terça-feira, 24 de julho de 2012

Travessia Cachoeira da Capivara-Lapinha (Serra do Cipó-MG) - jun/12

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Cachoeira da Capivara

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/116531899108747189520/TravessiaCachoeiraDaCapivaraLapinhaSerraDoCipoMGJun12.

Mal terminei a travessia Travessão-Lagoa Dourada (relato em http://lrafael.multiply.com/journal/item/14/14) e já parti para outra longa caminhada na Serra do Cipó, desta vez numa tentativa de ligar o parque nacional, mais precisamente sua porção norte, local conhecido como Alto do Palácio, à região da Lapinha, outro vasto campo de exploração para trilheiros ávidos por novidades. Uma noite apenas em Cardeal Mota foi o tempo que tive para descansar e reabastecer a mochila para mais dois dias de caminhada (há dois mercados e duas padarias com mercearia).

A Lapinha ou Lapinha da Serra, como também é conhecida (para diferenciá-la da Lapinha de Lagoa Santa, onde está a famosa gruta e sítio arqueológico), é um distrito do município de Santana do Riacho, assim como Cardeal Mota.

1º DIA: DA CACHOEIRA DA CAPIVARA AO VAU DA LAGOA

Depois de obter muitas informações desencontradas sobre horários de ônibus e ficar plantado à sua espera por 1h30, finalmente subi a serra no bus da viação Serro que passou no centrinho de Cardeal Mota (km 97 da MG-010) às 10h25. Desci junto à estátua do Juquinha, no km 122, às 11h. A pernada começaria oficialmente na porteira da Cachoeira da Capivara, 1km acima, mas quis revisitar e fotografar a escultura que homenageia o apanhador de flores mais famoso da Serra do Cipó. Feito isso, subi pelo asfalto até a porteira e passei pela cerca à esquerda dela às 11h45, tomando a direção oeste inicialmente. Depois de 500m na estradinha, um grande cercado delimitando uma área em recuperação (com placa do DER) confunde um pouco quanto à direção a seguir, mas é só acompanhá-la à direita que logo se chega à trilha tremendamente erodida que desce para a cachoeira, talvez o motivo da interdição dela. Logo começo a avistar a enorme queda, bem como as casas da sede da fazenda distantes à direita. Às 12h45 já tenho a bela cachoeira enquadrada em minha câmera. Por incrível que pareça, após tantas idas ao Cipó, essa é a primeira vez que visito a Capivara, e fico impressionado com tamanha beleza. E aquilo era só metade do espetáculo pois uma trilha íngreme leva à queda inferior com seu grande poço igualmente negro.

Satisfeito o desejo de conhecer a Cachoeira da Capivara, dou continuidade às 13h53 à minha travessia tomando a trilha bem marcada que aponta diretamente para oeste a partir do poço inferior. Ultrapasso alguns riachos, um tronco que serve de ponte (felizmente com um tronco-corrimão), uma cerca, até que caio numa estrada de terra que já avistava havia algum tempo, na qual toquei para a direita (norte) ingenuamente pensando tratar-se de uma estrada "pública".

Às 15h tropeço numa ponte de madeira com laterais de ferro sobre o Ribeirão Capivara e ao ultrapassá-la sou abordado por um homem num carro que me informou que ali era propriedade da Cedro Têxtil. Contudo, ao explicar-lhe que meu objetivo era chegar à Lapinha, não fez nenhuma objeção, só não sabia me informar o caminho até lá. Após a ponte a estradinha subiu e me proporcionou do alto a visão do meu objetivo, a Serra do Breu, com os picos da Lapinha e do Breu nas extremidades do conjunto montanhoso.

Na descida deparo às 15h30 com uma bifurcação e uma placa: casa dos acionistas à direita e casa da turbina à esquerda. Explico: é que ali funcionava uma usina que produzia energia para a fábrica de tecidos Cedro Têxtil em Caetanópolis-MG a partir do represamento do Rio Parauninha. Tentei primeiro à direita mas a direção me pareceu errada (mas encontrei uma bica para abastecer o cantil). Tentei sair da estrada e tomar uma trilha na direção oeste mas ela terminou no rio, largo demais. Só me restou tomar a esquerda na bifurcação da placa e perguntar na casa abaixo, que devia ser a tal casa da turbina, torcendo para não ser impedido de continuar por algum segurança mal-humorado. Mas para minha surpresa, o que encontrei foi um grupo grande reunido ali comendo, bebendo e se divertindo em plena quinta-feira à tarde. A surpresa maior deve ter sido deles ao verem um sujeito sozinho aparecer do nada com um mochilão nas costas e dizendo que queria ir para a Lapinha, ainda muito distante dali. Fui muito bem recebido pelo grupo, que me ofereceu sanduíches, frutas, refrigerante e até me apontou a continuação do caminho. Conversamos algum tempo, tiramos fotos e dei prosseguimento à pernada às 16h45 pelo caminho da casa dos acionistas, o qual passou pelas casas dos funcionários da empresa e cruzou o Parauninha por uma ponte molhada, ou seja, que pode ficar submersa em caso de chuva forte. No caminho uma barragem desativada e muita erosão foi o que restou da Central de Geração Hidrelétrica Vau da Lagoa, hoje desativada. Continuei subindo pela estrada mas às 17h33 deixei-a em favor de uma trilha à esquerda que foi providencial pois ao longo dela é que encontrei um local plano e sem pedras para armar a barraca quando já escurecia.

