sábado, 24 de abril de 2010

Travessia Horto de Campos-Barreira (SP-MG) - abr/10


As fotos estão em http://lrafael.multiply.com/photos/album/113.

Transmantiqueira - do Horto de Campos às portas do Marins

A idéia de realizar uma grande travessia Transmantiqueira foi se definindo nos últimos meses, após sucessivas explorações em diversos segmentos dessa serra. A conexão entre esses segmentos foi parecendo viável pela análise dos mapas e imagens de satélite, restando ir aos próprios locais para avaliar os caminhos possíveis e tentar obter informações mais concretas.

Tendo já feito numa ocasião a travessia entre o Pico do Diamante e os limites do Parque Estadual de Campos do Jordão (mais conhecido como Horto de Campos) e noutra a travessia Marins-Itaguaré, restava explorar a conexão entre ambas.

Há uma estrada de terra que liga o Horto ao sul de Minas, porém queria algo mais interessante do ponto de vista trilheiro/montanhista (segundo informação do parque, essa estrada não está em condições de tráfego para carros comuns por causa das valetas deixadas pelos caminhões das madeireiras). Resolvi então pegar exatamente o ponto onde termina a travessia do Pico do Diamante, num local chamado Sertão do Moreira, e continuar dali por estrada - ou trilha, de preferência - até o mais próximo possível do Marins, o que acabou sendo o posto fiscal da divisa, no bairro da Barreira, às margens da BR459, rodovia que liga Piquete a Itajubá.

E é esse o roteiro que descrevo a seguir, o qual pode se tornar bem mais interessante com a inclusão dos picos do Carrasco, do Vista Alegre e do Cabrito, ótimos mirantes para a Mantiqueira e o Vale do Paraíba. Desta vez ninguém topou ou pôde me acompanhar e parti para a empreitada em carreira-solo.

Algumas informações deste relato foram atualizadas em novembro de 2016, quando voltei ao local com mais tempo e pude fazer algumas explorações.

1º DIA: DO HORTO DE CAMPOS AO BAIRRO DO CHARCO (QUASE)

No sábado, peguei o primeiro ônibus para Campos do Jordão, às 6h. Na rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro (SP-123), pude finalmente identificar o pico que parece ser o mais alto quando se observa a Mantiqueira a partir da Dutra na altura de Taubaté: é o Pico Agudo, de Santo Antônio do Pinhal. E a Floriano alcança o alto da serra pelo selado à direita dele, ou seja, entre o Pico Agudo e a torre solitária do Pico do Diamante.

Chegando à rodoviária de Campos, atravessei a avenida que acompanha os trilhos do trem e esperei o ônibus para o Horto ao lado do posto de gasolina. Esse ponto de ônibus é identificado apenas por um poste pintado de azul. O dia estava esplêndido: havia sol e ainda um ligeiro friozinho matinal. As folhas douradas dos plátanos completavam o clima outonal da serra.

O circular para o Horto sai do bairro Santa Cruz a cada hora exata+10minutos e passa por ali à hora exata+40minutos, isto é, passa de hora em hora. Peguei o que passou ali às 9h40 e cheguei ao Horto pouco depois das 10h. Desci na guarita do parque pois o ponto final é ainda 800m à frente. A altitude é de 1529m.

Dali voltei menos de 200m e entrei na estrada de terra à esquerda com placa indicando Mirante São José dos Alpes. Aí começou a minha longa jornada, exatamente às 10h23. E de cara enfrentei uma subida de cerca de duas horas. Em 10 minutos passei por um conjunto de casas de madeira com um largo gramado à esquerda. E ali é que a subida começou de verdade, mas por sorte o caminho é bem sombreado. Às 11h10 a paisagem se abriu à direita e pude vislumbrar a Pedra do Baú com um perfil um pouco diferente do habitual. Mais subida e às 11h40 alcancei o grande portão da Fazenda Céu Estrelado. E bem do lado direito o final da trilha do Sertão do Moreira, a conexão com a parte oeste da Transmantiqueira já que leva ao Pico do Itapeva, Diamante e além. A subida continua tendo agora a cerca da citada fazenda do lado direito. Mais à frente, numa parte plana da estrada, é possível ver longe, à direita, as torres de vigilância de outra fazenda, a imensa Fazenda Lavrinhas, a qual vou percorrer pelo restante do dia ainda. Essas torres não são somente para impressionar, realmente há vigias nelas e já tivemos algum contratempo com eles por tentar usar um atalho através da cerca. Logo em seguida, às 12h, chego à primeira bifurcação. Para a direita fica o tal Mirante São José dos Alpes, apesar de a placa não apontar a direção e isso confundir os motoristas (tive de orientar um casal que se perdeu). Para a esquerda as placas apontam Gomeral, hospedagem para romeiros, etc. Aqui chego aos domínios da citada Fazenda Lavrinhas e vejo a primeira casa da fazenda atrás das placas, porém vazia. Durante todo o percurso até aqui, e ainda mais à frente, tenho sempre à esquerda os limites do Horto.

Até aqui cruzei com apenas dois carros que devem ter ido até o mirante e com um homem fazendo caminhada com seu fiel amigo de quatro patas.

Tomo o ramo da esquerda e a subida logo ameniza. Desnível de 400m até aqui. Minha direção geral, que desde o Horto vinha sendo sudeste, aos poucos muda para nordeste. Às 12h24 passo por uma guarita (abandonada) de vigilância do parque, exatamente na divisa deste com a fazenda, e daqui em diante tenho a cerca da propriedade dos dois lados da estrada. Atinjo o ponto culminante de toda a travessia, a 1976m. As placas por todo o caminho me lembram sempre que estou andando cercado (literalmente) pelo latifúndio e que ali tudo é proibido. O preciosismo é tanto que até os mourões (uma parte deles) têm o nome "Fazenda Lavrinha" gravado.

Às 12h40 cruzo um riachinho, o primeiro ponto de água, que parecia limpa porém do outro lado da cerca, como tudo ali. Ao lado tenho mais uma casa da fazenda, esta também vazia. Em seguida uma casa de criação de carneiros acima à direita, alguns chalés de dois andares e às 13h a segunda bifurcação. As placas indicam que em frente é a Estrada das Pedrinhas, bairro de Guaratinguetá, e logo um grupo de motos e carros 4x4 passa por mim vindo de lá. Seria perfeitamente possível descer a serra por esse caminho e no bairro Pedrinhas tomar o ônibus para Guará que passa a cada duas horas, porém não era esse o meu objetivo.

De todas as placas dessa bifurcação nenhuma me dizia o que eu iria encontrar se fosse para a esquerda, mas era essa a direção que eu queria. A lacônica e única placa no ramo da esquerda apenas alertava "área de proteção ambiental permanente". E foi por ali que eu fui. Assim deixo de caminhar pela estrada mostrada pelo gps e passo a confiar na carta topográfica do IBGE apenas (pobre de mim!). Até aqui não havia cruzado com nenhum morador que pudesse me confirmar o percurso que pretendia fazer.

Em cinco minutos passo por mais um ponto de água (é bom abastecer o cantil aqui pois pelas próximas 3h não haverá água fácil e confiável) e logo depois por uma cachoeira um pouco distante do lado esquerdo. Às 13h15 a paisagem se abre completamente à minha frente (nordeste) e fotografo o inconfundível perfil do Pico dos Marins, ainda muito pequeno no horizonte. Mais placas da Fazenda Lavrinhas e por volta de 13h30 chego à casa de uma família que trabalha na fazenda, junto a um grande curral. A conversa foi bastante proveitosa e o atencioso morador até me ofereceu a sua antiga casa para eu passar a noite! Ele me disse que eu encontraria mais à frente uma outra área de criação de carneiros, com grandes portões de ferro, mas que são mantidos sem cadeado porque ali é rota de romeiros. E que muitos deles descem a serra por uma trilha larga (que eu havia notado) cerca de cem metros antes dali. Coisa a ser explorada em futuras incursões.

Alguns minutos à frente começo a ter ótima visão do Vale do Paraíba, com Guaratinguetá e Aparecida à direita. E 15min depois novamente a silhueta do Marins. Às 14h25 um grande portão de madeira com um chalé ao lado e uma estrada que leva à sede da fazenda, a qual pude começar a ver dois minutos depois, exatamente no local em que cruzei com uma romaria de homens a cavalo (já havia passado uma outra nesse dia). À medida que a estrada contorna a casa-sede, ela vai se mostrando cada vez mais impressionante no alto da colina. Abaixo já consigo ver os galpões de criação dos carneiros, que alcancei às 14h40.

Após fotos dos curiosos bichos, cheguei aos tais portões de ferro muito altos, que estavam realmente sem cadeado. Placas bem em frente a eles indicavam hospedagem para romeiros e uma delas advertia para a proibição da "passagem pela trilha do antigo Bretas", que é a continuação da estrada por onde vim. Passei pelos dois portões, cumprimentei de longe os funcionários que cuidavam da ração do rebanho e continuei, agora por uma estrada bem mais precária. Alguns minutos à frente, ao parar para fotos de outros carneiros no alto de um morro, ouvi um barulho no chão e era uma cobra de uns 80cm, que fugiu rapidamente. Mais à frente, o horizonte se abre amplamente e ao Marins junta-se o majestoso desenho da Serra Fina e mais à direita Itatiaia. Paisagem belíssima!

Às 15h40, mais uma bifurcação. A estrada continuava reta em frente e uma outra descia à esquerda, em direção noroeste. Fiquei um pouco em dúvida mas notei pelo mapa que se fosse para noroeste estaria me aproximando da estrada que vem do Horto e isso me levaria ao bairro do Charco. Tinha informação também de que o Charco é rota dos romeiros e se seguisse as marcas dos cavalos chegaria lá. Uma placa na bifurcação voltada para a estrada que vinha de baixo indicava pousada para romeiros (outra!) e me dava a dica de que eu deveria abandonar aquela estrada e descer à esquerda.

Desci ainda um pouco inseguro por não conseguir ver a continuação da estrada, mas logo avistei uma casa e um chalé, o que batia com a descrição (um pouco confusa) daquele morador com quem conversei lá atrás. Bati palma nas casas mas não havia ninguém. E a estradinha tomada pela erosão terminava ali, num gramado... pois bem, resolvi continuar seguindo as marcas dos cavalos dos romeiros e a direção norte/noroeste a fim de cruzar a divisa SP-MG e chegar ao Charco. Isso me levou a cruzar a ponte de madeira (água boa e acessível) e subir a encosta à frente por uma trilha em diagonal, atravessar uma matinha, subir um trecho muito erodido e alcançar um campo de capim baixo. A próxima descida com muita erosão termina num riacho mas a água é de difícil acesso. Cruzo mais um trecho de mata e no campo seguinte a trilha é mais estreita, mas continua bem marcada. Às 16h35 cheguei à divisa SP-MG, exatamente numa clareira com restos de uma cerca e um pouco de lixo. Não fosse pelo gps não saberia que estava enfim entrando em terras mineiras. Parei para um pequeno descanso e para conferir na carta onde estava. Percebi que ainda bem longe do bairro do Charco e que não conseguiria chegar antes do anoitecer, o que já me deixava em alerta para um bom local de acampamento dali em diante.

Deixando a clareira da divisa, um curto trecho de mata e novamente no aberto uma visão ainda mais bela das montanhas de Minas bem à minha frente. Nova descida e ao sair de outra pequena mata tive a impressão de ver uma trilha secundária saindo para a esquerda, junto às árvores. Não fui conferir, afinal eram 17h, o sol estava baixo e nem sinal de vida à frente. E eu já havia caminhado 23km até ali... Ao final de uma descida mais longa pela trilha dupla no capim baixo, chego a uma bifurcação em T marcada por uma árvore solitária e um gramado. À esquerda me pareceu ser a continuação daquela trilha que não fui investigar ao sair da mata (posso estar enganado). À direita havia marcas de cavalos e fui por ali. (atualizando em nov/2016: a esquerda é uma alternativa mais longa porém mais segura de não se perder no caminho para o Charco já que a "bifurcação discreta" que menciono abaixo já se tornou "bifurcação invisível". Para a esquerda basta seguir as plaquinhas do Caminho de Aparecida, só que ao contrário.)

Passei entre altas touceiras de capim, um ponto de água complicado e cheguei a uma bifurcação muito discreta. O caminho em frente (direita) era bem mais aberto e segui por ele, porém deu numa mata (logo após restos de uma cerca) e a trilha se perdeu. Dei algumas voltas, insisti um pouco porque via algumas marcas no chão, mas resolvi voltar à bifurcação discreta. Tomei a trilhazinha à direita (esquerda quando eu vim) e logo vi que ela se abria mais e continuava bem batida após um riacho. Com a escuridão iminente, tratei de encontrar um bom lugar para montar a barraca ali próximo, antes do riacho. A noite foi bem fria naquele vale e só saí da barraca por um instante para contemplar o céu coalhado de estrelas, com a Via Láctea cruzando quase toda a imensidão do firmamento.

Distância percorrida: 25km em 7h20min

2º DIA: DO BAIRRO DO CHARCO ÀS PORTAS DO MARINS

No dia seguinte, acordei bem cedo e comecei a caminhar às 6h50 pois tinha muito chão pela frente e queria chegar ao bairro da Barreira a tempo de pegar o ônibus das 16h40 para Guaratinguetá. O próximo só daí a duas horas, já de noite.

A trilha cruza o riacho, continua pela mata como um sulco de erosão e quando sai no aberto passa a bordejar a mata pelo lado esquerdo. Mais campos de capim baixo e às 7h avistei bem longe, à esquerda, uma estrada, mas não sei se é a que vem do Horto ou uma secundária. Quando a trilha se aproxima de uma cerca do lado direito entro novamente numa pequena mata e, ao sair dela, uma nova bifurcação em T e uma porteira coberta de líquen (atualizando em nov/16: nessa porteira as duas trilhas da bifurcação da árvore solitária se encontram). O caminho era bem marcado de ambos os lados, mas resolvi ir para a direita, passando por alguns alagados, outra porteira e um riacho de fácil acesso. Altas e imponentes araucárias adornam esse caminho, que segue paralelo ao Córrego da Mãe-d'água e à estrada de terra, poucas centenas de metros à esquerda (mas não visível).

Às 7h33 cheguei a uma curva de estrada, que para mim se mostrava como mais uma bifurcação. O ramo da esquerda estava mais próximo da direção norte e tinha marcas de cavalos, então segui por ele. Logo avistei as primeiras casas do Charco e às 7h45 atingi a estrada que vem do Horto, bem atrás da igreja do bairro. Fiz os cálculos no gps e para a esquerda seriam 19km de retorno ao Horto. Uma placa ali indicava "Campos do Jordão a 35km" - o gps calculou 30km até o Capivari. Mas a minha meta era a Barreira, cuja estrada sai bem do lado esquerdo da igreja (olhando-a de frente), sinalizada por uma placa indicando a Fazenda da Onça. Dali seriam mais 25km de chão (acabou dando 28km)!

