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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Travessia Diamantina-Biribiri pela Serra dos Cristais (MG) - mai/15

ImageSerra na direção de Mendanha

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/TravessiaDiamantinaBiribiriPelaSerraDosCristaisMGMai15.

Sempre tive vontade de conhecer a vila de Biribiri por sua importância histórica. Ali existiu uma das primeiras comunidades fabris do estado de Minas, graças à fábrica de tecidos criada pelo Bispo Dom João Antônio dos Santos em 1876. A vila tinha geração própria de energia elétrica, armazém, escola, barbearia, igreja, restaurante e até clube. A fábrica foi desativada em 1972 e atualmente a vila é uma área particular administrada pela empresa Estamparia S/A.

Como não existe transporte público para o local e o trajeto de 15km pela estrada seria muito entediante para caminhada (interessante para bicicleta), vasculhei nas imagens do Google as possíveis trilhas no alto da serra entre a vila e Diamantina. Tracei para a ida uma rota que aproveitava a parte inicial da travessia Diamantina-Mendanha, chamada de Caminho dos Escravos, porém com um desvio em determinado ponto. E para a volta descobri uma trilha que parte da Cachoeira dos Cristais diretamente para o sul, reencontrando o Caminhos dos Escravos já próximo da rodovia BR-367. Dessa forma, desenhei um circuito bem bonito e interessante utilizando muito pouca estrada no percurso (exceto no desvio obrigatório que fiz pela rodovia por causa da falta de segurança na periferia de Diamantina).

1º DIA: DE DIAMANTINA À SERRA PRÓXIMA A BIRIBIRI

Às 11h25 parti do famoso mercado municipal de Diamantina descendo a Rua do Burgalhau, exatamente onde está fincada uma placa com informações sobre a travessia para Mendanha (Caminho dos Escravos). Desci toda a ladeira e na trifurcação da praça fui em frente (nem direita nem esquerda), pegando a Rua do Areião. Na bifurcação seguinte fui à direita e com mais 100m passei por um posto BR à esquerda. Na trifurcação a seguir fui para a esquerda, seguindo a placa do Caminho dos Escravos. Mas logo fui alertado pelos moradores de que havia ocorrido um assalto a um grupo de caminhantes naquela mesma manhã, além de outros casos nos últimos meses. Tive de buscar uma alternativa mais segura para continuar. Voltei ao posto BR e tomei a rua à direita às 11h49. Passei por um mercado à esquerda junto à pequena rotatória e na bifurcação subi à direita pois à esquerda voltaria ao centro. Essa é a Avenida Barão de Paraúna, que logo vira uma estrada sem acostamento que sobe até o trevo/rotatória de Biribiri, aonde cheguei às 12h16. Se fosse para a vila pela estrada é aqui que eu entraria, numa rua à esquerda, que também é o acesso à portaria do Parque Estadual do Biribiri. Esse trevo/rotatória fica exatamente na BR-367, longa rodovia que liga a cidade de Gouveia ao sul da Bahia. E foi por ela que caminhei 2,2km, até o local em que o Caminho dos Escravos a cruza, no km 585, sinalizado por várias placas. Ali as pessoas costumam parar o carro para visitar o grande calçamento feito pelos escravos no século 18, que fica a poucos metros da rodovia.

ImagePepalantus

Com esse desvio compulsório caminhei 1,6km a mais do que da outra vez, quando pude percorrer o caminho oficial, sem problemas de segurança. O relato dessa travessia está em travessia-diamantina-mendanha-pelo-caminho-dos-escravos-serra-do-espinhaco-mg-jun-12-t73278.html.

Retomei assim o Caminho às 12h58 subindo pela trilha à esquerda da rodovia (norte). Uma placa me diz que estou entrando no Parque Estadual do Biribiri, e nele permanecerei durante quase toda a caminhada. A água que corre ali vem das nascentes do Córrego Água Limpa, mas é bem vermelha e não pareceu confiável. A visão de Diamantina para trás vai se ampliando à medida que subo mas desaparece quando alcanço os campos acima. Estou em plena Serra dos Cristais e surge no horizonte a sudeste uma montanha onde já estive e onde poria os meus pés novamente daí a alguns dias, o Pico do Itambé. O caminho é largo e bem marcado, e há diversas placas registrando a distância já percorrida (números válidos desde que se faça o caminho oficial). Uma trilha surge à direita mas a placa manda seguir em frente (esse parece ser um atalho pouco usado). Cerca de 400m depois uma estradinha entronca à esquerda. Mais à frente uma trilha vem da direita, justamente a do atalho. Passo a caminhar exatamente na direção dos prédios da Universidade Federal do Vale do Jequitinhonha e Mucuri, campus JK.

A estradinha desce e junto a um eucalipto solitário uma placa sinaliza que eu devo entrar na trilha à esquerda, abandonando a estrada. A trilha cruza outra estrada de terra e se aproxima um pouco mais dos prédios da universidade, que ficam do outro lado da BR-367. Porém faz uma curva para a esquerda e entra num trecho de 500m de mata, retomando a direção norte. Essa é uma das raras sombras de toda essa caminhada. Ao sair da mata há uma grande erosão à esquerda. Às 14h05 cruzo um riacho (afluente do Córrego da Roda) por uma ponte de troncos mas o acesso a ele não é tão fácil e não pego água. Onze minutos depois atravesso uma estrada de terra, mas continuo caminhando pela trilha. Às 14h21 chego à placa que chama a atenção para os picos que serviram de referência para os tropeiros: Pico do Itambé e Pico Dois Irmãos, ambos visíveis nesse dia. Bem mais próximo, a nordeste, destaca-se uma serra (sem nome na carta) em cujo lado esquerdo passa a trilha para Mendanha.