Nesse dia caminhei 15,1km.

2º DIA: DO VAU DA LAGOA À LAPINHA, COM CACHOEIRA DO LAJEADO

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Serra do Breu

Iniciei a caminhada às 8h continuando pela trilha, mas ela logo me levou à estrada de terra novamente, onde segui para a esquerda (oeste). Subi pouco mais de 1km e topei com uma porteira que parece ser o limite das terras da Cedro pois a partir dali a placa indicava ser área de preservação ambiental. Essa subida me proporcionou visão de estradas de terra que apontavam para o norte, meu destino, porém pretendia chegar lá por alguma trilha que desejava encontrar mais a oeste, em terreno mais alto. Assim, da porteira fui acompanhando a cerca para o norte e depois descendo a noroeste até alcançar um colchete que cruzei para tentar me manter na direção oeste. A trilha estava mais marcada a partir dele e, após bordejar um morro pela esquerda e ultrapassar um portão azul no meio do nada, ela toma definitivamente a direção que eu procurava: norte. Um ponto de água às 10h abastece meus cantis já vazios.

Subo por essa trilha sem erro tendo como visão à direita (sudeste) todo o percurso feito desde ontem à tarde pela estrada. Mas às 10h30 atinjo o alto e à minha frente surge magnífica no horizonte a Serra do Breu e toda a campina que devo atravessar para chegar até ela. Foi uma visão empolgante pois, além da beleza, confirmou que essa travessia praticamente desconhecida tinha tudo para dar certo.

Às 11h30 chego a uma extensa cerca paralela a uma estrada precária. Podia ter acompanhado a cerca para o norte sem cruzá-la já que não havia colchete para facilitar a passagem, mas preferi passar por baixo para me aproximar de uma casa junto a um arvoredo. Porém ela estava abandonada e até começando a ruir. Cerca de 100m depois da casa deixo a estrada que ruma direto para o norte e tomo uma trilha que se encaminha para noroeste (esquerda). Cerca de 1,5km depois a trilha se perde no capim baixo e caio para a esquerda para cruzar a mata ciliar à frente num ponto mais favorável. Acabo atravessando-a às 12h50 próximo a uma solitária e erma casa cor-de-terra (avermelhada), justamente onde o riachinho desaba em duas singelas quedas paralelas.

Depois da casa continuo pela trilha e permaneço na direção noroeste. Às 13h25 cruzo um ribeirão mais largo pelas pedras, cenário muito bonito com os picos da Serra do Breu ao fundo, e 20 minutos depois atinjo a borda da serra, com espetacular visão do vale do Córrego Mata-Capim desde o fundo (para os lados da Cachoeira do Lajeado) até a Lagoa da Lapinha ao norte. A descida dessa serra exigiu atenção pela quantidade de pedras soltas e muita erosão.

Uma vez no vale do Mata-Capim às 14h15 vários caminhos se dirigem para o fundo, à esquerda, e sigo o primeiro que encontro. Cruzo uma porteira azul, uma casa de pau-a-pique isolada mas com atentos vira-latas como vigias, um colchete e um ribeirão de pedras brancas para as 15h chegar à Cachoeira do Lajeado. Porém ela estava com bem pouca água e causou uma certa decepção. O que vi foi uma parede alta e escura recoberta de muita vegetação com algumas quedinhas isoladas. Explorei algumas trilhas por ali que tinham continuidade e podem significar futuras travessias na direção de Cardeal Mota. Às 16h atravessei o ribeirão de pedras brancas de volta mas não quis apanhar da sua água devido à grande quantidade de lodo. Depois da porteira azul seguiram-se diversas outras porteiras e alguns riachos (parei no primeiro deles para apanhar água e comer algo), a trilha se alargou e começou a contornar à esquerda a extremidade norte da Represa Coronel Américo Teixeira/Lagoa da Lapinha. Restou atravessar a ponte de concreto sobre o Córrego Lapinha, que deságua na represa, e tomar a rua em forma de túnel arborizado para chegar às 17h50 ao centrinho do vilarejo, com uma igreja nova e outra mais antiga no meio de um gramado.

Assim foi completada com sucesso e colocada uma nova opção de travessia entre esses dois polos da Serra do Cipó, Alto do Palácio e Lapinha, que, como disse, atraem aventureiros de toda parte dispostos a desvendar suas infinitas possibilidades de caminhos, sendo sempre presenteados com largas e lindas paisagens, bem como tranquilos e secretos recantos.

Nesse dia caminhei 25,3km.
Distância total percorrida: 40,4km

Informações adicionais:

Carta topográfica de Baldim (http://biblioteca.ibge.gov.br/visualiza ... -C-III.jpg).

Rafael Santiago
junho/2012

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Travessia Travessão-Lagoa Dourada (Serra do Cipó-MG) - jun/12

As fotos estão em http://lrafael.multiply.com/photos/album/131/131.