Do Charco também sai uma estrada para Itajubá, distante 37km segundo a placa, e é esse justamente o caminho dos romeiros.

Bem, agora era pé na estrada a passo firme para chegar com luz do dia ao meu objetivo, considerando que poderia haver percalços pelo longo caminho. Aqui meu sentido geral deixa de ser norte e volta a ser leste e nordeste.

Por sorte a estrada é bastante arborizada e praticamente não trafegam carros. Apenas um passou por mim. Alcancei a porteira da Fazenda da Onça às 9h e as placas avisam ser uma área militar. O município é Delfim Moreira-MG. Há diversos pontos de água na descida para a sede da fazenda, pequenos afluentes que vão desaguar no Córrego da Onça, que corre num profundo vale à direita. Após a citada porteira, mais 25min e chego à sede da fazenda, com uma pequena represa, vertedouro, bica d'água, campo de futebol e mensagem de boas-vindas, parecendo mais um local de recreação. Uma placa apontava para uma cachoeira, mas não havia tempo de ir lá conferir. Parecia haver moradores numa das casas mas não vi a cara de ninguém.

Fui encontrar gente dois minutos à frente, numa cena quase insólita. Dois ou três carros parados junto a uma fonte (Mina Clara Anil) e uma família se refestelando num piquenique no meio do nada, embaixo de um sol já bem quente. Aproveitei para uma prosa e ter mais informações sobre o que viria pela frente. Eles disseram que não haviam feito o caminho pela Barreira porque a estrada estava muito ruim, coisa que eu pude comprovar dali em diante. Do Charco até ali a estrada estava viável para um carro comum, mas logo à frente uma ponte em frangalhos e sucessivos caldeirões de lama tornavam a viagem arriscada. É interessante encher o cantil nessa mina pois água limpa e de acesso fácil deve reaparecer mais de duas horas mais tarde.

Continuei o caminho pela estrada completamente cercada de mata alta, com uma deliciosa sombra, e às 10h15 cheguei à bifurcação (à esquerda) para a Fazenda Boa Esperança, que funciona como hotel e tem trilhas e cachoeiras. Colado num tronco próximo um aviso dizia que de 23 a 28 de novembro de 2009 seria realizado na Fazenda da Onça um exercício de tiro e que as estradas de acesso estariam bloqueadas. A partir daí a estrada teve trechos de sombra e outros completamente expostos, com sol forte na cabeça. E mais lama onde o sol não batia.

Às 10h48 uma bifurcação onde continuei em frente, à esquerda. Às 11h25 um entroncamento em que uma placa diz "Campos do Jordão 36km" - continuei pelo caminho mais aberto, à esquerda. Essa placa está completamente errada pois se lá no Charco a distância era de 35km, como pode ser de apenas 36 depois de eu ter caminhado mais de três horas? O gps calculou 31,8km até o Horto (seguindo a estrada, não em linha reta) e mais 11,2km do Horto até a cidade, num total de 43km.

Às 11h50 alcancei o portão do antigo Hotel do Barão, hoje uma residência particular. Daí em diante, a sombra tornou-se mais rala e o sol cada vez mais forte, o que me desgastou bastante e me fez diminuir bastante o ritmo. Por sorte reapareceram os pontos de água.

Às 12h42, assim que cruzei com motoqueiros e em seguida um fusca, encontro uma bifurcação com uma placa, porém voltada para quem vem da estrada da esquerda. Ela apontava para a direita (por onde eu vim) e indicava "Campos do Jordão 33km" - ué, diminuiu! E para a esquerda umas tais "ruínas do sanatório" a 800m. Como aquela família do piquenique havia falado desse sanatório, fiz um pequeno desvio na rota para ver do que se tratava. Satisfeita a curiosidade e fotografadas as paredes de pedra do sanatório de 1906, voltei à bifurcação e fui para a direita.

Enfrentei uma subida que pareceu longa demais para o meu cansaço e parei um pouco bem no topo, num local que talvez seja o Alto da Lavrinha. Daí em diante foi uma longa descida de mais de 6km (quase 400m de desnível) e às 14h15 volto a vislumbrar à esquerda no meio do arvoredo o conjunto do Marins. Cruzei diversos pontos de água nessa descida.

Às 15h parei alguns instantes para fotografar as imensas e impressionantes paredes de pedra que vistas no Google Earth pareciam uma pedreira ou algo semelhante. Uma altíssima cachoeira despenca em meio aos paredões e forma um pocinho raso. Essa parte da estrada estava bem precária, com lamaçal e ladeiras de pedras soltas.

O final da longa jornada, depois de tantas belas paisagens, não poderia ter sido mais inglório: um enorme e estéril reflorestamento de eucaliptos. Às 15h45 alcanço finalmente a rodovia BR459 (que liga Piquete a Itajubá) junto ao bairro da Barreira. Ali há um posto de gasolina e um posto de fiscalização da Receita Estadual, já que a divisa SP-MG fica a menos de 2km. Esperei o ônibus da Pássaro Marron para Guaratinguetá, que passa ali por volta de 16h40, porém passou um pouco antes.

A descida da serra em direção ao Vale do Paraíba é espetacular, com visão das montanhas da Mantiqueira, das cidades do vale e a Serra do Mar ao fundo.  O ônibus parou em Piquete e Lorena antes de chegar ao final, em Guará, às 17h40, onde tomei o próximo ônibus, das 18h, para São Paulo.

Distância percorrida: 33,4km em 9h

Saldo da jornada: uma bolha no pé esquerdo, diversas dores musculares e 58km de belas paisagens da sempre sedutora e surpreendente Serra da Mantiqueira.

Informações adicionais:

O circular para o Horto sai do bairro Santa Cruz a cada hora exata+10minutos e passa perto da rodoviária à hora exata+40minutos. O circular sai do Horto em direção ao centro de Campos do Jordão a cada hora exata+20minutos. Mais informações: empresa Viação Na Montanha: 0800 770 5727.

Parte desse trajeto foi incluído no caminho peregrino chamado Caminho de Aparecida (www.caminhodeaparecida.com.br) e você vai encontrar muitas plaquinhas de sinalização.

Rafael Santiago
abril/2010

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Volta completa na Ilha Grande (RJ) - dez/09

As fotos estão em:
1º e 2º dias: http://lrafael.multiply.com/photos/album/108
3º e 4º dias: http://lrafael.multiply.com/photos/album/110
5º e 6º dias: http://lrafael.multiply.com/photos/album/111
Pico do Papagaio: http://lrafael.multiply.com/photos/album/112

Após muitas idas à querida Ilha Grande, com explorações diversas a cada viagem, finalmente posso dizer que conheço aquele paraíso de ponta a ponta. E posso afirmar sem medo que a volta na Ilha Grande é o trekking de praia mais bonito do Brasil. E um dos mais pesados também.

A diversidade é o ponto forte dessa caminhada, já que as praias e vilas voltadas para o oceano conservam um clima bastante primitivo, inexistindo meios de hospedagem fora os campings rústicos. Já no lado continental surgem pousadas para todos os gostos e bolsos, embora muitas pequenas praias também conservem ainda um clima selvagem. Por outro lado, muitas das pousadas foram adaptadas sobre antigas fábricas de pescado, o que ajuda a ver esses locais e toda a ilha também com uma perspectiva histórica.

Atualmente 87% da ilha está protegida pelo Parque Estadual da Ilha Grande, instituído em 1971 e ampliado em 2007, e pela Reserva Biológica da Praia do Sul, criada em 1981, que fizeram com que algumas praias ainda se mantenham praticamente intocadas, o que parece impossível tendo em vista que a ilha situa-se no mais que explorado eixo Rio-São Paulo.

A volta na ilha é uma caminhada sem dificuldade de orientação pois grande parte está sinalizada e as trilhas foram segmentadas e numeradas de T1 a T16. Ao longo do percurso há placas grandes (painéis) que mostram um mapa da região e seus atrativos e há placas menores apenas apontando a direção das praias. A rigor, a volta completa não existe oficialmente pois alguns trechos não estão sinalizados, como Santo Antônio-Caxadaço e Parnaioca-Aventureiro (este último dentro da reserva biológica).

Uma ótima fonte de informações sobre a Ilha Grande é o site www.ilhagrande.org.

1º DIA - 19/12/09 - SÁB - do Abraão ao Caxadaço

Partimos, eu e Ronald, às 7h15 da manhã de São Paulo e seguimos para Angra dos Reis via Barra Mansa e Lídice. A maior curiosidade desse caminho são os três túneis na descida da serra, depois de Lídice, que foram escavados na pedra e parecem grutas. Deixamos o carro no estacionamento Dois Irmãos mais próximo do cais, onde a diária é de R$20 para vaga descoberta e R$30 para vaga coberta. O dono disse que poderia dar um desconto se deixássemos o carro na filial deles que fica em frente à rodoviária. Comemos numa lanchonete próxima e pegamos a barca das 13h30, chegando ao Abrãao às 15h e iniciando imediatamente a caminhada. A barca custou R$14 (durante a semana o preço é R$6,50).

Resolvemos fazer a volta no sentido horário e seguimos pela trilha T10 na direção da Praia de Palmas, mas com a intenção de alcançar ainda naquele dia a Praia do Caxadaço. Cruzamos com um grupo de três trilheiros e entre eles reconheci a Vivian, amiga até então apenas virtual. Ela e dois amigos estavam terminando a volta no sentido anti-horário.

Já nesse começo de caminhada deu para sentir, e forte, o cheiro que iria nos acompanhar por todo o percurso de seis dias: cheiro de jaca muito madura no pé e jaca podre estourada no chão, muitas bem no meio da trilha.

Na passagem pela Praia Grande de Palmas, às 16h25, fomos abordados pelos donos dos campings locais e um deles tentou nos intimidar dizendo que não havia mais campings dali até Parnaioca e que se fizéssemos camping selvagem nosso material seria apreendido. Se ele pensa que vai conseguir clientes dessa forma, está dando um tiro no pé.

Às 17h passamos pela Praia de Mangues, inteiramente ocupada pelo Hotel Fazenda Paraíso do Sol. Aqui os barcos deixam e apanham os turistas que querem conhecer a Praia de Lopes Mendes. Logo em seguida vem a Praia do Pouso e no meio dela a continuação do caminho, agora pela trilha T11. Nove minutos depois da Praia do Pouso, na direção de Lopes Mendes, surge uma placa à direita indicando a trilha para a Praia de Santo Antônio, que é também o início do caminho para a Praia do Caxadaço (que oficialmente não existe). Porém seguimos em frente mais 6 minutos e fomos contemplar por instantes a bela e deserta praia de Lopes Mendes.

Voltamos rapidamente e às 17h44 entramos na trilha para Santo Antônio, agora à esquerda.
Bem, esse é o trecho mais difícil de toda a volta pois não há nenhuma sinalização e a trilha apresenta diversas bifurcações que exigem muita atenção. Difícil também é descrevê-la, mas vou tentar. Há alguns restos de esparadrapo em alguns troncos para auxiliar, mas são poucos.

Cerca de 7 minutos depois da placa surge a primeira bifurcação: a esquerda leva à Praia de Santo Antônio e a direita, ao Caxadaço. Com o avançado da hora, seguimos à direita para alcançar logo o nosso destino. Treze minutos depois um local que exige muita atenção: ao cruzar um riachinho (que pode até estar seco) há uma grande pedra (de mais de 2m de altura) à direita e a trilha (errada) segue visivelmente em frente; aqui deve-se procurar uma trilha que sobe à direita logo depois da pedra. Três minutos depois a trilha chega a ficar escura por passar no meio e por baixo de grandes rochas. Vinte e dois minutos depois um corrimão de cordas colocado à direita, junto a uma enorme pedra, ajuda a passar por uma laje escorregadia. Mais 4 minutos e é preciso estar atento e pegar uma trilha que sobe íngreme à direita enquanto a principal parece seguir em frente. Um minuto depois, na bifurcação, deve-se subir à direita. Mais 38 minutos e o ponto mais crítico: após cruzar um riacho, há diversos caminhos. Para chegar ao Caxadaço: após cruzar o riacho, siga alguns passos pela trilha mais batida e pare na primeira bifurcação que sai para a direita; não vá nem para a direita nem para a esquerda, mas procure um terceira trilha escondida que sai no meio das duas (ligeiramente à direita). Esse caminho sai da mata fechada e sobe muito forte entre samambaias para em seguida adentrar novamente a mata. Daqui em diante é se manter na trilha mais batida pois a descida dá direto na Praia do Caxadaço.

No ponto mais crítico que citei, o caminho sempre em frente leva a um bom local de acampamento, plano e do outro lado do riacho (acampamento que pode até ser uma boa opção dependendo do horário pois não é nada recomendável fazer esse trecho com pouca luz). Depois o caminho continua até um costão rochoso, mas não é uma boa alternativa tentar chegar ao Caxadaço por esse costão.Lembro-me de dois bons pontos de água em todo esse trecho de Lopes Mendes ao Caxadaço.Chegamos à praia às 20h25 com o auxílio de lanternas e acampamos na parte plana mais próxima ao riacho. Não custa lembrar que o camping aqui é proibido, assim como em todas as praias entre Palmas e Parnaioca.

2º DIA - 20/12/09 - DOM - do Caxadaço a Parnaioca

Levantei às 6h30 para curtir aquela maravilha de praia, lugar que eu sonhava conhecer há muitos anos. E era só nossa. Ao subir no costão à esquerda, vi duas tartarugas-marinhas e uma lontra nadando despreocupadas. Infelizmente às 10h30 apareceu a primeira lancha de turistas e resolvemos retomar a caminhada.

A trilha para Dois Rios começa depois do riacho, que deve ser cruzado pela ponte-tábua e depois saltando pelas pedras. Daqui em diante entramos numa trilha oficial, a T15, sinalizada e sem nenhuma dificuldade. Num trecho ela tem calçamento antigo, feito pelos escravos, que denominaram Caminho das Pedras. Em 1h35 alcançamos a estrada Abraão-Dois Rios, bem no local onde há um painel da trilha T15, um pouco antes da alameda de palmeiras-imperiais que marca a entrada dessa vila, descendo à esquerda. Na chegada à primeira praça, um guarda nos abordou e anotou nossos nomes e nosso destino. Dissemos que iríamos só até Parnaioca, o que é permitido (depois começa a área da reserva biológica).

Comemos um lanche na praia (um bar ali serve PF) e fomos visitar o antigo presídio, ou Instituto Penal Cândido Mendes, desativado e implodido em 1994. Quem se impressiona com o estado atual desse local, não sabe o que era aquilo antes da "reforma". Eram só escombros abandonados na última vez em que lá estive. Hoje melhoraram o aspecto geral com uma pintura, isolamento das ruínas não recuperadas e a criação do Museu do Cárcere, com muitas fotos antigas, painéis com textos e uniformes dos detentos.