ImageCórrego Soberbo

Uns 350m depois da placa dos picos, uma trilha dupla entronca à direita e alcanço outra placa que diz "km 8,268 - não use atalhos", junto a uma trilha à direita. Aqui abandono o Caminho dos Escravos (para Mendanha) e tomo a direção que me levará à vila de Biribiri, ou seja, ignoro essa trilha à direita onde está a placa e sigo em frente pela estradinha. Assim volto à direção norte (após ter caminhado um trecho para nordeste) e me afasto definitivamente da BR-367. Logo a estradinha começa a descer mais inclinada e chego a uma porteira de ferro com cadeado. Pulei-a às 14h53, subi um pouco à esquerda e quando a visão se abre novamente observo um cânion abaixo à esquerda, mas não me aproximo para explorar. Desço bastante até encontrar uma casa isolada às margens do rio do cânion, o Córrego da Roda, onde apenas uns cachorros assustados deram sinal de vida. Ali não há saída. Voltei 80m acima da casa e peguei uma trilha à esquerda (nem a notei à direita na descida), cruzei uma tronqueira e nas duas bifurcações a seguir fui à esquerda e à direita, logo entrando na sombra da mata.

Às 15h28, ainda dentro da mata, peguei a direita numa bifurcação e com apenas 25m cheguei ao Córrego Soberbo, um local bem aprazível, ótima parada para um lanche. Ali não é difícil atravessá-lo pelas pedras. Se tivesse pego a esquerda na bifurcação poderia cruzá-lo num único salto, após uma tronqueira. Retomando a caminhada às 16h cruzei o Soberbo pelas pedras e peguei a trilha da direita, me afastando do rio. Mas antes abasteci os cantis pois seria a última água corrente do dia. Segui sempre pelo caminho mais aberto até chegar às 16h17 a uma estrada larga de terra, para minha surpresa até com marcas de pneu. Quando ela bifurcou, fui para a esquerda. Cruzei uma porteira azul de ferro e uns 20m depois entrei numa trilha à direita, deixando a estrada, que desce numa curva para a esquerda. A trilha subiu bastante e no alto encontrei o trecho de paisagem mais bonita do dia ao caminhar entre jardins de rochas de formato curioso e estranho. Ao me afastar um pouco desses jardins de pedra e ganhar o campo, a trilha dá uma guinada para a esquerda (de norte para oeste) na direção de um serrote de pedras, desviando do grande platô que eu avistava à frente (17h04). Ela desenha um zigue e um zague para subir a serrinha e no alto cruza uma tronqueira. A paisagem muda novamente, com um típico cerrado à minha volta agora, em lugar dos campos rupestres. Após uma outra tronqueira, às 17h30, tratei de encontrar um local para montar acampamento pois ainda faltava muito para chegar a Biribiri.

Altitude de 1263m.
Nesse dia caminhei 17,9km (descontados os erros e explorações).

ImageCampos rupestres

2º DIA: CHEGADA A BIRIBIRI E A VOLTA A DIAMANTINA

Apesar do céu estrelado da noite anterior, amanheceu bastante encoberto e com neblina, mas nada que prejudicasse a visualização do caminho.

Nesse dia deveria chegar à vila de Biribiri e retornar por trilha a Diamantina a tempo de pegar o ônibus das 15h para São Gonçalo do Rio Preto, mas como não conhecia nada do caminho tive de apertar o passo.

Comecei a caminhar às 6h42. A trilha seguiu bem batida entre as árvores do cerrado, mas quase desapareceu no capim ao chegar ao campo aberto. Na procura foram aparecendo outras picadas pouco usadas. Mas foi só caminhar por uma delas para oeste pelo campo que logo me deparei com um duplo trilho vindo da direita, até com marcas de pneu! Cruzei uma porteira de arame (estava aberta) e o caminho já virou uma estrada precária. Uns 330m depois da porteira abandonei a estradinha em favor de uma trilha à direita que subiu bastante. Ao atingir o topo às 7h08, imediatamente comecei a descer, inicialmente de forma suave, quase em nível, mas numa guinada para a direita desci de vez para o grande vale que se avista do alto. Nessa guinada há uma bifurcação na descida, tomei a direita, a trilha pareceu sumir mas reapareceu e encontrou logo o ramo da esquerda da bifurcação. No fundo do vale salto o riacho às 7h38 (afluente do Córrego Mocotó) e 10 minutos depois cruzo pelas pedras o próprio Córrego Mocotó. É a primeira água do dia. Na subida fui à esquerda na bifurcação por ser o caminho mais curto, mas tanto faz.

No alto, às 8h04, uma bifurcação que merece atenção pois o lado mais batido é o da direita, porém o meu caminho tinha de ser para a esquerda, descendo, logo tendo visão das estradas no vale. Passei por um interessante muro de arrimo feito de pedras para sustentar a trilha, um registro histórico. Mais abaixo, numa curva para a direita, explorei uma trilha saindo à esquerda e cheguei a uma bonita cachoeira do Córrego Mocotó. Às 8h42 entrei na mata ciliar do Ribeirão das Pedras (ou Rio Biribiri) e aí o momento que eu acho muito chato, tirar as botas para atravessar o rio, pois não avistei local fácil de travessia. Procurei a continuação da trilha na outra margem e estava à esquerda, invadida pelo capim alto no início. Tomei a esquerda na bifurcação na direção de um poste e às 8h59 alcancei a estrada de terra Diamantina-Biribiri. Fui para a direita para conhecer a vila. Caminhei 140m até o portal e desci, chegando às 9h10. Visitei a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, de 1876 (por fora), o agradável gramadão cercado de casinhas brancas e azuis, a antiga fábrica e o Ribeirão das Pedras, o mesmo que atravessara minutos antes.