Conheci o Parque Nacional da Serra do Cipó numa longa viagem por Minas em 1991 e foi uma experiência incrível. Na época era um lugar bastante isolado e Cardeal Mota contava apenas com um hotel, uma pousada e dois campings. Em 1997 eu e dois amigos tentamos duas vezes fazer a travessia Travessão-Lagoa Dourada mas não conseguimos completá-la com o tempo de que dispúnhamos e as orientações dos manuais datilografados do Sérgio Beck. Esse projeto ficou então guardado e só agora, com mais informações e ajuda das novas tecnologias, é que consegui realizá-lo.

O que descrevo a seguir é apenas um relato, não tem a intenção de ser um guia para essa travessia uma vez que é bastante difícil detalhar o percurso pelos campos e serras muitas vezes sem trilha do Cipó. Para o caminhante que pretende realizá-la serve como orientação geral de tempo, pontos de referência, etc. Os pontos de água não menciono pois são tantos que não deve haver preocupação quanto a isso e só sobrecarregaria o texto.

1º DIA: DAS DUAS PONTES AO TRAVESSÃO

Deixei São Paulo no ônibus das 22h30 da Gontijo em direção a Belo Horizonte, aonde cheguei às 6h40. As opções para chegar à Serra do Cipó são as empresas Saritur (www.saritur.com.br) e Serro (www.serro.com.br). Como o meu destino era um local conhecido como Duas Pontes precisava de um ônibus que passasse por Cardeal Mota e continuasse na MG-010, subindo a serra em direção a Conceição do Mato Dentro (alguns deles passam por Cardeal Mota e depois tomam a direção de Santana do Riacho). O único ônibus diário da Saritur que faz isso havia saído às 6h30. Restou-me aguardar o próximo da Serro, às 8h, e a passagem foi comprada com destino Fazenda Palácio. Aproveitei para tomar um dejejum numa das tantas lanchonetes boas e baratas da Av. Afonso Pena, bem perto da rodoviária, e como sempre fui à Pinguim, minha conhecida de longa data e preferida.

O trajeto do ônibus continua o mesmo, passando por Lagoa Santa e fazendo a tradicional parada na rodoviária de São José do Almeida. Passei por Cardeal Mota, que teve um boom turístico incrível nos últimos anos, contando agora com uma oferta enorme de pousadas, e, passado o camping da ACM, o busão tocou serra acima em estrada hoje pavimentada. Saltei às 11h15 em frente ao portão da Pousada Duas Pontes, à esquerda da estrada, exatamente no km 114. Ajeitei a cargueira e dei início oficial à minha longa travessia passando por baixo da cerca do lado direito da estrada, onde há uma porteira e uma estradinha.

À medida que subo por essa estradinha precária de pedras, a visão vai se ampliando e alcança toda o percurso sinuoso da MG-010 até o alto da serra, além dos contornos curiosos da Pedra do Elefante, que já se mostrava havia algum tempo. Mas meu olhar sedento por montanhas é atraído mesmo por um conjunto muito interessante que desponta no horizonte no sentido noroeste e que me deixa curioso - minhas andanças posteriores me dirão que essa era minha primeira visão da Serra do Breu, com o Pico da Lapinha e o Pico do Breu delimitando o conjunto rochoso.

Às 12h16, após uma hora de caminhada (com uma parada para calçar perneiras e fazer um lanchinho), esbarro numa cerca com colchete que, segundo o gps, me lança oficialmente dentro dos limites do Parque Nacional da Serra do Cipó. A estradinha agora se transforma em dois sulcos paralelos no capim, dos quais não arredo pé pois me levam exatamente na direção do meu primeiro destino, o famoso Travessão. Às 13h28 uma breve parada num aprazível riacho de água acobreada que acaba de preencher meus cantis. Em seguida, uma mata de samambaias que felizmente estava transitável e logo depois uma discreta cachoeira do lado esquerdo que fiz questão de fotografar de perto já que o acesso é bem fácil. Ali encontrei um grupo que terminava sua caminhada e que me contou que o tempo não fora bom nos dias anteriores, o que frustrou em parte seus planos. Muito próximo dali, para minha surpresa, belas pinturas rupestres ornamentam um pequeno abrigo de quartzito claro - surpresa pois já passei tantas vezes por ali e nunca havia notado tal tesouro.

Continuo descendo por trilha bem marcada em direção ao Travessão e cruzo dois riachos, porém esse caminho me leva a uma descida íngreme demais e até arriscada. Resolvo voltar, ultrapassar um dos riachos e procurar uma outra trilha à direita, que acabou sendo menos óbvia no começo mas me levou ao Travessão por uma descida bem mais fácil, chegando às 15h42.

O Travessão é um incrível e monumental selado que separa as vertentes dos vales do Rio do Peixe (leste) e Rio Bocaina (oeste), o que significa num ponto de vista mais amplo servir como divisor de águas entre as bacias do Rio São Francisco e Rio Doce. Não bastasse essa função geográfica de respeito, a beleza do lugar é avassaladora. A visão do modesto Rio do Peixe serpenteando entre os colossais paredões recompensa qualquer esforço para se chegar até ali.