A trilha T16 começa exatamente do lado direito do presídio, seguindo o muro, e tem como atrativos a Toca das Cinzas, local onde, segundo a lenda, os escravos ladrões eram mantidos presos em argolas até virarem pó, e uma figueira gigante, tão grande que uma trilha a circunda. Mais à frente observei à esquerda altos muros de pedra que um dia foram a base para uma ponte pois nesse local já passou uma estrada (converse com a Janete do camping de Parnaioca que ela poderá lhe contar essa incrível história).

Gastamos 3 horas entre Dois Rios e Parnaioca. É a trilha mais extensa dentro da mata fechada e nela tivemos o primeiro contato com o estranho e intimidador barulho emitido pelos bugios. Há pelo menos quatro pontos de água boa e de fácil coleta no caminho.

Na chegada a Parnaioca, o primeiro terreno para camping é o da mãe da Janete, que estava sendo reativado, faltando ainda alguns detalhes como iluminação. Montamos as barracas ali. Em seguida vem a casa da própria, com mais espaço para barracas, bem mais perto da praia. Seguindo pela praia há o camping do Sílvio também. A Janete nos disse que o limite de pessoas para os três campings agora é de apenas 50 pessoas e que o controle será feito em Dois Rios.

O pernoite custa R$15 e o PF R$10. Há uma "cozinha" disponível na varanda da casa da Janete com fogão e pia. A luz vem de gerador a diesel que cada família possui e o banho é frio.
Ainda tivemos tempo de ir conhecer a igreja (com cemitério bem-cuidado ao lado) e a cachoeira, que é como eles chamam o rio cheio de pedras e pequenas quedas-d'água. E ainda assistir a um belíssimo pôr-do-sol.

Como o movimento no camping estava bem tranquilo, tivemos a oportunidade de conversar com a Janete após o jantar e saber de muitas histórias interessantes do passado da Ilha Grande, que já teve grandes fazendas de café e cana-de-açúcar.

3º DIA - 21/12/09 - SEG - de Parnaioca à Praia Grande de Araçatiba

Acordamos cedinho com o barulho muito alto das cigarras e também dos bugios, que devem ser bem numerosos naquela mata. Nos despedimos da Janete logo cedo, às 7h25, pois pairava uma suspeita de que pudesse haver algum fiscal na Praia do Leste, a primeira da reserva, impedindo a passagem em direção ao Aventureiro. Achamos que quanto mais cedo, maior nossa chance de cruzar as praias do Leste e do Sul sem sermos abordados (os fiscais estavam passando de lancha também).

Dois cachorros que estavam no camping resolveram nos seguir e foram nossa companhia durante todo o dia. Eles haviam acompanhado dois caras que caminharam do Abraão até ali no dia anterior. Felizmente nos livramos deles no fim do dia pois estavam causando alguns problemas.

Andamos até o outro extremo da praia (direita), atravessamos o rio tirando as botas e no fim da grande laje de pedra entramos numa trilha não oficial. No caminho, ainda na mata, uma placa advertia de que era "obrigatório o retorno a Dois Rios". Mais alguns minutos e pudemos avistar a bela e imensa enseada com o Aventureiro bem ao fundo e as praias do Sul e do Leste à direita. Chegamos a esta última às 8h38 e não havia ninguém. Cruzamo-la o mais breve possível (cerca de 20 minutos), o que foi uma pena pois o mar é belíssimo: verde e incrivelmente transparente.

Nesse ponto é preciso desmitificar duas coisas que nos relatos e comentários as pessoas fazem alarde demais e deixam todos apreensivos (inclusive eu): a passagem pelo mangue e pelo Costão do Demo. O mangue está situado atrás do costão que separa as praias do Leste e do Sul e que avança um pouco para o mar. Tem gente que recomenda levar até tábua de marés para saber em que momento é possível passar pelo mangue. Nós encontramos a água na altura da canela. O Ronald já passou ali outras quatro vezes e disse que a água nunca chegou aos joelhos. Outra coisa: nada de complicar, é só seguir a primeira passagem entre árvores que aparece à esquerda, o mais próximo do grande costão rochoso. São poucos metros de travessia e ainda com o chão de areia, sem lama ou lodo. Pelo que já li e ouvi a respeito, eu arrisco dizer que em condições normais de tempo a profundidade não deve mesmo passar do joelho, após uma chuva muito longa pode chegar à cintura e mais fundo que isso deve ser em situações bem raras (ou é pura conversa fiada mesmo).

Depois de calçadas as botas, saímos pela primeira trilha que apareceu à esquerda. Na chegada à areia da Praia do Sul, havia uma lancha parada bem em frente, perto do costão. Voltamos um pouco e discutimos o que fazer caso fosse a fiscalização. Depois vimos que se tratava de uma lancha de turistas e que a praia não era tão deserta assim pois cruzamos com alguns grupos (até de gringos) vindo do Aventureiro. Levamos 35 minutos para atravessá-la.

O segundo mito: o Costão do Demo. Outro lugar que dizem para olhar a tábua de marés, que há grande perigo de escorregar e cair no mar, etc. A verdade: há realmente algumas línguas escorregadias porém são muito estreitas e é só prestar atenção e não pisar nelas. A única língua mais larga, a que poderia causar algum acidente, tem pedras concretadas para as pessoas pisarem com segurança. Simples assim. Talvez sob chuva seja difícil identificar as línguas pois toda a pedra estará molhada e nessas condições é melhor evitar passar por ali.

Ao final do Costão do Demo, às 10h24, uma das mais belas visões de toda a caminhada: as praias do Aventureiro e do Demo juntas formam um conjunto de beleza tão sedutora que fiquei paralisado por alguns minutos admirando (e não acreditando no que via).

Ali é que encontramos um fiscal de plantão, que perguntou ao Ronald (que estava na frente) seu nome e o fotografou, advertindo-o de que era proibido passar por ali. Porém ao ser questionado sobre as pessoas com quem cruzamos dentro da reserva ele disse que não tinha como impedir a entrada (!?!?).

No Aventureiro fotografei o famoso coqueiro inclinado e depois paramos um pouco no Camping do Luis. Ali é possível almoçar (R$10 o PF), mas eu fiquei só no lanche pois levei muita comida. Há muitos campings nessa praia e para a temporada há um limite de 560 pessoas, o que já parece exagero para o tamanho do lugar, porém disseram que nos feriados mais movimentados o número de pessoas acampadas já passou de 3 mil! O camping do Luis custava R$10 antes do Natal e R$20 depois. A energia elétrica vem de geradores a diesel em cada casa, como em Parnaioca.

A continuação da trilha não é no fim da praia mas bem próximo ao Camping do Luis, junto ao painel da trilha T9. Saímos às 13h26. O caminho é bem largo mas a subida é muito forte. Tive de parar para descansar por uns 20 minutos pois o calor também era insuportável, fazendo-me suar excessivamente e perder muito líquido. O desnível chega a 347m e é possível ver a Praia do Leste lá de cima, por entre a vegetação. A descida estava bem escorregadia apesar dos dias secos. Passei por uma pedra com curioso formato de cabeça de tubarão em que alguém pintou a boca escancarada e os olhos do bicho. Há dois pontos de água nessa descida.

Mais um pouco e a mata se abre para uma esplêndida visão da Praia de Provetá, a famosa praia dos evangélicos. Do alto já se avista o grande templo da igreja Assembléia de Deus. Na descida há um entroncamento em que se deve seguir à direita. À esquerda chega-se a uma pousada/camping. Em Provetá, às 15h33, reencontramos a energia elétrica e uma vila com calçamento, coisa rara na ilha. Há bares, padaria e casas que vendem sacolé. Informaram que há duas pousadas e um camping ali. A continuação oficial é a trilha T8, que leva a Araçatiba, porém, como queríamos visitar no dia seguinte a Gruta do Acaiá, resolvemos pegar uma trilha não oficial para a Praia Vermelha, que fica mais próximo da gruta. Estávamos certos de que encontraríamos camping por lá.

Às 16h10, entramos na rua à direita da igreja Assembléia de Deus, seguimos entre casas até a ponte, atravessamo-la e entramos imediatamente à direita. Seguimos os cabos de energia elétrica e na encosta à direita podíamos ver os cabos que acompanham o caminho para Araçatiba (trilha T8). Essa subida também foi muito dura, íngreme demais em alguns pontos. Há uma bifurcação em que se deve subir à esquerda pela trilha mais marcada. O calor e o cansaço novamente me obrigaram a parar um pouco para descansar antes de atingir o topo, aos 290m de altitude.

Às 17h50 chegamos a um entroncamento e seguimos à esquerda. Mais 5 minutos e num segundo entroncamento, ao lado de uma casa, fomos para a direita. Chegamos à Praia Vermelha às 18h08 e começamos a perguntar sobre camping. Falamos com cinco pessoas, chegamos a ir à casa de moradores que antes permitiam acampar no quintal, mas não conseguimos encontrar um lugar para ficar. A única opção foi dada pelo sr.Salvador, que disse que não haveria problema em acamparmos na areia da praia em frente ao seu bar. Como havia tempo de chegarmos à Praia Grande de Araçatiba ainda com luz, resolvemos procurar algo melhor. Pegamos a trilha T7 em direção a Araçatiba e passamos por pelo menos dois pontos de água. Em 40 minutos pegamos à esquerda no entroncamento (à direita é a trilha T8 que vem direto de Provetá sem passar pela Praia Vermelha), passamos pela pequena Praia de Araçatiba (que tem apenas uma fábrica de pescado abandonada) e em mais 5 minutos chegamos ao camping Bem Natural, um pouco antes da Praia Grande de Araçatiba.

Estávamos exaustos porém o preço absurdo do camping (R$25) me fez recuperar as energias e procurar outro lugar para ficar. Caminhei mais alguns minutos até a Praia Grande de Araçatiba e comecei a perguntar. Acabei chegando ao camping do Benê (na verdade apenas o pequeno quintal na frente da casa dele e um banheiro com ducha fria), onde fui atendido pelo Nei, que me pediu R$10. Jantei no restaurante bem ao lado, dele também, um PF por R$12. E soube de pousadas ali na praia que têm diária de R$20 e R$25 por pessoa.

4º DIA - 22/12/09 - TER - da Praia Grande de Araçatiba à Enseada do Sítio Forte (com a Gruta do Acaiá)

Encontrei o Ronald no Camping Bem Natural às 9h e fomos (sem mochilas) visitar a Gruta do Acaiá. Voltamos portanto 50 minutos pela trilha T7 até a Praia Vermelha e lá pegamos a continuação dela para a gruta, que começa ao lado da igreja Assembléia de Deus, no canto esquerdo da praia. Logo vem uma subida por uma área de vegetação baixa (melhor evitar o sol forte) e depois algumas casas, sendo que numa delas há dois cachorros bem nervosos, mas nada que um galho grande não resolva. Água fácil na trilha não há, mas um curto desvio à esquerda leva a um reservatório onde mangueiras despejam água captada de uma mina.

A trilha termina num portão, aonde chegamos às 10h47. Batemos nas primeiras casas abaixo mas ninguém atendeu. Seguimos um caminho dentro do terreno e chegamos a uma outra casa, onde fomos recebidos por um homem que nos cobrou os R$10 da visita (chorei mas não houve desconto). Ele nos emprestou uma lanterna, nos levou à entrada da gruta e nos deu as orientações de como nos locomovermos lá embaixo.

A entrada é bem estranha, um buraco no chão entre grandes pedras. Deve-se descer por duas escadas de madeira e daí em diante é preciso usar a lanterna e andar bem abaixado pois a altura é de apenas 60cm. Na parte mais baixa do salão a água do mar penetra por uma fenda submersa e a luz do sol provoca uma ilusão de fluorescência verde na água. Interessante, porém quem já foi à Chapada Diamantina vai se decepcionar com a simplicidade do fenômeno. Pelo que li no relato da Carol (http://carolemboava.multiply.com/photos/album/93/93), a melhor forma de aproveitar esse lugar é mergulhando com snorkel.

Ao sair, fomos dar uma espiada no costão sobre a gruta, local onde as lanchas de passeio param para a visita. Na volta para a Praia Vermelha, pude avistar do alto da trilha os barcos parados na Lagoa Verde e a bela Praia de Itaguaçu. Parei nessa praia para fotos, apenas 7 minutos depois da Praia Vermelha, num desvio de alguns metros à esquerda da trilha principal para Araçatiba (T7).

Ronald almoçou no camping, pegamos as mochilas e saímos da Praia Grande de Araçatiba às 15h35. É só caminhar até o fim da areia dessa praia para pegar a trilha T6 em direção à Enseada do Sítio Forte. Chegamos à Praia da Longa às 16h20, onde, para evitar tirar as botas num riacho mais largo que deságua no mar, é melhor entrar numa rua à direita, virar na primeira à esquerda e seguir o calçamento passando pela ponte e pela Cachoeira da Longa (apenas um rio com pequenas quedas). Depois, em vez de voltar à praia, deve-se passar pela igreja Assembléia de Deus (outra!) e seguir os cabos de energia elétrica, subindo. Saí dessa praia às 16h47, descansei um pouco na subida e cheguei à Praia de Ubatubinha às 17h43, tendo o primeiro contato com a bela Enseada do Sítio Forte.

Para chegar a Ubatubinha, passamos pela lateral direita da cerca que há na trilha antes de descer à praia e acabamos caindo no gramado da propriedade pois essa é mais uma das praias inteiramente tomadas (e cercadas) por um único dono. É melhor evitar isso e descer pela trilha à esquerda ao lado da cerca. Parece que há inclusive um ponto de água nesse caminho.

A trilha continua no fim da praia, sobe e na curva à direita tem-se uma linda visão da Enseada do Sítio Forte, com três praias (da esquerda para a direita): Marinheiro, Sítio Forte e Tapera. Na Praia da Tapera há um bar-restaurante que tem saracuras como mascotes; o restante da praia é cercado por uma propriedade. A Praia de Sítio Forte pertence ao Banco Safra mas tem moradores, uma escola e uma ducha com torneira para encher os cantis. A Praia do Marinheiro não conhecemos. Nas três não há hospedagem e é proibido acampar, mas conversamos com algumas pessoas e montamos as barracas com o cair da noite. De Ubatubinha à Praia da Tapera levamos menos de 20 minutos. Dali até a Praia de Sítio Forte mais 10 minutos.

5º DIA - 23/12/09 - QUA - da Enseada do Sítio Forte à Praia de Japariz

Saímos da Enseada do Sítio Forte e chegamos à Praia de Maguariqueçaba às 8h. Aqui entramos na trilha T5 e no território das pousadas de japoneses. Maguariqueçaba e Passaterra, 8 minutos à frente, são ocupadas cada uma por uma grande pousada de família japonesa que se fixou ali para trabalhar nas antigas fábricas de pescado. O mar é belíssimo, transparente, e pude ver uma estrela-do-mar e uma tartaruga-marinha quando fui tirar fotos a partir do trapiche. Saímos de Passaterra às 8h41 e às 9h05 passamos por uma enorme figueira branca que cresceu sobre uma rocha também gigante, com as longas raízes parecendo tentáculos.