Saí de lá às 9h24, subi de volta ao portal e continuei pela estrada. Cruzei o Ribeirão das Pedras por uma ponte de madeira e 180m depois entrei à esquerda na estrada para a Cachoeira dos Cristais, com placa. Às 10h passei pelo estacionamento, cruzei a ponte sobre o Córrego dos Cristais e com mais 5 minutos cheguei à cachoeira, não muito alta mas com um grande e convidativo poço. Comecei a procurar a trilha para Diamantina (que vai pelo alto da Serra dos Cristais) e gastei uma hora para encontrá-la. Mas aqui eu entrego o serviço completo e você não vai bater cabeça como eu. Uns 55m após a ponte do estacionamento fique atento a uma trilha larga que sai à esquerda do caminho da cachoeira. É só subir por ela, desprezar uma trilha que sai à direita na primeira curva (essa morre no rio e é difícil atravessar) e uns 50m após entrar na sombra da mata descer por uma trilha à direita cujo início está coberto pelo capim. Ela leva ao Córrego dos Cristais num local de travessia fácil pelas pedras. E depois toma o rumo sul quase sem variações pela Serra dos Cristais até reencontrar o Caminho dos Escravos, já bem perto da BR-367. Porém é uma subida constante, prepare-se.

ImageIgreja do Sagrado Coração de Jesus, de 1876, em Biribiri

Agora era pé na trilha para recuperar o tempo perdido na procura do caminho certo. Subi às 11h16 a ladeira de pedrinhas brancas me afastando do Córrego dos Cristais e da cachoeira, e em meia hora alcancei um platô cercado de serras por todos os lados, inclusive à minha frente, sinal de que ainda subiria mais e mais a Serra dos Cristais. Cruzei três riachos (todos afluentes do Córrego dos Cristais), sendo que o último corria pela própria trilha por vários metros (e olha que não estava chovendo!). Ainda subindo, avisto três torres junto a uma casa bem no alto à direita, deve ser a Casa dos Ventos do parque estadual. Às 12h18 me deparo com uma cerca atravessando de leste para oeste, com um pasto (!) à frente e visão novamente dos prédios da universidade. A trilha continua para a direita (oeste) e sobe acompanhando a cerca, mas após a quina da cerca ela desaparece. Continuo na mesma direção (oeste) e vou retomando o rumo sul aos poucos até encontrar uma trilha de pedras escuras que vai exatamente nessa direção. Esse é o ponto mais alto da caminhada: 1440m. Às 12h33 cruzo em ângulo um caminho mais largo, mas continuo pela mesma trilha pois será um trajeto mais curto do que tomar esse caminho mais largo para a direita. À esquerda vão aparecendo casas a uma certa distância e ainda vejo a universidade.

Reencontrei o Córrego da Roda largo e raso, de travessia fácil pelas pedras, porém escorreguei no limo e entrou um pouco de água na bota direita. Uns 250m depois fui à direita na bifurcação (poderia ter ido à esquerda, tanto faz). Passei embaixo das linhas de alta tensão, cruzei uma estrada e pontualmente às 13h reencontrei o Caminho dos Escravos, onde fui para a direita. Em 7 minutos já tenho visão de Diamantina novamente e às 13h16 alcanço a BR-367. Poderia muito bem ter esperado o ônibus para São Gonçalo do Rio Preto ali mesmo já que estava no caminho, mas algumas indagações me rondavam a cabeça, como: será que o ônibus para aqui nessa subida da rodovia? será que virá lotado? Depois constatei que as respostas eram todas favoráveis, mas na dúvida (e por ser o último ônibus do dia) preferi caminhar até a rodoviária, o que teve seus pontos positivos (me informei sobre horários de outros ônibus que me interessavam, por exemplo). Mas antes fiz uma pausa para descanso e um lanche, e às 13h32 retomei a caminhada pela lateral da rodovia sem acostamento. Em 25 minutos passei pelo trevo de Biribiri e entrei na rua/estrada à esquerda, a mesma pela qual cheguei ao trevo no dia anterior. Desci 760m por ela e subi à direita a Rua Arraial dos Forros. Depois de várias ladeiras e ruas cujos nomes não identifiquei, cheguei à rodoviária às 14h27.

Altitude de 1284m.
Nesse dia caminhei 21,8km (descontados os erros e explorações).
Total da caminhada: 39,7km

Caminhada de Diamantina a Biribiri: 23,9km
Caminhada de Biribiri a Diamantina: 15,3km

Ponto mais alto da caminhada: 1440m

ImageCachoeira dos Cristais

Informações adicionais:

A empresa que faz a linha São Paulo-Diamantina é a Gontijo (www.gontijo.com.br) e a que faz BH-Diamantina é a Pássaro Verde (http://gabrasil.com.br).

O site oficial do Parque Estadual do Biribiri é www.ief.mg.gov.br/areas-protegidas/200.

A vila de Biribiri pode ser visitada todos os dias das 7h às 18h.

Carta topográfica de Diamantina: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/mapas/GEBIS%20-%20RJ/SE-23-Z-A-III.jpg

As denominações de rios e serras usadas aqui foram extraídas das cartas topográficas do IBGE e podem não coincidir com as denominações dadas pelos moradores da região, ou podem mesmo estar erradas.

Rafael Santiago
maio/2015

Percurso na carta topográfica

Percurso na imagem do Google Earth

Percurso na carta topográfica - parte 1

Percurso na imagem do Google Earth - parte 1

Percurso na carta topográfica - parte 2

Percurso na imagem do Google Earth - parte 2

sábado, 18 de agosto de 2012

Travessia Diamantina-Mendanha pelo Caminho dos Escravos (Serra do Espinhaço-MG) - jun/12

Imagem
Vale do Córrego Palmital, na descida da serra para Mendanha

Aviso importante: ao tentar refazer o trecho inicial dessa travessia em 1/maio/2015, fui alertado pelos moradores da periferia de Diamantina de que estão ocorrendo assaltos no início da trilha, logo depois das últimas casas do bairro. Um assalto a mão armada a um grupo havia ocorrido naquela mesma manhã. Com isso, fui obrigado a dar uma grande volta e retomar a travessia no km 585 da rodovia BR-367, já depois do Calçamento dos Escravos, ponto turístico da cidade.