Bem, mas estou só no começo da minha travessia e após explorar diversos pontos de vista e até um poço de águas escuras com sua cachoeirinha nas imediações, devo dar sequência à pernada subindo as encostas na direção sul, direção esta que seguiria por muitas horas ainda, até quase o final do dia seguinte (de forma geral, com alguns desvios para sudeste). Eram 16h20 quando deixei para trás o Travessão e tinha uma hora e pouco de luz ainda para adiantar o caminho. Após uma longa subida, ora por trilha ora pelo capim sem trilha, assisti a um magnífico por-do-sol, cruzei uma cerca e montei acampamento no primeiro riachinho que encontrei.

Nesse dia caminhei 12,6km.

2º DIA: DO TRAVESSÃO À "CACHOEIRA DA MESA"

Não acordei muito cedo por causa do cansaço da viagem do dia anterior e só comecei a caminhar às 9h30 seguindo a mesma trilha na direção sul (em alguns momentos, sudeste). Em meia hora passo por outro riachinho, uma clareira onde caberiam uma quatro barracas e logo começa o inferno das samambaias. Mesmo com a ajuda de alguém que havia passado abrindo caminho a facão, as malditas enroscam na mochila, cutucam o rosto e arranham os braços. Fora isso, é preciso redobrar a atenção com o caminho pois fica fácil cair num labirinto no meio dessas plantas altas e que parecem uma praga.

Às 10h32 alcanço um riozinho mais largo, provavemente o Rio Bocaina, e passo para a outra margem. O esforço foi em vão pois a trilha se perde na mata fechada do outro lado. Cruzo-o de volta e subo um pouco por sua margem direita, atravessando um pequeno afluente e retomando a direção sul. Porém não ando 100m nessa direção e percebo que devo descer à mata ciliar à direita e cruzar de uma vez o rio mais largo, o que me obrigou a tirar as botas. Ao ganhar o campo de capim baixo novamente, reassumo a direção sul e mais à frente encontro uma trilha. Aliás, toda essa travessia no Cipó foi assim: sempre seguindo por trilhas que desapareciam em algum ponto e encontrando alguma outra à frente que ia na direção pretendida; não há uma trilha contínua e batida para se seguir o tempo todo.

À medida que caminho, sinto que o isolamento e a distância da "civilização" aumentam, porém às 15h20 me deparo com cinco cavalos pastando próximo a um curral decrépito com um cocho. Estava bem próximo do ponto de mudança de rumo da caminhada. Às 15h50 avisto uma cerca e mudo minha direção para oeste (direita), seguindo uma trilha de pedras brancas que se aproxima da cerca e a acompanha pela direita (coordenadas 23 K 657360 7850161). Cruzo a cerca pelos restos de uma porteira caída e 1,4km depois, já sem trilha e caminhando pelo capim alto, esbarro em outra cerca junto a um riacho às 17h. O final desse dia foi reservado a um extenso e incômodo charco ocultado pelo capim alto que se seguiu a essa cerca. Tentei um caminho mais à direita porém topei com uma mata fechada onde não achei trilha e ainda mais à direita um paredão de pedra. Só me restou o charco mesmo. Saí dele quando a luz já se esvaía e montei acampamento no primeiro chão firme que encontrei, num local agradável próximo a uma cachoeira cujas águas escorriam por uma plataforma de pedra, a qual chamei de "cachoeira da mesa" por desconhecer seu nome verdadeiro.

Nesse dia caminhei 13,3km.

3º DIA: DA "CACHOEIRA DA MESA" AO RIBEIRÃO BANDEIRINHA

Nesse dia iniciei a pernada mais cedo, às 8h15. Desci à cachoeira da mesa e passei para a outra margem na tentativa de encontrar a continuação da trilha que sumira na tarde anterior. Foi em vão. Continuei na mesma margem do riacho e segui alguns metros na direção noroeste até uma porteira caída, onde percebi que para continuar nessa direção deveria cruzar de volta o riacho. E havia uma trilha lá.

A minha referência para as primeiras 4 horas de trilha desse dia eram as ruínas da casa do Tatinha, que estavam a oeste de onde pernoitei. O trajeto real porém começou na direção noroeste para depois oscilar entre oeste e sudoeste. Do Tatinha até o fim do dia (Ribeirão Bandeirinha) a direção voltaria a ser sul, direto e reto.

Pois bem, atravessado o riacho de volta, às 9h15 chego a um ponto estratégico. A trilha que vinha seguindo cruza um outro riacho e toma o rumo noroeste, encaminhando-se para a parte alta da Cachoeira da Farofa, uns 7km distante ainda. Não era o que eu queria. Abandono essa trilha portanto e sigo pelo capim baixo para sudoeste, transponho um riacho e contorno uma ponta de mata, conseguindo visualizar às 9h45 um aglomerado de palmeiras e eucaliptos que me indicam que estou próximo da antiga casa da família Juventino (marcado como Costa no gps, coordenadas 23 K 654414 7851394). O casebre de pau-a-pique está em pé mas em condições para lá de precárias. Uma placa pregada no alto diz: "Bandeirinha, 30/1/2001. Senhor funcionário do Ibama-MG, antes de tomar qualquer atitude nessa propriedade lembre-se que não foi pago pelo Ibama. Obrigado. Família Juventino".