Às 9h14, pegamos o acesso à esquerda para a Praia da Jaconema, que é quase um pequeno paraíso escondido se não fosse ocupada pela Pousada Nautilus. Vê-se grande quantidade de peixes coloridos sem nem mesmo precisar entrar na água. Saímos dali às 9h48 e chegamos à Praia de Matariz às 10h, atravessando uma ponte e percorrendo o muro de uma grande fábrica de pescado abandonada. Em Matariz há um mercadinho e um camping/pousada. Uma ducha em frente ao mercadinho tem torneira para encher o cantil. Paramos para tomar algo gelado e às 10h35 continuamos. Na saída dessa praia há uma bifurcação, mas ambos os lados levam à próxima praia, a do Bananal, onde há mais pousadas de japoneses e até um torii, um portal japonês. Chegamos ali às 11h06.

Logo depois que passei a igreja do Bananal mais um cachorro bravo quase me mordeu. Pelos painéis da trilha T4 ficamos sabendo de um tal Mirante do Bananal e resolvemos subi-lo. Pegamos informações na Pousada do Preto (mais uma adaptada de uma antiga fábrica de pescado) e pedimos para deixar as mochilas lá. A trilha é um pouco confusa no começo. Há dois caminhos a partir da praia. Nós entramos à direita da Igreja do Divino Espírito Santo e continuamos por trás dela por uma longa escadaria. Mais acima há uma trifurcação e uma casa à direita. Pegamos a esquerda. Mais alguns metros e deve-se subir na direção da primeira casa à direita, passando pela sua direita para pegar o início da trilha. Mais acima deve-se pegar a esquerda numa bifurcação. O mirante fica a 382m de altitude e tem vista apenas para as praias do Bananal e Bananal Pequeno, mas vale a pena.

Na volta, pegamos as mochilas e prosseguimos, agora pela trilha T4. A saída da Praia do Bananal fica no fim da praia, sob um quiosque alto, mas deve-se continuar subindo à direita pois a descida logo à esquerda leva a uma prainha sem saída. Saímos do Bananal às 14h32 e chegamos a Bananal Pequeno às 14h45. Praia pequena tomada por uma propriedade. No canto direito há uma ducha com torneira para abastecer os cantis.

A trilha sobe novamente e é possível avistar os barcos na Lagoa Azul e a Praia da Grumixama. Há um ponto de água aqui. Mais alguns minutos e se vê a Praia de Baixo (ou Praia do Araçá), aonde chegamos às 15h42. É mais uma praia deserta e tem um cemitério mais à direita. Numa trilha de 5 minutos a partir da Praia de Baixo chega-se à também deserta Praia da Grumixama, que naquele instante era área de lazer de uns ricaços com seu iate. Tentei encontrar uma trilha a partir dessa praia para me aproximar mais da Lagoa Azul mas não tive sucesso.

Continuando pela trilha T4, chegamos às 16h26 a um entroncamento (com um painel) e fomos para a esquerda para conhecer a Igreja da Freguesia de Santana, de 1843, monumento religioso mais importante da ilha. Chegamos pelos fundos da igreja em 3 minutos. Percorremos toda a praia, que também é completamente fechada pela cerca de uma propriedade, e pegamos uma trilha curta no final até a Praia da Baleia, deserta porém repleta de lixo trazido pelo mar. No final dessa praia uma outra trilha leva a uma praia minúscula e em seguida à Lagoa Azul, que só não estava mais bonita porque o sol havia sumido. Esse ponto é o extremo norte da Ilha Grande - o que se vê em frente, mais ao norte, é a Ilha dos Macacos.

Voltamos à Praia de Freguesia de Santana e saímos dela pela lateral do galpão no canto direito, sem passar pela igreja, às 17h35. Entramos assim na trilha T3, passamos por dois pontos de água e chegamos à próxima praia, Japariz, às 18h24. Estávamos bem cansados e ainda um pouco longe do Saco do Céu. Como a pousada da Praia de Japariz aceitava barracas (nos fundos), resolvemos pernoitar ali mesmo, com possibilidade de jantar um PF. A garota quis cobrar R$15 pelo camping mas consegui baixar para R$10. O PF custou R$12. Consegui tomar um banho quente num dos quartos da pousada, o primeiro de toda a caminhada.

6º DIA - 24/12/09 - QUI - da Praia de Japariz ao Abraão

Deixamos a Praia de Japariz às 8h16 e em 5 minutos passamos pela Praia do Funil, sem placa de sinalização mas facilmente identificada pelo campo de futebol à direita. A grama desse campo estava muito alta para improvisar um camping mas havia boas áreas planas e de grama baixa ao lado. A praia propriamente dita praticamente não existe. O que há é uma pequena área de areia que antecede um corredor de mata tomado pelo mar, o que pode ter lembrado a alguém um funil. Oito minutos depois pegamos o acesso à esquerda para a Praia da Guaxuma e descemos até ela em 9 minutos. O lugar é surreal pois foi ocupado por um cara que ergueu barracos e galinheiros com materiais diversos. As galinhas passeiam pela bela enseada de areia dourada.

De volta à trilha principal, às 9h15 pisamos no gramado da Praia do Conrado e tivemos a primeira visão da grande Enseada das Estrelas, ou Saco do Céu, com seu característico mangue. Descansamos um pouco nesse convidativo gramado. Poucos metros à frente, antes da Igreja de Cosme e Damião, notamos uma trilha à direita que leva diretamente à Praia do Bananal sem passar pelas oito últimas praias que percorremos.

Contornamos o Saco do Céu no sentido anti-horário pela trilha T2 e passamos pela pequenina Praia do Galo às 10h. Após um corredor de árvores com cercas em ambos os lados, saímos do Saco e reencontramos o mar aberto às 10h35 na Praia de Perequê (ou Praia da Fazenda), com algumas casas mas de vegetação bastante preservada. Uma curta trilha no fim dessa praia nos levou à Praia da Camiranga, onde olhando para trás foi possível ver a Praia de Perequê, a Praia de Fora depois das pedras e a Praia do Amor, esta com uma casinha branca isolada na outra extremidade do Saco do Céu.

A Praia da Camiranga é bem preservada também e tem apenas uma casa no canto direito. A trilha continua no final da areia mas logo surge o portão de uma propriedade da qual é preciso desviar subindo por uma escadaria à direita. Nove minutos depois chega-se à bifurcação para a Praia do Iguaçu à esquerda. Na descida para a praia pegamos a esquerda no entroncamento e fomos barrados pelo muro alto de uma casa. Voltamos e seguimos para o outro lado, alcançando a bela Praia do Iguaçu às 11h20, após percorrer toda a extensão de uma cerca. Mais uma praia toda tomada (e cercada) por uma propriedade, mas ao menos pude desfrutar de acerolas e pitangas que estavam ao alcance da mão sem invadir o terreno, aliás muito bem-cuidado.

Saímos da Praia do Iguaçu às 11h33, voltamos à trilha principal T2, cruzamos um riacho que deve vir da Cachoeira da Feiticeira e às 12h encontramos o acesso à Praia da Feiticeira, à esquerda. Infelizmente um grupo grande de turistas estava vindo da praia e se dirigia à cachoeira, o que nos fez desanimar de ir visitá-la.

A Praia da Feiticeira é deserta (sem casas), mas é local de parada dos barcos de passeio. Naquele momento havia "apenas" oito barcos ancorados e duas barraquinhas improvisadas vendendo guloseimas e refrigerantes. No retorno à trilha principal notei uma bifurcação que talvez leve de volta à Praia do Iguaçu ou a uma tal Praia da Cachoeira, mas não fui explorar.

Foram 12 minutos de volta da Praia da Feiticeira até a trilha principal T2. Alguns metros à frente já encontramos à direita o acesso principal para a Cachoeira da Feiticeira, mas passamos direto (às 12h47). Mais 10 minutos e encontramos um outro acesso a ela, um atalho mais recente em forma de escadaria de troncos para quem vem do Abraão, porém estava interditado.

Subimos o derradeiro morro, que atingiu 115m de altitude, e às 13h42 chegamos ao imponente Aqueduto, construído em 1893 para abastecer de água o Lazareto. Passamos pelo Poção do Córrego do Abraão, bastante concorrido naquele horário, e subimos o Mirante da Praia Preta, onde avistamos um navio imenso bem em frente que havia despejado centenas de gringos nas praias todas da redondeza.

Às 14h20 paramos para almoçar na casa da Mulata (PF por R$10) e demos por encerrada a belíssima e dura volta na Ilha Grande, comemorando com uma cerveja bem gelada para rebater o insuportável calor. Depois passamos no Centro de Visitantes para ver a maquete da ilha feita pelo José Bernardo e refazer mentalmente todo o nosso percurso de seis dias por esse paraíso.

Seguimos a sugestão do Augusto (http://agsts.multiply.com/journal/item/42) e fomos procurar o Camping do Bicão (R$15 com chuveiro quente e cozinha disponível). E fazendo de conta que não estávamos cansados, fomos relaxar um pouco nas prainhas a leste do Abraão: Júlia, Biquinha, Comprida, Crena, Guaxuma (por uma trilha a partir da Crena) e finalmente Abraãozinho, onde tomamos um merecido banho de mar. Voltamos até o centro do Abraão em 35 minutos.

O Camping do Bicão tem boas instalações porém os banheiros não foram limpos durante toda a nossa estada e as lonas azuis que cobrem quase todo o terreno transformam o local numa estufa, o que dificulta dormir.

Não posso deixar de registrar o meu espanto ao ver como está mudada a Vila do Abraão. O turismo explodiu nos últimos anos e a vila, antes bastante provinciana e tranquila (fora dos feriados e temporada, claro), agora tem um movimento enorme de turistas estrangeiros que chegam através dos cruzeiros marítimos já que a ilha entrou na rota desses navios. Isso transformou a vila radicalmente, aumentou muito o número de restaurantes e pousadas confortáveis e hoje as placas do comércio são todas escritas em inglês, muitas só em inglês, ou com o português em segundo lugar. Felizmente a ilha é muito grande e há dezenas de lugares lindos e tranquilos que ainda podemos curtir. Só não gostaria de ver o Abraão se transformar num lugar de badalação, uma outra Búzios... Para quem, como eu, gosta de um contato mais próximo com os moradores mais antigos para bater papo e ouvir histórias, o Abraão já deixou de ser o lugar.

25/12/09 - SEX - Pico do Papagaio e Circuito do Abraão

Para esse dia pensamos em duas opções: se o céu estivesse limpo, sem muitas nuvens, subiríamos o Pico do Papagaio; caso contrário faríamos mais uma caminhada (um pouca longa) até o Farol dos Castelhanos. Como o tempo amanheceu bom e era possível ver o Papagaio já do portão do camping, resolvemos subi-lo. O Pico do Papagaio não é o ponto mais alto da ilha, e sim o Pico da Pedra d'Água, com 1031m, a oeste do Papagaio, que é o segundo mais alto.

Tomamos café numa padaria felizmente aberta em pleno dia de Natal e pegamos a estrada para Dois Rios às 8h08. Às 8h31 alcançamos o início da trilha, à direita da estrada e devidamente sinalizada por um painel (T13).

A trilha sobe muito e a água só aparece depois de 26 minutos, ainda um pouco escassa. Mais uns 10 minutos e já na altitude de 350m surge uma sequência de três riachos com água abundante e de fácil coleta. É bom aproveitar para matar a sede e encher os cantis aqui pois só há mais um ponto de água, não tão bom, depois de mais de uma hora de caminhada. A subida é longa mas não é tão íngreme, às vezes até nivela um pouco, o que não me obrigou a parar para descansar.

Às 10h23 uma placa sinalizava o cume à esquerda e a base à direita. Fui obviamente para o cume. A trilha se aproxima da imensa rocha que sustenta a "cabeça" do papagaio e depois sobe bastante íngreme. Cheguei ao topo às 10h40 e o GPS marcava 960m de altitude (e de desnível, percorridos em 2h32). Meu medo de altura não me atrapalhou em nada e pude chegar bem perto da ponta do enorme bloco de pedra que se equilibra bem no topo.

Apesar de o céu estar com muitas nuvens, pudemos vislumbrar a vila e toda a enseada do Abraão, Lopes Mendes, Dois Rios e várias praias de Angra, no continente. Notamos áreas planas no cume onde é possível armar duas ou três barracas com alguma proteção contra o vento. Depois fui conhecer a base do pico por uma trilha não muito bem marcada. É interessante ver a cabeça do Papagaio tão próxima e num ângulo e formato bem diferentes do que se vê lá de baixo. Na descida, iniciada às 12h36, parei para um lanche junto ao riacho e cheguei ao Abraão às 15h14. De lá vi que o pico continuava com tempo instável, desaparecendo constantemente em meio às nuvens.

Almocei na Mulata e fui terminar o chamado Circuito do Abraão (trilha T1): rever a Praia Preta e as ruínas do Lazareto, que continuam como antigamente, com exceção dos painéis que explicam a formação mineral da praia e a história do Lazareto. Caminhei até a Praia do Galego, que fica depois da Praia Preta, mas dali em diante não é possível continuar pois placas advertem que o Sítio do Galego é uma propriedade particular.

Nesse dia foi um navio procedente da Argentina que ancorou em frente ao Abraão e despejou argentinos, uruguaios, europeus e muitos outros turistas que lotaram as praias todas da enseada.

26/12/09 - SÁB - de volta a Angra dos Reis

Nesse dia o camping e toda a ilha começaram a lotar e percebemos que era hora de dizer "até breve, Ilha Grande". Partimos na barca das 10h para Angra, aonde chegamos às 11h20.

IMPRESSÕES BASTANTE PESSOAIS

Tenho a satisfação e o privilégio de conhecer a Ilha Grande desde 1989 e esse lugar sempre fez parte das minhas melhores lembranças. Já havia estado em localidades como Bananal, Freguesia de Santana, Maguariqueçaba, Lopes Mendes, Dois Rios e Saco do Céu em diferentes momentos da minha vida. E já ouvira histórias e descrições de quase todas as outras praias e vilas ao redor da ilha. Essa caminhada portanto teve um sabor muito especial de reencontro com lugares quase perdidos na memória e de primeiro contato com lugares quase míticos para mim, já que nunca havia pisado ali antes. Muitas lembranças (principalmente de pessoas queridas) vieram por todo o percurso e a viagem se interiorizou em muitos momentos, o que me fez por diversas vezes me sentir um peregrino, tanto pelo desgaste físico quanto pela viagem que fiz para dentro de mim mesmo durante esses seis maravilhosos dias.

Rafael Santiago
dezembro/2009

terça-feira, 5 de maio de 2009

Monte Roraima - relato e pequeno guia (Bra/Ven) - mar/09


As fotos estão distribuídas em nove álbuns, um para cada dia da viagem, em http://lrafael.multiply.com/photos.