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/TravessiaDiamantinaMendanhaPeloCaminhoDosEscravosMGJun12.

O Caminho dos Escravos foi construído no século 18 para escoar a produção de diamantes de Mendanha para Diamantina. No começo do século 19, Mendanha possuía um dos maiores serviços de extração de diamantes da região. Além das pedras, as mercadorias que também eram trazidas pelos tropeiros eram comercializadas no mercado de Diamantina. Mendanha é ainda hoje um distrito de Diamantina.

O Caminho dos Escravos inicia oficialmente no Mercado dos Tropeiros de Diamantina, onde uma placa informa que o percurso tem 20km e o tempo médio de caminhada é de 8 horas, com nível de dificuldade médio. Ele atravessa a porção leste do Parque Estadual do Biribiri, criado em 1998 e administrado pelo IEF (www.ief.mg.gov.br/areas-protegidas/200).

Essa placa com informações sobre o trajeto está colocada justamente no topo da ladeira que se deve descer, a Rua Burgalhau, para começar a travessia até Mendanha. Dei início à caminhada às 7h37 descendo essa rua, que entronca na Rua Espírito Santo e continua com o nome de Rua do Areião. Pegando a direita na bifurcação seguinte é só seguir até o fim da rua, subir à direita a Rua São Vicente e entrar na primeira à esquerda, Rua do Areião de novo. Há placas em quase todo esse trajeto.

Essa última rua vai se estreitando entre as casas bem pobres até virar uma trilha (7h55) que sobe com algumas variantes, enquanto a vista panorâmica da cidade vai se ampliando atrás de mim. Às 8h25 alcanço o início do trecho mais famoso do caminho, o calçamento largo de pedras com muro de sustentação em degraus que sobe a Serra dos Cristais. Passado o primeiro ponto de água, às 8h42 atravesso a rodovia BR-367 e continuo em frente (norte), caminhando por trilha larga, onde uma placa me diz que a partir daquele ponto eu estava entrando no Parque Estadual do Biribiri. Em 10 minutos um mirante proporciona a última vista de Diamantina. Daí em diante o caminho tem a forma ora de trilha ora de estradinha de terra e o calçamento de pedras só voltará na descida da serra próxima a Mendanha.

Às 9h16 uma placa ordena que eu abandone a estradinha deserta em favor de uma trilha à esquerda, cruzando outra estrada de terra logo em seguida. À direita surge o campus JK da UFVJM (Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri), que será visível durante boa parte da caminhada (o que contribui para quebrar o clima "selvagem" da travessia, na minha opinião). Às 9h47 mais um ponto de água e oito minutos depois cruzo outra estrada de terra. Às 10h33 fiquei em dúvida numa bifurcação por causa de uma placa com os dizeres "não use atalhos". O ramo da direita (nordeste) me pareceu um atalho, então segui para a esquerda (norte). Andei cerca de 600m e, como sempre acontece comigo, um anjo da guarda surge do nada para ajudar. Quando já estava descendo encontrei um senhor, morador local, subindo, e ele me informou que eu havia pegado o lado errado na bifurcação, era para a direita mesmo. Sanado o erro, volto a caminhar para nordeste e descer (depois, observando melhor o gps, notei que aquela trilha para o norte me levaria à vila de Biribiri, o que também seria um passeio bem interessante). Às 10h50 cruzo o Córrego Soberbo e entro à direita na placa para conhecer o Pocinho.

Às 11h17 a trilha entronca numa estradinha vinda da direita. Na sequência uma bifurcação em que vou para a direita e passo ao lado da sede da Fazenda Duas Pontes (à minha direita). Atravesso uma cerca, um portão de ferro e sou observado por curiosos cavalos quando atravesso o pasto. Às 11h40 desço ao Córrego Palmital (que acompanharei, mesmo a distância, até a descida da serra de Mendanha) e na subida seguinte deparo com as ruínas dos muros de pedra da antiga Fazenda Duas Pontes, com placa explicando a sua importância como pouso para os viajantes do passado. Menos de 100m depois da placa, uma bifurcação imperceptível causou alguma confusão. O caminho bem batido vai para a direita, acompanha um riacho e simplesmente desaparece de repente. Fui e voltei procurando outra trilha até chegar à conclusão que havia uma bifurcação apagada e tentei caminhar para a esquerda (norte) em alguns pontos até que reencontrei a trilha mais marcada adiante. Depois de um colchete, parei no riachinho seguinte para um lanche. Estava bem no meio da travessia, com 13,8km andados.