Demorei algum tempo para achar a saída certa dali pois não há trilha e o mato tomou conta de tudo ao redor da casa. Mas o sentido é exatamente oeste e ao se deparar com um cânion que parece dificultar demais a passagem, basta caminhar alguns metros para a direita, saltar o riachinho que vem da casa e penetra no cânion e encontrar uma trilha para a esquerda (oeste).

Depois de mais dois riachos e uma cerca, chego às 12h10 às ruínas da casa do Tatinha (23 K 653469 7850833). O lugar está desolador. Nos tempos das minhas andanças frequentes pelo Cipó, essa casa era uma referência para as travessias. Hoje não passa de escombros completamente engolidos pelo mato. Aquela visão foi tão deprimente que tratei logo de sair dali e dar sequência à caminhada.

Como disse, do Tatinha até o Ribeirão Bandeirinha a direção geral voltaria a ser sul com bem pouca variação.

Meu destino seguinte era a fascinante Cachoeira da Braúna, distante menos de 2km dali. Porém o caminho me reservava mais uma luta com labirintos de samambaias para não faltar emoção.

Cheguei ao enorme poço da Braúna de Cima às 13h45 para ficar de queixo completamente caído. Apesar de já conhecê-la de longa data, o fascínio continua e para mim é uma das cachoeiras mais bonitas que conheço, em conjunto com a queda principal, que se debruça sobre um poço ainda maior de águas igualmente negras. Parei ali para um lanche e um bom tempo de contemplação.

Desde o início da travessia até aqui vinha acompanhando a trilha mostrada no gps, porém ela seguia após a Braúna pelo Córrego da Garça e adentrava o cânion logo abaixo da cachoeira. Nesse ponto resolvi abandonar esse caminho e tentar reencontrar o trajeto que costumava fazer muitos anos atrás com a ajuda da parca memória e de alguns traçados feitos no Google Earth e gravados no gps. Assim, às 15h40 subi a trilha bem marcada da encosta oposta à da cachoeira e retomei a direção sul por essa mesma trilha, que após 4,6km sem desaparecer me levou às margens do Ribeirão Bandeirinha, o qual atravessei num pulo às 17h22 e já tratei de arranjar um local apropriado para montar a barraca. Os mosquitos ali estavam ainda mais desesperados por sangue do que em qualquer outro lugar.

Nesse dia caminhei 12,9km.

4º DIA: DO RIBEIRÃO BANDEIRINHA À LAGOA DOURADA

A trilha que eu segui ontem da Cachoeira da Braúna em diante é bem marcada pois aparentemente leva ao povoado de Altamira. Mas esse não era o meu destino e eu precisava sair do vale do Bandeirinha na direção oeste e subir a Serra da Mutuca para alcançar o vale do Rio Jaboticatubas, ou Lagoa Dourada, como é mais conhecido. Para isso, estudei o relevo da serra a oeste e parti às 8h15 para tentar transpô-la. Para me auxiliar contava com um trajeto desenhado sobre a imagem de satélite do Google Earth e levado no gps. Tentei seguir esse trajeto o mais fielmente possível porém não foi fácil. Logo de cara um capinzal alto escondia um charco que parecia não acabar mais. Depois tentei subir a serra mas a vegetação e as pedras altas começaram a dificultar demais meu avanço. Do ponto aonde cheguei estudei um caminho mais desimpedido numa outra encosta e parti para lá. Foi uma decisão muito feliz pois após subir essa outra encosta pelo capim baixo avistei uma trilha que ia na direção desejada. E para minha grata surpresa era a trilha que eu usava há mais de uma década nas travessias que fazia. Só não a encontrei ontem pois cruzei o Bandeirinha mais ao sul do que costumava cruzar. Daí em diante foi só confirmar o trajeto por alguns lugares-chave, como o imenso vale à direita da trilha pelo qual passei às 12h20.

Às 13h08 chego à borda da Serra da Mutuca e tenho ampla visão do vale à frente, com caminhos descendo para Altamira à esquerda (sul). Segundo informação do gps, eu estava nos limites do parque nacional. A descida não é tão fácil mas acabei encontrando uma trilha, depois um totem e ao final a trilha entronca em outra que vem da esquerda (sul). A quantidade de pegadas nessa nova trilha confirma que estou no caminho certo e sigo na direção norte. Ainda não era possível avistar a Lagoa Dourada, porém em poucos minutos, às 13h54, tive a primeira visão desse extenso e belíssimo lugar.