Antes de mais nada, gostaria de enfatizar:
A EXPEDIÇÃO AO MONTE RORAIMA NÃO É UMA VIAGEM CARA!

Começo meu relato dessa forma para chamar a atenção dos trilheiros que sonham com essa viagem, mas desistem diante dos altos custos das agências brasileiras.

As agências da cidade venezuelana de Santa Elena de Uairen cobram por volta de R$90 por dia de trekking com tudo incluído (guia, carregadores/cozinheiros, comida, equipamento de cozinha, barraca, saco de dormir e isolante). Para o pacote padrão de seis dias o custo total portanto é de R$540. É possível baixar bastante esse valor optando por um pacote com menos "mordomia" ou obter descontos se você levar seu próprio equipamento, conforme será explicado mais abaixo em detalhes.

O maior custo é o da passagem aérea até Boa Vista (capital de Roraima), mas isso também pode ser reduzido com a compra bastante antecipada ou aproveitando promoções ou ainda com milhas acumuladas. No nosso caso gastamos R$1.018 nas passagens aéreas em seis vezes sem juros. Na época, comprar o trecho São Paulo-Manaus separado do Manaus-Boa Vista saiu mais barato do que o bilhete São Paulo-Boa Vista (com escala em Manaus).

Bem, espero que com esses custos razoáveis (ou pelo menos não proibitivos) o sonho de conquistar o Roraima se torne realidade para muitos e que esse meu relato seja lido e aproveitado por muito mais trilheiros.

COMO FOI A NOSSA VIAGEM
O CONVITE

A Casa de Macunaima, Mãe de Todas as Águas, Grande Verde-Azulado. O Monte Roraima era um sonho guardado há muitos anos, mais exatamente desde 1995, quando uma matéria da revista Caminhos da Terra me deixou muito impressionado. As formações rochosas fantásticas, os enormes platôs de pedra, a formação antiquíssima dos tepuis, a fauna e a flora únicas, o isolamento e a dificuldade de acesso, tudo me deixou fascinado.

Em dezembro de 2008 surgiu um convite totalmente inesperado de alguém até então desconhecido, o Alexandre. Tratei de responder prontamente que estava muito interessado. Daí em diante formou-se o grupo de cinco pessoas que levou o projeto adiante: eu, Alexandre, Renata, Ana Paula e Gabriel.

OS PREPARATIVOS

Foram meses pesquisando custos, melhor época para ir, equipamentos necessários, grau de dificuldade, documentação, agências (brasileiras e venezuelanas), etc, numa troca intensa de e-mails. Lemos muitos relatos, conhecemos virtualmente diversas pessoas que tinham ido e pedimos todo tipo de informação a elas.

Todas essas informações disponibilizo aqui como uma espécie de guia para os futuros aventureiros.

Após muitos e-mails e até telefonemas para as agências de Santa Elena, decidimos pela Mystic Tours por ter o menor custo e fornecer uma documentação bastante completa e minuciosa sobre o trekking, o que nos inspirou mais confiança e até uma forma de contestar possíveis falhas no serviço.

Todo esse trabalho no planejamento se deveu a alguns relatos e depoimentos de pessoas que foram surpreendidas com um péssimo serviço, inclusive chegando ao ponto de ter de racionar a comida fornecida.

PEQUENO GUIA
COMO É O TREKKING DO MONTE RORAIMA

 
O Monte Roraima tem 34km2 de área e fica exatamente na fronteira entre o Brasil, a Venezuela e a Guiana, com um marco de concreto em seu topo registrando a tríplice fronteira. A maior parte da montanha está em território venezuelano (85%), 10% na Guiana e apenas 5% em solo brasileiro. O acesso ao topo foi descoberto em 1884 na parede sudoeste, a partir da Venezuela, e por ser o único caminho por trilha, sem necessidade de técnicas de escalada e nem cordas, passou a ser utilizado por todas as expedições. Fora isso, há os passeios panorâmicos de helicóptero e pelo menos duas vias de escalada (Scorpion Wall e Cutting the Line).

O Roraima e as outras montanhas em forma de mesa (topo chapado) que se formaram na região são chamados de tepuis. Cerca de 30 deles estão dentro da área de proteção do Parque Nacional Canaima, um dos mais extensos do mundo, com 30 mil km2 (do tamanho da Bélgica), controlado pelo Inparques, instituto ligado ao Ministério do Meio-Ambiente. Por estar dentro de uma reserva, a ascensão ao Roraima é obrigatoriamente acompanhada de um guia indígena local.
O trekking padrão oferecido por todas as agências dura seis dias, sendo três dias para a subida, um dia no topo e dois dias para descer. Na subida caminha-se dois dias pela savana para só no terceiro dia subir efetivamente a montanha.
Contratar o serviço de uma agência é obrigatório? Não, porém você vai precisar contratar um guia indígena e é recomendável ter alguma indicação para evitar possíveis transtornos pelo caminho.

No nosso caso preferimos fechar com uma agência de Santa Elena porque os custos são muito mais baixos do que qualquer agência brasileira e porque teríamos um pouco mais de garantia de um serviço mais profissional. Na troca de e-mails pudemos sentir o grau de profissionalismo de cada uma delas.

Além do mais, contratar um guia fora das agências não é garantia de pagar menos, como pude comprovar em relatos que li. É preciso estar por dentro dos pacotes e preços das agências e saber negociar com o guia.

Segundo o fórum do Mochileiros (www.mochileiros.com/roraima-f151.html), a contratação de um guia independente pode ser feita na própria aldeia Paraitepuy, onde está o quiosque-portaria do parque. Ali os preços das diárias de guias e carregadores parecem ser realmente mais baixos, porém ninguém publicou no fórum o preço real e nem mesmo o relato de uma expedição com essa logística.

Se a opção for dispensar os serviços da agência e procurar um guia na aldeia, é preciso levar em conta o custo do deslocamento de Santa Elena até lá (93km, sendo 27km de terra), o qual é feito somente em carro 4x4, cujo frete é mais caro. E fechar com o motorista o dia e hora (e preço) do resgate ao final do trekking.

POR QUE FIZEMOS O TREKKING EM OITO DIAS

Nas nossas pesquisas, descobrimos que um dia no topo seria suficiente para conhecer apenas alguns atrativos e mesmo assim num ritmo muito acelerado para quem esperou tanto tempo para chegar até ali. Fora isso, o tempo, que é bastante instável por lá, podia ficar de mau-humor justo naquele único dia no topo e a frustração seria completa.

Por isso, negociamos com a agência essa alteração de seis para oito dias, algo que bem poucas pessoas fazem. Na verdade, pensamos em outras alterações como subir em dois dias, acampar na aldeia Paraitepuy para iniciar a caminhada mais cedo, pernoitar no acampamento Militar, entre outras, porém a única que foi adiante foi essa dos oito dias.
 

Essa alteração nos daria a oportunidade de conhecer o distante Lago Gladys, lugar a que poucos chegam, já bem próximo da extremidade norte do Roraima, a chamada Proa, numa comparação da montanha com um imenso navio.

No trekking de seis dias, os acampamentos são feitos, pela ordem:
1ª noite: acampamento do Rio Tek ou do Rio Kukenan, dependendo da logística (o acampamento do Rio Kukenan é evitado por ter uma quantidade maior de puri-puris, um minúsculo e voraz mosquito da savana venezuelana)
2ª noite: acampamento Base, já no pé do Roraima
3ª noite: algum hotel do topo. "Hotel" é como eles chamam os abrigos rochosos onde é possível se proteger da chuva e parcialmente do vento (como faziam os homens da pré-história). São oito opções de hotéis próximos à Rampa de ascensão ao topo.
4ª noite: o mesmo hotel
5ª noite: acampamento do Rio Tek ou do Rio Kukenan, dependendo da logística

No nosso caso, alteramos o roteiro da 4ª noite em diante:
4ª noite: Hotel Coati, em território brasileiro
5ª noite: Hotel Coati
6ª noite: o mesmo hotel da 3ª noite
7ª noite: acampamento do Rio Tek ou do Rio Kukenan

CATEGORIAS DE PACOTE OFERECIDAS PELA AGÊNCIA MYSTIC TOURS

Minha intenção aqui não é influenciar ninguém a contratar os serviços da Mystic Tours, mesmo porque não simpatizei com o Roberto Marrero, embora ele tenha cumprido tudo o que nos prometeu. Quero apenas mostrar que há várias alternativas de serviços e de preços e que é possível negociar isso com a agência escolhida, seja ela qual for.

Os preços abaixo são todos para o trekking padrão de seis dias.

1. programa tudo incluído
Inclui: guia, comida, equipamento de cozinha, saco de dormir, isolante, barraca, carregadores/cozinheiros e o transporte Santa Elena-Paraitepuy em 4x4
O cliente carrega sua própria mochila com o saco de dormir e o isolante fornecidos, além dos itens pessoais
preço para cinco ou mais pessoas: BsF 1250 por pessoa (R$543 ou R$90 por dia)
preço para quatro pessoas: BsF 1350 por pessoa (R$587 ou R$98 por dia)

2. programa tudo incluído sem carregador
Inclui: guia/cozinheiro, comida, equipamento de cozinha, saco de dormir, isolante, barraca e o transporte Santa Elena-Paraitepuy em 4x4
O cliente carrega sua própria mochila, com o saco de dormir, o isolante, a barraca e a comida fornecidos, além dos itens pessoais
preço para cinco ou mais pessoas: BsF 950 por pessoa (R$413 ou R$69 por dia)
preço para quatro pessoas: BsF 1050 por pessoa (R$457 ou R$76 por dia)

3. programa só transporte e guia
Inclui: guia (não cozinheiro) e o transporte Santa Elena-Paraitepuy em 4x4
O cliente carrega sua própria mochila, com o saco de dormir, isolante, barraca, comida, equipamento de cozinha e itens pessoais. Nada disso é fornecido. O saco de dormir, o isolante e a barraca podem ser alugados.
preço para cinco ou mais pessoas: BsF 550 por pessoa (R$239 ou R$40 por dia)
preço para quatro pessoas: BsF 650 por pessoa (R$283 ou R$47 por dia)

Nos dois primeiros programas, a Mystic dá descontos caso se leve a própria barraca (BsF 30), saco de dormir (BsF 25) e isolante (BsF 15).

QUANTO À COMIDA

Lemos diversos relatos de pessoas que tiveram problemas com a alimentação, principalmente pela quantidade insuficiente. Com receio de passar pelo mesmo problema, decidimos todos levar um excedente ao gosto de cada um. Por causa desse peso extra, resolvemos contratar um carregador pessoal.
 

O documento da Mystic falava em BsF 80 diários o custo do "porteador personal", porém no briefing o Roberto disse que esse preço havia subido para BsF 100, o que significava no nosso caso BsF 800, ou R$70 para cada um (pelos oito dias).

Aproveitamos para passar para esse carregador extra alguns itens pessoais, já que cada um deles pode levar até 15kg (esse limite na prática é completamente desrespeitado).

Felizmente, essa comida a mais foi apenas excesso de cuidado nosso pois as refeições eram fartas, variadas e saborosas.

QUAL A MELHOR ÉPOCA?

Com certeza é preferível viajar na época seca, que vai de dezembro a março. E isso ainda não é garantia de sol pois o tempo é bastante instável na área dos tepuis.

FAZ MUITO FRIO LÁ?

Fizemos o trekking no início de março e não pegamos muito frio durante a noite.

Durante o dia o sol é forte, mas no topo, quando da passagem de alguma nuvem, vem o frio e a umidade, o que obriga o uso de um anorak ou parka.

À noite, a temperatura não caía muito. Para nós algo como um fleece 100 e uma parka foram o bastante.

Para dormir, meu saco de dormir muito velho deu conta do recado perfeitamente. Dormia vestindo camiseta dryfit e o saco meio aberto, apenas quando esfriava de madrugada colocava o fleece ou fechava o saco. A Renata dormia com o fleece e o saco de dormir meio aberto. O Alexandre dormia de camiseta dryfit e com o saco de dormir fechado, só colocando o fleece quando esfriava de madrugada.

DÁ PRA TOMAR BANHO TODO DIA?

Sim, sempre há algum riacho próximo dos acampamentos, seja na savana ou no topo. Tudo depende da sua resistência à água fria, algumas vezes gelada mesmo.

É PRECISO CARREGAR MUITA ÁGUA DURANTE A CAMINHADA?

De modo algum. Para os índios Pemón da Venezuela, o Roraima é a Mãe de Todas as Águas. Você encontra água boa em todo o percurso, tanto na savana quanto no topo. Para os mais "cismados" ou de organismo mais sensível, um purificador de água pode ser usado, principalmente na água coletada muito próximo aos acampamentos.

UMA DÚVIDA ESCATOLÓGICA: COMO É O BANHEIRO DURANTE O TREKKING?

Esse é um assunto que faz muita gente travar só de pensar. Principalmente quando se fala num tal de shit tubo...

Mas vamos lá, o tema é desagradável mas precisa ser tratado.

Primeiro é melhor esclarecer logo o que é o shit tubo, apesar de não termos feito uso dele. É um pedaço de cano de PVC com tampas nas pontas, onde são "guardados" os saquinhos com os excrementos misturados com cal. Ou seja, é preciso fazer a obra de arte num saquinho plástico com um pouco de cal, jogar mais cal por cima, tirar o ar, amarrar bem e colocar no shit tubo. Um tubo é suficiente para várias pessoas numa caminhada de vários dias.

Pelo que soubemos, as agências têm tratamento diferente para essa questão. Há agências que obrigam o uso do shit tubo desde o primeiro dia, outras apenas no topo. Uma coisa é certa: não se pode deixar dejetos no topo do Roraima.

A Mystic orienta os guias a cavarem buracos nos acampamentos da savana e a disponibilizarem saquinhos e cal nos acampamentos do topo. Esses saquinhos são depois recolhidos e colocados num saco maior (essa agência não fornece o tubo), que é levado por um dos carregadores até o fim da expedição.

Para encerrar de uma vez esse assunto, é bom dizer que os acampamentos da savana (Rio Tek e acampamento Base) viraram verdadeiras pocilgas. Há fezes e papel higiênico em grande quantidade bem próximo de onde se acampa e se come. Defendo assim a idéia de que o shit tubo (ou algo do tipo) seja usado desde o momento em que se deixa a aldeia até o retorno a ela, a fim de evitar essa cena asquerosa.

OS BICHOS
 

Na savana tivemos contato com dois tipos de animais primordialmente: as cobras e os puri-puris.

O puri-puri é um inseto minúsculo mas muito voraz que ataca a qualquer hora do dia e em qualquer parte do caminho na savana, principalmente próximo aos rios e riachos. Sua picada causa ardor e coceira, para dizer o mínimo.

