu. As construções datam de 600 a 900 dC, sendo anterior ao Império Inca. Depois voltamos à estrada e caminhamos 10 minutos até o segundo sítio, onde se entra com o mesmo tíquete. Lá mais quatro construções, porém suas entradas eram muito baixas e pouca gente tentava entrar. Fizemos um lanche. Voltamos ao primeiro sítio para esperar a van de volta a Huaraz (1,50 soles). Na cidade nos separamos e eu fui comer de novo o lomo saltado de 8,50 soles.

ImageLaguna Aguak

29/07/15 - 4º TREKKING DE ACLIMATAÇÃO: LAGUNA AGUAK (4551m)

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/LagunaAguakHuarazPeruJul15.

Saí do hostel pouco depois das 6h e voltei à esquina das ruas Cajamarca e 13 de Dezembro no centro para pegar a kombi (van) para Wilcahuain (1,50 sol). Mas antes estiquei até o beco da Avenida Antonio Raymondi para tomar meu habitual desjejum de quinoa e pão com ovo no "mercado".

Até a hora de a van sair só entraram moradores locais, o que significava que eu iria fazer a caminhada de hoje sozinho. No último instante entrou um gringo. A van subiu as estradinhas de terra pelo mesmo caminho do dia anterior até as ruínas e o rapaz pediu ao motorista que o deixasse no início da trilha para a Laguna Aguak, meu destino também. Saltamos juntos e nos apresentamos. Ele era alemão, chamava-se Stefan, e estava sozinho porque sua namorada havia torcido o pé na rua em Huaraz, sem condições de trilhar.

Essa trilha pode ser iniciada pelo menos em três pontos distintos, pelo que pude constatar. Dois deles ficam muito próximos ao primeiro sítio arqueológico de Wilcahuain, porém por ali há uma subida forte logo de início. O motorista nos deixou 1,2km à frente das ruínas (à esquerda na primeira bifurcação), num local com subida inicial mais suave, na altitude de 3444m.

Começamos a caminhar às 7h38 e a trilha é um caminho largo e bem marcado. Após um trecho plano vem a subida de verdade, montanha acima, num infindável ziguezague. Marcações da distância percorrida foram pintadas nas pedras a intervalos de poucos metros, o que nos deixa ansiosos por alcançar os 6000m, que é o fim da trilha e a chegada à laguna.

A altitude é significativa, então paramos duas vezes para descansar e comer algo, a primeira na cota dos 4060m e a segunda aos 4428m. Às 11h06 chegamos enfim à Laguna Aguak, que repousa suas lindas e profundas águas azuis escuras a 4551m de altitude. O Stefan sacou da mochila o seu almoço e se sentou logo à chegada, eu fui explorar os arredores da laguna para registrar os melhores ângulos. Havia apenas três pessoas no local e elas estavam na margem à nossa direita. Voltaram rapidamente e eu fui andar pelo local onde estavam. Porém foi preciso descer uma parede rochosa bem vertical, não muito alta, mas com poucos apoios. Como eles haviam voltado rapidamente por ali achei que fosse fácil subir de volta. Grande engano! Depois de tirar fotos de todos os ângulos daquele lado da laguna, inclusive dos nevados mais distantes e de Huaraz bem abaixo, tentei voltar. Ao chegar à parede não conseguia subir ao topo, não havia apoio para mãos e pés. Nessa hora apareceu o Stefan junto com um suíço que havia acabado de chegar, e foi o suíço quem esticou sua mochila e, segurando na alça dela, consegui sair daquela enrascada em que me meti. Portanto, fica o aviso: calcule bem se vale a pena descer essa parede e se terá apoio para subi-la de volta.

ImageLaguna Aguak

Das margens da laguna pode-se observar o cume do Nevado Vallunaraju (5686m) a nordeste, a pontinha do Nevado Churup (5495m) um pouco mais distante a leste, e o cume do Nevado Huantsán (6369m), o pico mais alto da Cordilheira Blanca sul, uns 20km a sudeste, na extremidade esquerda de um conjunto de nevados. Todas essas montanhas podem ser vistas da Plaza de Armas de Huaraz.

Stefan e o suíço (Joel) foram explorar algumas lagunas que estavam escondidas mais acima, tomaram a continuação da trilha e desapareceram num segundo. Eu tirei fotos de um ponto mais acima e resolvi começar a descer já que não alcançaria os dois ligeirinhos. Iniciei o retorno às 13h43, pelo mesmo caminho, e só parei na altitude de 3878m para descansar um pouco as pernas de tanta descida por pedras soltas. Mais abaixo (3785m) o caminho largo bifurcou e segui para a esquerda. Logo alcancei a parte plana.

Sem prestar atenção no gps, em algum ponto saí do caminho por onde viemos e acabei sem querer descobrindo um dos outros caminhos de acesso descritos anteriormente. Desci bastante por uma ladeira, a qual não deve ser muito agradável de enfrentar logo no início da caminhada, como disse, e alcancei um fim de estrada junto a uma grande caixa-d'água com cerca. Continuei pela estradinha deserta e constatei que esse é o caminho "oficial" já que a marcação de distância nas pedras continuou. Segui à esquerda numa bifurcação na altitude de 3465m, junto a uma casa (mas verifiquei depois que se seguisse à direita também sairia na estrada, próximo às ruínas), até que atingi o ponto zero das marcações ao alcançar a estrada de terra, ao final de uma rampa de concreto, pouco acima das ruínas de Wilcahuain, às 16h44. Altitude de 3424m.

Nessa caminhada não encontrei nenhuma fonte de água confiável.

Na descida encontrei apenas dois casais que me perguntaram ansiosos quanto faltava para chegar à laguna. Como se vê, o trekking da Laguna Aguak, apesar de ótimo para aclimatação e de custo muito baixo, é pouco conhecido.

Dali esperei alguns minutos pela van (1,50 soles) e voltei a Huaraz. Percorri algumas agências de trekking do centro e finalmente apareceu um grupo saindo para Huayhuash, e já no dia seguinte logo cedo! Mas isso eu contarei no relato do Circuito Huayhuash que estou escrevendo.

Custo do trekking de hoje: 3 soles.

À noite resolvi jantar no restaurante Encuentro, que fica numa praça chamada Parque Periodista entre os prédios da Avenida Luzuriaga (há outro na Rua Julian de Morales). O prato de filé de frango que pedi custava o mesmo que no restaurante San Remo em frente ao hostel (22 soles) mas estava meio frio e com acompanhamento muito pobre.

ImageBonita laguna na trilha da Laguna 69

Informações adicionais:

As empresas de ônibus que fazem a linha Lima-Huaraz (e que têm site) são:
. Cruz del Sur - www.cruzdelsur.com.pe
. Linea - www.transporteslinea.com.pe
. Moviltours - www.moviltours.com.pe
. Oltursa - www.oltursa.pe
. ZBuss - http://zbuss.com
. Julio Cesar - www.transportesjuliocesar.com.pe

Tanto Lima quanto Huaraz e Caraz não têm rodoviária. Cada empresa tem seu próprio terminal com o guichê de venda da passagem. A empresa Moviltours tem agência no centro de Huaraz mas o terminal fica no bairro Centenario.

A cotação do sol para o dólar estava:
. no aeroporto de Lima em 25/07/15: 3,00 soles = US$1 com comissão de 3%
. nas casas de câmbio de Huaraz: 3,15 soles em julho e 3,18 soles em agosto sem comissão

Rafael Santiago
agosto/2015