A trilha que eu acompanhava se mantinha no alto da serra e se dirigia à Serra dos Confins, que forma a encosta leste da Lagoa (a encosta oeste é a Serra da Lagoa Dourada). Porém eu já estava de olho nas trilhas mais abaixo que me levariam ao vale. Cheguei a cruzar uma mata alta que abriga uma nascente e depois um riacho, mas decidi voltar e encontrar o melhor ponto para descer até a trilha que avistara. Uma vez nela, não houve dúvida pois desembocou numa ladeira de pedrinhas soltas que desceu rapidamente à Lagoa Dourada. Como o dia chegava ao final, caminhei só até o primeiro riacho e acampei. O diferencial desse riacho é que ele despenca abruptamente do alto da serra que eu acabara de descer, formando uma bonita cachoeira na parte mais alta.

A Lagoa Dourada não é realmente uma lagoa e sim o vale do Rio Jaboticatubas, que, por ser recoberto em grande parte por um capim dourado que brilha com a luz do sol, ganhou esse poético nome, bastante condizente com sua beleza.

Nesse dia caminhei 10,7km.

5º DIA: DA LAGOA DOURADA A CARDEAL MOTA

No último dia da travessia comecei a caminhar às 8h30 na direção noroeste acompanhando de longe o rio por sua margem direita. Por ser uma área fora da administração do parque, há cavalos e vacas pastando ao longo do extenso capinzal. Às 10h33 cheguei ao grande atrativo da Lagoa, a sua cachoeira, ponto em que o Jaboticatubas faz uma curva para oeste e despenca de sucessivas paredes cada vez mais altas até adentrar um profundo cânion e se dirigir ao povoado de São José da Serra. A primeira queda é bem fácil de atingir por trilha íngreme, algumas menores mais abaixo também, mas quanto mais perto das paredes do cânion mais arriscado se torna. Eu me contentei com fotos da primeira queda, que já é bem bonita. E totalmente deserta num dia de semana. Bem próximo da parte alta da cachoeira há restos de acampamento e alguns mirantes para o cânion e as quedas mais abaixo.

Saí dali às 11h30 e continuei para o norte, subindo. Às 12h13 cheguei a uma bifurcação importante mas tão discreta que não fosse o gps acho que teria passado despercebida: a trilha continuava bem marcada para o norte (esquerda na bifurcação) porém desceria a serra para alcançar São José da Serra; para a direita uma trilha bem apagada desce ao vale do Ribeirão das Areias e dá acesso à portaria oficial do parque e Cardeal Mota. Esse segundo destino foi a minha escolha por ser de logística mais fácil e ainda desconhecido para mim. Fui para a direita pelo capim mas logo a trilha foi se definindo e em menos de 500m já estava descendo a serra por um caminho de pedras soltas. Ali encontro um sujeito a cavalo, a primeira pessoa que vejo em quatro dias. A descida foi longa mas tranquila, apesar da erosão que corrói a trilha. Aos poucos vou adentrando o vale encaixado entre a Serra da Lagoa Dourada (leste) e a Serra da Caetana (oeste). Parei para um lanche num dos riachos tributários do Ribeirão das Areias com agradável sombra da mata ciliar. Às 14h22, apesar de estar seguindo a trilha mais batida, me vi sem saída num labirinto de enormes erosões, o que me obrigou a voltar e procurar uma outra alternativa à direita para passar ao lado delas. Esse novo caminho começou como uma trilha meio apagada mas depois se alargou até virar uma estrada interna do parque e às 15h10 alcanço a bifurcação que à direita desce à Cachoeira do Capão, distante 1,2km. Chega-se primeiro à parte alta da cachoeira e uma trilha leva à parte baixa. Uma bifurcação nessa trilha desce um pouco mais o rio até terminar nele. Em seguida, andando pelas pedras e lajes das margens chega-se à sinuosa Cachoeira do S.

Voltei à bifurcação da estrada quando já passava das 17h e toquei rapidamente em frente pois o sol logo iria se por. Segui à esquerda nas duas bifurcações seguintes, passei por um portão de ferro aberto e decidi abandonar a estradinha em favor de uma trilha à esquerda. Acabei caindo em outro local cercado de grandes erosões e tive de ligar a lanterna para conseguir encontrar a saída. Mais um pouco e às 18h13 alcanço a estrada de terra que liga a portaria do parque à rodovia MG-010 num ponto em que há duas porteiras de ferro emparelhadas. Consegui passar facilmente por uma delas. Dali foi só seguir para a esquerda por mais 1,7km até a rodovia asfaltada, saindo exatamente ao lado do Hotel Veraneio e da ponte sobre o Rio Cipó, já em Cardeal Mota, às 18h48.

Nesse dia caminhei 25,2km.
Distância total percorrida: 74,7km

Para saber um pouco mais sobre a riqueza da Serra do Cipó: http://super.abril.com.br/superarquivo/1992/conteudo_113147.shtml.

Rafael Santiago
junho/2012

sexta-feira, 30 de março de 2012

Serra do Itapety (Mogi das Cruzes-SP) - mar/12

Após algumas explorações iniciais das trilhas da Serra do Itapety, em Mogi das Cruzes, principalmente as que dão acesso à Pedra do Lagarto, parti para uma travessia no sentido norte-sul que fosse viável de se fazer a pé sem muita caminhada em estrada, tendo como apoio as linhas de ônibus disponíveis. Esse objetivo acabou se concretizando em duas travessias distintas, uma que passa pela citada Pedra do Lagarto e outra que deu acesso ao Pico do Urubu, ponto culminante dessa serra.