Como se proteger dele? A Renata seguiu as indicações de tomar vitamina B12 desde uma semana antes da viagem, mas não adiantou. Ela e os outros usaram Exposis preto, um repelente fortíssimo, mas mesmo assim os puri-puris fizeram um bom estrago. Eu devo ter algo no sangue que não agrada a esses bichos pois não tomei a vitamina, não passei repelente nenhum dia e mesmo assim levei apenas algumas picadas.

Sugeriram também usar repelente à base de óleo de citronela, mas ninguém levou e não pudemos testar a eficácia.

No topo, tivemos contato com outros animais: os sapinhos que não pulam e os indesejáveis escorpiões e aranhas.
 

Os sapinhos são a grande atração por seu tamanho reduzido e seu modo característico de "caminhar" se esticando todo em vez de saltar. Ao serem apanhados, fingem-se de mortos ficando imóveis por um certo tempo de barriga para cima. Uma das espécies tem a barriga amarela.

Quanto aos peçonhentos, é preciso tomar bastante cuidado com o lugar onde apoiar as mãos durante a caminhada pois tarântulas e caranguejeiras passeiam tranquilamente pelas árvores e rochas do topo do Roraima.

Já os escorpiões (e também algumas tarântulas) eram vistos todos os dias quando os carregadores erguiam as barracas para desmontá-las de manhã. O Marcos, nosso guia, disse que esses bichos são atraídos pelo calor do fundo da barraca durante a noite.

Fora esses animais, havia alguns passarinhos (tico-ticos ou uma espécie semelhante) nas proximidades dos acampamentos em busca de restos de comida. Na frente do Hotel Coati vimos um belo quati de pelo castanho-claro passeando solitário. Segundo o Marcos, o quati e uma espécie de rato são os únicos mamíferos no topo do Roraima.

ALGUNS ITENS ESSENCIAIS

. bota de trekking (já amaciada) é um item importante pois o cano alto ajuda a evitar torções, principalmente ao se caminhar nas pedras soltas da Rampa.
. mochila cargueira
. saco de dormir
. isolante (um modelo inflável é o ideal para o chão duro dos hotéis do topo)
. capa de chuva ou poncho (que cobre o corpo e a mochila)
. lanterna, de preferência de cabeça e com leds pois ilumina melhor e consome menos energia
. camisetas de dryfit (secam mais rápido)
. blusa de fleece (aquece bem e é bem leve)
. anorak ou parka impermeável
. meias grossas de trekking com 0% de algodão e de preferência com Coolmax para secagem mais rápida, como Quechua Forclaz 500 ou Solo Endurance, para citar as mais baratas
. sacos plásticos para proteger da chuva tudo o que estiver dentro da mochila
. repelente de inseto
. protetor solar
. chapéu ou boné
. cantil ou garrafas para água
. hidrosteril, Clorin ou outro purificador de água para os mais sensíveis
. passaporte
. certificado internacional de vacinação da febre amarela

QUE DOCUMENTAÇÃO É NECESSÁRIA?

Passaporte com validade de seis meses é item obrigatório.

O Brasil assinou em junho de 2008 um acordo que descarta a exigência de passaporte em viagens para a Venezuela, Equador, Peru e Colômbia, porém na prática é melhor ter o passaporte para evitar dores de cabeça e gorjetas aos guardas da fronteira e dos postos de controle.

O passaporte inclusive precisa estar sempre à mão. No passeio que fizemos à Gran Sabana fomos parados várias vezes e em duas delas precisamos mostrar os passaportes.

Além do passaporte, é obrigatório o certificado internacional de vacinação da febre amarela.

COMO OBTER O CERTIFICADO INTERNACIONAL DE VACINAÇÃO DA FEBRE AMARELA

Desde junho de 2008, não se realiza mais a vacinação da febre amarela nos aeroportos brasileiros. Para tomá-la em São Paulo é preciso ir a um posto de saúde municipal, terminais rodoviários Barra Funda e Tietê, Hospital das Clínicas, Hospital Emílio Ribas e Instituto Pasteur.

A vacina precisa ser tomada pelo menos dez dias antes da viagem e tem validade de dez anos. Há pessoas que apresentam reações à vacina, como febre baixa, dor de cabeça e dores musculares, como foi o caso do Gabriel.

Em São Paulo, consulte os endereços, horários e telefones dos locais de vacinação em www.cve.saude.sp.gov.br/htm/imuni/posto_fad1.htm.

O Hospital das Clínicas realiza a vacinação e emite o certificado internacional. Nos outros locais é emitido o Cartão Nacional de Vacinação, válido apenas no Brasil. Para obter o Certificado Internacional é preciso em seguida ir a um dos Centros de Orientações ao Viajante instalados nos portos e aeroportos (veja endereços em www.anvisa.gov.br/paf/viajantes/centro_orientacao.htm) e levar RG ou passaporte e o Cartão Nacional de Vacinação, todos originais. Se você preencher o cadastro em www.anvisa.gov.br/viajante, o atendimento será mais rápido.

Eu aproveitei para ir ao Instituto Pasteur (Av. Paulista, 393 - fone: (11) 3145-3145) e atualizar todas as minhas vacinas, como recomenda o site da Anvisa (www.anvisa.gov.br/paf/viajantes/antes_viajar.htm): "Outras vacinas são recomendadas como medida de prevenção do viajante que se desloca para qualquer país, como a tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) e a dT (difteria e tétano) e hepatite B, e no deslocamento para áreas endêmicas, a poliomielite, influenza e meningite meningocócica. A principal orientação da Anvisa é que o viajante esteja em dia com seu calendário vacinal do Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde".

QUE MOEDA LEVAR: REAL, DÓLAR OU BOLÍVAR?

Se você for somente ao Roraima e Gran Sabana, leve apenas reais pois trocar dólares em Santa Elena é um problema.
Se você for seguir para o Salto Angel, leve dólares pois trocar reais em Ciudad Bolívar é um problema.
E o bolívar? As casas de câmbio e bancos de São Paulo não trabalham com a moeda venezuelana.

Em janeiro de 2008, houve uma reforma monetária na Venezuela que cortou três zeros do bolívar, alterando seu nome para bolívar forte. O que se vê na prática em Santa Elena é uma mistura de preços nas duas moedas. Muitas pessoas ainda falam e escrevem nas placas os preços na moeda antiga (um cachorro-quente por 5000 bolívares, por exemplo), outras já incorporaram a moeda atual (diária do hotel por 90 bolívares fortes).

COMO SE COMUNICAR COM O BRASIL A PARTIR DE SANTA ELENA DE UAIREN
 

Por telefone: não conseguimos usar os telefones públicos da cidade para ligar para o Brasil, contudo é muito grande a oferta de telefones particulares para ligações internacionais, seja em lojas, mercados e até barraquinhas na calçada durante o dia. O custo é de BsF 1,50 (R$0,65) por minuto.

Pela internet: há diversas lan houses na cidade com acesso à internet e também serviço de gravação de fotos digitais em CDs e DVDs.

FUSO HORÁRIO

O presidente Hugo Chaves decidiu modificar o fuso horário do país, atrasando os relógios em 30 minutos para que os venezuelanos "aproveitem meia hora de luz solar". A mudança entrou em vigor em janeiro de 2008. Eu me recusei a seguir essa medida e todos os horários registrados aqui levam em consideração o fuso horário normal do país, que corresponde ao de Manaus e Boa Vista.

SITES DAS AGÊNCIAS DE SANTA ELENA DE UAIREN:

Mystic Tours: www.mystictours.com.ve
Backpacker Tours: www.backpacker-tours.com
Kamadac: www.kamadac.de
Ruta Salvaje: www.rutasalvaje.com
Turísticos Alvarez (na rodoviária): rstagransabana@hotmail.com
New Frontiers Adventures: www.newfrontiersadventures.com
Adventure Tours: www.adventuretours.com.ve
Mount Roraima International Tours: www.mountroraima.com
Aponwao Tours: www.aponwaotours.com

NOSSO TREKKING DIA A DIA

27 e 28/02/2009 - sex e sáb - DE SÃO PAULO A SANTA ELENA DE UAIREN (COM UMA RÁPIDA VISITA A MANAUS)

Eu, Renata, Alexandre e Gabriel embarcamos no vôo 8050 da TAM, às 23h55, em direção a Manaus, com chegada às 2h55. O vôo Manaus-Boa Vista partiria só às 12h20 (como disse, separamos os vôos por questão de custo), então nos deslocamos até o centro de Manaus (R$49 de táxi) e nos instalamos num hotel indicado pelo posto de informações turísticas do aeroporto (que funciona 24 horas), o Hotel Panair (R$30 a diária por pessoa em quarto duplo com WC e café). Entre o aeroporto e o centro há duas linhas de ônibus (linhas 306 e 813), porém não funcionam de madrugada.

No dia seguinte de manhã tivemos bastante tempo para conhecer o Teatro Amazonas, principal atrativo turístico da cidade. A visita monitorada custa R$10.

Voltamos ao aeroporto (R$49 de táxi) e pegamos o vôo 3544 da TAM, às 12h20, para Boa Vista, aonde chegamos às 13h35.

Nesse aeroporto gastamos um tempo para decidir o que fazer com o dinheiro que levávamos pois tínhamos informações de que os guardas da aduana venezuelana revistavam a bagagem e se apropriavam do que lhes interessasse, inclusive dinheiro em espécie (informação confirmada depois pela motorista de táxi de Santa Elena que nos levou de volta à fronteira quando do retorno ao Brasil). Após muita dúvida, saímos do aeroporto com uma pequena parte do dinheiro na carteira, outra parte nas bolsas de cintura e o restante dentro dos calçados.

Da rodoviária de Boa Vista sai um ônibus por dia da empresa Eucatur, às 7h30 da manhã, para Santa Elena de Uairen. Custo da passagem: R$20. Há também três ônibus diários da mesma empresa para Pacaraima, na fronteira (7h, 12h e 16h, ao preço de R$16,25). Porém o meio de transporte mais utilizado são os táxis-lotação, que cobram R$30 desde que completada a lotação. Nossa informação era de que esses táxis saíam da rodoviária de Boa Vista, porém ao chegar à tenebrosa rodoviária (internacional) nos disseram que eles nunca saíram de lá. O deslocamento do aeroporto até a rodoviária (R$25 de táxi) só serviu mesmo para encontrar a Ana Paula, que pegou um vôo da Gol para Boa Vista (com escala em Manaus) e chegou durante a madrugada. Pegamos ali outro táxi (R$10) e fomos até o ponto dos táxis-lotação para Santa Elena, que fica no caminho entre o aeroporto e a rodoviária.

Pegamos uma Zafira que lotou com nós cinco e as nossas mochilas e partimos imediatamente, às 15h13. Se tivéssemos o telefone do motorista, poderíamos ter combinado com ele de nos apanhar no próprio aeroporto, evitando esse deslocamento e custo. O motorista que nos levou foi o Rivaldo (fone 95-9115-3190).

A viagem pela BR 174 de Boa Vista até Pacaraima, a última cidade brasileira antes da fronteira, durou 2h10 (220km). A paisagem inicialmente é de cerrado - surpresa para quem imagina que Boa Vista esteja no meio da floresta amazônica -, inclusive pontilhada pelos imponentes buritis, árvore característica desse bioma. Num trecho aparecem muitos pés de acácia, árvore que dizem ser usada na produção do papel-moeda. A estrada está em boas condições de asfalto e os trechos ruins estavam sendo recapeados.

 

Em Pacaraima fica a aduana brasileira, onde registraram e carimbaram nossos passaportes. De volta ao táxi, passamos pelo marco simbólico da fronteira Brasil-Venezuela (com as respectivas bandeiras hasteadas) e chegamos à temida aduana venezuelana. Para nossa surpresa e alívio, apenas nossos passaportes foram novamente registrados e carimbados por um funcionário da burocracia. Nenhum guarda ou oficial nos abordou e ninguém pediu para sequer ver a bagagem, tampouco o certificado internacional de vacinação da febre amarela.

Seguimos viagem mais tranquilos, agora em território do Sr. Hugo Chaves, por mais 10km e chegamos a Santa Elena de Uairen às 18h15. Não foi difícil encontrar a agência Mystic Tours e muito próximo o Hotel Michelle, a agência/pousada/restaurante Backpacker (a preferida dos gringos), a agência/restaurante Kamadac e outras com as quais mantivemos contato, todas na mesma rua, a Calle Urdaneta.

Fomos recebidos pelo dono da Mystic, Roberto Marrero, que nos deu naquele dia mesmo a charla preparativa, uma explanação completa do trekking com a última oportunidade para tirar as dúvidas. Ele nos apresentou o Marcos, indígena guianense da etnia arikuna, como sendo o seu melhor guia. Pensamos que fosse mera conversa fiada, porém ao longo do trekking comprovamos que não era exagero. O Marcos mostrou-se extremamente atencioso, cuidadoso, bem-humorado e sempre pronto a dar todo e qualquer tipo de informação. Sua equipe, formada pelo Alex e pelo Fernado, também era bastante profissional.

Nesse briefing conhecemos o Rodrigo, a Fátima e o Enrico, todos do estado do Rio (Petrópolis), que iriam fazer o trekking de seis dias só com guia, carregando eles mesmos toda a comida e equipamentos. As mochilas estariam bem pesadas mas, como a Serra dos Órgãos é o quintal da casa deles, não estavam nem um pouco preocupados.

O pagamento do trekking foi feito nessa noite mesmo. Felizmente o Roberto aceitou o pagamento no ato pois os bancos de Santa Elena não têm agência ou escritório em São Paulo. Sobre o preço combinado de BsF 1670 (R$726) ele nos deu um desconto de BsF 70 (R$30) por termos levado nossas próprias barracas, isolantes e sacos de dormir. Mesmo as barracas sendo nossas, seriam levadas pelos carregadores.

Para efetuar o pagamento, precisamos antes cambiar reais por bolívares fortes. Na cidade há um câmbio paralelo muito forte, com diversas casas de câmbio e cambistas concentrados numa esquina do centro. Com o cambista na rua, as meninas conseguiram cotação de BsF 2,30 para cada real e na casa de câmbio eu e o Alexandre conseguimos BsF 2,35.

Para o pernoite em Santa Elena, hospedamo-nos no próprio Hotel Michelle por termos boas referências, pela proximidade com a agência e pelo preço muito camarada (BsF 90 o quarto para cinco pessoas, ou seja, R$7,80 para cada um, com WC e sem café). O jantar foi no restaurante Kamadac: uma lasanha muito bem servida por BsF 20 (R$8,70) e suco por BsF 5 (R$ 2,17).

01/03/2009 - dom - 1º DIA DO TREKKING

A caminhada começa na aldeia indígena Paraitepuy, a 87km de Santa Elena. A manhã do primeiro dia é preenchida com o deslocamento até essa aldeia, que só pode ser feito em carro 4x4 pois são 27km de estrada de terra com trechos em condições muito ruins.