Às 12h54 uma placa sinaliza à esquerda o Poço Verde a 700m e não abri mão de conhecer esse tranquilo e isolado recanto do Córrego Palmital, ficando algum tempo ali. Às 13h53, já de volta à trilha principal, tive algum trabalho para atravessar um charco sem afundar as botas, mas vencido esse obstáculo topei com uma interessante lapa que servia de abrigo aos tropeiros, segundo a placa explica. Continuando a marcha para o norte por larga trilha alcancei às 14h19 um local chamado Graças a Deus, onde os antigos viajantes agradeciam por ter atingido o alto da serra com segurança. Significava que a partir dali eu começaria a descida para Mendanha, novamente com calçamento de pedra, mas não tão caprichado quanto aquele da subida da serra em Diamantina. Com uns 200m de descida, ouvi vozes à esquerda junto com barulho alto de água e me aproximei do Córrego Palmital para apreciar as quedas d'água. É o mesmo rio que venho acompanhando desde a Fazenda Duas Pontes, só que agora todo encachoeirado pelos sucessivos patamares de seu leito rochoso despencando serra abaixo. Serra essa que proporciona amplas e bonitas vistas do vale do Palmital e da Serra de Santa Apolônia à esquerda. Depois de duas bicas de água e dois trechos de engenhosos ziguezagues de pedra, às 15h32 uma placa anuncia mais cachoeiras 500m à esquerda. Desci ao Palmital para conferir e as quedas mais altas estavam alguns metros rio acima. Retomada a descida, às 16h30 uma ponte de madeira caída obriga a descer ao leito do rio e subir do outro lado, mas nada complicado. Passei por dois cruzeiros que marcam locais de tragédias ou acidentes, conforme ensina uma das placas. Entre eles, às 16h39, o último riachinho para pegar água e 12 minutos depois alcancei a primeira casa desde a fazenda, porém bastante isolada. Pelo desenho do contorno do parque mostrado nas placas, acredito que já estava saindo de seus limites. Mais dois minutos e caio numa estradinha que vem pela direita, mas caminho por ela apenas 270m para entrar em outra trilha à esquerda. Na descida a primeira visão de Mendanha, bem pequena. Às 17h15 outro charco e em mais 4 minutos alcanço uma rua de terra depois de cruzar uma porteira ao lado de uma casa, final do Caminho dos Escravos. Uma placa ali indica 19,8km de caminhada. Peguei a rua à direita e cheguei em instantes à igreja do povoado, onde desci as escadarias e cruzei a longa ponte sobre o Rio Jequitinhonha com o sol se pondo, às 17h37. Segui o caminho natural da rua para a direita e alcancei a BR-367 e o posto de combustível Mendanha às 17h51, onde esperei pelo ônibus para retornar a Diamantina. Uma kombi-lotação passou primeiro e foi nela que embarquei (R$5).

No total, com desvios para ver cachoeiras e poços, caminhei 26,6km.

Observação: para fazer essa caminhada sozinho, perguntei a moradores sobre a segurança na periferia de Diamantina. O que me disseram é que o risco de assalto durante o dia é mínimo, porém para evitar andar por ali à noite (no caso de fazer a travessia ao contrário).

Informações adicionais:

Algumas altitudes:
. em Diamantina: 1215m
. em Graças a Deus: 1113m
. em Mendanha: 705m
. altitude máxima do dia: 1422m (logo depois do último mirante de Diamantina)
. altitude mínima do dia: 687m (na ponte do Jequitinhonha)

Horários de ônibus:

. de Mendanha a Diamantina - 7h05 (seg a sáb - Pássaro Verde), 7h25 (seg a sex - Pássaro Verde), 7h30 (seg a sáb - ônibus municipal), 7h35 (Pássaro Verde), 7h55 (Pássaro Verde), 10h25 (Gontijo), 11h15 (dom a sex - Pássaro Verde), 11h35 (Pássaro Verde), 11h55 (dom - Pássaro Verde), 18h25 (Pássaro Verde), 19h13 (Transnorte), 23h05 (Pássaro Verde), 23h40 (Pássaro Verde), 23h55 (Gontijo)

. de Diamantina a Mendanha - 6h (Transnorte e Pássaro Verde), 11h45 (seg a sáb - Pássaro Verde), 12h30 (sáb - ônibus municipal), 13h (seg a sáb - Pássaro Verde), 13h50 (Gontijo), 14h30 (seg a sex - ônibus municipal), 14h45 (seg a sex - Pássaro Verde), 15h (Pássaro Verde e sáb-municipal), 15h30 (seg a sex - ônibus municipal), 16h (dom - Pássaro Verde)

Sites das empresas:
www.passaroverde.com.br
www.transnorte.com.br
www.gontijo.com.br

Carta topográfica de Diamantina (http://biblioteca.ibge.gov.br/visualiza ... -A-III.jpg).

Rafael Santiago
junho/2012

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Travessia Diamantina-Rodeador pela Trilha Verde da Maria Fumaça (Serra do Espinhaço-MG) - jun/12

Imagem
Serra do Pasmar

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/TravessiaDiamantinaRodeadorPelaTrilhaVerdeDaMariaFumacaMGJun12.

A estrada de ferro Corinto-Diamantina é um ramal da Linha do Centro da Estrada de Ferro Central do Brasil aberto na década de 1910 e que esteve em funcionamento até o início dos anos 1970. Hoje restam apenas o traçado da ferrovia e raros dormentes em alguns pontos isolados, além das estações, é claro. Os trilhos foram todos retirados.

Decidi caminhar o trecho entre a BR-367 e o povoado de Rodeador, pois era o que parecia ser mais interessante em termos de paisagem e porque tinha certeza do percurso. Isso daria três dias de caminhada. A inspiração para esse projeto veio da revista Aventura Já (edição nº 7, de 2004) do Sérgio Beck.

1º DIA: DE BANDEIRINHA AO PONTILHÃO GRANDE

Para chegar ao ponto inicial peguei no Serro um ônibus para Diamantina e desci no km 603 da BR-367 (16km antes da rodoviária de Diamantina), numa localidade chamada Bandeirinha, que pertence a Diamantina. Ajeitei a mochila, atravessei a rodovia e entrei às 9h18 na estradinha de terra do lado esquerdo de uma casa bem em frente ao ponto do ônibus. Atravessei as casas do pequeno bairro, bastante humilde, e em meia hora a paisagem começou a se abrir à minha direita, revelando os interessantes contornos da Serra do Pasmar. Às 10h19 me deparei com uma enorme e profunda erosão, resultante da ação de garimpo, que levou toda a estrada. Pouco antes havia encontrado o morador de um sítio próximo que me disse que até pouco tempo atrás ainda se praticava o garimpo ali. Após o trecho de erosão a estrada deu lugar a uma trilha já que carro nenhum consegue passar. Desprovido dos trilhos e dormentes, a evidência que restou de que naquele caminho um dia apitou a maria-fumaça são os cortes que agora começam a aparecer, verdadeiros corredores abertos a picaretas e explosivos nas montanhas rochosas para passagem da estrada de ferro.