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Mogi das Cruzes

Travessia pelo Pico do Urubu

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/1165318991 ... zesSPMar12.

No sábado, munido de trajetos desenhados no Google Earth e inseridos no gps, arrisquei uma travessia a partir da Estrada da Moralogia (Jd Vieira) que me levasse à Pedra do Lagarto e terminasse no já velho conhecido Jd Rodeio, perto do centro de Mogi. Após uma pesquisa, descobri que o ônibus Jd Vieira parte do terminal Estudantes a cada 4 horas no fim de semana, o que exigiu um bom planejamento para não terminar a caminhada muito tarde. Após saltar do trem na estação Estudantes e voltar alguns metros até o terminal de ônibus, peguei o Jd Vieira das 11h e desci no ponto final às 11h35, em frente ao Sindicato das Costureiras, quase 1km à frente do núcleo do bairro. Estava na estrada da Moralogia (erroneamente grafado Morologia nas placas). Voltei pelo caminho do ônibus passando pelo bairro e tomando a esquerda na primeira bifurcação (o ônibus veio da direita, mais larga). Passei pela porteira da Fazenda Santa Cruz e 100m depois me deparo com uma porteira fechando a estrada e uma placa de entrada proibida. Com uma casa ao lado, moradores e cachorros, foi impossível passar despercebido. Conversei com eles mas a ordem era não permitir a entrada na propriedade, que explora madeira de reflorestamento. Primeira tentativa frustrada e era exatamente o caminho que eu havia desenhado pelas fotos de satélite do Google. Resolvi bater na Fazenda Santa Cruz. Fui bem recebido pelos caseiros, que me disseram que dali eu subiria pelo reflorestamento até o Pico do Urubu, porém o dono estava por ali e também não gostava de gente de fora circulando na propriedade. O capataz apareceu, entrou na conversa e não foi nada simpático, para dizer o mínimo.

Bem, me restou voltar ao bairro e tentar obter informações de como subir a serra por ali. Conversa com um, conversa com outro, entrei por algumas ruas para averiguar, mas nada. Até que um morador me deu uma dica - e até uma carona - de como eu poderia fazer. Voltei com ele pelo caminho do ônibus até uma bifurcação à esquerda com a placa Recanto Jatobá, logo após uma escola. Entrei nessa bifurcação às 14h e segui pela estrada de terra acompanhando as torres de alta tensão. Às 14h15, após um lago à direita, a estrada sobe à direita e bifurca. Tomei a esquerda e parei na primeira casa. A trilha para o Pico do Urubu começa exatamente em frente a essa casa, subindo inicialmente por um reflorestamento de eucaliptos (mais um!) e depois por mata fechada. Mas o caminho é bem largo e óbvio. Às 15h encontro uma bifurcação em T. Desci à esquerda para explorar e a estrada terminou 15 min depois no portão de um sítio-pesqueiro que estava deserto. Satisfeita a curiosidade, subi de volta, passei pela bifurcação e continuei subindo. Às 15h55 cheguei ao encontro de cinco estradinhas que já era bem familiar. A subida à direita leva ao Urubu e a subida à esquerda ao conjunto de antenas da Serra do Itapety. A descida à direita, onde há uma porteira, vai a um sítio e a descida em frente leva ao centro de Mogi e é por onde os carros sobem ao pico.

O dia, até então encoberto e meio cinzento, abriu-se em sol e céu azul e aproveitei para contemplar a paisagem a partir do ponto culminante da serra. Ali conheci duas figuras interessantes, um cidadão que sobe de moto o pico todos os sábados, depois do trabalho, para admirar o fim de tarde e um morador de um bairro próximo que com seus 59 anos sobe quase toda semana a pé a serra e conhece todas as trilhas que eu percorri nas últimas semanas por ali. Conversamos bastante, trocamos informações e às 17h desci pela estrada em companhia do andarilho, que caminha sempre escoltado por sua jovem e medrosa cadela. Nos separamos no bairro aos pés da serra e eu continuei até a estação Estudantes, aonde cheguei por volta de 18h30, para embarcar de volta a Sampa.

Meu objetivo foi alcançado em parte pois atravessei a serra, porém não pelo ponto onde pretendia, a Pedra do Lagarto, o que ensejou mais pesquisas e mais um dia de explorações nessa agradável serra tão próxima do burburinho da movimentada Mogi das Cruzes.

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Imagem
Bairro Beija-Flor visto de um mirante da travessia

Travessia pela Pedra do Lagarto

As fotos estão em https://picasaweb.google.com/1165318991 ... zesSPMar12.

Dando continuidade às explorações na Serra do Itapety, em Mogi das Cruzes, parti para a empreitada final em busca do meu objetivo: cruzar a serra no sentido norte-sul passando pela Pedra do Lagarto e me valendo das linhas de ônibus da região. Conhecer o trajeto dos ônibus era fundamental, caso contrário teria que percorrer infindáveis estradas de terra e asfalto para iniciar ou terminar a pernada, coisa que eu queria evitar.