Saímos de Santa Elena às 10h40 e chegamos à aldeia às 12h20. Na passagem pelo posto de controle policial em San Ignacio de Yuruani, os guardas viram que estávamos com o pessoal da agência e apenas olharam nossas caras, não chegaram a pedir os passaportes.

Chegando à aldeia, o Marcos providenciou logo o primeiro almoço. Como explanado pelo Roberto (dono da Mystic), os almoços seriam todos frios e baseados em salada, pão e queijo. Nos primeiros dias havia também presunto e frutas.
 

Assinamos o livro de visitantes e colocamos pé na trilha exatamente às 13h52, já estourado o limite de 13h30 imposto pelo Inparques. Aos poucos as casas da aldeia foram rareando e passamos a caminhar em meio à savana. A distância a ser percorrida até o acampamento do Rio Tek era de 12km, com um desnível de apenas 150m (negativos), porém o terreno não é plano. Há diversas colinas com alguns riachos que precisam ser atravessados, ora pulando as pedras, ora por uma estreita ponte de troncos com apoios para as mãos.

Essa área é denominada Gran Sabana e é constituída principalmente de capim rasteiro pontilhado por alguns arbustos. Árvores mais altas aparecem apenas nas matas ciliares dos riachos. Ao longe, já desde a aldeia, o Roraima e o Kukenan dominavam completamente a paisagem. Nosso objetivo era obviamente o Roraima, porém o Kukenan, bem ao lado, à esquerda, atraía nosso olhar o tempo todo por sua forma majestosa, parecendo mesmo ser mais alto que seu irmão mais famoso.

Logo nos primeiros minutos da caminhada o Alexandre teve uma indisposição intestinal, mas por sorte o Marcos conhecia um remédio para o problema na própria flora local. Tratou de cortar lascas de um arbusto e deu para o Alê mascar. O sabor era horrível mas o resultado foi certeiro.

Nesse ambiente da savana tivemos nosso primeiro contato com o famigerado puri-puri, um mosquito minúsculo e voraz que atacava em qualquer lugar e a qualquer hora do dia, principalmente próximo aos rios e riachos.

Outro "morador" que encontramos foi uma cobra de cor verde, bem no meio da trilha.

 

O tempo estava excelente. Apesar da grande quantidade de nuvens, o céu estava azul e o sol brilhava.

Chegamos ao acampamento do Rio Tek às 18h30. Cumprindo o que foi contratado, os carregadores montaram as nossas barracas enquanto o Marcos começava os preparativos do jantar. Não vou detalhar cada refeição para não ficar enfadonho, mas não posso deixar de mencionar que nessa noite jantamos um delicioso e farto espaguete à bolonhesa. O banho foi no próprio Rio Tek, de água um pouco fria mas agradável.

Nossos amigos do Rio também acamparam no mesmo local, porém prepararam seu próprio jantar. Além de nós cinco e eles três, havia apenas mais uma barraca de alguns gringos.

Nesse acampamento há alguns poucos moradores e uma estrutura mínima de apoio que consiste de uma choupana com dois "ambientes", uma parte sendo o local das refeições (com mesa e dois bancos compridos) e a outra a cozinha. Lá se vende cerveja em lata da marca Polar (em temperatura ambiente, obviamente), o que contribui para a enorme quantidade de latinhas jogadas ao longo da trilha.

02/03/2009 - seg - 2º DIA DO TREKKING

 
O dia amanheceu ainda mais bonito que ontem.

Como combinado, os carregadores desmontaram as nossas barracas e prepararam o café da manhã. Já nesse primeiro desjejum conhecemos o pão que estaria na maioria dos nossos cafés, o chamado donplin, com massa preparada e frita na hora.


Deixamos o acampamento do Rio Tek às 9h10 com destino ao acampamento Base, a 10km dali, já no pé do Roraima. Esse trecho já tem uma subida razoável pois sai dos 1050m do Rio Tek e chega aos 1870m no acampamento Base, totalizando 820m de desnível, felizmente diluídos ao longo de um dia inteiro praticamente.

Logo de início, encaramos a primeira das duas travessias de rios mais largos que há no percurso, a do Rio Tek. Como ele estava baixo e seu fundo é de pedras, atravessá-lo não foi complicado. Aprendemos uma técnica muito prática e eficiente para caminhar sobre pedras molhadas e lisas: calçar apenas meias. Eu usei nesses casos meias de algodão e a aderência foi muito boa.

 

Vinte minutos depois passamos por uma capela de pedra no alto de uma colina (onde também moram algumas poucas pessoas) e em seguida descemos para o Rio Kukenan, a segunda grande travessia de rio. Essa deu um pouco mais de trabalho pois o Kukenan é um rio bem mais largo e um pouco mais profundo que o Tek. As meias ajudaram bastante e também o apoio do bastão de caminhada. O Marcos também deu muita força levando todas as mochilas primeiro.

A travessia tanto do Tek quanto do Kukenan pode ter grau de dificuldade bem maior dependendo da época do ano e do volume de chuvas na cabeceira. Na época chuvosa (entre abril e outubro) pode ser preciso usar cordas para as travessias.

Do Rio Kukenan em diante foi uma subida por trilha em meio à savana que durou 1h25 até a parada para almoço às 12h15 no acampamento Militar. Esse local não possui nenhum tipo de estrutura, apenas partes planas do terreno onde podem ser armadas barracas e água próximo. Ali, ao lado das grandes pedras sombreadas por árvores, topamos com a segunda cobra da caminhada, uma cascavel. Uma chuva rápida nos obrigou a vestir as capas, para logo em seguida o sol voltar com toda a força.

Voltamos a caminhar às 14h e daí em diante foi a arrancada final para chegar ao acampamento Base. A parede do Roraima se agiganta tanto à nossa frente que a vontade é de subi-lo de uma vez e acabar com a ansiedade.

Chegamos ao acampamento Base às 16h30 e a enorme parede continuava a nos impressionar e seduzir, não cabendo no nosso campo de visão de tão próximo que estávamos e de tão extensa que é (6,4km). Tentávamos entender como seria a ascensão por aquela longa ladeira coberta de mata alta e fechada que chamam de La Rampa, à nossa esquerda, incrustada na parede de quase 500m de altura.

Esse acampamento tem uma estrutura ainda menor que o do Rio Tek, contando apenas com uma choupana decrépita que serve como cozinha e dormitório para os guias e carregadores. Há um riacho bem ao lado que fornece água para beber e cozinhar e um outro a cinco minutos dali que serve para banhos, desde que se enfrente a água que batizei de "água de degelo".

Os amigos do Rio (Fátima, Rodrigo e Enrico) também acamparam ali e tivemos animadas conversas com eles. Mais ninguém além de nós dormiu ali naquela noite.

03/03/2009 - ter - 3º DIA DO TREKKING

Chegou enfim o grande dia de subir o Roraima, o que significava enfrentar a longa e assustadora Rampa. O desnível é de 830m, o mesmo do dia anterior, porém por uma trilha muito íngreme junto à parede da montanha. Tínhamos relatos e depoimentos de pessoas que haviam sofrido muito nessa subida e até passado mal, portanto o preparo psicológico para esse dia foi ainda maior.

 
Deixamos o acampamento Base às 9h25, passamos pelo riacho "de degelo" e logo começou a subida. Primeiro por um caminho erodido bastante íngreme, parecendo mesmo barrancos, depois voltando a ser uma trilha, com mata densa dos dois lados. Aí apareceu a terceira serpiente da viagem, aparentemente venenosa, que fugiu e se embrenhou pelas folhas de uma bromélia.

A trilha segue sempre subindo e tem muitas pedras, ora fixas, formando degraus, ora soltas, exigindo maior cuidado. Às 11h25, pudemos enfim tocar a parede do Roraima, num local com uma pequena queda-d'água, onde paramos todos para descanso, inclusive o pessoal do Rio, que saíra na nossa frente.

Prosseguimos pela trilha em meio à mata fechada e alta, paramos um pouco num mirante, descemos alguns trechos bastante inclinados e no alto de uma ladeira topamos com a parte mais temida da subida, o Paso de las Lagrimas. Esse lugar é uma extensa rampa de pedras soltas que recebe água vinda do alto da montanha, daí o nome de lágrimas. Nesse dia eram pingos esparsos mas em outras ocasiões pode-se formar uma volumosa enxurrada, o que deve dificultar absurdamente a passagem.

O que me deixou mais apreensivo nesse momento foi não poder ver o fim da enorme rampa de pedras por conta da nuvem que a encobria parcialmente. Imaginei que ali no topo haveria diversos obstáculos, como enormes pedras lisas e escorregadias para se subir ou algo assim. Vestimos nossas capas e continuamos.


A subida do Paso de las Lagrimas é longa e exige atenção por causa das pedras, todas soltas e molhadas. Passado o trecho crítico, fizemos uma parada para retomar o fôlego e na arrancada seguinte já notamos a mudança da paisagem, com as rochas negras e de formato característico do topo nos dando as boas-vindas! Sucesso!
Afinal, a subida não foi tão difícil quanto eu imaginava, ou o meu preparo psicológico foi muito além do necessário...

Eram 14h10. Esperamos as meninas chegarem e comemoramos com emoção nossa bem-sucedida ascensão. O tempo estava bastante instável e apenas em alguns momentos conseguíamos ver o nosso destino, o Hotel Índio, abrigo onde acamparíamos nessa noite. Também não conseguíamos ver com nitidez as formações rochosas fantásticas, o que só aconteceria no dia seguinte, com dia limpo.

O Hotel Índio, aonde chegamos às 16h, é um abrigo na parede de um grande maciço de pedra e tem lugar para bem poucas barracas. Uma abertura ligeiramente mais funda na parede é usada como cozinha e refeitório.

Almoçamos, descansamos um pouco e fomos conhecer o primeiro atrativo do topo, um dos diversos vales com cristais (pensávamos que existisse apenas um). A retirada de cristais é proibida e ao final do trekking os guardas do parque revistam (mal e porcamente) as mochilas de todos. Se algum cristal for encontrado, o guia e a agência são punidos.

No caminho de retorno ao hotel encontramos o Rodrigo e a Fátima, que acamparam no Hotel Basílio, ali perto.

No jantar, o assunto em pauta foi o escorpião que o Gabriel encontrou em seu chinelo quando saía da barraca minutos antes. Daí em diante, pelos próximos três dias, aranhas e escorpiões passaram a fazer parte da nossa rotina.

O chão do Hotel Índio é de pedra coberto por uma fina camada de terra, o que torna bastante desconfortável dormir apenas sobre um isolante fino. O Alexandre e a Renata se saíram melhor pois levaram colchonete e isolante inflável, respectivamente. Esse desconforto se repetiria em todas as noites no topo, tanto no Hotel Índio quanto no Coati, fazendo com que o sono não fosse dos melhores. Nos acampamentos da savana (Rio Tek e Base) o chão não é tão duro pois é de terra parcialmente coberto por capim.

04/03/2009 - qua - 4º DIA DO TREKKING

Daqui em diante iniciamos nosso roteiro personalizado. Nosso objetivo nesse dia era conhecer os principais atrativos do topo, aqueles que todos visitam, e acampar no Hotel Coati, o único da porção brasileira do Roraima, a 13km do Hotel Índio.


Ao desmontar a minha barraca, mais um escorpião teve de abandonar o quentinho e procurar outro lugar para se abrigar.

Deixamos o Hotel Índio às 9h20 com um dia incrivelmente claro e de céu azul, uma benção! Assim começamos nossa longa caminhada por aquele enorme platô de pedra com formações rochosas escuras de formatos bizarros. Nesse primeiro contato visual com tantas imagens estranhas ao mesmo tempo, confesso que senti um certo atordoamento, como naqueles filmes de alucinação. Via bichos, rostos e seres estranhos por todos os lados. Passada essa euforia, me acostumei com as formações e passei a admirá-las com mais calma.

O cenário todo é realmente incrível. A impressão é de ter sido jogado num outro planeta ou ser o nosso próprio planeta presenciado num estágio muito primitivo. A ausência de sons reforça a sensação de estar num lugar ou num tempo realmente distante.

O topo não é exatamente plano e chapado como parece de longe. Há diversas subidas, descidas, altos maciços de pedra, vales com riachos, extensas e altas paredes de pedra.

Paramos para almoço às 13h num bonito e verdejante vale, o do Rio Arabopo, onde Alexandre e Gabriel aproveitaram para um rápido banho. Nesse local tivemos a última oportunidade de encontrar o Rodrigo e a Fátima, que já voltavam do passeio de um dia pelo topo, comprovando o que eu disse sobre o ritmo acelerado do trekking de seis dias. O Enrico não teve muita sorte e passou o dia enfiado na barraca não se sentindo bem por causa do fígado.

Vale comentar aqui que apesar de eles terem contratado a mesma agência que nós, o guia deles era péssimo. Não falava, não explicava nada e nos primeiros dias mal conseguia andar por causa da tremenda ressaca.

 

Voltamos a caminhar às 14h30 e uma hora depois passamos por um maravilhoso vale em que as paredes rochosas se refletiam nos espelhos-d'água, poucos metros antes do Vale dos Cristais, esse o mais famoso e bonito de todos. Mais 20 minutos e chegamos ao Ponto Tríplice, marco da fronteira Venezuela-Brasil-Guiana, o que mereceu grande festa!
Prosseguimos caminhando, agora pela porção brasileira do Roraima, e às 17h30 chegamos ao Hotel Coati, já com o cair da noite.

O Hotel Coati é uma gruta com uma grande abertura posicionada na lateral de um extenso maciço rochoso. O espaço dentro dessa gruta é grande mas o chão é bastante inclinado, o que dificulta encontrar um bom lugar para as barracas. Nossas três couberam sem problema; o Marcos e os carregadores, como sempre, dormiram apenas enfiados no saco de dormir. O espaço exíguo não chega a ser um problema pois a chance de encontrar mais pessoas acampadas ali é bastante remota.

No fim de corredor de entrada, uma abertura no teto possibilitou a formação de um jardim dentro da gruta (batizado de Jardim de Inverno). A cozinha foi adaptada na parede bem no fundo, inclusive com uma "bancada" de pedra à disposição.

05/03/2009 - qui - 5º DIA DO TREKKING

Nesse dia permanecemos acampados no Hotel Coati para conhecer apenas com mochilas de ataque os atrativos mais ao norte, na direção da Proa, como o Lago Gladys e algumas surpresas que viriam pelo caminho.

Saímos do Coati às 8h25 e caminhamos durante um longo trecho por uma área de chão rochoso com muitos alagados, o que obrigava a saltar de pedra em pedra. Mais à frente, depois de 1h30 de caminhada, topamos com a primeira surpresa do dia, uma floresta de arbustos vermelhos chamados Bonnetia, que em contraste com o vale verde-claro de um rio ao fundo, formava realmente uma bela paisagem. Em seguida, um surpreendente riacho de águas cristalinas e fundo rochoso de cor ferrugem mereceu mais uma parada para fotos.