Às 11h22 encontrei o primeiro ponto de água. Menos de 200m depois, uma estrada de terra entronca à esquerda, vindo da rodovia também. A caminhada sob o sol forte nessa estrada não foi muito agradável, mas felizmente não demorei a avistar o povoado de Barão de Guaicuí após alguns sítios. Às 12h14 cruzei o Córrego do Capão, largo e bem raso, que fica aos pés do povoado e subi uns 100m até a antiga estação do trem, que não se encontra em bom estado de conservação. Pelas frestas das portas vi que estava ocupada por material de construção. Visitei a igreja do vilarejo, que pertence ao município de Gouveia, e continuei a minha travessia na direção noroeste, do outro lado da estação, às 12h32. Ali me deparei com algumas placas sinalizando a travessia até Conselheiro Mata (a 39km), o que para mim foi uma surpresa pois achava que ninguém fazia essa caminhada. O calor estava muito forte e comecei a desconfiar da escassez de água do caminho, o que me fez parar no último bar do povoado para abastecer os cantis. Cerca de 1km depois da estação, uma bifurcação à direita leva à Cachoeira do Barão, a apenas 300m, formada pelo mesmo Córrego do Capão. Desci até ela rapidamente para algumas fotos e prossegui. Às 13h37 chegou o momento que me deixava mais apreensivo, o primeiro dos pontilhões. Mas não foi difícil, apenas não me arrisquei a andar pela estrutura de ferro estreita já que não sou equilibrista nem nada e a altura é considerável. Desci ao riacho (Córrego Tamanduá, afluente do Capão, segundo a carta topográfica), atravessei-o e subi de volta.

Continuando, às 14h23 cruzei uma cerca e logo apareceu o segundo pontilhão, esse parcialmente coberto por uma camada de terra, com alguns blocos já desabados. Do outro lado, surge um rapaz numa moto. Eu não senti confiança em pisar nos blocos de terra e desci à direita até o riacho (Córrego Mangabeira, afluente do Rio Pardo Pequeno), atravessei num ponto mais raso e parei para um lanche e para pegar mais água. O rapaz foi e voltou procurando o melhor lugar e no fim tentou passar no mesmo lugar que eu, porém a moto afundou. Ele conseguiu fazê-la pegar de novo, mas não conseguia subir o barranco escorregadio. Tentei ajudá-lo mas o tempo foi passando e precisei ir embora. Voltei a andar às 15h04 e olhei para trás algumas vezes para ver se ele tinha conseguido. Quando já estava bem distante, vi que ele voltou ao caminho e se foi.

Daí em diante comecei a achar o caminho um tanto monótono, sem atrativo especial nenhum. Um trajeto assim tão longo e plano vale mais a pena ser percorrido de bicicleta, na minha opinião.

Às 15h30 passei a acompanhar à minha direita o Rio Pardo Pequeno, cujo assoreamento formou praias mais largas que o próprio curso d'água. Mas para quebrar a monotonia de vez, surge "a mãe de todas as pontes" (palavras do Beck), o pontilhão grande. Esse deu trabalho. Antes dele, já começaram a surgir os contratempos. É que a trilha penetrou num corte na rocha alta e começou a fechar de tanto mato, e ainda com charco. Insisti um pouco mas não deu. Voltei e entrei num colchete à direita e comecei a seguir um caminho bem largo, que deve ter sido por onde a moto veio. Porém percebi que estava me afastando do rio e do pontilhão, por isso deixei a quase estradinha e atravessei o capim e mato mais baixo até voltar ao Pardo Pequeno, já um pouco abaixo do pontilhão, às 16h07. Explorei um pouco os arredores para planejar qual seria a forma mais segura de atravessar o rio, largo e um pouco fundo. Passar pelo pontilhão estava fora de cogitação. Teria de entrar no rio mesmo, mas num ponto em que pudesse encontrar a continuação do caminho do outro lado, o que não era evidente. A margem do meu lado era formada por lajes de pedra e uma área extensa de rochas soltas mais abaixo, por onde andei uns 150m até encontrar um ponto mais raso e de correnteza mais fraca que parecia conveniente. Do outro lado parecia possível voltar ao percurso da linha férrea. Pois bem, tratei de arranjar dois cajados como apoio, tirei as botas e atravessei de meias, técnica que aprendi no Monte Roraima para evitar escorregões nas pedras molhadas e lisas. E assim cruzei o rio com água pelos joelhos e no horizonte à esquerda um por-de-sol espetacular, que corri para fotografar assim que alcancei a outra margem. Pelo horário avançado, estabeleci residência no primeiro gramado que encontrei, exatamente entre o rio e o leito da antiga estrada de ferro.