Sobrepondo os caminhos já percorridos às imagens do Google Earth, concluí que poderia ter acesso às trilhas da serra a partir do bairro Beija-Flor, que possui linha de ônibus a partir do terminal Estudantes de Mogi. Assim como a linha Jd Vieira, este também tem frequência muito baixa, com 3 a 4 horas de intervalo nos finais de semana.

No domingo, após saltar do trem na estação Estudantes e caminhar alguns metros até o terminal, tomei o ônibus Beija-Flor das 11h, o qual deu uma volta enorme, indo além da Rodovia Airton Sena para tomar uma estrada paralela a ela e entrar na Estrada do Beija-Flor (de terra) após um túnel sob essa rodovia. Com o trajeto da caminhada gravado no gps atentei para o local onde deveria descer. E foi em frente à Chácara Maria Mãe de Jesus, onde começa uma tal Estrada do Levi, às 11h50. Voltei 150m e entrei na primeira à esquerda, Estrada do Cedro, acesso à Fazenda Anhanguera. Percorri essa estradinha rural até avistar a sede da tal fazenda, um casarão branco à esquerda, às 12h30. A estrada aí bifurca e a continuação à esquerda leva à sede. Em vez disso subi à direita, passando por uma porteira de arame farpado. Mais 250m e abandono essa estrada, que segue à esquerda, para subir um gramado à direita por um caminho que são restos de uma estrada bem precária engolida por enormes erosões. Esse caminho termina numa casa sem telhado e já estava diante das encostas, parte rochosas, parte florestadas, da Serra do Itapety. A partir da casa sem telhado bastou seguir os sulcos deixados pelas motos que circulam pela serra e subir tendendo para a esquerda (sudeste). Seguindo as marcas dos pneus nas lajes de pedra cheguei a um pasto que serve de magnífico mirante para todo o horizonte a oeste, norte e leste, com a vista alcançando desde o Pico do Jaraguá até Jacareí e São José dos Campos, passando por toda a extremidade oeste da Serra da Mantiqueira. Claro que esse foi o brinde por todo o esforço e me demorei um tempo curtindo o visual naquele belo domingo ensolarado.

Uma trilha sai da parte mais alta do pasto e penetra no frescor da mata da serra. Voltei à pernada às 16h10 e segui essa bem marcada trilha, passando por um ponto de água em poucos minutos. A partir daí o caminho, principalmente nos trechos mais inclinados, tem muita erosão causada pelas motos. Às 16h28 topei com uma bifurcação: a trilha mais aberta desce à direita e uma picada mais fechada segue em frente (esquerda). A da direita dá uma volta bem maior e sobe e desce algumas vezes para chegar à Pedra do Lagarto. A da esquerda é um atalho, porém com árvores caídas, pequenos charcos e caminhada por um riachinho. Segui pelo atalho pois é muito mais rápido e sobe de uma vez. O final dele é numa bifurcação em T, cujo ramo da esquerda leva em poucos minutos à Pedra do Lagarto, um mirante que, apesar de mais alto que o pasto onde parei, tem a visão um pouco obstruída pela mata do topo da serra. Ali uma curiosa placa com a mensagem "Lugar de conversar com Deus" repousa desde a primeira vez em que lá estive.

Agora só faltava completar a travessia descendo a serra no sentido sul. E lá fui eu, às 17h05. Desci da pedra pelo mesmo caminho, passei pelo ponto onde literalmente emergi do atalho e na bifurcação seguinte (alguns passos depois) segui para a esquerda. O sentido agora é direto para o sul e a trilha é bem marcada, porém escorregadia. Nuvens de mosquitos obrigam a descer sem pensar em parada. Logo uma trilha bem mais larga vem do alto da serra à direita e é por ela que passo a caminhar. Após esse entroncamento há um riacho alguns metros à esquerda, onde há uma clareira, mas a qualidade da água deixa dúvidas. A descida continua por essa trilha bem larga, que se transforma numa estradinha propriamente dita após a porteira de um sítio. Logo se nota o início de um longo muro de blocos de concreto à esquerda que delimita um enorme condomínio de alto padrão que sem a menor cerimônia sobe uma parte da serra. A estradinha de terra encontra o asfalto nos limites do bairro Jd Rodeio, marcado ali por grandes conjuntos residenciais de padrão bem mais modesto. Uma placa registra que o caminho por onde vim é a Estrada Velha do Lambari. Desse local bastou descer até o ponto de ônibus mais próximo, aonde cheguei às 18h, e tomar o ônibus Terminal Central, aonde cheguei em poucos minutos para embarcar no trem de volta a Sampa na estação Mogi das Cruzes da CPTM.

Depois de realizadas, essas travessias parecem bastante óbvias e sem dificuldade alguma, porém, pela escassez de informações e desconhecimento até dos moradores e frequentadores, foram necessárias várias visitas e alguma pesquisa para que se tornassem um novo roteiro a sugerir aos trilheiros ávidos por novos caminhos.

Informações sobre as linhas de ônibus de Mogi das Cruzes podem ser obtidas pelo site www2.transportes.pmmc.com.br ou pelo telefone 0800-195755.

Rafael Santiago
março/2012