Em todo esse percurso, tínhamos à esquerda a visão dos intrigantes e maravilhosos Labirintos, um local bastante sedutor por suas formações rochosas incomuns e por ser um território quase inexplorado.

 

Passamos por um mirante que estava encoberto por nuvens e logo em seguida (às 11h20) o grande momento do dia, a chegada ao sagrado e lendário Lago Gladys, citado no livro O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle (Gladys era o nome de uma personagem da trama). Nas proximidades, restos do helicóptero da Globo que caiu em 1998 com o ator Danton Mello, acidente que vitimou um integrante da equipe.

O lago parece ter se formado a partir do desabamento do piso rochoso e até hoje há imensos blocos caídos à sua volta. Ficamos um bom tempo em total contemplação naquele lugar distante e palmilhado por poucos e privilegiados aventureiros.

Na volta, almoçamos à margem do riacho de águas cristalinas, às 13h15. Para quebrar a rotina, o Marcos preparou uma sopa bem quentinha em lugar do tradicional almoço frio.

Retornamos praticamente pelo mesmo caminho e num dado momento o Marcos nos propôs explorar um lugar novo, um mirante na borda que poderia ter uma ótima vista. Tomamos a direção leste e descemos até um platô. Dali seria possível avistar a Guiana à esquerda, a serra que marca a fronteira Guiana-Brasil e o Monte Roraiminha à direita. Tivemos apenas uma visão parcial de tudo isso por causa das nuvens mais abaixo, porém essas nuvens em composição com o céu azul proporcionaram um belíssimo cenário, motivo para mais fotos.

Voltamos ao percurso original e retornamos ao Hotel Coati pelo mesmo caminho, chegando às 17h. Eu e o Gabriel ainda fomos com o Marcos curtir o fim da tarde num outro mirante, bem próximo do hotel, com vista para o lado brasileiro da fronteira Brasil-Guiana e logo abaixo o Roraiminha, já sem nuvens.

Nesse dia caminhamos 18km (ida e volta).

06/03/2009 - sex - 6º DIA DO TREKKING

Após duas noites no Hotel Coati, partimos às 8h30 de volta ao Hotel Índio, onde havíamos acampado na primeira noite no topo, a 13km dali.

Esse foi o primeiro dia em que tivemos céu encoberto quase o tempo todo.

 

O retorno aconteceu pelo mesmo caminho do quarto dia até o Ponto Tríplice, que foi sobrevoado por um helicóptero exatamente no instante em que chegávamos (9h30). Dali saímos por um outro caminho (desviando do Vale dos Cristais) para conhecermos El Foso, uma cratera com um lago de água escura no fundo e galerias subterrâneas. A sorte estava mesmo conosco e o sol apareceu exatamente nessa hora (10h) para iluminar e colorir nossas fotos.

Com a ajuda do Marcos, descemos ao lago do Foso, percorrendo uma das galerias. Havia um trecho ruim de parede com pouco apoio para subir e descer e ao vê-la a Renata preferiu permanecer na parte alta.

Ficamos cerca de 1h10 na área do Foso e, retomando a caminhada, alcançamos o Vale do Rio Arabopo, o qual descemos até o ponto exato onde almoçamos no quarto dia. Breve parada para descanso. Dali em diante voltamos pelo mesmo caminho até o Hotel Índio, aonde chegamos às 15h30. Almoçamos, descansamos um pouco e fomos conhecer as Jacuzzi, que são piscinas naturais de cerca de 1m de profundidade no leito rochoso de um riacho e que têm formatos que lembram banheiras, daí o nome. O fundo e as margens do riacho são recobertos também por cristais. O sol nessa hora não deu as caras e o frio havia chegado, o que não impediu o Gabriel e o Marcos de tomarem banho nas famosas banheiras.

Ainda tivemos um tempinho para correr até o mirante chamado de Ventana, que oferece vista espetacular para a face oeste do Roraima, aquela coroada pelos Labirintos. Dali era possível avistar a parede inteira até a sua extremidade, a Proa. Isso enquanto o imenso véu de nuvens abaixo não subiu e engoliu tudo de vez.

07/03/2009 - sáb - 7º DIA DO TREKKING

Eu não queria que esse dia chegasse... Depois de três dias e meio caminhando pelo topo do Roraima já me sentia "em casa" no meio daquela paisagem de rochas escuras, morros de pedra e plantas de formato inusitado. O silêncio, o horizonte limitado às bordas da montanha, o enorme céu que tocava as formações rochosas - já havia incorporado tudo aquilo e deixar tudo para trás não seria fácil. Fora a sensação de não ter explorado tudo, de que havia muito ainda a descobrir.

Confesso que desci do Roraima muito emocionado, sem poder conter as lágrimas, com a certeza de que estava vivendo um momento muito marcante e de que tinha realizado a viagem mais incrível da minha vida.

Acordamos mais cedo nesse dia para termos tempo de conhecer um último atrativo no topo antes de iniciar a longa descida em direção ao Rio Tek.

 

Às 7h15, saímos para ir conhecer a Pedra Maverick, que tem esse nome pela semelhança com um carro quando vista lá de baixo, da savana. Após uma breve caminhada começamos a subi-la. Segundo várias fontes, o seu topo é o ponto mais alto do Roraima, com 2.875m (2.753m no altímetro da Renata). E é uma visão impressionante: para o sul a savana com suas colinas e todos os locais por onde passamos nos três primeiros dias de caminhada; para o norte as outras bordas do Roraima, inclusive a extensa parede oeste que termina na Proa.

De volta ao Hotel Índio, levantamos acampamento e partimos às 10h para a longa e cansativa jornada até o acampamento do Rio Tek, o que significava descer o que havíamos subido em dois dias (2º e 3º dias), ou seja, 1650m de desnível. Isso incluía, claro, a Rampa e o Paso de las Lagrimas.

O tempo estava bastante instável e o extraordinário céu azul que nos acompanhara na Pedra Maverick desapareceu por completo, dando lugar a uma espessa neblina. Nos despedimos das formações rochosas escuras características do Roraima em meio a esse ambiente de bruma, que reforçava o clima de mistério que encontramos no nosso primeiro contato com o topo da montanha.

 

Logo no início da descida, enfrentamos de novo o Paso de las Lagrimas, que exigiu atenção redobrada por suas pedras soltas e molhadas. Depois o restante da Rampa demandou toda a atenção para evitar quedas e escorregões em suas pedras, ora soltas, ora em forma de degraus. No final da Rampa novamente o trecho de trilha bastante íngreme e erodida.

Chegamos ao acampamento Base às 14h20 e paramos para descansar, relaxar um pouco a tensão da descida e almoçar. Partimos às 15h e continuamos descendo, agora com inclinação muito mais suave e voltando a caminhar em meio à savana. Do acampamento Base até o Rio Tek são 10km de distância.

O céu limpou novamente e o sol voltou a brilhar para fazer o Roraima resplandecer em toda sua beleza neste dia em que nos despedimos do seu topo.

A travessia do Rio Kukenan ocorreu da mesma forma que na ida, porém o Rio Tek pediu um pouco mais de cuidado pelo maior volume de água devido às chuvas na cabeceira.

Chegamos ao acampamento do Rio Tek às 18h50, já noite. Depois de vários dias praticamente isolados no topo foi um choque encontrar o acampamento cheio de barracas e de gringos, todos ainda no início do trekking. Havia também três brasileiros e entre eles, para surpresa de todos, uma amiga do Alexandre.

08/03/2009 - dom - 8º DIA DO TREKKING

Oitavo e último dia do trekking.

 






Deixamos o acampamento do Rio Tek às 9h05 e partimos para a última etapa da caminhada: chegar à aldeia Paraitepuy, onde tudo começou, a 12km dali.
O dia amanheceu bastante nublado e foi piorando com o passar das horas. Olhávamos para trás e em lugar dos tepuis víamos chuvas torrenciais, o que deve ter dificultado sobremaneira a caminhada do pessoal que encontramos no Rio Tek.

Essa chuva chegou a nos atingir, mas foi passageira, apenas para nos obrigar a vestir as capas e guardá-las úmidas logo em seguida. As meninas lá atrás nem chegaram a sentir a chuva, apenas uma garoa.

O tipo de terreno em que caminhamos e a vegetação ao redor já detalhei na descrição do primeiro dia.

Chegamos à aldeia Paraitepuy por volta de 13h, uns antes, outros depois, e comemoramos emocionados o total sucesso da nossa expedição. O Marcos ajudou na comemoração trazendo duas Pepsis geladinhas, um tesouro depois de oito dias tomando água de riachos. Trouxe também o almoço em marmitex lotadíssimos de comida.

Agilizamos a partida da aldeia pois parecia que as chuvas que castigavam os tepuis estavam se aproximando, o que complicaria muito nossa passagem pela estrada de terra em más condições.

No retorno a Santa Elena, paramos na Quebrada de Jaspe, uma cachoeira da Gran Sabana famosa não por seu tamanho mas pela coloração vermelha da pedra jaspe em que as águas rasas escorrem por muitos metros.

De volta à cidade, hospedamo-nos no Hotel Michelle novamente e fomos comemorar mais uma vez o êxito da nossa empreitada no restaurante Kamadac.

09/03/2009 - seg - GRAN SABANA

Para relaxar um pouco dos oito dias de trekking, fechamos com o Roberto da Mystic Tours um passeio de um dia pela Gran Sabana (há passeios de até três dias para lá) ao preço de BsF 150 (R$65). A Ana Paula não participou porque iria partir de Santa Elena nesse mesmo dia para retornar a São Paulo.

O programa do passeio de um dia é visitar algumas cachoeiras e mirantes com vista estratégica para diversos tepuis, tudo ao longo da rodovia nº 10, de asfalto em ótimas condições. Como o tempo estava encoberto, passamos direto pelos mirantes e fomos para as cachoeiras.

 

A primeira cachoeira que visitamos foi o Salto Arapená, no Rio Yuruani, local perigoso para banho. Em seguida paramos no Balneário Soroapé e aí sim pudemos nos refrescar e curtir um bom banho de cachoeira. Mais à frente, a Quebrada Pacheco também é convidativa para um banho porém preferimos a partir dali caminhar 20min até um poço de cor esmeralda chamado La Piscina, muito pouco frequentado, e nadar lá. A Renata não estava muito disposta e estava de chinelos, por isso preferiu permanecer na Quebrada Pacheco. Mais um pouco de estrada e chegamos à cachoeira mais alta do dia, o Salto Kamá, boa apenas para fotos. No retorno, paramos no mirante Piel del Abuelo (Pele do Avô, nome dado por causa das encostas "enrugadas" que se vêem) e na Poza Pacheco, um conjunto de poços de água esverdeada.

Todos os locais são bonitos porém a quantidade de lixo deixado pelos visitantes, principalmente latinhas de cerveja Polar, é revoltante.

Tanto na ida quanto na volta fomos parados nos dois postos de controle policial na estrada, sendo que na ida foi necessária a apresentação dos passaportes.

Nessa noite, a Renata e o Gabriel se despediram de mim e do Alexandre para irem para o Salto Angel. Passamos então para um quarto duplo no Hotel Michelle, ao preço de BsF 60 (R$13 para cada um).

10/03/2009 - ter - RETORNO AO BRASIL

Depois do café, eu e o Alexandre voltamos à casa de câmbio e trocamos quase todo o restante dos bolívares fortes por reais a uma cotação de BsF 2,45 para cada real.

Às 9h10 pegamos no ponto um táxi-lotação para Pacaraima (BsF 35 ou R$7,60 para cada um), a cidade brasileira junto à fronteira. Não há táxis venezuelanos direto de Santa Elena para Boa Vista por um motivo absurdo: o governo Chaves dificulta a obtenção de passaportes, o que impede que os cidadãos saiam legalmente do país. Por isso, os táxis brasileiros circulam livremente entre Boa Vista e Santa Elena, enquanto os venezuelanos só chegam até a fronteira.

Na fronteira, a motorista do táxi arranjou uma estratégia para nos livrar dos guardas da aduana venezuelana (e para ela não perder seu precioso tempo): pediu que saíssemos do carro ainda na fila e fôssemos ao escritório carimbar os passaportes enquanto ela passaria pelos guardas sozinha para não chamar a atenção. Deu certo. Ela confirmou que os guardas revistam tudo e se apossam do que lhes interessar.

Voltamos ao táxi alguns metros depois da aduana e seguimos até a aduana brasileira, onde os passaportes foram novamente carimbados. Ela nos deixou às 10h10 no ponto dos táxis-lotação para Boa Vista, à margem da rodovia. Ali esperamos completar a lotação de quatro pessoas e partimos (R$25 cada um).

Fomos direto para o aeroporto na tentativa de antecipar o vôo Boa Vista-Manaus para aquela mesma tarde, o que foi possível mediante o pagamento de uma taxa de R$100. Embarcamos às 14h15 e chegamos a Manaus às 15h30.

Daqui em diante começa uma outra viagem, cujo relato possivelmente venha a escrever um dia.

TELEFONES ÚTEIS

Hospedagem mais econômica em Manaus (preço do apartamento duplo com café):
Hotel Panair: R$69 (www.hotelpanair.com.br)
Hotel Dez de Julho: R$70 (www.hoteldezdejulho.com)
Hotel São Pedro: R$75 (Rua Rui Barbosa, 166 - centro - fone (92)3232-8664)Manaus Hostel (albergue): R$65 (banheiro coletivo); R$20 o dormitório (www.manaushostel.com.br)

Rodoviária Internacional de Boa Vista: (95)3623-2233

CUSTOS DA NOSSA VIAGEM




R$ BsF

passagens aéreas São Paulo-Manaus-Boa Vista 1.018,00
28/02/09 táxi aeroporto-centro de Manaus 49,00/4

Hotel Panair 60,00/2

visita monitorada Teatro Amazonas 10,00

táxi centro-aeroporto de Manaus 49,00/4

táxi aeroporto-rodoviária de Boa Vista 25,00/4

táxi rodoviária de Boa Vista-ponto da lotação 10,00/5

táxi Boa Vista-Santa Elena 30,00

trekking de oito dias
1600

Hotel Michelle (quarto para cinco)
90/5

jantar (lasanha e suco)
25
01/03/09 café da manhã
12

ligação para o Brasil
7,50

sabão azul biodegradável
3
08/03/09 gorjeta Marcos
70

carregador extra
800/5

ligação para o Brasil
7

Hotel Michelle (quarto para cinco)
90/5

jantar (pizza e suco)
27

mapa do Roraima
25

mapa da Gran Sabana
25
09/03/09 café da manhã
11

passeio Gran Sabana
150

jantar (lasanha e suco)
25

Hotel Michelle (quarto para dois)
60/2

lavanderia no Hotel Michelle
7
10/03/09 café da manhã (2 arepas e suco)
25

táxi Santa Elena-Pacaraima
35/2

táxi Pacaraima-Boa Vista 25,00





TOTAIS 1.145,75 2.263


BsF 2.263 = R$983,91

Portanto, o custo total foi de R$2.129,66