Nesse dia caminhei 20,8km.
Altitude em Bandeirinha: 1370m
Altitude no pontilhão grande: 1157m
Altitude máxima do dia: 1370m
Altitude mínima do dia: 1133m

2º DIA: DO PONTILHÃO GRANDE A CONSELHEIRO MATA

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Pontilhão grande

Desmontado o acampamento, comecei a andar às 8h10. O caminho estava todo tomado por um bonito capim baixo que não atrapalhava em nada o caminhar e ainda lhe dava um toque de beleza. Comecei a me aproximar de uma serra que chamou a atenção por possuir uma grande fenda de alto a baixo bem no centro. Mas às 9h16 sou surpreendido por outro pontilhão (quantos mais será que há, me perguntava) que nem era tão extenso, mas por segurança desci ao rio (Córrego Mocambo, afluente do Pardo Pequeno), como nas três vezes anteriores. Porém não foi tão simples, o rio tinha charcos nas margens e no salto que dei molhei as botas e um pouco os pés (a perneira ajudou a não entrar muita água nas botas). Continuei me aproximando da tal serra rachada e também de uma plantação de eucaliptos, mas o caminho desviou para a direita e às 10h02 alcancei a vila de Mendes, apenas cinco casas e um pequeno depósito da antiga ferrovia. A trilha virou estrada de terra e poucos minutos depois das casinhas simples da vila, surpreende ver uma grande e bonita casa de fazenda exatamente onde a estrada de terra e o trajeto do trem se separam, a primeira sumindo numa curva para a direita e o antigo caminho do trem seguindo em frente. E subindo, o que começou a tornar a paisagem do Rio Pardo Pequeno (que vinha acompanhando desde ontem à tarde) mais bonita e larga à esquerda. Atingi o alto dessa serrinha lá pelas 11h e o terreno voltou a ficar completamente plano.

Passados alguns colchetes e plantações de eucalipto, às 11h53 o caminho é interrompido por um desmoronamento dentro de um corte, onde bastou desviar pela direita e retomar a reta do trem. Nesse desvio me aproximei do Ribeirão das Varas (um bom local para pegar água) e dele não vou me afastar mais até Conselheiro Mata e ainda além, até quase o final da travessia, embora nem sempre ele seja visível. Até as 13h12 encontrei mais dois pontos de água e uma surpresa: restos de alguns dormentes num local mais molhado. Mais dois bons locais para apanhar água (de repente ela se tornou abundante) e surgem mais alguns vestígios de dormentes às 14h04. Os pontilhões felizmente acabaram, restaram até aqui duas pequenas pontes sobre valas de água facilmente transponíveis.

Às 14h29 alcanço uma casa amarela com vacas ao redor e percebo que estou chegando a um sítio pelos fundos já que logo à frente há uma cerca e uma porteira trancada que dá para uma estrada de terra. Passei por baixo da cerca e segui bem em frente, atravessando a estradinha. Depois disso, às 15h20 um vale à minha direita me dizia pelo som da água que eu estava me aproximando novamente do Ribeirão das Varas, mas quando o barulho tornou-se mais forte desci pelo capim para dar uma espiada e tive a grata surpresa de encontrar uma das belas quedas que ficam acima da Cachoeira do Tombador. De volta ao meu caminho acompanhei o rio descendo e às 15h50 abriu-se à direita um grande e verde vale com o traçado bem nítido da estrada de ferro na outra encosta. Ao fazer a curva no fundo desse grande vale e passar para a outra encosta comecei a ter visão da cachoeira de frente, um pouco distante, no meio da mata. Passei por dois fossos que devem ser de escoamento de águas e um deles era bem fundo, o que exigiu contornar pela mata à esquerda. Entre esses fossos apanhei água para a noite pois já pretendia arranjar algum lugar para montar acampamento. Às 17h me vi caminhando numa estrada de terra e comecei a passar pelas primeiras casas uma vez que me aproximava do povoado de Conselheiro Mata. Aproveitei para acampar por ali mesmo enquanto havia bastante espaço para isso.

Nesse dia caminhei 27,6km.
Altitude no pontilhão grande: 1157m
Altitude em Conselheiro Mata: 974m
Altitude máxima do dia: 1230m
Altitude mínima do dia: 974m

3º DIA: DE CONSELHEIRO MATA A RODEADOR

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Cachoeira no Ribeirão das Varas

Levantei acampamento bem cedo e às 6h45 já estava de volta à estradinha, que em meia hora me levou à antiga e pequena estação do trem, muito bem conservada. Continuando mais 10 minutos, saí do caminho do trem para uma pausa em Conselheiro Mata, distrito de Diamantina, para conhecer algumas cachoeiras e conversar com o Geraldo Kussu, dono do Buteko e Restaurante do Kussu.

Desci portanto na primeira rua à direita, atravessei a ponte sobre o Ribeirão das Varas (ponte improvisada uma vez que a oficial estava em obras) e virando à esquerda cheguei ao bar do Kussu. Ele estava servindo o café da manhã para uma hóspede sua que estava ali a trabalho (ele tem uma pousada também) e me convidou para acompanhá-la. Ele me falou das 15 cachoeiras das redondezas e dos caminhantes que passam por ali assim como eu. Me mostrou o exemplar da revista que o Beck lhe enviou de presente, onde ele é citado. Com suas dicas, fui conhecer as cachoeiras mais próximas. Primeiro fui ao Poço das Borboletas, entrando na rua à esquerda da igreja e seguindo à direita na bifurcação. A estradinha sobe, desce e quando o Córrego do Açougue a atravessa (a 1,6km da igreja) é só descê-lo à esquerda para encontrar as quedinhas e os poços. Depois voltei até a bifurcação perto da igreja e entrei nela à direita, passando por uma construção grande que disseram ser uma casa de repouso. Logo a estradinha vira uma trilha que desce diretamente à linda Cachoeira das Fadas, escondida no meio da mata, com grande poço de cor verde. Muitas fotos depois, voltei 1,2km até o bar do Kussu, peguei informações com ele sobre a continuação do caminho do trem até Rodeador e zarpei.

Importante aqui é provisionar toda a água para o restante do dia pois não há nenhum riacho ou fonte de água confiável até Rodeador, exceto pelas raras casas em que o morador possa fornecer.

Voltei até a esquina da rua da estação, atravessei a cerca à direita e continuei minha travessia às 10h46. Notei de cara, pelo mato na trilha, que esse trecho é bem menos usado. Após uma porteira e um colchete (com cadeado!) me aproximei do Ribeirão das Varas à direita e pude ver nele uma pequena barragem. Logo em seguida, às 11h08, uma placa bem velha indicava a descida ao Poço do Triângulo, mas não fui explorar por falta de tempo. Em seguida, descrevo uma curva para a esquerda (sul) e me afasto do Ribeirão das Varas por alguns quilômetros ao mesmo tempo em que o horizonte começa a se abrir à direita revelando um grande vale verdejante com uma serra ao fundo. Às 11h27 uma placa apontava à direita o acesso para a Cachoeira das Andorinhas, mas de novo deixei para uma outra ocasião. A trilha entronca numa estrada que vem da esquerda e exatamente ali fica o Templo da Mãe Terra, um dos quatro templos filosóficos-ecléticos-naturalistas de Conselheiro Mata (www.agarthy.org.br). Passadas mais duas casas, me deparo às 11h53 com uma porteira com cadeado fechando completamente a estrada e com a seguinte placa: Agarthy - propriedade particular - entre somente com autorização. Não dei bola e atravessei pela lateral com arame farpado. Passei pelo agradável e tranquilo Lago dos Ciprestes e depois por casinhas redondas que são parte do santuário. Atravessei um trecho de mata e quando a paisagem novamente se abriu avistei um belo templo de cúpula dourada no alto da colina à direita, o Templo de Kali.

Às 12h23 me reaproximo do meu velho conhecido Ribeirão das Varas à direita. Dez minutos depois passo por baixo de uma cerca que corta o caminho na diagonal e entro num corte feito na rocha alta que estava bastante tomado pelo mato. Ao sair dele sou surpreendido pelo som alto de água - era simplesmente a cachoeira mais linda de toda a travessia, uma enorme queda do ribeirão em forma de véu sobre a parede rochosa escura envolta pela mata densa, um espetáculo!

Por volta de 1km depois da cachoeira, o leito desenha outra curva para a esquerda (sul), me afastando do Ribeirão das Varas por alguns quilômetros novamente, e começa uma descida de serra com amplos horizontes, confirmando que esse é mesmo o segmento mais bonito dessa caminhada. Depois de passar por outro desmoronamento e cruzar um colchete, me vejo entrando às 13h41 pelos fundos de um curral com algumas casas na sequência. Ali atravessei uma estrada de terra e para continuar em frente passei por uma porteira. Cruzei outra estrada de terra, uma porteira de ferro fechada com uma corda, bonita paisagem à esquerda e às 14h24 passo por uma cerca para cair na estrada já atravessada anteriormente, aquela perto das casas com curral. Andei 450m para a esquerda por ela e tomei a direita na primeira bifurcação. O caminho à esquerda seria bem mais curto para chegar a Rodeador mas o traçado da antiga ferrovia era para a direita mesmo. E valeu a pena ser rigoroso com isso pois ali encontrei um ambiente completamente diferente, com vegetação que lembrava mais a caatinga que o cerrado e muitas formações rochosas negras e pontiagudas. Algumas árvores teimavam em crescer sobre essas paredes de rocha e as raízes se espalhavam desesperadas por um ponto de apoio que as sustentasse. Observei que algumas trilhas penetravam nesse emaranhado de pedras e árvores, o que devia render um passeio bem interessante. A paisagem à direita também chamava a atenção, com o profundo vale do Ribeirão das Varas (ele de novo!) e na distância uma grande lavoura de formato circular.

Às 15h32 reencontro a estrada que abandonei na última bifurcação mas ando por ela apenas 65m para continuar à direita na bifurcação seguinte, já na "reta" final para o povoado de Rodeador (distrito do município de Monjolos), aonde cheguei às 15h50.

Pensei em tirar apenas algumas fotos do lugar, principalmente da estação ferroviária, e seguir direto para Diamantina, porém não havia mais ônibus e minha tentativa de carona foi frustrada, apesar de metade do vilarejo saber que um forasteiro (eu!) estava à procura de carona. Restou-me passar a noite na casa/pensão da Sandra e tomar o primeiro ônibus para a "cidade grande" no dia seguinte bem cedo.

Nesse dia caminhei 25,8km (contando as cachoeiras que visitei em Conselheiro Mata).
Altitude em Conselheiro Mata: 974m
Altitude em Rodeador: 693m
Altitude máxima do dia: 1023m
Altitude mínima do dia: 693m

Informações adicionais:

Horários de ônibus (todos www.passaroverde.com.br):
de Rodeador a Diamantina - seg a sex - 6h15; sab - 6h15 e 9h
de Diamantina a Rodeador - seg a sab - 15h30

de Rodeador a Curvelo - seg, sex, sab - 7h45; ter, qua, qui - 6h15 e 7h45
de Curvelo a Rodeador - seg a sex - 15h30; sab - 13h

de Conselheiro Mata a Diamantina - seg a sex - 6h30; sab - 6h30 e 9h15
de Diamantina a Conselheiro Mata - seg a sab - 15h30

de Conselheiro Mata a Curvelo - seg a sex - 6h e 7h30; sab - 7h30
de Curvelo a Conselheiro Mata - seg a sex - 15h30; sab - 13h

Alguns gastos dessa travessia:
. ônibus Serro-Bandeirinha - R$16,55
. café da manhã muito bom no bar do Kussu (Conselheiro Mata) - R$5
. PF no bar da Valéria (Rodeador) - R$10
. pensão da Sandra (Rodeador) - R$20
. ônibus Rodeador-Diamantina - R$16,45

Para saber tudo sobre as ferrovias brasileiras e em especial sobre o ramal de Diamantina consulte o site www.estacoesferroviarias.com.br/ ... tro_mg.htm.

Carta topográfica de Diamantina (http://biblioteca.ibge.gov.br/visualiza ... -A-III.jpg).

Rafael Santiago
junho/2012